Adeus ao fim da história (livro No Logo)

Posfácio

Organização e visão em movimentos anticorporativos

"Estamos aqui para mostrar ao mundo que outro mundo é possível!", disse o homem no palco, e uma multidão de mais de 10.000 pessoas gritou sua aprovação. O estranho é que nós não estávamos aplaudindo um outro mundo específico, apenas a possibilidade dele. Estávamos aplaudindo a idéia de que outro mundo poderia, em tese, existir.

Nos últimos trinta anos, um seleto grupo de CEOs e líderes mundiais têm se reunido durante a última semana de janeiro em um pico montanhoso da Suíça para fazer o que se supõe que eles estejam habilitados ou sejam capazes de fazer: determinar como a economia global deve ser governada. Estávamos aplaudindo porque era, na verdade, a última semana de janeiro, e não estávamos no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça. Estávamos no primeiro Fórum Social Mundial anual em Porto Alegre, Brasil.

E embora não fôssemos CEOs ou líderes mundiais, iríamos passar aquela semana discutindo como a economia global deve ser governada. Muitas pessoas disseram que sentiram a história sendo feita naquela sala. O que eu senti foi algo mais intangível: o fim do Fim da história. Adequadamente, "Outro mundo é possível" foi o slogan oficial do evento. Depois de um ano e meio de protestos globais contra a Organização Mundial do Comércio, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, o Fórum Econômico Mundial, os dois maiores partidos políticos americanos e o Partido Trabalhista britânico - para citar apenas alguns -, o Fórum Social Mundial foi anunciado como uma oportunidade para um movimento emergente parar de vociferar sobre contra o que ele se opõe e começar a articular para o que ele serve.

O local foi escolhido porque o Partido dos Trabalhadores, o PT brasileiro, está no poder na cidade de Porto Alegre, bem como no estado do Rio Grande do Sul, e se tomou mundialmente conhecido por suas inovações em democracia participativa.

  • Nota do editor / publisher: esse livro (e esse artigo) foram escritos em 2001, portanto a visão que essa escritora tem sobre o PT pode ter mudado. (Essa observação foi atualizada em junho de 2015).
  • Em fevereiro de 2011, o Fórum Social Mundial aconteceu em Dakar (Senegal) com 75 mil participantes, oriundos de 132 países, que se organizaram em 1.200 atividades. Entre os palestrantes estavam a ativista social e escritora do livro NO LOGO - Naomi Klein.

A conferência foi organizada por uma rede de sindicatos e ONGs brasileiras e pela ATTAC francesa. O PT garantiu que nenhuma despesa fosse poupada: instalações de conferência impecáveis, um rol estelar de oradores e músicos internacionais, delegados recebidos por funcionários do departamento de turismo da cidade, bem como policiais amistosos - um verdadeiro choque cultural para um grupo de pessoas acostumadas a ser recebidas pelas autoridades com sprays de pimenta, revistas em fronteiras e áreas de "proibido protestar". Se Seattle foi, para muita gente, o début de um movimento de resistência, então, de acordo com Soren Ambrose, analista político do 50 Years ls Enough, "Porto Alegre é o début da existência de sérias reflexões sobre alternativas".

livro no logoA acusação de que esse movimento carece de alternativas - ou pelo menos de um foco coerente - tem sido uma espécie de mantra desde a Batalha de Seattle em novembro de 1999, uma critica resumida em um artigo sobre "Os novos radicais" na Newsweek: "Uma coisa que parece estar faltando hoje é uma declaração de princípios, um credo, que dê ao movimento, tal como ele é, algum objetivo." Não há dúvida de que, na ausência de tal conjunto de medidas favorável à mídia, os críticos têm tido liberdade de retratar os jovens militantes como tudo, de cabeças-ocas tocadores de tambor e ecologistas enfadonhos a bandidos violentos propensos somente à destruição. Abordar esse déficit percebido de visão foi a raison d'être do Fórum Social Mundial: os organizadores claramente viram a conferência como uma oportunidade para congregar o caos das ruas em um tipo de forma estruturada.

E em 60 palestras e 450 workshops, havia verdadeiramente muitas idéias correndo pelo lugar - sobre novos sistemas de tributação, como a Taxa Tobin, agricultura cooperativa e orgânica, orçamentos participativos e software livre, para citar apenas alguns. Mas eu me vi me fazendo uma pergunta que com freqüência surge em eventos semelhantes de menor escala. Mesmo que conseguíssemos elaborar um plano de dez pontos - brilhante em sua clareza, elegante em sua coerência, unificado em sua perspectiva -, a quem, exatamente, transmitiríamos esses preceitos? Em outras palavras: quem são os líderes desse movimento - se é que existe algum? Em abril último, depois que vários protestos contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alça) tornaram-se violentos, a imprensa e a polícia envolveram-se em um jogo que pode ser descrito como "Encontre o Líder". Mark Steyn, colunista do National Post de Conrad Black, apontou para Maude Barlow, diretora do Council of Canadians (uma das maiores ONGs, e uma das mais comprometidas com a oposição ao livre comércio no mundo), referindo-se insistentemente a um grupo de 50.000 pessoas como "Bando de Maude" e chegando até a ameaçar Barlow de retaliação. "Da próxima vez que um membro do Bando de Maude atirar uma pedra em mim, pretendo ir à casa dela e atirar a mesma pedra em sua janela", escreveu ele.

