Consumismo e cidadania (livro No Logo)

Aqui voce confere um trecho do livro No Logo, de Naomi Klein.

Ao tentar isolar nossa cultura compartilhada em casulos de marca higienizados e controlados, muitas corporações têm criado o surto de oposição descrito neste livro. Por sedentamente absorver as críticas sociais e os movimentos políticos como fontes de "significado" de marca, elas radicalizaram ainda mais essa oposição. Por abandonar seu papel tradicional como empregadoras diretas e seguras para buscar seus sonhos de branding, elas perderam a lealdade que antes as protegia do rancor do cidadão. E por pulverizar a mensagem de auto-suficiência em uma geração de trabalhadores, elas inadvertidamente deram a seus críticos o poder de expressar esse rancor sem medo.

A luta pela propriedade comum

As cervejas no bar de meu hotel em Rosário estavam maravilhosamente geladas, e a turma do Centro de Assistência aos Trabalhadores (Workers' Assistance Center) estava ficando meio bêbada. Discutíamos, mais uma vez, se os códigos de conduta teriam algum mérito. Zernan Toledo (que pessoalmente é a favor da revolução armada - é só uma questão de quando) deu um murro na mesa. - Esses documentos são escritos pelas corporações transnacionais, então somente servirão para as corporações transnacionais... Por acaso já leu Marx? - Agora é diferente - repliquei. - Com a globalização, é preciso ter alguns padrões comuns, e os governos certamente não os estão estabelecendo. - Globalização não é novidade nenhuma. Sempre tivemos globalização - diz Arnel Salvador, outro organizador do WAC. Seus olhos estavam fixos não em mim, mas em alguma coisa do outro lado do bar.

Uma vez que o hotel em que eu me hospedara é o único próximo da Zona de Processamento de Exportação de Cavite, ele estava, como de hábito, cheio de proprietários de fábrica visitantes, contratados e compradores que estavam aqui passando uma noite cantando em karaokes e negociando roupas e produtos eletrônicos baratos. Acompanhei os olhos de Arnel até um jovem escarrapachado em uma cadeira, seus pés sobre a mesa diante dele, os joelhos separados, como se fosse dono do mundo. Todo moderninho, ele parecia personagem de um dos muitos comerciais de telefonia celular da TV asiática. - Sempre se pode dizer quem é estrangeiro - disse Arnel lentamente, sua voz, em geral calorosa, agora gelada. - Nenhum filipino se sentaria como aquele ali.

Os investidores estrangeiros que cantam em karaokes no Mountain and Sea Hotel em Rosário são parte de uma longa e amarga história de colonizadores nas Filipinas: primeiro os espanhóis vieram e conquistaram, depois os americanos chegaram, montaram bases militares e transformaram a prostituição infantil em um dos maiores setores do pais. Agora que o colonialismo está morto e os militares americanos se retiraram, os novos imperialistas eram os contratadores taiweneses e coreanos das zonas de processamento de exportação, assediando sexualmente as filipinas de 18 anos nas linhas de montagem. Várias zonas de livre comércio das Filipinas (embora não a de Cavite) são na verdade construídas em terrenos que poucos anos antes abrigavam bases militares americanas, e em todo o pais os trabalhadores são transportados de e para as zonas de exportação em jipes do exército americano convertidos em miniônibus.

Para Arnel Salvador e Zernan Toledo, as muito desejadas alegrias da globalização econômica eqüivalem a muito mais da mesma coisa: o chefe apenas trocou o uniforme militar por um terno italiano e um celular Ericsson. No dia seguinte a nossa noite de cervejada, sentei-me com Nida Barcenas no quintal do Centro de Assistência aos Trabalhadores e perguntei a ela o que a motivava, noite após noite, a arrastar-se para os dormitórios às 11 da noite para se reunir com as trabalhadoras quando elas finalmente saíam do trabalho. Minha pergunta pegou Nida de surpresa. "Porque quero ajudar as trabalhadoras. Realmente quero ajudá-las", disse ela. Depois a postura rígida que a ajuda a enfrentar os chefes da zona de exportação e os pequenos burocratas locais desapareceu e grossas lágrimas rolaram por suas bochechas macias. Tudo que conseguiu dizer foi: "É como disse Arnel - isso existe muito tempo".

logo walmartO que existe há muito tempo não é a luta pelos direitos para suas colegas de trabalho nas fábricas, embora ela quisesse dizer isso também. O que existe há muito tempo é a luta contra os senhores feudais, contra os ditadores militares e agora contra os proprietários estrangeiros das fábricas. Desliguei o gravador e sentei-me em silêncio até que sua colega, Cecille Tuico, silenciosamente nos trouxe canecas de sorvete de baunilha com calda, que virou sopa no sol quente. Como a principal missão do Centro de Assistência aos Trabalhadores é fortalecer os trabalhadores para que lutem por seus direitos, os organizadores do WAC não gostam muito da idéia de ocidentais precipitando-se pela zona de exportação brandindo códigos de conduta, com equipes de monitores bem-intencionados avançando atrás deles. "A melhor forma de resolver esses problemas", diz Nida Barcenas, "está com os próprios trabalhadores, dentro da fábrica." E os códigos de conduta, diz ela, são de pouca ajuda, porque os trabalhadores não participam de sua elaboração.

