Política externa local (livro No Logo)

A escritora Naomi Klein demonstra em "No Logo" como a relação das empresas com as instituições públicas foi se transformando. Com seu imenso poder de compra, as instituições públicas e sem fins lucrativos podem exercer verdadeira pressão de interesse público sobre corporações privadas que de outra forma estariam desembaraçadas. Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que nas escolas e universidades.

Estudantes e comunidades entram na briga

Mais um pouco e teremos de fazer nossas próprias perfurações no mar. - Polly Armstrong, vereadora de Berkeley, Califórnia, sobre a decisão de proibir a compra municipal de gasolina de todas as grandes empresas petrolíferas

"Muito bem. Preciso de gente postada em cada porta. Vamos lá!", gritou Sean Hayes com o barítono apocopado característico de um treinador de basquete, o que por acaso ele era. "Vamos!", berrou o treinador Hayes novamente, batendo suas mãos carnudas alto o bastante para que o som ricocheteasse pelas paredes do imenso ginásio da St. Mary's Secondary School em Pickering, Ontário (uma cidade mais conhecida por sua proximidade de uma usina nuclear de qualidade questionável).

Hayes me convidara a participar de seu primeiro "Desfile de moda de fábrica exploradora", um evento que ele começou a planejar quando descobriu que os tênis Nike "Made in Indonésia" do time de basquete provavelmente tinham sido fabricados sob condições de exploração de mão-de-obra. Ele é um atleta intransigente mas consciente e, junto com um punhado de estudantes um tanto atrapalhados, organizou o evento de hoje para fazer com que outros duzentos alunos da St. Mary's pensassem nas roupas que vestiam em termos além de "cool" ou "idiota".

O plano era simples: à medida que os estudantes, vestidos como modelos de roupas de grife, se pavoneavam em uma passarela improvisada, outro estudante ao lado da passarela leria uma narrativa preparada sobre a vida dos trabalhadores do Terceiro Mundo que faziam as roupas. Os estudantes rapidamente compreenderiam isso, com cenas de Mickey Mouse Goes to Haiti e uma paródia sobre como os adolescentes se sentem "sem amor, rejeitados, não aceitos e impopulares se você não tem as roupas certas". Minha parte viria no final, quando eu daria uma palestra sobre minha pesquisa nas zonas de processamento de exportação depois participaria de uma seção de perguntas e respostas.

Parecia bastante fácil. Enquanto esperávamos a sineta tocar e os estudantes aparecerem, Hayes virou-se para mim e disse, "Espero que as crianças realmente entendam a mensagem e não pensem que é um desfile de moda comum". Depois de ler a narração preparada dos estudantes, não pude deixar de achar essa preocupação francamente paranóica. Na verdade, os desfiles de moda tornaram-se tão fortes nas escolas secundárias que agora rivalizam com lavagens de carro como atividade favorita de levantamento de fundos para bailes de estudantes. Mas será que Hayes realmente pensava que seus alunos eram tão insensíveis que podiam ouvir o testemunho sobre salários de fome e maus-tratos físicos e esperar que a roupa em questão fosse vendida com desconto depois do evento?

Foi então que dois adolescentes colocaram a cabeça na porta para checar as preparações frenéticas. "Oi, gente", disse um deles. "Estou esperando o desfile... vai ser muito engraçado." O treinador Hayes parecia nervoso. Quando duzentos estudantes se aboletaram nas arquibancadas, a sala parecia viva com a zoeira que acompanha qualquer falta às aulas em massa, seja para jogos, palestras educacionais sobre a Aids, greves de professores ou alarmes de incêndio na escola. Um rápido exame da sala não revelou nenhum logotipo naquela garotada, mas não era por opção deles, de forma alguma. A St. Mary's é uma escola católica e os estudantes vestem uniformes - uma questão delicada que eles tentam contornar com o máximo empenho.

É difícil fazer com que calças de flanela cinza e suéteres de fio sintético azul-marinho pareçam roupa gangsta, mas os garotos dão o máximo de si, vestindo suas calças arriadas quase até os joelhos, como calções folgados presos pelos cintos. As garotas também se superam, combinando suas blusas insipidas com mocassins plataforma e batons pretos. Como se pôde constatar, a preocupação do treinador Hayes era bem fundamentada. Quando o hip hop começou a tocar e os primeiros garotos desceram a passarela em calçados Nike e roupa de treinamento esportivo, o ginásio veio abaixo com gritos e aplausos. No momento que a menina encarregada de ler a narração séria começou, "Bem-vindos ao mundo da Nike...", sua voz foi abafada por aplausos e assobios. Não foi difícil concluir que eles não estavam aplaudindo a ela, mas a menção à palavra Nike - a marca celebridade favorita de todos.

Eu esperava por minha deixa e estava a ponto de fugir do moderno mundo adolescente para sempre, mas, depois de algumas ameaças ribombantes do treinador Hayes, a turba por fim se aquietou. Minha palestra pelo menos não foi vaiada, e a discussão que se seguiu foi uma das mais animadas que testemunhei. A primeira pergunta (como em todos os eventos semelhantes a este) foi, "Que marcas não são produzidas em fábricas que exploram a mão-de-obra?" - Adidas?, perguntavam. Reebok? The Gap? Disse aos alunos da St. Mary's que comprar em uma loja de roupas que não esteja envolvida em exploração de mão-de-obra era quase impossível, dada a forma como todas as grandes marcas são produzidas. A melhor maneira de fazer uma diferença, disse a eles, é manter-se informado navegando na net, e dizer às empresas o que você pensa escrevendo cartas e fazendo um monte de perguntas na loja.

Os garotos da St. Mary's ficaram profundamente céticos com essa não-resposta. "Olha, eu não tenho tempo para ser tipo uma militante política a cada vez que vou ao shopping", disse uma garota, a mão direita firmemente plantada no lado direito do quadril. "Só me diga que tênis são legais para comprar, tá bem?" Outra garota, que parecia ter uns 16 anos, requebrou-se ao microfone. "Só queria dizer que isso é capitalismo, tá legal? E as pessoas podem ganhar dinheiro, e se você não gosta disso talvez seja por inveja." As mãos dispararam como resposta. "Não, o que eu quis dizer é que você está totalmente errada, e só porque alguém está fazendo uma coisa não quer dizer que seja certa... Você tem de defender o que acredita em vez de se limitar a ficar na frente do espelho tentando parecer perfeita!"

Depois de assistir a milhares de episódios de Ricki e Oprah, esses garotos assumiram o formato talk-show com tanta naturalidade quanto Elizabeth Dole. Assim como aplaudiram a Nike momentos antes, os estudantes agora aplaudiam-se mutuamente - no estilo torcida, com muitos "É isso aí, garotas". Momentos antes da sineta para o período seguinte, o treinador Hayes ainda deu tempo para uma última pergunta. Um garoto em calças caídas perambulou pelo ginásio puxando com dois dedos seu suéter azul-marinho padrão, afastando-o de seu corpo magricela, como se detectasse um cheiro fétido. Depois, inclinou-se para o microfone e disse, no impecável tom monocórdio dos adolescentes, "Hmmm, treinador Hayes, se as condições de trabalho são tão ruins na Indonésia, então por que temos de usar estes uniformes? Compramos milhares dessas coisas e aqui diz que são 'Made in Indonésia'. Só queria saber, como você sabe que não foram feitos em fábricas exploradoras?"