A policia, por sua vez, afirmou que Jaggi Singh, um dos organizadores da Anti-Capitalist Convergence, mandou que seus agentes atacassem a cerca que circunda grande parte da cidade de Quebec. A principal arma citada pela polícia foi uma catapulta teatral que lançava ursinhos e outros bichos de pelúcia sobre a cerca. Singh nada teve a ver com a catapulta, nem com nada naquele protesto, mas fez discursos sobre a violência do Estado. Todavia, a justificativa para sua prisão, e para que lhe negassem a fiança mais tarde, foi que ele era uma espécie de titereiro do protesto, puxando as cordinhas por trás dos atos dos outros. A história foi a mesma em outros protestos. Durante as manifestações contra a Convenção Nacional Republicana na Filadélfia em agosto de 2000, John Sellers, um dos fundadores da Ruckus Society, teve sua fiança estipulada em US$ 1 milhão. Dois meses depois, David Solnit, um dos fundadores do grupo de teatro de marionetes político Art and Revolution, também enfrentou uma prisão preventiva, desta vez em Windsor, Ontário, durante uma reunião da Organização dos Estados Americanos.

O ataque sistemático da polícia a "líderes" de protestos está longe de explicar a profunda suspeita de hierarquias tradicionais no movimento. Na verdade, a figura que mais se aproxima de um "líder" bona fide é o subcomandante Marcos, um homem das montanhas de Chiapas que oculta sua verdadeira identidade e cobre seu rosto com uma máscara. Marcos, o antilíder quintessencial, insiste que sua máscara preta é um espelho, de forma que "Marcos é gay em San Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, um chicano em San lsidro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, um índio maia nas ruas de San Cristobal, um judeu na Alemanha, cigano na Polônia, mohawk em Quebec, pacifista na Bósnia, uma mulher solteira no metrô às 10 da noite, um camponês sem terra, um membro de gangue nas favelas, um trabalhador desempregado, um estudante insatisfeito e, é claro, um zapatista nas montanhas".

Em outras palavras, ele é simplesmente nós: somos o líder que estamos procurando. Essa crítica de hierarquias vai muito além da liderança carismática. Muitos dos que participam de movimentos de protesto anticorporação igualmente suspeitam de ideologias que servem para todos, partidos políticos, na verdade de qualquer grupo que centralizaria o poder e organizaria as partes desse movimento em células subordinadas e locais. Assim, embora os intelectuais e organizadores no palco do Fórum Social Mundial possam ajudar a formar as idéias das pessoas nas ruas eles claramente não têm o poder ou mesmo os mecanismos para liderar esse movimento de rua. Nesse contexto amorfo, as idéias e planos incubados no Fórum Social Mundial não são exatamente irrelevantes, apenas não têm a importância que claramente esperamos que tenham. Eles foram destinados a se estender e ser discutidos na torrente irresistível de informação - diários da web, manifestos de ONGs, artigos acadêmicos, vídeos caseiros, cris de coeur — que a rede global anticorporação produz e consome a cada dia.

logo mtvPara aqueles que procuram por réplicas de políticas anticapitalistas mais tradicionais, essa clara ausência de estrutura faz com que o movimento anticorporação pareça enfurecedoramente impassível: evidentemente, aquelas pessoas são tão desorganizadas que não conseguem sequer se reunir para responder positivamente a quem se oferece para organizá-las. Certamente eles têm peito quando saem em protesto, mas são militantes recém-desmamados da MTV, você pode praticamente ouvir a velha guarda dizendo: dispersos, não-lineares, sem foco. Só que talvez isso não seja tão simples. Talvez os protestos, de Seattle a Quebec, pareçam sem foco porque não são manifestações de um só movimento, mas convergências de muitos movimentos menores, cada um visando a uma multinacional específica (como a Nike), um setor em particular (como o de agrobusiness) ou uma nova iniciativa de comércio (como a Área de Livre Comércio das Américas), ou em defesa da autodeterminação de povos nativos (como os zapatistas).

logo nikeOlhe mais de perto e ficará evidente que esses movimentos menores e dirigidos estão na verdade lutando com as mesmas forças, forças talvez mais bem delineadas pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional quando do começo de sua insurreição em 1o de janeiro de 1994 (no dia em que a NAFTA entrou em vigor - O Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, em inglês: North American Free Trade Agreement).

A vitória estratégica dos zapatistas foi insistir que o que estava acontecendo em Chiapas não devia ser desprezado como uma luta "étnica" ou local - era universal. Eles fizeram isso identificando seu inimigo não somente no Estado mexicano, mas no "neoliberalismo". Os zapatistas insistiram que a pobreza e o desespero em Chiapas eram simplesmente uma versão mais avançada de algo que estava acontecendo em todo o mundo, e que começou com os primeiros atos de colonialismo. Os 500 anos de domínio dão aos povos indígenas de Chiapas a posição de vanguarda política agora.

