Cresce o mau humor (livro No Logo)

Aqui voce confere um trecho do livro No Logo, de Naomi Klein.

Por trás dos protestos do lado de fora da Nike Town, por trás da torta na cara de Bill Gates e a garrafa atirada na janela do McDonald's em Praga, há algo demasiado visceral a ser identificado na maioria das medidas convencionais - uma espécie de aumento do mau humor. E o seqüestro corporativo do poder político é tão responsável por esse humor quanto a ocupação cultural pelas marcas do espaço público e mental.

cresce o mau humor

A nova militância anti-corporação

  • A terra não está morrendo, está sendo morta. E aqueles que a estão matando têm nomes e endereços. - Utah Phillips
  • Como vamos dizer ao Steve que seu pai explora trabalhadores? - Tori Spelling, como a personagem Donna em Beverly Hills 90210 (Barrados no baile), depois de descobrir que sua própria linha de roupas de grife era fabricada por mulheres imigrantes em uma fábrica que explorava trabalhadores em Los Angeles, 15 de outubro de 1997

Enquanto a última metade da década de 1990 viu o enorme crescimento da onipresença das marcas, um fenômeno paralelo surgiu nas margens: uma rede de militantes ambientalistas, trabalhistas e pelos direitos humanos determinados a expor o dano que existia por trás da superfície brilhante. Dezenas de novas organizações e publicações têm sido fundadas com o único propósito de "expor" as corporações que estão se beneficiando de políticas repressivas de governos em todo o planeta.

Grupos mais antigos, antes concentrados em monitorar os governos, reconfiguraram seus objetivos de modo que seu papel primário é identificar violações cometidas por corporações multinacionais. Como observa John Vidal, editor de meio ambiente do Guardian, "Muitos ativistas estão grudando como sanguessugas no corpo das empresas".

Essa ligação de sanguessuga assume muitas formas, do socialmente respeitável a atividades que beiram o terrorismo. Desde 1994, o Program on Corporations, Law Et Democracy de Massachusetts, por exemplo, vem desenvolvendo alternativas políticas com a atribuição de "contestar a autoridade de corporações para governar". A Corporate Watch, de Oxford, enquanto isso, dedica-se a pesquisar - e ajuda outros a pesquisar - o crime corporativo. (Não confundir com a Com a Corporate Watch de San Francisco, que surgiu mais ou menos na mesma época com uma missão quase idêntica para os EUA..)

logo nikeJUSTICE. DO IT NIKE! é um grupo de militantes brigões do Oregon dedicados a culpar a Nike por suas práticas trabalhistas em seu próprio quintal. O Yellow Pages, por outro lado, é uma conspiração internacional clandestina de hackers que declararam guerra às redes de computador daquelas corporações que conseguiram, por lobby, desvincular os direitos humanos nos do comércio com a China. "Na verdade, os homens de negócios começaram a ditar a política externa", diz Blondie Wong, diretora da Hong Kong Blondes um grupo de hackers chineses pró-democracia agora no exílio. "Privilegiando o lucro em detrimento da consciência, as empresas impuseram obstáculos a nossa luta e assim passaram a ser nossos opressores também."

Assumindo uma abordagem claramente de tecnologia inferior (alguns diriam mesmo primitiva) está o belga Noel Godin e seu bando global de arremessadores políticos de tortas.

logo microsoftEmbora os políticos e estrelas de cinema tenham encarado tortas voadoras, o setor corporativo tem sido seu principal alvo: o CEO da Microsoft, Bill Gates; o CEO da Monsanto, Robert Shapiro; o CEO da Chevron, Ken Derr; o diretor da Organização Mundial de Comércio, Renato Ruggiero, todos foram atingidos, bem como o arquiteto do livre comércio global, Milton Friedman. "A suas mentiras, respondemos com tortas", diz Agent Blueberry, da Biotic Baking Brigade.

A novidade se tornou tão incontrolável que em maio de 1999 a Tesco, uma das maiores cadeias de supermercado da Inglaterra, conduziu uma série de testes em suas tortas para ver quais delas seriam melhores para esse tipo de ataque.

logo tesco"Gostamos de estar em dia com o que os clientes estão fazendo, e é por isso que temos de fazer o teste", disse a porta-voz da empresa Melodie Schuster. Sua recomendação: "A torta de creme proporciona uma completa cobertura do rosto."

Ah, e fique tranqüilo, pois nenhuma torta da Tesco contém ingredientes que tenham sido geneticamente modificados. A cadeia proibiu estes produtos um mês antes - uma resposta a um maremoto de sentimento anticorporação dirigido à Monsanto e a outras gigantes do setor agrícola. Como veremos mais tarde, a Tesco tomou a decisão de se dissociar dos alimentos geneticamente modificados depois que vários protestos contra "comida Frankenstein" foram feitos à sua porta - parte de uma estratégia cada vez mais popular entre grupos de militantes.

Comícios políticos, que no passado previsivelmente aconteceriam diante de prédios do governo e consulados, agora provavelmente ocorrerão em frente das lojas de gigantes corporativos: nas calçadas de Nike Town, Foot Locker, Disney Store e postos da Shell; no telhado da sede da Monsanto ou da British Petroleum; em shoppings e franquias da Gap; e até em supermercados. Em resumo, o triunfo da globalização econômica inspirou uma onda de militantes investigativos seguros e high-tech que têm uma tendência tão global quanto as empresas que investigam.