O auditório explodiu. E foi um incêndio daqueles. Outro estudante correu ao microfone e sugeriu que os alunos deveriam tentar descobrir quem fabrica seus uniformes, um projeto para o qual não faltaram voluntários. Quando saí da St. Mary's naquele dia, a escola tinha interrompido suas atividades para isso. Não há dúvida de que a motivação por trás da recém-descoberta preocupação dos alunos da St. Mary's sobre as condições de trabalho na Indonésia era que ele tinham acabado de encontrar uma desculpa nobre para se recusar a vestir seus uniformes idiotas - não foi uma preocupação inteiramente desinteressada. Mas mesmo inadvertida, eles também esbarraram com uma das mais poderosas alavancas usadas para forçar a reforma de corporações multinacionais aparentemente amorais.

Quando escolas secundárias, universidades, lugares de culto, sindicatos, câmaras de vereadores e outras instâncias de governo aplicam padrões éticos a suas grandes decisões de compra, a campanha anticorporação dá um passo significativo para além da guerra principalmente simbólica de adbusting e protesto nas superlojas. Tais instituições comunitárias não são apenas conjuntos de consumidores individuais, são elas próprias consumidoras - e consumidoras poderosas. Milhares de escolas como a St. Mary's encomendam milhares de uniformes cada uma - o que soma uma montanha de uniformes. Elas também compram equipamento esportivo para seus times, comida para suas cantinas e bebidas para venda nas máquinas automáticas.

Os governos municipais compram uniformes para suas forças policiais, gasolina para seus caminhões de lixo e computadores para suas repartições; e também investem seus fundos de pensão no mercado de ações. As universidades, por sua vez, selecionam empresas de telecomunicações para seus portais na internet, usam bancos para guardar seu dinheiro e investir dotações que podem chegar a bilhões de dólares. E, é claro, elas também estão cada vez mais envolvidas em acordos de patrocínio direto com as corporações.

Mais importante, as grandes compras institucionais e acordos de patrocínio estão entre os contratos mais visados do mercado, e as corporações sempre tentam vencer os concorrentes nas licitações. O que todos esses acordos de negócios têm em comum é que eles ocorrem em uma interseção distinta entre a vida civil (ostensivamente regida pelos princípios do "bem público") e a motivação de lucrar das corporações. Quando patrocinam um evento em uma universidade ou assinam um acordo com um governo municipal, as corporações cruzam uma importante linha que separa o espaço público do privado - uma linha que não é parte de uma interação do consumidor com uma corporação como comprador individual.

Não esperamos moralidade no shopping - mas, até certo ponto, ainda a esperamos em nossos espaços públicos - em nossas escolas, parques nacionais e praças municipais. Assim, embora possa parecer um pequeno consolo para alguns, há um efeito colateral positivo no fato de que, cada vez mais, as corporações privadas estão afirmando seus direitos sobre esses espaços públicos. Nos últimos quatro anos, houve uma percepção coletiva entre muitas instituições públicas, cívicas e religiosas de que ter uma corporação multinacional como hóspede em sua casa - seja como fornecedora ou como patrocinadora - é uma importante oportunidade política. Com seu imenso poder de compra, as instituições públicas e sem fins lucrativos podem exercer verdadeira pressão de interesse público sobre corporações privadas que de outra forma estariam desembaraçadas. Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que nas escolas e universidades.

Os estudantes ensinam uma lição às marcas

Como já vimos, as empresas de refrigerantes, tênis e fast-food vêm forjando uma imensidão de compromissos de sujeição aos logos com escolas secundárias, faculdades e universidades. Como os jogos olímpicos, muitas universidades têm companhias aéreas, bancos, transportadoras de longa distância e fornecedores de computadores "oficiais".

logo coca-colaPara as empresas patrocinadoras, esses arranjos de exclusividade oferecem oportunidades para fomentar ardentes e obscuras lealdades ao logo durante aqueles anos de formação universitária - para não falar da chance de conseguir alguma legitimidade quase acadêmica. (Ser o fornecedor oficial de uma universidade bem-conceituada parece quase como se um painel de catedráticos se unisse e determinasse cientificamente que Coca-Cola é que é!, ou Nossos Biscoitos São Mais Crocantes! Para algumas corporações de sorte, pode ser como ganhar um título honorário.)

Contudo, essas mesmas corporações têm há tempos descoberto que pode haver um inesperado lado negativo nessas "parcerias": a noção de propriedade que acompanha o patrocínio nem sempre é o tipo de submissão passiva do consumidor que as empresas procuram em suas negociações. Em um clima de preocupação crescente com a ética corporativa, os estudantes estão descobrindo que uma ótima maneira de atrair a atenção de multinacionais arredias é armar uma barulheira sobre atividades extracurriculares da marca oficial de sua universidade - seja ela Coca-Cola, Pepsi, McDonald's, Starbucks ou Northern Telecom.

logo pepsiEm vez de simplesmente se queixar de "corporatização" amorfa, jovens militantes começaram a usar seu status de patrocinados procurados para retaliar as forças eles consideram invasivas em seus campi. Nesse contexto volátil, um acordo de patrocínio particularmente agressivo pode agir como catalisador político, instigando amplos debates sobre tudo, de condições de trabalho injustas a comércio com ditadores.

Pergunte à Pepsi. A Pepsi esteve na vanguarda da tendência de comprar estudantes como um mercado cativo. Seus acordos de venda exclusiva prepararam o caminho para acordos semelhantes, e as franquias de fast-food de propriedade da PepsiCo estão entre as primeiras a firmar presença em escolas secundárias e universidades na América do Norte.

Um dos primeiros acordos de venda nas universidades da Pepsi foi com a Universidade Carleton, de Ottawa, em 1993. Como na época o marketing no campus ainda causava alguma desaprovação, muitos estudantes ficaram imediatamente ressentidos de serem obrigados a esse endosso tácito de um produto, e decidiram não dar a seu refrigerante oficial uma acolhida calorosa.

Membros da seção universitária do Public Interest and Research Group - uma rede de organizações universitárias de justiça social que se estende pela América do Norte conhecida como PIRGs - descobriram que a PepsiCo estava produzindo e vendendo seus refrigerantes na Birmânia, a brutal ditadura agora conhecida como Myanmar. Os estudantes de Carleton não tinham certeza de como lidar com a informação, então colocaram uma notícia sobre o envolvimento da Pepsi na Birmânia em alguns BBS que cobriam questões ambientais.

logo pepsicoAos poucos, outras universidades onde a Pepsi era a bebida oficial começaram a solicitar mais informações. Logo o grupo de Ottawa havia desenvolvido e distribuído centenas de "kits de ação universitária", com panfletos, petições e adesivos "Boicote" e "Pepsi, acabe com ela". "Como você pode ajudar a libertar a Birmânia?", perguntava um panfleto. "Pressione as escolas a encerrarem os contratos de alimentação e bebidas que vendem produtos da PepsiCo até que a empresa saia da Birmânia."