Em seus comunicados, Marcos apontou o imenso número de pessoas sendo deixadas para trás pela prosperidade, cuja terra, e cujo trabalho, tornam a prosperidade possível. "A nova distribuição do mundo exclui as 'minorias'. Os indígenas, os jovens, as mulheres, os gays, as lésbicas, os negros, os imigrantes, trabalhadores, camponeses; a maioria que compõe a base do mundo é vista, pelo poder, como dispensável. A distribuição do mundo exclui as minorias." Se o neoliberalismo é o alvo comum, há também um consenso crescente de que é na democracia participativa no nível local - seja através de sindicatos, associações de bairros, fazendas, aldeias, grupos anarquistas ou autogoverno aborígine - que começa a construção de alternativas. O tema comum é um compromisso abrangente de autodeterminação e diversidade: diversidade cultural, biodiversidade e, sim, diversidade política.

Os zapatistas chamam a esse movimento de "um 'não' e muitos 'sins'", uma descrição que se opõe à caracterização de que este é um só movimento, e desafia o pressuposto de que deve ser assim.

Em vez de um único movimento, o que está surgindo são milhares de movimentos intrincadamente ligados uns aos outros, como "hotlinks" conectando seus sites na internet. Essa analogia é mais do que coincidente e é na verdade a chave para se compreender a natureza mutável da organização política. Embora muitos tenham observado que os recentes protestos de massa teriam sido impossíveis sem a internet, o que foi esquecido é como a tecnologia da comunicação que facilita essas campanhas está moldando o movimento à sua própria imagem. Graças à net, as mobilizações são capazes de se desdobrar com pouca burocracia e hierarquia mínima; o consenso forçado e manifestos elaborados desaparecem ao fundo, substituídos por uma cultura de troca de informação constante, frouxamente estruturada e às vezes compulsiva.

Apesar das descrições da mídia que retratam os eventos em Quebec como dois protestos - um, uma marcha de trabalhadores "pacifica", outro um violento tumulto "anarquista" - houve, na verdade, centenas de protestos durante aquele fim de semana. Um foi organizado por uma mãe e uma filha de Montreal. Outro foi encabeçado por universitários de Edmonton. Outro por três amigos de Toronto que não são membros de nada, a não ser suas academias de ginástica. E ainda outro por dois garçons de um café local durante sua hora de almoço. Certamente havia grupos bem organizados em Quebec: os sindicatos tinham ônibus, fizeram placas e tinham uma rota de marcha; o "bloco preto" de anarquistas tinha máscaras de gás e comunicação por rádio. Mas durante dias as ruas também se encheram de pessoas que simplesmente disseram a um amigo, "Vamos para Quebec" e de moradores de Quebec que diziam: "Vamos sair". Nos quatro anos antes de Seattle, convergências semelhantes ocorreram do lado de fora de reuniões da OMC, do G-7 e da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico em Auckland, Vancouver, Manila, Birmingham, Londres, Genebra, Kuala Lumpur e Colônia. O que está surgindo é um modelo de militância que espelha as vias orgânicas, descentralizadas e interligadas da internet - a internet criando vida.

É curioso observar que o centro de pesquisa TeleGeography, sediado em Washington, assumiu a tarefa de mapear a arquitetura da internet como se fosse o sistema solar. No ano passado, a TeleGeography anunciou que a internet não é uma teia gigante, mas uma rede de "eixos de raios". Os eixos são os centros de atividade, os raios, os links para outros centros que são autônomos mas interconectados. Parece uma descrição perfeita dos chamados protestos antiglobalização. Essas convergências de massa são eixos de militância, feitos de centenas, possivelmente milhares de raios autônomos. Durante as manifestações os raios assumem a forma de "grupos de afinidade", compostos de dois a vinte manifestantes, cada qual elegendo um porta-voz para representá-los em reuniões regulares de "conselho". Em alguns encontros, os militantes levam verdadeiras teias tecidas. Quando chega a hora de uma reunião, estendem a teia no chão, convocam "todos os raios à teia" e a estrutura se transforma em uma sala de conselho no nível de rua.

Os grupos de afinidade concordam em coordenar frouxamente suas ações, e, em alguns eventos, a ater-se a um conjunto de princípios de não-violência (na última, eles concordaram em não colocar os demais em risco por envolvimento em violência durante uma parte de um protesto que fora planejado para ser não-violento). À parte isso, contudo, os grupos de afinidade funcionam como unidades distintas, com o poder de tomar suas próprias decisões estratégicas - um modelo de coordenação descentralizada que é inteiramente ignorado pelos que procuram por lideres ou manipuladores. Por exemplo, nas reuniões de conselho antes dos protestos anti-NAFTA em Quebec, Jaggi Singh atuou somente como facilitador - um tomador de notas exaltado, registrando todas as ações autônomas planejadas: um grupo anunciou que formaria uma marcha, outro planejava envolver a cerca de segurança em papel higiênico, outro planejava atirar duzentos aviõezinhos de papel através da grade, outro - um grupo de estudantes de Harvard - planejava ler Foucault para a polícia. Os que planejavam confrontos permaneceram em silêncio e ficaram na relativa segurança de seus próprios grupos de afinidade.