Essa forma poderosa de militância vai muito além dos sindicatos tradicionais de comerciários. Seus membros são jovens e velhos; vêm de escolas básicas e universidades que sofrem de fadiga de branding e de grupos religiosos com grandes carteiras de investimento, preocupados com a possibilidade de as corporações estarem se comportando de forma "pecaminosa". São pais preocupados com a devoção servil de seus filhos a "tribos de logo", e são também a intelligentsia política e o pessoal do marketing social que está mais preocupado com a qualidade da vida em comunidade do que com o aumento das vendas.

De fato, em outubro de 1997 havia tantos protestos anticorporação diferentes ocorrendo em todo o mundo - contra a Nike, a Shell, a Disney, o McDonald's e a Monsanto - que o Earth First! imprimiu um calendário de última hora com todas as datas-chave e instituiu aqueles mês como o primeiro mês do fim do domínio corporativo, a ser celebrado anualmente. Cerca de um mês depois, The Wall Street Journal publicou uma matéria intitulada "Rápido! São somente 27 dias de protesto até o Natal".

protesto anti marca

"O ano da fábrica exploradora"

logo disneyNa América do Norte, grande parte dessa atividade pode ter sua origem identificada em 1995-96, o período que Andrew Ross, diretor de Estudos Americanos da Universidade de Nova York, chamou de "O ano das fábricas exploradoras". Naquele ano, os norte-americanos não podiam ligar seus aparelhos de TV sem ouvir histórias lamentáveis de exploração de mão-de-obra por trás das grifes mais populares e mais divulgadas do mundo da marca. Em agosto de 1995, a fachada recém-polida da Gap foi novamente arrancada para revelar uma fábrica ilegal em El Salvador, onde o gerente enfrentava protestos do sindicato por demitir 150 pessoas e prometer que "o sangue ia correr" se a sindicalização continuasse.

Em maio de 1996, militantes trabalhistas nos EUA descobriram que a linha roupas esportivas epônima da apresentadora de um programa de TV, Kathie Lee Gifford (vendida exclusivamente na WalMart), estava sendo costurada por uma horrível combinação de mão-de-obra infantil em Honduras e trabalhadores em fábricas ilegais em Nova York. Mais ou menos na mesma época, o jeans Guess, que construiu sua imagem com ardentes fotos em preto e branco da supermodelo Claudia Schiffer, estava em guerra aberta com o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos porque suas fábricas contratadas da Califórnia não pagavam o salário mínimo.

Até Mickey Mouse teve sua dose de exploração de trabalhadores depois que uma contratada da Disney no Haiti foi apanhada fazendo pijamas Pocahontas sob condições de tal empobrecimento que as trabalhadoras tinham de alimentar seus bebês com água com açúcar. Mais atrocidades foram reveladas depois que a NBC exibiu uma matéria invéstigativa sobre a Mattel e a Disney dias antes do Natal de 1996.

logo mattelCom a ajuda de câmeras ocultas, o repórter mostrou que crianças na Indonésia e na China estavam trabalhando praticamente em regime de escravidão, "para que as crianças americanas possam colocar roupas cheias de babadinhos na boneca favorita da América".

Em junho de 1996, a revista Life criou mais ondas, com fotos de crianças paquistanesas - parecendo assustadoramente novas e recebendo a miséria de 6 centavos de dólar por hora - curvadas sobre bolas de futebol que traziam o inconfundível logotipo da Nike. Mas não era só a Nike. Adidas, Reebok, Umbro, Mitre e Brine fabricavam bolas no Paquistão, onde cerca de 10.000 crianças trabalhavam na indústria, muitas delas vendidas como mão-de-obra escrava sob contrato a seus empregadores e marcadas como gado. As imagens da Life eram tão deprimentes que galvanizaram pais, estudantes e educadores, muitos dos quais colocaram as fotos em placas e as ergueram em protesto nas calçadas de lojas de produtos esportivos nos Estados Unidos e no Canadá.

logo adidasCorrendo ao lado de tudo isso estava a história dos tênis Nike. A saga da Nike começou antes do Ano da Fábrica Exploradora e se tornou cada vez mais forte quando outras controvérsias corporativas foram reveladas ao público. O escândalo tinha perseguido a Nike, e novas revelações sobre as condições de produção revelaram os padrões de migração global da empresa. Primeiro vieram os relatos de punições a sindicatos na Coréia do Sul; quando os contratados partiram e montaram fábricas na Indonésia, os cães de guarda os acompanharam, relatando histórias de salários de fome e intimidação militar de trabalhadores.