Foi o que muitos estudantes fizeram. Como resultado, em abril de 1996 Harvard rejeitou a proposta de um acordo de venda de US$ 1 milhão com a Pepsi, mencionando as holdings da empresa na Birmânia. A Universidade de Stanford custou à Pepsi US$ 800.000 quando uma petição assinada por dois mil estudantes impediu a construção de uma lanchonete Taco Bell, de propriedade da PepsiCo. Os riscos foram ainda maiores na Grã-Bretanha, onde os contratos de refrigerantes nas universidades são coordenados centralmente através do braço de serviços da National Union of Students. "A Pepsi havia acabado de bater a Coca-Cola e conseguido o contrato", lembra Guy Hughes, militante do grupo londrino Third World First. "A Pepsi era vendida em 800 diretórios estudantis no Reino Unido, então usamos o consórcio como alavanca para pressionar a Pepsi. Quando [a união estudantil] se reuniu com a empresa, um fator para a Pepsi foi que o boicote se tornara internacional."

Aung San Suu Kyi, líder do partido de oposição da Birmânia que foi eleito em 1990, mas impedido de assumir pelos militares, estimulou esse movimento nascente. Em 1997, em um discurso escrito por seu marido (que havia morrido) na American University, em Washington D.C., ela convocou os estudantes a pressionar as corporações multinacionais que investiam na Birmânia. "Por favor, usem sua liberdade para promover a nossa", disse ela. "Assumam a honrada e firme posição contra empresas que estão negociando com o regime militar da Birmânia."

Quando o boicote nas universidades chegou ao New York Times, a Pepsi vendeu sua parte em uma controvertida engarrafadora birmanesa cujo proprietário, Thien Tun, pediu publicamente que o movimento democrático de Suu Kyi fosse "atirado no ostracismo e esmagado". Os militantes estudantis, contudo, rejeitaram a atitude da Pepsi como "artifício para os jornais" porque os produtos Pepsi ainda eram vendidos e produzidos na Birmânia. Finalmente, diante da pressão contínua, a Pepsi anunciou seu "total afastamento" da Birmânia em 24 de janeiro de 1997. Quando Zar Ni, coordenador do movimento estudantil americano, ouviu a notícia, mandou um e-mail para a lista de discussão da Free Burma Coalition: "Finalmente apanhamos a Besta Pepsi! Conseguimos!! Todos nós conseguimos!!! (...) Agora SABEMOS que temos o poder popular de abalar uma das mais poderosas corporações do mundo."

Se há alguma moral nessa história, é que o esforço da Pepsi de cativar o mercado universitário colocou a empresa no centro de um debate do qual ela não desejava participar. Ela queria que os universitários fossem seus cartazes - sua Próxima Geração viva -, mas em vez disso os estudantes viraram a mesa e fizeram da Pepsi o cartaz de seu movimento Free Burma nas universidades. Sein Win, líder no exílio da Liga Nacional pela Democracia eleita na Birmânia, observou que "a PepsiCo é muito cuidadosa com sua imagem. Ela queria vender a imagem de seus refrigerantes como 'o sabor da geração jovem', então, quando a geração jovem participou dos boicotes, seus esforços foram prejudicados".

Simon Billenness, especialista em investimento ético que estava à frente da campanha pela Birmânia, é mais rude: "A Pepsi", disse ele, "foi sitiada por próprio mercado-alvo."

E Reid Cooper, coordenador da campanha na Universidade de Carleton, observa que sem a sede da Pepsi pelo branding do campus, a difícil situação da Birmânia jamais seria uma preocupação nas universidades. "A Pepsi tentou ir para as escolas", disse-me ele em uma entrevista, "e a partir daí entro em combustão espontânea." Não é de surpreender que a vitória sobre a Pepsi tenha encorajado a campanha Free Burma nas universidades. Os estudantes adotaram o slogan "Birmânia: A África do Sul dos Anos 90" e afirmaram ser "A maior campanha pelos direitos humanos do ciberespaço".

No final dos anos 90, mais de cem faculdades e vinte escolas secundárias em todo o mundo participam da Free Burma Coalition. O grau em que a liberdade daquele país se tornou uma cause célebre ficou claro quando, em agosto de 1998, 18 militantes estrangeiros - a maioria estudantes universitários - foram presos em Rangoon por distribuir panfletos que expressavam apoio ao movimento democrático na Birmânia. Não surpreende que o evento tenha atraído a atenção da mídia internacional. O tribunal sentenciou os militantes a cinco anos de trabalhos forçados, mas no último minuto deportou-os em vez de mantê-los na prisão.

Outras campanhas estudantis visaram diferentes corporações e diferentes ditadores. Com a Pepsi fora da Birmânia, a atenção das universidades começou a mudar para os investimentos da Coca-Cola na Nigéria. Na Universidade Estadual de Kent, em Ohio, e em outras faculdades onde a Coca-Cola ganhou a guerra das colas universitárias, os estudantes afirmaram que a presença maciça da Coca-Cola na Nigéria dava um ar de legitimidade ao regime militar ilegítimo do país (que, na época, ainda estava no poder). Mais uma vez, a questão dos direitos humanos na Nigéria podia jamais ter passado da seção da Anistia Internacional na Universidade de Kent, mas como a Coca-Cola e a faculdade entraram em um acordo do tipo patrocínio, a campanha decolou e os estudantes começaram a bradar que sua universidade tinha as mãos sujas de sangue.

logo mcdonald'sHouve vários conflitos com empresas de alimentos, a maioria deles relacionada com a presença cada vez maior do McDonald's nos campi. Em 1997, a National Union of Students britânica entrou em um acordo com o McDonald's para distribuir "cartões de privilégio" a todos os estudantes de graduação do Reino Unido. Quando os estudantes mostravam o cartão, tinham um cheeseburger grátis a cada vez que pediam um Big Mac, batatas fritas e um refrigerante.

Mas os ambientalistas do campus se opuseram ao acordo, forçando a associação de estudantes a se retirar formalmente da aliança de marketing em março de 1998. Como motivos para sua mudança de idéia, a associação mencionou as "práticas anti-sindicais, a exploração de empregados, a contribuição para a destruição do ambiente, a crueldade com os animais e a promoção de alimentos não saudáveis" da empresa - tudo cuidadosamente formulado com base na sentença do juiz do McLibel.

À medida que se dissemina a reação à marca, os estudantes estão começando a questionar não somente acordos de patrocínio como os que são feitos com o McDonald's e a Pepsi, mas também as parcerias menos visíveis que suas universidades têm com o setor privado. Sejam elas banqueiros no conselho de diretores, cátedras universitárias com dotação corporativa ou o batismo de prédios do campus com o nome de seus beneficiadores, tudo está diante de escrutínio de um corpo estudantil mais economicamente politizado. Os estudantes britânicos estão dando prosseguimento a uma campanha para pressionar suas universidades a parar de aceitar dinheiro de doações do setor petrolífero, e na Colúmbia Britânica o Conselho Deliberativo da Universidade de Victoria votou em novembro de 1998 pela recusa de dinheiro da Shell para atividades acadêmicas.