Quanto ao monitoramento independente por uma terceira parte, Zernan Toledo acredita que não importa quem o esteja fazendo, é apenas uma terceira parte. Só o que faz é reforçar a idéia de que alguém está cuidando do destino dos trabalhadores, em vez dos próprios trabalhadores. Para alguns essa rejeição direta parece teimosa e ingrata, um repúdio injusto de todo trabalho bem-intencionado que é conduzido nos gabinetes em Washington, Londres e Toronto. Mas o direito de sentar e negociar - mesmo quando você não consegue o acordo perfeito - é o direito fundamental pelo qual o movimento sindical internacional tem lutado desde o início; sempre se tratou de autodeterminação. Zernan Toledo invoca um velho e familiar aforismo para explicar a distinção: "Se você dá um peixe a um homem, ele o comerá em um dia. Mas se o ensinar a pescar, ele comerá sempre." E assim, toda noite, no Centro de Assistência aos Trabalhadores, Zernan, Arnel, Cecille e Nida dão aos trabalhadores aulas de pescaria. Um pequeno quadro-negro está no quintal com as galinhas, e os organizadores revezam-se nos seminários.

logo nikeÀs vezes aparecem cinqüenta trabalhadores, em outras ocasiões apenas um. Embora esse rumo sem dúvida leve mais tempo do que os códigos prontos e o monitoramento, os organizadores do WAC dizem que estão dispostos a esperar. Como afirma Nida, já existe há "muito tempo", eles podem muito bem colocar as coisas em ordem. É uma mensagem que se aplica não só a Cavite, mas a todos os que se preocupam com os abusos corporativos em todo o mundo. Quando começamos a procurar as corporações para traçar nossos códigos de direitos humanos e trabalho coletivo, já perdemos o princípio mais fundamental da cidadania: que as pessoas devem governar a si mesmas.

logo microsoftComo vimos, a Nike, a Shell, a WalMart, a Microsoft e o McDonald's se tornaram metáforas para um sistema econômico global que se torna impróprio, em grande parte porque, ao contrário das negociações astutas e clandestinas do Nafta, Gatt, Opep, OMC, AMI, União Européia, FMI, G-8 e OCDE, os métodos e objetivos dessas empresas são evidentes: trabalhadores e observadores estrangeiros compreendem igualmente bem o que lhes compete. Eles estão se tornando os melhores e mais populares instrumentos de educação do planeta, proporcionando algum esclarecimento, muito necessário, dentro da confusão de acrônimos e acordos reservados e centralizados do mercado global.

Ao tentar isolar nossa cultura compartilhada em casulos de marca higienizados e controlados, essas corporações têm criado o surto de oposição descrito neste livro. Por sedentamente absorver as críticas sociais e os movimentos políticos como fontes de "significado" de marca, elas radicalizaram ainda mais essa oposição. Por abandonar seu papel tradicional como empregadoras diretas e seguras para buscar seus sonhos de branding, elas perderam a lealdade que antes as protegia do rancor do cidadão. E por pulverizar a mensagem de auto-suficiência em uma geração de trabalhadores, elas inadvertidamente deram a seus críticos o poder de expressar esse rancor sem medo.

Mas o fato de que as marcas nos conduzem nesse labirinto não significa que devemos olhar para elas em busca de sua liderança. E embora não seja fácil e ele não surja rapidamente, encontraremos nosso caminho como cidadãos, por nossos próprios meios. Podemos nos sentir um pouco como Teseu, agarrado a seu fio quando entrou no labirinto do Minotauro, mas nada mais funcionará. As soluções políticas - que respondem ao povo e que podem ser impostas por seus representantes eleitos - merecem outra chance antes de jogarmos a toalha e optarmos por códigos corporativos, monitores independentes e a privatização de nossos direitos coletivos como cidadãos.

É uma tarefa assustadora, mas tem um aspecto positivo. A sensação claustrofóbica de desespero que com tanta freqüência acompanha a colonização do espaço público e a perda do emprego seguro começa a se dissipar quando alguém começa a pensar nas possibilidades de uma sociedade verdadeiramente de inclinações globais, uma sociedade que incluiria não só economia e capital, mas também cidadãos globais, direitos globais e responsabilidades globais. Vai levar algum tempo até que nós encontremos nossa posição nessa nova arena internacional, mas graças em grande parte à marcha para o desastre proporcionado pelas marcas, estamos mais perto do que nunca.