Basicamente os resultados desses miniprotestos convergentes ou são assustadoramente caóticos ou inspiradoramente poéticos - ou ambos. Em vez de apresentar uma frente unificada, pequenas unidades de militantes cercam seu alvo por todos os lados. E em lugar de construir elaboradas burocracias nacionais ou internacionais, as estruturas temporárias são rapidamente construídas: prédios vazios são apressadamente transformados em "centros de convergência", e produtores independentes de mídia improvisam centros de notícias para os militantes. As coalizões ad hoc por trás dessas manifestações são freqüentemente batizadas com a data do evento planejado - J18, N30, A16, S11, S26 - e, quando a data passa, praticamente não deixam nenhum vestígio, a não ser um web site arquivado. O modelo de eixos e raios é mais do que uma tática usada nos protestos; os protestos são feitos de "coalizões de coalizões", para utilizar uma expressão de Kevin Danaher, do Global Exchange.

logo shellCada campanha anticorporação é formada por muitos grupos, principalmente ONGs, sindicatos de trabalhadores, estudantes e anarquistas. Eles usam a internet e teleconferências internacionais regulares, bem como encontros diretos, para fazer de tudo, de catalogar as últimas transgressões do Banco Mundial a bombardear a Shell Oil com fax e e-mails e distribuir panfletos antiexploração de mão-de-obra para download para protestos na Nike Town. Os grupos continuam autônomos, mas sua coordenação internacional é hábil e, para seus alvos, freqüentemente devastadora.

A acusação de que o movimento anticorporação carece de "visão" cai por terra quando o analisamos no contexto dessas campanhas. É verdade que, para o observador casual, os protestos de massa em Seattle, Washington, Praga e Quebec podem parecer, na mixórdia de slogans e causas, simplesmente desfiles pitorescos de queixas. Mas ao tentar encontrar coerência nessas demonstrações de força em larga escala, os observadores podem confundir as manifestações externas do movimento com a coisa em si - perdendo de vista a floresta ao ver somente as pessoas vestidas de árvores. Esse movimento é seus raios, e nos raios não há falta de visão.

O movimento estudantil antiexploração, por exemplo, rapidamente passou de simplesmente criticar empresas e administradores de campi para elaborar códigos alternativos de conduta e construir seu próprio corpo quase regulatório, o Worker Rights Consortium. Mais significativamente, os militantes trabalhistas universitários vêm expandindo seu foco de forma a incluir alvos muito mais próximos de casa: os zeladores e prestadores de serviço de suas universidades, bem como os fazendeiros migrantes que abastecem suas cantinas e refeitórios.

O movimento contra alimentos geneticamente modificados tem saltado de uma vitória política a outra, primeiro retirando muitos alimentos modificados das prateleiras de supermercados britânicos, depois fazendo com que leis de rotulação sejam aprovadas na Europa, e fazendo enormes progressos com o Protocolo de Montreal sobre Biossegurança. Enquanto isso, oponentes dos modelos de desenvolvimento para exportação do Banco Mundial e do FMI produziram importantes fontes sobre modelos de desenvolvimento baseados na comunidade, perdão de dividas e reparações, bem como principios de autogoverno. Críticos dos setores de petróleo e mineração estão igualmente transbordando de idéias para energia sustentável e extração responsável de recursos - embora raramente tenham a oportunidade de colocar suas visões em prática.

O crescente movimento contra a poderosa indústria farmacêutica estava cheio de idéias sobre como produzir medicamentos que possam ser custeados por aqueles que têm Aids, só que foram arrastados aos tribunais pelos problemas que criaram. Os zapatistas, enquanto isso, deixaram de dizer "Ya Basta" ao Nafta e passaram a ocupar a vanguarda de um movimento por reformas democráticas radicais no México, desempenhando um importante papel no processo de derrubada do corrupto reinado de 71 anos do Partido Revolucionário Institucional, e colocando os direitos indigenas no centro do programa político mexicano. O fato de que essas campanhas são descentralizadas não é fonte de incoerência e fragmentação. Em vez disso é uma adaptação razoável e engenhosa para a fragmentação preexistente dentro de redes progressistas e para as mudanças na cultura mais ampla. As instituições tradicionais que antes organizavam os cidadãos em grupos ordenados e estruturados estão todas em declínio: sindicatos, religiões, partidos políticos.

Todavia, algo está impelindo dezenas de milhares de indivíduos para as ruas - uma intuição, um instinto, talvez apenas o desejo profundamente humano de ser parte de algo maior do que si mesmo. Que rede, a não ser esta, pode apanhá-los a todos? A estrutura do movimento é também um subproduto da explosão de ONGs, que, desde a ECO-92, no Rio de Janeiro, vem ganhando poder e proeminência. São tantas ONGs envolvidas em campanhas anticorporação que nenhum modelo, exceto o de eixos e raios, pode acomodar todos os diferentes estilos, táticas e metas. Como a própria internet, as ONGs e as redes de grupos de afinidade são sistemas indefinidamente expansíveis. Se alguém acha que não é adequado o bastante a uma das 30.000 ONGs ou milhares de grupos de afinidade que existem, pode dar início a seu próprio grupo e entrar na rede.