Esse programa de resistência corporativa está gradualmente se tornando mais estruturado, à medida que estudantes de toda a América do Norte se reúnem em conferências anuais como a "Conferência pela Democracia: Democracia versus Controle Corporativo no Campus", na Universidade de Chicago em 1997, onde participaram de seminários como "Pesquisa: para as pessoas ou para os lucros?", "Investigando sua universidade" e "O que é uma corporação e por que existe um problema?" Em junho de 1999, militantes estudantis se reuniram novamente, desta vez em Toledo, Ohio, em uma recémformada Aliança Estudantil para a Reforma das Corporações.

O propósito da reunião era lançar uma campanha nacional para obrigar as universidades a investir seu dinheiro somente em empresas que respeitem os direitos humanos e não degradem o meio ambiente. Não deve surpreender que, de longe, as parcerias mais controversas entre universidade e empresa envolveram a mais controvertida das empresas: a Nike. Desde que o uso de exploração de mão-de-obra pela indústria de calçados se tornou de conhecimento geral, os acordos que a Nike assinou com centenas de departamentos de atletismo em universidades passaram a ser as questões mais contenciosas universidades, com buttons "Abaixo o Swoosh" rivalizando com símbolos feministas como o acessório favorito dos estudantes de graduação. E, no que a Nike deve ver como a bofetada definitiva, os campi de faculdades onde a empresa pagou milhões de dólares para patrocinar equipes esportivas (Universidade da Carolina do Norte, Duke, Stanford, Penn e do Arizona, para citar apenas algumas), tornaram-se os pontos mais fervorosos da campanha internacional anti Nike.

logo nikeDe acordo com a Campaign for Labor Rights, "esses contratos, que são uma peça central no marketing da Nike, agora viraram um pesadelo de relações públicas para a empresa. O marketing agressivo da Nike nas universidades foi agora forçado a assumir uma postura defensiva". Na Universidade do Arizona, os estudantes tentaram fazer com que o reitor reconsiderasse o endosso da instituição a produtos da Nike despejando uma pilha /de velhos tênis Nike em seu gabinete (acompanhado de câmeras de duas emissoras de TV locais). De acordo com um organizador estudantil, James Tracy, "cada par de calçados conta uma história de abuso da Nike, para a consideração do reitor".

Na Universidade de Stanford, protestos semelhantes se seguiram à decisão do departamento de atletismo de assinar um contrato de cinco anos e US$ 5 milhões com a Nike. Na verdade, atacar a Nike se tornou um esporte tão popular no campus que na Universidade Estadual da Flórida - um importante centro de atletismo - um grupo de estudantes montou um carro alegórico anti-Nike para o desfile de ex-alunos de 1997. A maioria dessas universidades está presa a acordos de patrocínio de vários anos com a Nike, mas na Universidade da Califórnia em Irvine os estudantes procuraram a empresa quando seu contrato com o time de basquete feminino estava prestes a ser renovado. Diante de uma pressão crescente por parte dos estudantes, o departamento de atletismo da universidade decidiu mudar para a Converse.

Em outro campus, o treinador de futebol Kim Keady não conseguiu convencer seu empregador, a Universidade St. John, a parar de obrigar seu time a usar uniformes da Nike. Assim, no verão de 1998, ele deixou seu emprego como treinador assistente em protesto.

A aluna da Universidade da Carolina do Norte Marion Traub-Wemer explica o apelo desse novo movimento: "Obviamente há a questão trabalhista. Mas estamos também preocupados com a intrusão da Nike em nossa cultura acadêmica. Seu logotipo está em toda parte - além de sua presença em todos os uniformes, está nos programas de jogos, em todos os cartazes e domina a seção de vestuário da loja do campus. Como nenhuma outra empresa, a Nike imprime sua marca a essa geração, e assim, se os estudantes agora têm a oportunidade de marcar a Nike como exploradora... bem, é uma oportunidade boa demais para que deixem escapar.

A verdadeira marca de elite

Embora muitas instituições de ensino superior estejam diligentemente aceitando intrusos de marca, outras estão percebendo que suas universidades são elas próprias nomes de marca. As universidades da Ivy League, e faculdades com equipes esportivas de elenco estrelar, têm grandes linhas de vestuário, várias das quais disputam mercado com muitos estilistas profissionais. Elas também compartilham muitos dos mesmos problemas relacionados à mãode- obra. Em 1998, o sindicato de trabalhadores em vestuário UNITE publicou um relatório sobre a fábrica BJEtB em uma zona de processamento de exportação na República Dominicana.

Os trabalhadores da BJEtB, uma das maiores fabricantes do mundo de bonés de beisebol, borda os logos e timbres escolares de pelo menos nove grandes universidades americanas, incluindo Cornell, Duke, Georgetown, Harvard e Universidade de Michigan. As condições na BJEtB eram típicas das fábricas de zonas de livre comércio: longas horas extras forçadas, destruição feroz de sindicatos (incluindo demissão de organizadores), contratos de curto prazo, cheques de pagamento insuficientes para alimentar uma família, testes de gravidez, assédio sexual, gerenciamento abusivo, água potável perigosa e preços altíssimos (enquanto os bonés são vendidos, em média, a US$ 19,95, os trabalhadores viam somente 8 por cento desse valor)."

E, claro, a maioria dos trabalhadores é de jovens mulheres, um fato que foi comprovado quando o sindicato patrocinou uma viagem aos Estados Unidos de duas ex-funcionárias da fábrica: Kenia Rodriguez, de 19 anos, e Roselio Reyes, de 20 anos. As duas trabalhadoras visitaram muitas universidades cujos logotipos costumavam costurar nos bonés, falando em reuniões de estudantes que eram exatamente de sua idade. "Em nome dos 2.050 trabalhadores desta fábrica, e do povo desta cidade, peço seu apoio", disse Reyes a um público de estudantes na Universidade de Illinois.

Essas revelações sobre as condições de produção não são nada surpreendentes. O licenciamento de faculdades é um grande negócio, e os participantes - Fruit of the Loom, Champion, Russell - mudaram para fábricas contratadas juntamente com o resto do setor de vestuário, e fazem uso liberal de zonas de livre comércio em todo o mundo. Nos Estados Unidos, o licenciamento de nomes de faculdades é uma indústria de US$ 2,5 bilhões anuais, grande parte intermediada Collegiate Licensing Company. Só a Universidade Duke vende o equivalente a cerca de US$ 25 milhões em roupas associadas a seu time de basquete vencedor a cada ano. Para atender à demanda, há 700 licenciados que contratam centenas de fábricas nos EUA e em dez outros países.