Em março de 1996, The New York Times relatou que depois de uma greve ilegal em uma fábrica javanesa, 22 trabalhadores foram demitidos e descobriu-se que um que fora apontado como sindicalista ficou trancado em uma sala ao lado da fábrica e foi interrogado por soldados por sete dias. Quando a Nike começou a tranferir a produção para o Vietnã, as acusações se mudaram com ela, com testemunhos em vídeo de fraude salarial e trabalhadores apanhando na cabeça com bicos de calçados. Quando a produção se transferiu finalmente para a China, as controvérsias sobre os salários e o estilo de gerenciamento "campo de treinamento militar" das fábricas a seguiram de perto.

logo gapNão são apenas as supermarcas e as celebridades que as endossam que sentiram o golpe do Ano da Fábrica Exploradora - cadeias de lojas de roupas, grandes varejistas e lojas de departamentos também se viram responsabilizados pelas condições sob as quais são produzidos os brinquedos e roupas expostos em suas prateleiras. A questão voltou para a América em agosto de 1995, quando um complexo de apartamentos em El Monte, Califórnia, sofreu uma batida do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos. Setenta e duas trabalhadoras tailandesas do setor de vestuário estavam sendo mantidas presas em regime de escravidão - algumas estavam no recinto há sete longos anos.

O proprietário da fábrica era peixe pequeno no setor, mas as roupas que as mulheres costuravam eram vendidas por gigantes do varejo como a Target, a Sears e a Nordstrom. É a WalMart, contudo, que mais freqüentemente vem sofrendo reveses desde que as fábricas que exploram os trabalhadores fizeram seu grande retorno nos anos 90.

A WalMart, a maior varejista do mundo, é a principal distribuidora de muitos bens de marca que atraíram controvérsia: linha de roupas Kathie Lee Gifford, pijamas da Disney feitos no Haiti, roupas produzidas por crianças em Bangladesh, brinquedos e artigos esportivos produzidos em regime de exploração em fábricas na Ásia.

Por que, perguntam os consumidores, se a WalMart tinha o poder de reduzir os preços, alterar capas de CD e influenciar o conteúdo de revistas, não usou o mesmo poder para impor a seus fornecedores o cumprimento de padrões de trabalho éticos? Embora as revelações tenham chegado à imprensa isoladamente, os incidentes acabaram reunidos para nos dar uma rara visão do que oculta o capuz da América de marca. Poucos gostaram do que viram.

logo walmartA combinação perturbadora de marcas celebradas e condições de produção cruéis transformou a Nike, a Disney e a WalMart, entre outras, em metáforas poderosas para uma nova e brutal forma de fazer negócios.

Em uma só imagem, a exploração de mão-de-obra da produção de marca conta a história das obscenas disparidades da economia global: executivos corporativos e celebridades recebendo salários tão altos que desafiam a compreensão, bilhões de dólares gastos em branding e publicidade - sustentados por um sistema de favelas, fábricas miseráveis e a miséria e expectativas frustradas de jovens mulheres como aquelas que conheci em Cavite, lutando para sobreviver.

O ano do ataque à marca

Gradualmente, o Ano da Fábrica Exploradora se transformou no Ano do Ataque à Marca. Tendo sido apresentados aos trabalhadores que estavam por trás de brinquedos e roupas, os compradores conheceram as pessoas que cultivavam café que bebiam nas Starbucks de seus bairros; de acordo com o Projeto de Educação para o Trabalho Guatemalteco dos Estados Unidos, alguns dos cafés servidos na cadeia de lojas eram cultivados com o uso de mão-de-obra infantil, pesticidas perigosos e salários abaixo do nível de subsistência. Mas foi em um tribunal de Londres, na Inglaterra, que o mundo da marca foi virado pelo avesso da forma mais meticulosa.

logo mcdonald'sO muito divulgado julgamento McLibel começou com a tentativa do McDonald's, em 1990, de impedir a circulação de um folheto que acusava a empresa de um grande número de abusos - de arruinar sindicatos a exaurir florestas tropicais e poluir as ruas da cidade. O McDonald's negou as acusações e processou dois ambientalistas de Londres por difamação. Os militantes se defenderam sujeitando o McDonald's ao equivalente corporativo de uma colonoscopia: o caso durou sete anos, e nenhuma infração cometida pela empresa foi considerada pequena demais para levá-la aos tribunais ou divulgá-la na internet.

As alegações dos réus do McLibel sobre segurança alimentar combinavam com outro movimento anticorporação que teve início na Europa na mesma época: a campanha contra a Monsanto e suas safras agrícolas biomodificadas. No centro dessa disputa estava a recusa da Monsanto de informar os consumidores quais alimentos levados por eles aos supermercados eram produtos de engenharia genética, dando origem a uma onda de ação direta que incluiu a destruição de safras-teste da Monsanto. Como se não fosse o bastante, as multinacionais também se viram sob o microscópio por seu envolvimento com alguns dos regimes mais violentos e opressivos mundo: Birmânia, Indonésia, Colômbia, Nigéria e o Tibete ocupado pelos chineses.

A questão não era de forma alguma nova mas, como as campanhas do McDonald's e da Monsanto, alcançou uma nova proeminência de meados ao final dos anos com grande parte da atividade dirigida contra a grande quantidade de marca familiares que operavam na Birmânia (agora oficialmente conhecida como Myanmar). O golpe sangrento que levou ao poder da Birmânia o atual regime militar ocorreu em 1988, mas a consciência internacional sobre as brutais condições no país asiático aumentou vertiginosamente em 1995, quando a líder de oposição e prêmio Nobel Aung San Suu Kyi foi libertada depois de seis anos de prisão domiciliar.