Para alguns, esse apelo de surfista da militância é uma abominação. Mas quer se concorde ou não com o modelo, não há dúvida de que uma de suas maiores forças é que ele tem se mostrado extraordinariamente difícil de controlar, em grande parte por ser tão diferente dos princípios de organização das instituições e corporações que procura atacar. Ela reage à concentração corporativa com um labirinto de fragmentação, à centralização com seu próprio tipo de localização, à consolidação do poder com dispersão radical do poder. Mais uma vez, essa estratégia foi empregada com mais habilidade pelos zapatistas. Em lugar de se fechar em barricadas, desde o primeiro comunicado eles escancararam as portas e convidaram o mundo "a observar e controlar nossas batalhas".

No verão após a insurreição, os zapatistas promoveram uma Convenção Nacional Democrática na selva; seis mil pessoas compareceram, a maioria do México. Em 1996, eles receberam o primeiro Encontro para a Humanidade e Contra o Neoliberalismo. Cerca de 3.000 militantes viajaram a Chiapas para se reunir com outros ativistas de todo o mundo. Essas redes, muitas delas informais, tornam impossível conter a luta dos zapatistas. Joshua Karliner, do Transnational Resource and Action Center, chama esse sistema semelhante a uma teia de "uma resposta involuntariamente brilhante à globalização". E, como é involuntária, sequer temos o vocabulário para descrevê-la, e pode ser por isso que uma divertida indústria da metáfora tem evoluído para preencher esse hiato.

Estou fazendo minha parte com "eixos e raios", mas Maude Barlow, do Council of Canadians, disse, "[estamos] diante de uma grande pedra. Podemos removê-la nos colocando embaixo dela, circundando-a ou passando por cima dela". O britânico John Jordan, um dos fundadores do Reclaim the Streets, coloca desta forma: "As transnacionais são como navios-tanque gigantes, e somos uma espécie de cardume de peixes. Podemos reagir rapidamente; eles não." A Free Burma Coalition, dos Estados Unidos, fala de uma rede de "aranhas", tecendo uma teia resistente o bastante para aprisionar as mais poderosas multinacionais. Em quase todos os protestos globais, essa não-estratégia frustra até as mais afrontosamente superpreparadas forças de segurança: não somente retardou a abertura da Organização Mundial do Comércio em Seattle, mas uma estratégia semelhante produziu os manifestantes vestidos de "duendes cor-de-rosa" dançando nos muros do centro de convenção durante a reunião do Banco Mundial/FMI em Praga e grandes trechos da cerca de segurança derrubados durante a Reunião de Cúpula das Américas em Quebec. Charles Ramsey, chefe de polícia de Washington, explica como a teia se parece do ponto de vista da segurança: "É preciso experimentá-la para apreciar plenamente como é bem organizada, como, de muitas formas diferentes, elas podem chegar a você", disse ele no segundo dia dos protestos contra o Banco Mundial em sua cidade, parecendo um pouco com o general Custer descrevendo as táticas ardilosas dos sioux em 1876.

Apropriadamente, é um relatório militar americano sobre o levante zapatista que fornece a visão mais abrangente dessas "guerras de rede". De acordo com um estudo produzido pela RAND, os zapatistas travaram uma "guerra de pulgas" que, graças à internet, aos encuentros, e à rede global de ONGs, transformou-se em uma "guerra de enxames". O desafio militar de uma guerra de enxames, observaram os pesquisadores, é que ela não tinha "liderança central ou estrutura de comando; tem múltiplas cabeças, é impossível decapitá-las".

É claro que esse sistema de múltiplas cabeças também tem seus pontos fracos, e eles estiveram à mostra nas ruas de Washington durante os protestos contra o Banco Mundial/FMI. Por volta do meio-dia de 16 de abril, o dia do maior protesto, uma reunião de conselho foi convocada pelos grupos de afinidade que estavam prestes a bloquear todos os cruzamentos que circundam as sedes do Banco Mundial e do FMI. Os cruzamentos estavam bloqueados desde as 6 da manhã, mas os delegados em reunião, como souberam os manifestantes, tinham se esgueirado para dentro das barricadas policiais antes das 5 da manhã. Com essa nova informação, a maioria dos oradores achou que era hora de desistir dos cruzamentos e se unir à marcha oficial ao Ellipse. O problema foi que nem todos concordaram: um punhado de grupos de afinidade queria ver se podia bloquear os delegados quando saíssem da reunião. O meio-termo encontrado pelo conselho foi eficaz. "Está bem, ouçam todos", gritou Kevin Danaher em um megafone. "Cada cruzamento tem autonomia. Se um cruzamento quer continuar com o bloqueio, tudo bem. Se quiser partir para o Ellipse, tudo bem também. Vocês decidem." Isso foi impecavelmente justo e democrático, mas criou outro problema - não fazia sentido nenhum. Fechar os pontos de acesso tinha sido uma ação coordenada. Se alguns cruzamentos fossem abertos e outros permanecessem ocupados por rebeldes, aos delegados, na saída da reunião, bastava virar à direita em vez de à esquerda, e estariam livres para ir para casa. O que, é claro, foi exatamente o que eles fizeram. Quando vi grupos de manifestantes se levantando e andando enquanto outros continuavam sentados, desafiadoramente guardando - bem, guardando nada -, vi nisso uma metáfora adequada para os pontos fortes e fracos dessa nascente rede de militância. Não há dúvida de que a cultura da comunicação que reina na net é melhor em velocidade e volume do que em síntese.