Graças ao papel de liderança da Duke como fabricante universitário de roupas um grupo de militantes decidiu transformar a universidade em modelo de fabricação ética - não somente para outras universidades, mas para o setor de vestuário torturado por escândalos. Em março de 1998, a Universidade Duke estabeleceu uma política que foi um marco, exigindo que todas as empresas que fabricam camisetas, bonés de beisebol e suéteres que traziam o nome "Duke" concordassem com um conjunto de padrões de trabalho claros. O código requeria que os contratados pagassem o salário mínimo oficial, mantivessem condições de trabalho seguras e permitissem a formação de sindicatos pelos trabalhadores, não importando onde as fábricas se localizassem. O que torna a política mais substancial do que a maioria dos códigos no setor de vestuário é que ela exige que as fábricas sejam submetidas a inspeção de monitores independentes - uma providência que deixou a Nike e a Shell vociferando na mesa de negociações, apesar da evidência esmagadora de que seus padrões declarados são basicamente desconsiderados.

logo shellA Universidade Brown fez o mesmo dois meses depois com seu código rigoroso. Tico Almeida, veterano da Universidade Duke, explica que muitos estudantes têm uma forte reação quando tomam conhecimento de trabalhadores que produzem as roupas do seu time em zonas de livre comércio. "Tenho dois grupos de pessoas, aproximadamente da mesma idade, que têm diferentes experiências nas mesmas instituições", diz ele. E mais uma vez, diz David Tannenbaum, estudante de Princeton, o logo (dessa vez o logo da faculdade) proporciona a ligação global. "Embora os trabalhadores estejam fazendo nossas roupas a milhares de quilômetros de distância, de outras formas estamos próximos deles - vestimos essas roupas todo dia."

O verão americano depois da aprovação dos códigos da Duke e da Brown foi repleto de atividade. Em julho, ativistas que militavam contra a exploração mão-de-obra em universidades em todo o país reuniram-se em Nova York e se organizaram em uma coalizão, a United Students Against Sweatshops. Em agosto, uma delegação de oito estudantes, incluindo Tico Almeida, partiu em uma missão de apuração dos fatos em zonas de livre comércio na Nicarágua, em El Salvador e em Honduras. Almeida me disse que esperava encontrar suéteres da Duke porque tinha visto a etiqueta "Made in Honduras" na roupa vendida no campus.

Mas ele logo descobriu o mesmo que a maioria das pessoas quando visita as zonas de livre comércio: uma poderosa combinação de sigilo, responsabilidade repassada e militarismo forma uma barricada de proteção em torno da maior parte da indústria de vestuário global. "Foi como dar punhaladas aleatórias no escuro", lembra ele. Quando as aulas recomeçaram em setembro de 1998 e os estudantes viajantes estavam de volta ao campus, a questão do trabalho em fábricas exploradoras explodiu no que o New York Times descreveu como "o maior surto de ativismo universitário em quase duas décadas".

Em Duke, Georgetown, Wisconsin, Carolina do Norte, Arizona, Michigan, Princeton, Stanford, Harvard, Brown, Cornell e Universidade da Califórnia, em Berkeley, aconteceram conferências, seminários, protestos e greves brancas - algumas duraram três e quatro dias. Em Yale, os estudantes fizeram um "comício". Todas as manifestações levaram a acordos por parte de administradores das universidades para exigir padrões de trabalho mais elevados das empresas que fabricam suas roupas. Esse movimento de rápido crescimento teve uma espécie de grito de guerra improvável: "Revelação das corporações". A principal exigência é a de que as empresas que produzem as roupas das universidades forneçam os nomes e endereços de todas as suas fábricas em todo o mundo e se abram para o monitoramento. Quem faz sua roupa escolar, dizem os estudantes, não deve ser um mistério. Eles afirmam que com a indústria de vestuário sendo o labirinto global de contratações que é, o ônus da prova deve recair sobre as empresas, que devem provar que seus produtos não são feitos em fábricas exploradoras - em vez de uma investigação de militantes provar que são. Os estudantes também estão pressionando suas escolas a exigir que os contratados paguem um "salário justo", em lugar do salário mínimo oficial.

Em maio de 1999, pelo menos quatro administrações concordaram em princípio em pressionar seus fornecedores na questão dos salários. Como veremos no próximo capítulo, não há acordo quanto a como transformar esses compromissos bem-intencionados em mudanças reais nas fábricas de exportação. Contudo, todos os envolvidos no movimento contra a exploração de mão-de-obra concordam que mesmo discutir coisas como abertura e um salário justo na mesa de negociação com fabricantes representa uma importante vit' que os militantes buscaram por muitos anos.

Em uma iniciativa pequena mas que igualmente estabeleceu um precedente, o arcebispo Theodore McCarrick anunciou em outubro de 1997 que sua arquidiocese em Newark, Nova Jersey, se tornaria uma área "sem exploração". A iniciativa inclui a introdução de um currículo antiexploração em todas as 185 escolas católicas na região, identificando os fabricantes de todos os uniformes escolares e monitorando-os para se certificar de que as roupas eram produzidas sob condições de trabalho justas - assim como os estudantes na St. Mary's em Pickerina Ontário, decidiram fazer. No todo, os estudantes aceitaram o desafio na questão da exploração de mão-de-obra com um entusiasmo que provocou uma tempestade no movimento trabalhista em amadurecimento.

A United Students Against Sweatshops, depois de um ano de existência, tem seções em uma centena de universidades americanas e uma rede irmã no Canadá. Free the Children, a nova organização contra o trabalho infantil de Craig Kielburger sediada em Toronto (era ele o sujeito de 30 anos que desafiou o primeiro-ministro canadense a analisar as práticas de trabalho infantil na Índia) tinha, enquanto isso, ganhado força nas escolas secundárias e faculdades em todo o mundo. Charles Kernaghan, com seu "outing" de Katriie Lee Gifford e Mickey Mouse, pode ter começado essa onda de organizações trabalhistas, mas no final do ano letivo de 1998-99 ele sabia que não estava mais instigando-a. Em uma carta ao United Students Against Sweatshops, ele escreveu: "Agora é seu movimento estudantil que está liderando e carregando o maior peso na luta pelo fim da exploração de mão-de-obra e do trabalho infantil. Sua eficácia é obrigar as empresas a responder."

Os tempos mudaram. Como escreve William Cahn em sua história da greve da fábrica exploradora Lawrence Mill em 1921, "Perto daqui, a Universidade de Harvard emitiu um certificado de conclusão do semestre para os alunos que concordaram em servir na milícia contra os grevistas. 'Homens insolentes e bem alimentados de Harvard', relatou o New York Call, 'desfilando de um lado para outro, seus rifles carregados (..) suas baionetas brilhando'". Hoje, os estudantes estão justamente no outro lado da luta contra a exploração de mão-de-obra: como mercado-alvo para tudo, de jeans Guess a bolas de futebol Nike e bonés de beisebol com o emblema da Duke, os jovens consideram a exploração de trabalhadores uma questão pessoal.

Ação comunitária: pressionando a alavanca de compras seletiva

Como os governos federais na América do Norte e na Europa têm sido largamente relutantes em impor sanções significativas a violadores documentados dos direitos humanos na Birmânia, na Nigéria, na Indonésia e na China, preferindo em vez disso "envolver construtivamente" essas nações com o comércio, há um movimento para que níveis mais locais de governo intervenham onde o governo federal se retirou.

Nos Estados Unidos, câmaras de vereadores, conselhos municipais, juntas de educação e até alguns governos estaduais têm tranqüilamente flertado com missões comerciais que agora passam por política estrangeira, e esboçam sua própria política externa. Os legisladores locais sabem que não podem evitar que as multinacionais canalizem fundos para ditaduras na Nigéria e na Birmânia, e não podem evitar as importações de empresas que usam mão-de-obra infantil e de presidiários no Paquistão e na China, mas podem fazer outra coisa. Eles podem coletivamente se recusar a comprar os produtos e os serviços dessas empresas quando escolhem seus parceiros de negócios, de serviços de celular a bolas de futebol da liga juvenil.