O primeiro passo foi uma rede tremendamente bem-sucedida de projetos de educação popular. Em 1995, o Fórum Internacional sobre Globalização realizou sua primeira conferência global em Nova York, que reuniu cientistas, militantes e pesquisadores para examinar o impacto de um único e liberto mercado mundial sobre a democracia, os direitos humanos, o trabalho e o ambiente natural. Houve seminários sobre o Nafta, a Opep, o FMI, o Banco Mundial, o Ajuste Estrutural do Norte e todos os organismos ou acordos de comércio globais que você sempre quis conhecer mas tinha medo de perguntar. A conferência de Nova York atraiu várias centenas de pessoas, mas na segunda conferência em Berkeley, Califórnia, duas mil pessoas compareceram (com publicidade antecipada zero e sem cobertura da mídia - apenas alguns cartazes e listas de e-mail). Uma conferência alguns meses depois em Toronto atraiu ainda mais gente, e aconteceram encontros semelhantes em universidades em todo o mundo.

E os líderes mundiais atualmente não podem almoçar juntos sem que alguém organize uma contra-reunião de cúpula - encontros que juntam todo tipo de gente, de trabalhadores de fábricas exploradoras tentando sindicalizar as zonas de exportação a professores lutando contra a tomada de poder corporativo da educação. Nestes eventos - em Genebra, Colônia e Birmingham - modelos alternativos de globalização transbordam para as ruas durante o dia, e as festas do Reclaim the Streets continuam pela noite toda. Às vezes é difícil dizer se essas tendências são o começo de alguma coisa genuinamente nova ou os estertores de algo muito antigo. Seriam elas, como a professora de engenharia e militante pacifista Ursula Franklin me perguntou, simplesmente "quebra-ventos", criando um escudo temporário contra a tempestade corporativa, ou seriam as pedras da fundação de um edifício auto-sustentado que nunca tenha sido imaginado? Quando comecei este livro, honestamente não sabia se estava cobrindo cenas pulverizadas marginais de resistência ou o nascimento de um movimento potencialmente amplo. Mas com o passar do tempo, o que claramente vi foi um movimento se formando diante de meus olhos.

Três anos atrás, quando compareci à conferência sobre globalização em Berkeley, fiquei frustrada por que todos os palestrantes tinham mais de 50 anos e os vínculos com culture jammers em idade universitária e militantes anticorporaçao ainda tinham de ser criados. Um ano depois, essas gerações de militantes e teóricos já estavam enredadas em várias frentes, dotando de urgência e profundidade de análise as ações uns dos outros.

logo shellDurante essa época, as campanhas que se concentravam em uma única corporação em um só lugar - a Shell na Nigéria, digamos, ou a Nike na Indonésia - tinham se descoberto mutuamente e estavam iniciando um processo de intercâmbio intelectual, com freqüência a um clique de um hotlink, graças à net.

Esse movimento emergente tinha mesmo uma importante vitória sob seu cinto: retirar o Acordo Multilateral de Investimento do programa da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico em abril de 1998. Como observou o Financial Times com alguma perplexidade na época, "A arma decisiva dos oponentes é a internet. Operando de todo o mundo através dos web sites, eles têm condenado o acordo proposto como uma conspiração secreta para garantir a dominação global por parte das empresas multinacionais, e mobilizado um movimento internacional de resistência popular". O artigo citou então um funcionário da Organização Mundial do Comércio que disse: "As ONGs provaram o gosto do sangue. Elas voltarão, querendo mais." E voltarão mesmo.

Em 18 de junho de 1999, essas conexões virtuais se tornaram reais quando uma coalizão de grupos, incluindo o Reclaim the Streets e o People's Global Action realizou a segunda Global Street Party, dessa vez para coincidir com a reunião do G-8 em Colônia, na Alemanha. O evento, anunciado como "um carnaval global contra o capital", mirou no poder corporativo. Em todo o mundo, festas e protestos aconteceram nos distritos financeiros, em frente de bolsas de valores, superlojas, bancos e sedes de multinacionais. Com ação simultânea em setenta cidades diferentes, o dia foi o début desse novo tipo de participante político: expôs toda a criatividade e esperança do movimento - e mostrou mais vigorosamente que nunca como o rancor anticorporativo está fermentando.