Em um apelo gravado em vídeo e contrabandeado para fora do país, Suu Kyi condenava os investidores estrangeiros por apoiar a junta que desprezou a esmagadora vitória eleitoral de seu partido em 1990. As empresas que operavam na Birmânia, declarava ela, estavam lucrando direta ou indiretamente com os campos de trabalho escravo administrados pelo Estado. "Os investidores estrangeiros devem perceber que não pode haver crescimento econômico e oportunidades na Birmânia até que se chegue a um acordo quanto ao futuro político do país."

logo pepsiA primeira resposta de militantes dos direitos humanos foi fazer lobby junto aos governos da América do Norte, da Europa e da Escandinávia para impor sanções comerciais ao governo birmanês. Quando isso não foi suficiente para deter o fluxo de comércio, eles começaram a se voltar para as empresas sediadas nos países dos ativistas. Na Dinamarca, os protestos se concentraram na cervejaria nacional, a Carlsberg, que tinha assinado um grande contrato para construir uma cervejaria na Birmânia. Na Holanda, o alvo foi a Heineken; nos Estados Unidos e no Canadá, Liz Claiborne, Unocal, Disney, Pepsi e Ralph Lauren ficaram na mira.

Mas o marco mais significativo no crescimento da militância anticorporação também aconteceu em 1995, quando o mundo perdeu Ken Saro-Wiwa. O reverenciado escritor e líder ambientalista nigeriano foi preso pelo regime opressivo de seu país por ser ponta-de-lança da campanha do povo ogoni contra os devastadores efeitos humanos e ecológicos da perfuração de petróleo da Royal Dutch/ Shell no delta do Níger. Grupos de direitos humanos pressionaram seus governos para que interferissem, e algumas sanções econômicas foram impostas, mas tiveram pouco efeito. Em novembro de 1995, Saro-Wiwa e outros oito militantes ogonis foram executados por um governo militar que enriqueceu com o dinheiro do petróleo da Shell e com o uso da repressão sobre seu povo.

O Ano do Ataque à Marca se estendeu por dois anos, depois três e agora não mostra sinais de recuo. Em fevereiro de 1999, um novo relato revelava que trabalhadores que costuravam roupas Disney em várias fábricas chinesas estavam ganhando apenas 13,5 centavos de dólar por hora e eram obrigados a fazer horas extras. Em maio de 1999, o programa 20/20 da ABC voltou à ilha de Saipan e trouxe de volta uma reportagem sobre jovens mulheres presas em fábricas exploradoras costurando para Gap, Tommy Hilfiger e Polo Ralph Lauren. Vieram à tona novas revelações sobre choques violentos em torno de atividades de perfuração da Chevron no delta do Níger, e sobre planos da Talisman Energy de fazer poços em território disputado no Sudão arrasado pela guerra.

O volume e a tenacidade do ultraje público dirigido contra elas têm surpreendido as corporações, em grande parte porque as atividades pelas quais elas foram condenadas não eram particularmente novas. O McDonald's nunca foi amigo do trabalhador pobre; as petrolíferas têm uma longa e ininterrupta história de colaboração com governos repressores para extrair recursos valiosos com pouca preocupação para com as pessoas que vivem próximo dessas áreas; a Nike vem produzindo seus tênis em fábricas exploradoras na Ásia desde o inicio dos anos 70, e muitas cadeias de roupas têm feito o mesmo há muito mais tempo. Como escreve Bob Ortega, do Wall Street Journal, os sindicatos de trabalhadores vêm coletando evidências de mão-deobra infantil em Bangladesh na fabricação de roupas vendidas na WalMart desde 1991, "Mas embora os sindicatos tenham fotografias de crianças nas linhas de montagem (...) as acusações não foram muito eficazes, na imprensa ou na televisão".

Obviamente, grande parte do atual foco nos abusos das empresas teve a ver com a tenacidade de militantes que se organizaram em torno dessas questões. Mas, uma vez que muitos dos abusos que foram destacados têm sido praticados por décadas, o maremoto atual de resistência levanta a questão: Por que agora? Por que o período 1995-96 se tornou o Ano da Fábrica Exploradora, transformado logo em seguida no Ano do Ataque à Marca? Por que não 1976, 1984, 1988, ou, talvez o mais pertinente de todos, por que não 1993? Foi em maio daquele ano que a fábrica de brinquedos Kader em Bangkok ruiu em chamas. O prédio era um exemplo de falta de segurança contra incêndios, e quando as pilhas de pelúcia pegaram fogo, as chamas atravessaram a fábrica fechada, matando 188 trabalhadores e ferindo outros 469.

A Kader sofreu o pior incêndio da história da indústria, levando mais vidas do que o incêndio da Triangle Shirtwaist Company, que matou 146 jovens trabalhadores na cidade de Nova York em 1911. Os paralelos entre a Triangle e a Kader - separadas por meio mundo e 82 anos do chamado desenvolvimento - são deprimentes: foi como se o tempo não tivesse passado, mas simplesmente mudado de lugar. Na Triangle, como na Kader, quase toda a força de trabalho era composta de jovens mulheres - algumas com 15 anos, mas a maioria em torno de 19.