É capaz de levar dezenas de milhares de pessoas a se reunirem na mesma esquina, cartazes nas mãos, mas menos apta a ajudar aquelas mesmas pessoas a formar um consenso sobre o que estão de fato procurando antes que formem as barricadas - ou depois que as deixam. Talvez seja por isso que há uma certa qualidade repetitiva nessas grandes manifestações: de vitrines quebradas do McDonald's a bonecos gigantes, eles podem começar a se parecer um pouco com McProtestos. A net torna sua existência possível, mas não está se provando particularmente útil na tarefa de levá-los a um estágio mais profundo. Por essa e outras razões, muitos no movimento vêm se tornando cada vez mais críticos das "reuniões esporádicas", e em geral concordam que há necessidade de mais estrutura entre os manifestantes.

logo mcdonaldsClaramente, coloca-se muito mais expectativa nessas grandes manifestações: os organizadores dos protestos em Washington, por exemplo, anunciaram que literalmente iriam "suspender o funcionamento" de duas instituições transnacionais de US$30 bilhões, ao mesmo tempo em que tentariam transmitir idéias sofisticadas sobre as falácias da economia neoliberal ao público do mercado de ações.

Eles simplesmente não fizeram isso; nenhuma manifestação isolada podia fazer, e está se tomando mais difícil. As táticas de ação direta de Seattle funcionaram bem porque pegaram a polícia de surpresa. Agora a polícia tem assinado todas as listas de e-mail e usado a suposta ameaça representada pelos anarquistas como justificativa para grandes esquemas de levantamento de fundos, permitindo a eles comprar todo tipo de novos brinquedos, de equipamento de sobrevivência a canhões de água. Mais substantivamente, ficou claro que na época em que os protestos em Praga rolaram em setembro de 2000, o movimento, independente de seu grau de descentralização, encarava o grave risco de parecer distante, excluído das questões que afetam o dia-a-dia das pessoas.

Assim, a questão é, se deve haver mais estrutura, que tipo de estrutura seria? Um partido político internacional que tente democratizar o governo mundial? Novos partidos nacionais? E quanto à rede de conselhos municipais e câmaras de vereadores, cada um comprometido com a introdução de democracia participativa? Deveria existir completamente fora da política eleitoral e se concentrar exclusivamente na criação de contra-poderes ao Estado? Essas questões são mais do que táticas, elas são estratégicas e com freqüência filosóficas. Fundamentalmente, elas dependem de como se define o mais escorregadio dos termos: globalização.

Será que o problema da globalização simplesmente é de que a idéia ficou presa nas mãos erradas, e a situação pode ser corrigida se instituições internacionais como a OMC se tornarem democráticas e responsáveis; se houver rígidas regras globais de proteção ao ambiente, tributação de transações financeiras e elevação dos padrões de trabalho? Ou a globalização, em essência, é uma crise de democracia representativa em que o poder e a tomada de decisão são delegados a locais muito distantes dos lugares onde os efeitos das decisões são sentidos - a menos que democracia representativa signifique votar em políticos de tempos em tempos, políticos que usam mandatos para transferir os podres nacionais à OMC e ao FMI? Estará esse movimento tentando impor sua própria marca de globalização, mais humana, ou é um movimento contra a centralização e a delegação de poder em princípio, tão crítico da ideologia de esquerda aplicável a todos os casos quanto da receita neoliberal do McGoverno?

Embora quase haja consenso sobre a necessidade de sentar e começar a discutir essas questões, há muito pouco consenso no seguinte conjunto de questões óbvias: sentar-se à mesa de quem? E a quem vai caber a decisão? O Fórum Social Mundial foi de longe a tentativa mais ambiciosa até agora de colocar esse processo em andamento, atraindo o extraordinário número de 10.000 delegados. Poucos deles, contudo, pareciam saber o que esperar: uma ONU modelo? Uma conferência gigante? Um parlamento simulado? Um partido? Ficou claro que a estrutura organizacional do fórum era tão opaca que foi quase impossível entender como as decisões eram tomadas ou encontrar formas de questionar essas decisões. Não havia plenários abertos e nenhuma possibilidade de votar sobre a estrutura de futuros eventos.