A meta dos "acordos de compras seletivas", como essas políticas de comércio éticas são chamadas, é dupla. Primeiro, os acordos podem levar cada empresa a decidir que não é eficaz, pelo custo, continuar a negociar sob condições antiéticas no exterior - por exemplo, se as empresas puderem contratar em seu próprio pais. Segundo, as ações de governos locais podem pressionar os governos federais a assumir posições mais honradas em seus programas de política externa.

Tendo como modelo iniciativas semelhantes dos anos antiapartheid, a atual "moda" da política externa local (como um comentarista republicano enviesadamente a chamou) começou, como tantos movimentos por justiça social nos Estados Unidos, em Berkeley, Califórnia.

Em fevereiro de 1995, a Câmara de Vereadores de Berkeley aprovou uma resolução proibindo a compra de bens ou serviços de empresas que investiam na Birmânia. É claro que essas empresas ainda podiam vender suas roupas dentro de Berkeley - só não podiam vendê-las nas repartições municipais, como a policia e os serviços sanitários. A atitude criou um efeito dominó em todo o país - de acordo com os cálculos mais recentes, 22 cidades, um condado e dois estados tinham acordos de compras seletivas relativos a empresas na Birmânia, e um punhado de cidades eliminara as compras de em com investimentos na Nigéria. Embora cada lei tenha ligeiras variações em sua redação, sua essência é resumida na que se segue, aprovada por unanimidade pela cidade de Cambridge, Massachusetts, em 8 de junho de 1998:

  • CONSIDERANDO QUE A cidade de Cambridge declara o direito de avaliar o caráter moral de seus parceiros de negócios na determinação de quem busca ter relacionamentos comerciais; fica portanto
  • DECIDIDO Que como questão de política pública, a cidade de Cambridge declara que não comprará bens, serviços ou mercadorias de qualquer empresa ou corporação que negocie na nação da Birmânia (...)

A atitude mais importante veio em junho de 1996, quando a Assembléia Legislativa do Estado de Massachusetts aprovou a Lei de Massachusetts sobre a Birmânia, tornando muito mais difícil para as empresas que têm negócios em um país governado por um ditador fechar um contrato com o estado. Como observou o influente Journal of Commerce, "Os alvos estavam longe de casa, mas de repente os governos locais estão mostrando que podem alcançar todo o mundo".

Outra restrição de compras popular é a que não é dirigida amplamente a todas as corporações em determinados países, mas em vez disso a corporações envolvidas em uma prática particularmente censurável - por exemplo, a prática de exploração de mão-de-obra ou trabalho infantil. Um desses casos envolveu a Los Angeles Monroe Migh School. Depois de ler o artigo da revista Life sobre a industria de bolas de futebol do Paquistão, uma aluna da Monroe, Sharon Paulson, lembrou que ela e seus colegas de turma "abandonaram um exercício e estavam verificando todas as bolas, e todas diziam: 'Made in Pakistan'. Isso torna tudo mais verdadeiro. Antes, era algo que apenas líamos, mas depois foi como, 'Ganhamos o campeonato municipal usando essas bolas!' Isso nos deu um motivo para lutar".

O motivo de sua luta - e sua vitória - foi um compromisso da Junta Educação de Los Angeles para suspender um pedido de bolas fabricadas no Paquistão, e outro da Câmara de Vereadores de Los Angeles "para investigar a produção de bolas de futebol fabricadas em países que usam mão-de-obra infantil." De acordo com o Investor Responsability Research Center, "em 1997, cerca de vinte cidades e municípios americanos (...) adotaram regulamentos 'antiexploração de trabalhadores' que exigem que os bens comprados por aqueles governos municipais - incluindo uniformes para policiais, bombeiros e funcionários públicos - sejam feitos sem exploração da mão-de-obra". Embora os acordos de compras seletivas tenham sido um fenômeno principalmente americano, eles estão começando a pipocar por toda parte.

A cidade de St. John, em Newfoundland, aprovou uma resolução contra a exploração de trabalhadores em junho de 1998, e um grupo de crianças em FortMcMurray, em Alberta, conseguiu fazer com que a câmara de vereadores de sua cidade aprovasse uma resolução proibindo o uso em propriedades públicas de bolas de futebol e fogos de artifício feitos por crianças. As resoluções da Free Burma, entretanto, vão ainda mais longe - em 17 de março de 1998, a Câmara de Marrickville, na Nova Gales do Sul, na Austrália, "votou unanimemente para se tornar a primeira autoridade local fora dos Estados Unidos a decretar uma lei de compras seletivas da Birmânia".

Nos últimos quatro anos, a Câmara de Vereadores de Berkeley aprovou tantas resoluções de boicote - contra empresas que fazem negócios na Birmânia, na Nigéria, no Tibete; empresas associadas com a indústria de armamentos ou usinas nucleares - que, como brincou a vereadora Polly Armstrong, "mais um pouco e teremos de fazer nossa própria perfuração no mar". É verdade que entre as resoluções da Nigéria e da Birmânia, e uma sobre o derramamento de óleo do Exxon Valdez, a câmara está evitando usar todas as grandes empresas petrolíferas e é obrigada a abastecer suas ambulâncias e veículos de limpeza urbana com gasolina proveniente da pouco conhecida Golden Gate Petroleum Company.

Berkeley baniu a Pepsi de suas máquinas automáticas municipais por causa de seus investimentos na Birmânia, voltou à empresa depois que ela cortou laços com Rangun, e depois decidiu boicotar a Coca-Cola devido a seu envolvimento na Nigéria. Tudo isso parece Alice no País das Maravilhas, mas os boicotes afetam as multinacionais. Elas podem sorrir para uma cidade universitária como Berkeley que boicota tudo, exceto papel de cânhamo e o café Bridgehead, mas quando estados ricos como Massachusetts e Vermont entram em ação, o setor corporativo não acha divertido.

logo hpEm maio de 1999, mais três estados - Texas, Washington e Nova York - tinham leis relativas à Birmânia em votação. E isso começou a ter seu custo. Por exemplo, antes de partir da Birmânia depois da controvérsia Celine Dion, a empresa de telecomunicações Ericsson perdeu uma importante licitação para atualizar o serviço 911 de San Francisco por causa de seus laços com a Birmânia, e a Hewlett-Packard (HP) também alega ter perdido vários contratos municipais

logo kodakCompreensivelmente, muitas empresas se curvaram às exigências de militantes pelos direitos humanos. Desde que Massachusetts adotou sua Lei da Birmânia e 1996, houve um êxodo das grandes multinacionais da ditadura, incluindo East-man Kodak, Hewlett-Packard, Philips Electronics, Apple e Texaco. Mas só porque essas empresas decidiram desistir não quer dizer que planejem aceitar sem luta essas novas barricadas locais em transações comerciais internacionais. Como explica Robert S. Greenberger no Wall Street Journal, "Os contratos de compras, só na Califórnia, por exemplo, valem mais para algumas empresas americanas do que quaisquer negócios que possam garantir em muitos países, mas elas não querem ter de optar".

logo philipsPrecisamente porque isso obriga a fazer escolhas claras, muitas pessoas estão convencidas de que iniciativas localizadas de política externa são a ferramenta política mais eficaz disponível para conseguir de volta algum controle sobre as corporações multinacionais. "As compras seletivas baseadas no modelo birmanês", diz Danny Kennedy, coordenador do grupo de lobby Project Underground, "são nossa grande esperança." É o tipo de declaração que pode enfurecer a comunidade de negócios, que, depois de ser apanhada de guarda baixa pelo súbito aumento das leis de compras seletivas, está decidida a não cometer o mesmo erro duas vezes.