Embora fossem organizados localmente, um tema comum correu por todos os eventos. Em Bangladesh, trabalhadoras de fábricas de roupas fizeram um protesto contra as condições de fábricas exploradoras; em San Francisco, protestaram contra as mesmas condições do lado de fora de lojas da Gap. Em Montevidéu, no Uruguai, os militantes transformaram a principal quadra do distrito financeiro da cidade em um show de "comércio justo", com exibições de todos os abusos corporativos, de trabalho infantil a comércio de armamentos; em Madri, a entrada da bolsa de valores foi bloqueada. E em Colônia, local da reunião do G-8, militantes europeus fizeram uma contra-reunião e exigiram o perdão da dívida de países do Terceiro Mundo. Ao evento uniram-se quinhentos fazendeiros indianos que estavam viajando pela Europa ocidental em uma "caravana intercontinental". Pelo caminho, eles paravam nas sedes de empresas agrícolas como a Cargill e a Monsanto, cujas patentes de sementes e engenharia genética de safras sobrecarregaram muitos fazendeiros indianos com enormes dívidas.

No mesmo dia em que os fazendeiros indianos protestaram pacificamente em Colônia, o distrito financeiro de Londres se transformou em uma zona de guerra - a cidade nunca vira algo como aquilo desde os distúrbios dos impostos de 1990. O encontro de 10.000 participantes começou como uma clássica festa política RTS surreal. As ruas foram abertas por uma corrida de bicicletas da Massa Critica e inundadas por militantes vestidos em ternos de segunda mão com slogans pintados nas costas. Eles dançaram na porta de prédios de escritórios, formaram uma corrente humana em torno do Tesouro e se postaram pacificamente diante de vários bancos. Os banqueiros e corretores de investimentos, enquanto isso, chegavam ao trabalho disfarçados em roupas esporte informais, tendo sido aconselhados pela polícia a "se misturar" aos militantes para não levarem uma torta na cara.

Mas com o passar do dia, a multidão se dividiu em grupos menores e foi se tomando gradualmente mais violenta. Um grupo vociferou na Bolsa de Futuros, quebrando todos os vidros do lobby, arrasando o comércio de ações automatizado e obrigando a uma evacuação do prédio.

logo mcdonald'sEm outras regiões de Londres, uma loja do McDonald's, um banco e uma concessionária Mercedes Benz foram depredados, um manifestante foi atropelado por uma viatura policial e vários policiais ficaram feridos. Houve também violência popular em Eugene, no Oregon: janelas foram quebradas em bancos e lanchonetes, carros foram atacados, manifestantes atiraram pedras em policiais e policiais atacaram os manifestantes com spray de pimenta.

Nas duas cidades, as mensagens políticas sobre as disparidades econômicas e as brutalidades da globalização do livre mercado foram abafadas pelo som de vidro se quebrando. Em Genebra, a mensagem era clara como o dia: em vez de atirar pedras nas janelas, os militantes chegaram com esponjas, sabão e vassouras para lavar as fachadas dos grandes bancos do centro da cidade. Os organizadores explicaram à imprensa que eles só queriam ajudar essas instituições financeiras a limpar as manchas deixadas pela incapacitante dívida do Terceiro Mundo e pelo ouro nazista. Em Port Harcourt, na Nigéria, o humor do "Carnaval dos Oprimidos" foi militante, mas festivo. Uma turba de 10.000 pessoas recebeu o irmão de Ken Saro-Wiwa de volta a sua terra natal depois de cinco anos no exílio.

Depois de ouvir um discurso de Owens Wiwa, a multidão se dirigiu para os portões da sede da Shell Oil na cidade e bloqueou a entrada por várias horas. A parada seguinte foi em uma rua batizada com o nome do falecido ditador nigeriano, o general Sani Abacha, onde membros da multidão baixaram a placa da rua e temporariamente a rebatizaram com o nome de um dos homens cujas vidas foram roubadas por Abadia: Ken Saro-Wiwa. De acordo com os organizadores, "Houve dança e música nas ruas, levando Port Harcourt, a capital do petróleo na Nigéria, a uma paralisação". E tudo isso aconteceu em um único dia. Quando essa resistência começou a tomar forma em meados dos anos 90, parecia ser um conjunto de protecionistas que se reuniram sem procedimentos específicos para lutar contra tudo que fosse global. Mas à medida que as conexões foram se formando ao longo das linhas nacionais, surgiu um programa diferente que envolvia a globalização mas buscava tomá-la das garras das multinacionais.

Acionistas éticos, culture jammers, participantes do Reclaim the Streets, organizadores de McSindicatos, ativistas hackers de direitos humanos, combatentes universitários de logos e vigilantes corporativos da internet começaram a exigir alternativas centradas no cidadão ao domínio internacional das marcas. Essas demandas, às vezes sussurradas em algumas áreas do mundo por medo de que desse azar, estão formando uma resistência - tanto de alta tecnologia quanto popular, tanto focalizada quanto fragmentada - que é tão global, e tão capaz de ação coordenada, quanto as corporações multinacionais que tentam subverter.