Embora o fórum tenha sido anunciado como uma pausa nos protestos, no terceiro dia delegados frustrados começaram a fazer o que mais conheciam: protestaram. Houve marchas e manifestos - meia dúzia, pelo menos. Sitiados, os organizadores do fórum se viram acusados de tudo, de reformismo a sexismo, para não falar de ignorarem o continente africano. O contingente da Juventude Anticapitalista os acusou de ignorar o importante papel de ação direta desempenhado na construção do movimento. Seu manifesto condenou a conferência como "um ardil", usando a linguagem piegas da democracia para evitar uma discussão mais divisória de classe. O PSTU, uma facção dissidente do Partido dos Trabalhadores, começou a interromper os discursos sobre a possibilidade de outro mundo com gritos de "Não pode haver outro mundo sem esmagar o capitalismo e impor o socialismo!" Algumas dessas criticas foram injustas. O fórum acomodou um extraordinário leque de visões, e foi precisamente essa diversidade que tornou inevitável os conflitos. Mas grande parte da critica foi legitima e tinha implicações que iam bem além de uma conferência de uma semana.

Como são tomadas as decisões nesse movimento dos movimentos? Do ponto de vista anarquista, toda a conversa de descentralização radical com freqüência encobre uma hierarquia muito real baseada em quem possui, compreende e controla as redes de computadores que ligam os militantes uns aos outros - o que Jesse Hirsh, um dos fundadores da rede de computadores anarquista Tao Communications, chama de "uma ad-hocracia geek". E do lado da ONG, quem decide que "representantes da sociedade civil" vão para o outro lado da cerca em Davos ou Quebec - enquanto os manifestantes do lado de fora são mantidos afastados com canhões e gás lacrimogêneo? Não há consenso entre os organizadores do protesto sobre participar dessas negociações e, mais especificamente, não há um processo verdadeiramente representativo para que essas decisões sejam tomadas: nenhum mecanismo para escolher membros satisfatórios de uma delegação de militantes e nenhum conjunto consensual de metas pelas quais medir os benefícios e armadilhas de tomar parte dele.

E todavia, com uma nova rodada completa de negociações na OMC marcada para o outono de 2001, e a negociação da Área de Livre Comércio das Américas em andamento, essas questões sobre processo eram e são urgentes. Deve-se determinar se a meta é pressionar pela inclusão de "cláusulas sociais" em questões trabalhistas e ambientais em acordos internacionais, retirar dos acordos todas as seções - como segurança alimentar e agricultura -, ou tentar derrubar esses acordos completamente? É necessário proceder a sérios debates sobre estratégia e processo, mas é difícil ver como eles se desdobrarão sem atolar um movimento cuja maior força até agora tem sido sua agilidade. Parte do problema é estrutural.

  • Observação sobre a ALCA: O projeto da ALCA está parado desde novembro de 2005 quando foi realizada a 4º Cúpula das Américas. A proposta foi "engavetada". Observação atualizada em junho de 2015.

Entre muitos anarquistas, que estão fazendo grande parte da organização popular, democracia direta, transparência e autodeterminação comunitária não são grandiosas metas políticas, são dogmas fundamentais governando suas próprias organizações. Mas embora fanáticos por processo, os anarquistas tendem a resistir aos esforços de estruturar ou centralizar o movimento. Em contraste, muitas ONGs importantes, embora possam compartilhar em tese as idéias dos anarquistas sobre democracia, são organizadas como hierarquias tradicionais. São regidas por líderes carismáticos e conselhos executivos, enquanto seus membros mandam seu dinheiro e aplaudem das laterais. Ao Fórum Internacional sobre Globalização - o grupo de especialistas do lado norte-americano do movimento - falta transparência em sua tomada de decisões e ele não é responsável por um grande número de associados.

Enquanto isso, estruturas de associação tradicionais, como partidos políticos e sindicatos, têm sido reduzidos a participantes menores nessas amplas redes de militância. Talvez a verdadeira lição de Porto Alegre seja a de que a democracia e a responsabilidade precisam ser elaboradas antes em escalas mais administráveis - em comunidades e coalizões locais e dentro de organizações individuais, para depois serem ampliadas. Sem esse fundamento, não há muita esperança de um processo democrático satisfatório quando 10.000 militantes de ambientes muito diferentes são atirados juntos em uma sala. Para um modelo de como extrair coerência de um movimento cuja maior força tática até agora foi sua similaridade com um enxame de mosquitos, é útil se voltar, mais uma vez, para a coisa mais próxima que esse movimento tem de um líder: uma máscara, dois olhos e um cachimbo - também conhecido como subcomandante Marcos.

A própria história de Marcos é a de um homem que alcançou a liderança não através de arrogante convicção, mas chegando a um acordo com a incerteza política, aprendendo a compreender. Embora não haja confirmação da verdadeira identidade de Marcos, a lenda mais repetida que o cerca é esta: um intelectual marxista urbano e militante. Marcos era caçado pelo Estado e já não estava seguro nas cidades. Ele fugiu para as montanhas de Chiapas, a sudeste do México, cheio da retórica e da arrogância revolucionárias, para converter os pobres indígenas à causa da revolução armada do proletariado contra a burguesia. Ele disse que os trabalhadores do mundo deviam se unir, e os maias apenas olharam para ele. Ele disse que eles não eram trabalhadores e, além disso, a terra não era uma propriedade, mas o coração de suas comunidades. Tendo fracassado como missionário marxista, Marcos mergulhou na cultura maia. Quanto mais aprendia, menos sabia. Desse processo surgiu um novo tipo de exército, e o EZLN se definia como não sendo controlado por uma elite de comandantes de guerrilha, mas pelas próprias comunidades, por meio de conselhos clandestinos e assembléias abertas. "Nosso exército", disse Marcos, "tornouse escandalosamente índio."