Uma coalizão de empresas, incluindo importantes investidores na Birmânia, como a Unocal, e investidores na Nigéria como a Mobil, associaramse sob o National Foreign Trade Council para lançar um ataque geral aos acordos de compras seletivas locais. Em abril de 1997, o conselho formou o USA*Engage, afirmando representar mais de 670 corporações e associações de comércio. Seu propósito expresso é combater essas leis coletivamente, permitindo que as corporações isoladas evitem colocar suas práticas na linha de fogo. Frank Kittredge, presidente do NFTC e vice-presidente do conselho do USA*Engage, explica que "muitas empresas não estão ansiosas por ser destacadas como defensoras de países como o Irã e a Birmânia. O modo de evitar isso é se unir em uma coalizão".

O grupo afirma que a política externa é uma questão federal, e os governos municipais e estaduais não têm de se meter nessa briga. Para esses fins, o USA*Engage desenvolveu um "Registro de Vigilância de Sanções Locais e Estaduais" para monitorar todas as cidades, municípios e estados onde os acordos de compras seletivos foram aprovados, bem como as comunidades que estão cogitando aprová-los e portanto ainda são vulneráveis a pressão externa. O lobby agressivo dos membros do USA*Engage já conseguiu esmagar uma lei proposta sobre a Nigéria que estava prestes a ser adotada pelo estado de Maryland (em março de 1998); e a Unocal (que não conseguiu manter seu nome fora desse debate) teve êxito em convencer a assembléia legislativa da Califórnia a não adotar uma lei sobre a Birmânia como a de Massachusetts. Os ataques têm vindo de lugares mais distantes. Agindo sob comando das multinacionais sediadas na Europa, a União Européia entrou com uma contestação oficial à Lei de Massachusetts sobre a Birmânia na Organização Mundial do Comércio. Em questão estava a alegação de que a lei viola um regulamento da OMC que proíbe que as compras governamentais sejam feitas em bases "políticas".

Chegou-se a dizer que os governos municipais e estaduais dos EUA deveriam ser processados pelo governo federal americano por violar a cláusula da OMC. Embora os legisladores federais categoricamente tenham negado que seja essa sua intenção, em 5 de agosto de 1998 o congresso derrubou por uma margem estreita uma resolução que teria proibido o governo de usar dinheiro público para uma ação judicial como essa. Embora a disputa tenha continuado, as multinacionais não estão esperando para ver se os acordos de compras seletivas sobreviverão. Em abril de 1998, o National Foreign Trade Council entrou com um processo na Corte Federal em Boston contestando a Lei de Massachusetts sobre a Birmânia, alegando ser inconstitucional. O NFTC afirmou que "a lei introduz-se diretamente no poder exclusivo do governo nacional de determinar a política externa, discrimina empresas envolvidas em comércio exterior e entra em conflito com as políticas e os objetivos da lei federal, impondo sanções à União de Myanmar".

Embora o NFTC tenha conseguido um mandado preventivo que ocultava as identidades de corporações individuais que financiaram o caso, ela argumentou no tribunal que trinta de seus membros foram afetados pela lei. E em novembro de 1998 o NFTC venceu: a Corte determinou a inconstitucionalidade da Lei de Massachusetts sobre a Birmânia porque "intoleravelmente infringe o poder do governo federal de regulamentar os assuntos externos".

O estado já perdeu uma apelação, mas os dois lados têm dito que estão dispostos a levar o caso até a Suprema Corte. O NFTC reconhece abertamente que a contestação na Corte é uma tentativa de estabelecer um precedente que efetivamente eliminaria todos os acordos de compras seletivas municipais, bem com proibições de universidades e juntas de educação. "Consideramos esse processo judicial um importante teste que determinará a questão muito pertinente desconcertante e contínua relacionada com a constitucionalidade de sanções estduais e municipais", disse Frank Kittredge.

De sua parte, os defensores da compra seletiva afirmam que não estão tentando implementar sua própria política externa, e dizem que chamar essas leis de "sanções", como invariavelmente fazem os críticos, é um equívoco, porque os acordos de compras seletivos não são regulamentações impostas às empresas, são apenas pressão de consumidor em larga escala. Simon Billenness, o militante da Birmânia que ajudou a esboçar essa legislação, caracteriza-a pitorescamente como "boicotes aos esteróides".

Assim como os consumidores têm o direito de escolha pessoal no mercado, eles têm o mesmo direito coletivamente, sejam como escolas, câmaras de vereadores ou governos estaduais. Ele também assinala que os acordos têm um histórico comprovado de significativas vitórias na área de direitos humanos.

Durante o movimento antiapartheid, cinco estados, nove cidades e 59 universidades dos Estados Unidos aprovaram resoluções que proibiam completamente as compras de empresas que operam na África do Sul, ou as compeliam a adotar os princípios de Sullivan. "Se o USA*Engage tivesse sucesso em suas táticas durante os anos de apartheid, Nelson Mandela provavelmente ainda estaria na prisão", diz Simon Billenness.

Talvez mais importante, o ataque aos acordos de compras seletivas transformou antigas campanhas em nome de cidadãos de terras distantes em batalhas por direitos e liberdades locais. Billenness, por sua vez, descreve a tentativa de criminalizar as compras seletivas como "uma violação da soberania do estado e da democracia local". Ela também se prova um erro de cálculo tático. Ao visar essas ações locais, o NFTC tem ativamente reforçado as crenças que levaram à promulgação das leis: que as corporações se tornaram mais poderosas que os governos, que os governos federais não servem mais aos interesses do povo; e que, a luz desses dois fatos, os cidadãos não têm alternativa a não ser enfrentar eles mesmo o poder das corporações.

O proposto Acordo Multilateral de Investimento não ajudaria na questão. O AMI está parado por enquanto, mas seus defensores sequer pensam em abandonar o projeto. De acordo com um plano que vazou em 1997, os acordos de compras seletivas se tornariam instantaneamente ilegais. O acordo explicitamente proíbe a "discriminação" contra corporações com base em suas relações comerciais com outros países, e declara abertamente que essa cláusula anularia quaisquer leis preexistentes em todos os níveis de governo - incluindo as municipalidades. E não é só isso, às multinacionais seria garantido o direito legal de processar os governos diretamente por qualquer discriminação alegada com base nisso. Muitos agora acreditam que essas questões do AMI podem compor a próxima rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio.