Um relatório publicado depois do incêndio da Triangle revelou que a maioria dos mortos era de imigrantes italianos e russos, e quase a metade tinha vindo à América antes de suas famílias, em busca de emprego para financiar as viagens de pais e parentes - uma situação demasiado similar à dos camponeses migrantes que pereceram na Kader. Como na fábrica da Kader, o prédio da Triangle pedia para sofrer um acidente, com saídas de incêndio falsas, pilhas de material inflamável e portas que permaneciam fechadas o dia todo para manter os sindicalistas do lado de fora. Como as jovens trabalhadoras da Kader, muitas garotas na Triangle se enrolaram nas roupas e saltaram das janelas da fábrica para encontrar a morte - desta forma, raciocinaram elas, suas famílias poderiam pelo menos conseguir identificar os corpos.

Um repórter do New York World descreveu a horrível cena na Triangle. "De repente algo que parecia um fardo de roupa escura foi atirado de uma janela do oitavo andar. (...) Depois outra aparente trouxa de roupas arremeteu da mesma janela, mas desta vez uma rajada de vento abriu as roupas e da multidão de quinhentas pessoas partiu um grito de horror. O vento revelou a forma de uma garota caindo no momento de sua morte."

O incêndio da Triangle Shirtwaist Company foi o incidente que definiu o primeiro movimento contra o abuso da mão-de-obra nos Estados Unidos. Ele catalisou centenas de milhares de trabalhadores para a militância e promoveu uma resposta do governo que mais tarde levou a um máximo de 54 horas de trabalho, nenhum trabalho após as 21:00 horas e inovações nas regulamentações de saúde e prevenção de incêndio. Talvez o avanço mais significativo como resultado do incêndio tenha sido a introdução do que hoje seria chamado de monitoramento independente - a base da Comissão de Investigação de Fábricas de Nova York, que foi autorizada a fazer batidas surpresa em operadoras suspeitas de exploração abusiva de mão-de-obra.

E o que resultou das 188 mortes no incêndio da Kader? Infelizmente, apesar do fato de vários grupos internacionais de trabalho e desenvolvimento terem denunciado a fábrica ilegal, a Kader não se tornou um símbolo da necessidade desesperada de reformas como acontecera no caso da Triangle Shirtwaist.

Em One World, Ready or Not, William Greider descreve a visita à Tailândia e o encontro com vítimas e militantes que tinham lutado muito por uma reparação. "Alguns tinham a impressão de que um boicote mundial de produtos da Kader estava acontecendo, organizado por americanos e europeus com a consciência pesada. Tive de lhes informar que o mundo civilizado mal percebeu sua tragédia. (...) Um incêndio em Bangkok era como um tufão em Bangladesh, um terremoto na Turquia."

Pouco surpreende, então, que somente seis meses depois tenha ocorrido outro incêndio devastador em uma fábrica exploradora - desta vez uma fábrica de brinquedos Zhili em Shenzhen, na China - levando consigo a vida de outros 87 trabalhadores. Na época, a comunidade internacional parecia não se dar conta de que os brinquedos que as mulheres da Kader costuravam destinavam-se às agradáveis prateleiras da Toys 'R' Us, a ser embalados e colocados sob árvores de Natal na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá. Muitos noticiários sequer chegaram a mencionar os nomes das marcas que eram costuradas na fábrica.

Como escreve Greider "O incêndio na Kader poderia ter mais significado para os americanos se eles pudessem ver os milhares de bonecos manchados de fuligem jogados pelos destroços, retalhos macabros entre os mortos. Pernalonga, Bart Simpson e os Muppets. Garibaldo e outros bonecos da Vila Sésamo. 'Water Pets' da Playskool".

Mas em 1993 pouca gente no Ocidente - e certamente ninguém na midia ocidental - estava pronta para fazer a ligação entre o prédio incendiado em Bangkok, confinado à página 6 ou à 10 de seus jornais, e os brinquedos de marca que enchiam os lares americanos e europeus. Hoje isso não acontece mais. O que houve em 1995 foi uma espécie de "despertar" coletivo por parte da mídia e do público. A resposta cumulativa às histórias de horror de trabalho nas prisões chinesas, às cenas de garotas adolescentes recebendo uma miséria nas maquiladoras mexicanas e ardendo em chamas em Bangkok foi uma mudança lenta mas perceptível na visão que as pessoas do Ocidente têm dos trabalhadores do mundo em desenvolvimento. "Eles estão tirando nossos empregos" está dando lugar a uma reação mais humana: "Nossas corporações estão roubando suas vidas."

Grande parte disso tem a ver com noção de oportunidade. As preocupações expressas sobre trabalho infantil na índia e no Paquistão permaneceram no nível de uma lengalenga contínua por mais de uma década. Mas em 1995, a relação entre políticas de comércio e direitos humanos tinha sido eliminada dos programas da maioria dos governos, e quando Craig Kielburger, de 30 anos, deliberadamente interrompeu a missão comercial do primeiro-ministro canadense Jean Chrérien à índia para falar das crianças que estavam trabalhando em regime de escravidão, o problema parecia inoportuno e exótico. Além disso, na América do Norte, a usurpação total da política externa pelo programa de livre comércio provocou uma ruptura - o mundo estava pronto para ouvir.