Isso significa que ele não era um comandante berrando ordens, mas um subcomandante, um canal para a vontade dos conselhos. As primeiras palavras que disse em sua nova persona foram: "Através de mim fala a vontade do Exército Zapatista de Libertação Nacional." E tentador desprezar o modelo zapatista como sendo aplicável somente a lutas indígenas, mas isso é errar completamente o alvo. O motivo por que existem agora 45.000 web sites relacionados com os zapatistas, por que os comunicados de Marcos estão disponíveis em pelo menos 14 idiomas, e por que 22 livros zapatistas foram escritos e 12 documentários produzidos, é que há algo na teoria do zapatismo que vai muito além de Chiapas. Deve ter alguma coisa a ver, acho eu, com a própria definição de revolução - e onde o poder deve realmente estar.

Alguns anos atrás, a idéia do comando zapatista viajando à Cidade do México para falar ao congresso teria sido impossível de imaginar. A perspectiva de guerrilheiros mascarados (até de guerrilheiros mascarados que deixaram suas armas em casa) entrando nos corredores do poder político indica uma coisa: revolução. Mas quando os zapatistas viajaram para a Cidade do México em março de 2001, não estavam interessados em derrubar o Estado ou nomear seu líder para a presidência. Na verdade, quando finalmente puderam penetrar no congresso, Marcos ficou do lado de fora.

Em suas exigências de controle sobre a terra, representação política direta e o direito de proteger sua linguagem e sua cultura, os zapatistas estão exigindo menos poder do Estado sobre sua vida, e não mais. O que diferencia os zapatistas de guerrilheiros insurgentes marxistas típicos é que sua meta não é assumir o controle, mas tomar posse e construir espaços autônomos onde "a democracia, a liberdade e a justiça" possam prosperar. Isso está intimamente ligado a um modelo de organização que não compartimentaliza as comunidades em trabalhadores, guerreiros, fazendeiros e estudantes, mas em vez disso busca organizar as comunidades totalmente, através de setores e de gerações, criando genuínos "movimentos sociais".

Para os zapatistas, criar essas zonas autônomas não é uma receita para se retirar da economia capitalista, mas uma base a partir da qual confrontá-la. Marcos está convencido de que esses espaços livres, criados da terra reclamada, da agricultura comunal e da resistência à privatização, um dia criarão contrapoderes ao Estado. Esse modelo de organização se disseminou por toda a América Latina, e pelo mundo. Podemos vê-lo nas tocas anarquistas da Itália (chamadas de "centros sociais") e no Movimento dos Sem-Terra do Brasil, que ocupa extensões de terra improdutivas e as usa para agricultura sustentável, mercados e escolas sob o slogan "Ocupar, Resistir, Produzir".

As mesmas idéias foram expressas com vigor pelos estudantes da Universidade Nacional Autônoma do México durante a longa e militante ocupação de seu campus. Zapata certa vez disse que a terra pertence aos que nela trabalham, e suas faixas afirmavam: DIZEMOS QUE A UNIVERSIDADE PERTENCE AOS QUE NELA ESTUDAM. O que parecia estar surgindo organicamente não era um movimento para um governo único global, mas uma visão de uma rede cada vez mais conectada de iniciativas locais, cada uma delas baseada em democracia direta. Quando os críticos dizem que os manifestantes carecem de visão, o que realmente estão dizendo é que eles não possuem uma filosofia revolucionária abrangente - como o marxismo, a ecologia profunda ou a anarquia social - com a qual todos possam concordar. Isso é absolutamente verdadeiro, e devemos ser extraordinariamente gratos por isso.

No momento, os militantes anticorporação das ruas estão cercados de possíveis líderes, ansiosos pela oportunidade de arregimentá-los como soldados. Em um extremo está o Partido Socialista dos Trabalhadores, esperando para acolher toda essa energia rudimentar de Seattle e Washington em sua própria estrutura sectária e doutrinária. Em outro, está John Zerzan de Eugene, no Oregon, que vê os tumultos e a destruição de propriedades como o primeiro passo para o colapso da industrialização e um retomo a um "anarco-primitivismo" pré-lapsariano - uma espécie de utopia de caçadores-coletores.

É mérito desse movimento jovem que ele tenha rechaçado todos esses programas e rejeitado o manifesto generosamente doado de todos, insistindo em um processo democrático e representativo aceitável para levar sua resistência ao nível seguinte. Será um plano de dez pontos? Uma nova doutrina política? Talvez não. Talvez, fora dessa rede caótica de eixos e raios, algo mais vá surgir: não um projeto de algum novo mundo utópico, mas um plano para proteger a possibilidade de muitos mundos - "um mundo", como dizem os zapatistas, "contendo muitos mundos." Talvez, em vez de provocar o choque frontal desses dois proponentes do neoliberalismo, esse movimento dos movimentos os cerque por todos os lados.