Da mesma forma que grupos de cidadãos de todo o mundo se mobilizaram contra o AMI em 1998, muitos desses grupos se declararam prontos a resistir ao ataque frontal da comunidade de negócios às compras seletivas. Os militantes da Free Burma estão jurando "expor" as corporações que se ocultam por trás do processo do NFTC e fazer delas alvo de campanhas de boicote. Eles também assinalam que os governos locais podem facilmente realizar seus "boicotes sobre os esteróides" com ou sem resoluções formais. A cidade de Vancouver é um exemplo. Em 1989, no final do boicote ao apartheid, Vancouver aprovou uma resolução de compra seletiva que proibia o uso de gasolina da Shell em veículos de propriedade da cidade por causa dos acordos controversos da empresa na África do Sul. Resoluções similares foram aprovadas - principalmente relacionadas com bancos que faziam empréstimos à África do Sul - por Câmaras de Vereadores de Toronto, Ottawa e Victoria.

Mas a Shell Canada decidiu levar a cidade de Vancouver aos tribunais por discriminação. O caso se arrastou por quase cinco anos, e em fevereiro de 1994 a Suprema Corte do Canadá decidiu, por uma margem de cinco votos a quatro, em favor da Shell. O juiz John Sopinka escreveu que a câmara tinha discriminado a Shell, e que os vereadores só tinham jurisdição para fazer decisões de compras baseadas em questões relativas aos moradores de Vancouver - e não ao povo da África do Sul. O propósito do boicote à Shell, concluiu ele, "é afetar questões que estão além dos limites da cidade, sem nenhum beneficio identificável para seus habitantes".

A Shell conseguiu o que queria: o contrato de fornecimento de combustível com a cidade de Vancouver. Mas os problemas da empresa foram muito além disso. Quando a Shell novamente tornou-se objeto de sanção internacional depois do enforcamento de Ken Saro- Wiwa, militantes do Sierra Club local novamente começaram a fazer lobby junto à Câmara de Vereadores de Vancouver para cortar seus laços com a Shell. À luz da decisão da Suprema Corte, a câmara não podia aprovar formalmente outra resolução de compras seletivas mas, coincidentemente, em 8 de julho de 1997, transferiu um contrato de US$ 6 milhões para abastecer de combustível a frota de ambulâncias e veículos policiais e do corpo de bombeiros de todo o Distrito Regional da Grande Vancouver a um concorrente da Shell, a Chevron.

É possível que a decisão da cidade tenha se baseado unicamente nos méritos de cada empresa na licitação, mas há pouca dúvida de que a questão dos direitos humanos também estava em jogo. Incluída na área da Grande Vancouver está a pequena municipalidade de North Vancouver; menos de quatro meses antes de fechar o contrato com a Chevron, os vereadores de North Vancouver votaram por unanimidade pela condenação do comportamento da Shell na terra ogoni e orientaram seus funcionários a não comprar gasolina da Shell. "Temos de assumir uma posição a respeito das corporações, contra o modo como a Shell tem pilhado o povo ogoni", disse um vereador na época.

Mas como a resolução de Vancouver era simplesmente uma expressão da crença de seus vereadores - sem nenhuma menção aos contratos municipais - a Shell não podia apelar judicialmente. Quando o contrato foi para a Chevron, ambientalistas locais, que mantiveram vigílias semanais em posto de gasolina Shell em Vancouver por mais de um ano, comemoraram o ato como uma vitória. Mas que vitória era? Menos de um ano depois, Bola Oyinbo, um militante de 33 anos que liderou a ocupação de uma barcaça de petróleo da Chevron no estado de Ondo, na Nigéria, escreveria o seguinte relato:

Quando estávamos nos preparando para partir, vimos três helicópteros. Chegaram como águias caindo sobre frangos. Não esperávamos o que aconteceu. Quando os helicópteros desceram um após outro descarregando soldados, ouvimos tiros. Na verdade eles começaram a atirar em nós como unidades de assalto antes mesmo de descerem. Atiraram para todo lado. Arulika e Jolly foram atingidos. Morreram na hora. Larry, que estava perto de mim, correu para ajudá-los, tentando erguê-los do chão, e também foi baleado. Mais soldados chegaram e mais tiros foram disparados. Alguns colegas meus saltaram do convés para o Atlântico, outros correram para dentro da plataforma. Foi um pandemônio. Lançaram bombas de gás lacrimogêneo. Desciam brancos de todos os helicópteros (...) Estávamos desarmados e éramos inofensivos.

O protesto começara pacificamente em 25 de maio de 1998, e terminou três dias depois em um banho de sangue, com dois militantes mortos. As circunstâncias eram sinistramente similares àquelas que tinham incitado a campanha de Ken Saro-Wiwa contra a Shell cinco anos antes. "Vá à comunidade de Awoye e veja o que eles fizeram", escreve Oyinbo. "Tudo lá está morto: mangues, florestas tropicais, peixes, água corrente, vida selvagem etc. Tudo morto pela Chevron. (...) nosso povo se queixa de 'córregos mortos'." De acordo com Oyinbo, em várias ocasiões a comunidade tentou negociar com a Chevron, mas seus executivos nunca apareceram nas reuniões.

logo chevronA ocupação da barcaça atracada foi um último recurso, dizem eles, e a única exigência era uma reunião formal com a Chevron. Oyinbo e seus camaradas acusam a empresa de contratar os soldados que atacaram a barcaça, matando dois homens e ferindo outros trinta. A Chevron afirma que não é responsável pelos atos de policiais uniformizados - eles estavam simplesmente fazendo cumprir a lei contra "piratas".

O porta-voz da Chevron, Mike Libbey, nega que a empresa tenha pago a seguranças para intervir, embora admita ter alertado as autoridades e fornecido transporte para a plataforma. "Lamentamos a morte daquelas pessoas, uma morte talvez desnecessária, mas isso não altera o fato de que, para que a Chevron faça negócios em 90 paises em todo o mundo, devemos cooperar com governos de vários tipos", disse ele aos repórteres.

A empresa enfureceu a comunidade depois por se recusar a indenizar as famílias dos mortos - pagou somente os custos de sepultamento. "Se eles querem outras compensações, devem nos escrever e a empresa pode decidir assisti-los por compaixão", disse Deji Haastrup, gerente de relações comunitárias da Chevron.

Talvez apropriadamente, o CEO da Chevron, Ken Derr, é um dos membros mais ativos do USA*Engage em sua cruzada contra as sanções e as compras seletivas. Ao contrário da Shell, a Chevron ainda não se tornou objeto de um boicote internacional à marca, embora exista uma consciência pública crescente sobre as mortes de 28 de maio. Talvez porque Bola Oyinbo careça das ligações internacionais de Ken Saro-Wiwa, a morte de dois colegas inicialmente não foi sequer noticiada fora da imprensa nigeriana. E é uma triste ironia que a Chevron tenha indubitavelmente se beneficiado do fato de que os militantes tomaram a decisão estratégica de concentrar sua critica na Shell, em vez de na indústria do petróleo nigeriano como um todo. Isso aponta para uma das limitações mais significativas e às vezes exasperadoras da política baseada na marca.