O mesmo é verdade sobre o crime corporativo em geral. Pode não ser novidade nenhuma que bens de consumo sejam produzidos sob condições opressivas, mas o que é claramente novo é o papel tremendamente maior que as empresas de bens de consumo estão desempenhando em nossa cultura. A militância anticorporação está crescendo porque muitos de nós sentem, mais intensamente do que nunca, as ligações internacionais de nome de marca que cruzam o globo - e a sentimos precisamente porque nunca tivemos um mundo "marcado" como o que temos hoje.

O branding, como vimos, assumiu uma relação direta entre vendedor e comprador e - através da tentativa de transformar marcas em provedores de mídia, produtores de arte, praças públicas e filósofos sociais - tem se transformado em algo muito mais invasivo e profundo.

logo starbucksNa década passada, multinacionais como Nike, Microsoft e Starbucks procuraram se transformar nos mais importantes comunicadores de tudo que é bom e prazeroso em nossa cultura: arte, esportes, comunidade, conexão, igualdade.

Mas quanto mais bem-sucedido é o projeto, mais vulneráveis essas empresas se tornam: se as marcas estão mesmo intimamente enredadas em nossa cultura e nossa identidade, quando elas dão errado, seus crimes não são desprezados como apenas uma má conduta de outra corporação tentando ganhar dinheiro. Em vez disso, muitas pessoas que habitam seus mundos de marca sentem-se cúmplices de seus erros, culpadas e conectadas.

Mas essa conexão é volátil: não é a lealdade no velho estilo entre empregado vitalício e chefe corporativo; em lugar disso, é uma conexão mais aparentada com o relacionamento de fã e celebridade: emocionalmente intensa, mas superficial o bastante para não ter valor algum. Essa volatilidade é a conseqüência involuntária de gerentes de marca esforçando-se para ter uma intimidade sem precedentes com o consumidor enquanto forjam um papel mais informal com a força de trabalho.

protesto starbucksPara alcançar o nirvana de marcas-não-produtos, essas empresas têm perdido duas coisas que podem se provar mais preciosas a longo prazo: a alienação do consumidor de suas atividades globais e o investimento do cidadão em seu sucesso econômico. Isso nos conquistou durante algum tempo, mas se outro Kader acontecesse amanhã, a primeira pergunta que os jornalistas fariam seria: "Que brinquedos estavam sendo produzidos?", "Para onde estavam sendo embarcados?" ou "Que empresas contrataram a fábrica?" Os militantes trabalhistas na Tailândia entrariam em imediata comunicação com os grupos de solidariedade em Hong Kong, Washington, Berlim, Amsterdã, Sidney, Londres e Toronto. E-mails seriam disparados da Campaign for Labor Rights de Washington, da Clean Clothes Campaign de Amsterdã e encaminhados através de uma rede de web sites, listas de discussão e fax.

O National Labor Committee, a UNITE!, a Labour Behind the Lab Coalition e o World Development Movement organizariam protestos em frente de lojas Toys 'R' Us, gritando: "Nossos filhos não precisam de brinquedos manchado de sangue!" Estudantes universitários se caracterizariam como os personagens de desenho animado de sua infância e distribuiriam panfletos comparando o pagamento do Pernalonga em Space Jam com o custo de construir uma saida de incêndio na Kader. Seriam programadas reuniões com associações nacionais de fabricantes de brinquedos; novos e mais rigorosos códigos de conduta seriam levados em consideração. A mente do público é não apenas capaz de, mas ansiosa por fazer as conexões globais que William Greider buscou mas não encontrou depois do incêndio da Kader.

logo nestleEmbora a militância anticorporação esteja conseguindo uma renovação sem paralelo desde os anos 30, ela fez, é claro, algumas importantes campanhas anticorporativas dispersas entre os anos 30 e seu renascimento atual. O avô das modernas ações baseadas em marcas é o boicote contra a Nestlé, que chegou ao auge no final dos anos 70. A campanha atacou a empresa suíça por seu marketing agressivo de dispendiosas fórmulas infantis como uma alternativa "segura" ao aleitamento materno no mundo em desenvolvimento. O caso da Nestlé teve um forte paralelo com o julgamento McLibel (a ser discutido detalhadamente no Capítulo 16), em grande parte porque a questão não cativou o mundo até a empresa de alimentos cometer o erro de processar um grupo de militantes suíço por difamação em 1976.

Como aconteceu no McLibel, o processo judicial resultante colocou a Nestle sob intenso escrutínio e levou a uma campanha internacional de boicote, lançada em 1977.

Os anos 80 viram o maior acidente industrial da história da humanidade: um vazamento maciço de produtos tóxicos em 1984 na fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bhopal, na índia, matou duas mil pessoas imediatamente e levou mais 5 mil vidas nos anos seguintes. Hoje, o grafite no muro da dilapidada e abandona da fábrica diz, "Bhopal = Hiroshima".

Apesar dessa tragédia, amplamente reconhecida como o resultado de segurança negligente, incluindo um sistema de alarme desligado, os anos 80 foram uma temporada de seca para a maioria dos movimentos políticos que questionavam o poder benéfico do capital. Embora houvesse grande reconhecimento durante as guerras da América Central de que as multinacionais americanas estavam apoiando várias ditaduras, o trabalho de solidariedade na América do Norte enfocou primariamente as ações de governos, e não as corporações multinacionais. Como observa um relato do tema, "atacar [as corporações] tendia a ser visto como remanescente da 'tolice dos anos 70'." Houve, entretanto, uma importante exceção a essa regra: o movimento antiapartheid.

Frustrados pela recusa da comunidade internacional de impor sanções comerciais significativas à África do Sul, os militantes antiapartheid desenvolveram uma série de bloqueios alternativos, planejados, se não para evitar que as multinacionais lucrassem com o regime racista, pelo menos para criar inconveniências se eles persistissem em fazê-lo. Estudantes e membros do corpo docente de várias universidades armaram barracas exigindo que as faculdades se livrassem de suas dotações provenientes de qualquer empresa que fizesse negócios com a nação africana.

Grupos religiosos irromperam em reuniões corporativas de acionistas com pedidos de imediata retirada, enquanto investidores mais moderados pressionavam os conselhos corporativos a adotarem os princípios de Sullivan - um conjunto de regras para empresas na África do Sul que simulavam minimizar sua cumplicidade com o regime de apartheid. Enquanto isso, sindicatos retiravam suas pensões e contas bancárias de instituições que faziam empréstimos ao governo sul-africano, e dezenas de governos municipais aprovaram acordos de compras seletivas cancelando grandes contratos com empresas que investiam na África do Sul.

O bloqueio mais criativo foi erguido pelo movimento internacional de sindicatos de trabalhadores. Várias vezes por ano, os sindicatos determinariam um dia de ação, durante o qual os estivadores se recusavam a descarregar a carga que vinha da África do Sul, e os agentes de passagens de companhias áreas se recusavam a reservar vôos para e de Johannesburgo. Nas palavras do organizador da campanha, Ken Luckhardt, os trabalhadores tornaram-se "ativistas à beira da produção".

Embora existam claras similaridades, há somente uma importante diferença entre as ações contra o apartheid e o tipo de campanha anticorporação que ganha impulso hoje. O boicote à África do Sul foi uma campanha anti-racista que o comércio (seja a importação de vinho ou a exportação de dólares da General Motors) como um instrumento para derrubar o sistema sulafricano.

logo general motorsMuitas campanhas anticorporação atuais estão também enraizadas em um ataque político - mas o que eles estão atacando é muito mais um sistema econômico global do que uma política nacional.

Durante os anos do apartheid, empresas como a Royal Bank of Canada, Barclays Bank na Inglaterra e General Motors foram em geral consideradas forças moralmente neutras que por acaso se envolveram um governo anormalmente racista. Hoje, mais e mais participantes de campanhas estão culpando as multinacionais e as políticas que lhes dão rédeas soltas como a causa básica das injustiças políticas em todo o planeta. Às vezes as empresas cometem essas violações em conluio com os governos, às vezes as cometem apesar dos melhores esforços dos governos. Essa crítica sistêmica foi adotada, nos últimos anos, por vários grupos de direitos humanos estabelecidos, como a Anistia Internacional, o PEN e o Human Rights Watch, bem como por organizações de direitos ambientais como o Sierra Club. Para muitas destas organizações, isso representa uma significativa mudança na política.

Até meados dos anos 80, o investimento corporativo externo no Terceiro Mundo era visto na comunidade de desenvolvimento dominante como essencial para aliviar a pobreza e a miséria. Em 1996, contudo, esse conceito foi abertamente questionado, e reconheceu-se que muitos governos no mundo em desenvolvimento estavam protegendo investimentos lucrativos - minas, represas, campos petrolíferos, usinas elétricas e zonas de processamento de exportação - deliberadamente fazendo vista grossa a violações flagrantes dos direitos por corporações estrangeiras contra seu povo. E no entusiasmo pelo comércio intensificado, as nações ocidentais, onde a maioria dessas corporações ofensivas estava sediada, também escolheram olhar para o outro lado, relutantes em arriscar sua competitividade global em função dos problemas de outro país qualquer.

O resultado foi que em regiões da Ásia, da América Central e do Sul e da África, a promessa de que o investimento traria maior liberdade e democracia estava começando a parecer uma brincadeira cruel. E pior: em um caso após outro, viam-se corporações estrangeiras solicitando, e até contratando diretamente, policiais e militares locais para desempenhar tarefas repugnantes, como expulsar camponeses e tribos de sua terra, punir greves de trabalhadores de fábricas e prender e matar manifestantes pacíficos - tudo em nome da salvaguarda do fluxo suave do comércio. As corporações, em outras palavras, estavam tolhendo o desenvolvimento humano, em vez de contribuírem para ele. Arvind Ganesan, pesquisador do Human Righs Watch, é rude sobre o que sua organização classifica como "uma mudança nos termos do debate sobre a responsabilidade corporativa pelos direitos humanos".

Em vez da melhoria dos direitos humanos através do aumento do comércio, "os governos ignoram os direitos humanos em favor de vantagens comerciais". Ganesan assinala que a separação entre investimento e melhoria dos direitos humanos é hoje mais evidente Nigéria, onde uma transição há muito esperada para a democracia foi acoplada a uma onda renovada de brutalidade militar contra as comunidades do delta do Níger que protestam contra as empresas petrolíferas. A Anistia Internacional, distanciando-se de seu foco em prisioneiros perseguidos por suas convicções religiosas ou políticas, está também começando a tratar as corporações multinacionais como grandes responsáveis pela violação dos direitos humanos em todo o mundo.

Cada vez mais, os recentes relatórios da Anistia têm revelado que pessoas como o falecido Ken Saro-Wiwa têm sido perseguidas em função do que um governo vê como uma atitude desestabilizadora anticorporação. Em um relatório de 1997, o grupo documenta o fato de que aldeões indianos e membros de povos tribais foram violentamente presos, e alguns mortos, por resistirem pacificamente à implantação de usinas de eletricidade privadas e hotéis de luxo em suas terras. Um país democrático, em outras palavras, estava se tornando menos democrático como resultado da intervenção corporativa. "O desenvolvimento", alertou a Anistia, está "sendo buscado à custa dos direitos humanos (...)".

Esse padrão realça o grau ao qual as autoridades centrais e estaduais na Índia estão preparadas para utilizar a força do Estado e utilizar disposições legais no interesse dos projetos de desenvolvimento, restringindo o direito de liberdade de associação, expressão e reunião. As medidas da índia para liberalizar sua economia e implantar novas indústrias e infra-estrutura têm, em muitas áreas, marginalizado e deslocado comunidades e contribuído para violações maiores de seus direitos humanos.

A situação da Índia, declara o relatório, não é "a única ou a pior" de todas, mas é parte de uma tendência a desconsiderar os direitos humanos em favor do "desenvolvimento" da economia global.

Onde o poder está

logo shellNo coração dessa convergência de militância anticorporação e pesquisa está o reconhecimento de que as corporações são muito mais que fornecedoras dos produtos que todos queremos; elas são também as forças políticas mais poderosas de nossa época. Agora, todos ouvimos as estatísticas: como corporações como Shell e a WalMart têm orçamentos maiores do que o produto interno bruto de muitas nações; como, das 100 maiores economias, 51 são multinacionais e somente 49 são países.

Temos lido (ou ouvido falar) de como um punhado de CEOs poderosos estão escrevendo as novas regras para a economia global, engendrando o que o escritor canadense John Ralston Saul chamou de "um coup d'état em câmera lenta". Em seu livro sobre o poder corporativo, Silent Coup, Tony Clark leva essa teoria um passo adiante quando afirma que os cidadãos devem atacar as corporações não porque não gostem de seus produtos, mas porque as corporações têm se tornado os organismos políticos dominantes de nossa época, estabelecendo o programa de globalização.

Devemos enfrentá-las, em outras palavras, porque é lá que o poder está. Assim, embora a mídia freqüentemente descreva campanhas como aquela contra a Nike como "boicotes do consumidor", isso conta apenas uma parte da história. É mais preciso descrevê-las como campanhas políticas que usam os bens de consumo como alvos prontamente acessíveis, como alavancas de relações públicas e ferramentas de educação popular. Em contraste com os boicotes de consumidores dos anos 70, há um relacionamento mais difuso entre escolhas de estilo de vida (o que comer, o que fumar, o que vestir) e a questão maior de como a corporação global - seu porte, influência política e falta de transparência - está reorganizando a economia mundial.

Por trás dos protestos do lado de fora da Nike Town, por trás da torta na cara de Bill Gates e a garrafa atirada na janela do McDonald's em Praga, há algo demasiado visceral a ser identificado na maioria das medidas convencionais - uma espécie de aumento do mau humor. E o seqüestro corporativo do poder político é tão responsável por esse humor quanto a ocupação cultural pelas marcas do espaço público e mental. Também prefiro pensar que isso não tem relação cor arrogância do branding em si: as sementes do descontentamento são parte de seu próprio DNA.

  • - Olha, Mike, existe um mercado real para a verdade sobre a Nike... Nosso produto de estréia será um banco de dados proprietário da exploração de trabalhadores pela Nike! Vejo uma presença na web e um CD-ROM de estatísticas, depoimentos de trabalhadores, relatórios de direitos humanos e vídeos de câmeras ocultas.
  • - Tipo produto de nicho, não é?
  • - Não. Será descomunal!

Assim era um diálogo em uma tirinha de Doonesbury, de Gary Trudeau - e é uma piada com uma forte alfinetada. Os ataques contínuos a marcas como Nike, Shell e McDonald's não apenas refletem a genuína indignação com as fábricas que exploram mão-de-obra, os derramamentos de óleo e a censura corporativa, eles também refletem a que tamanho chegou o público antagonista. O desejo (e a capacidade) de reafirmar o livre mal-estar anticorporativo com fatos legítimos, números e histórias da vida real é tão disseminado que chega a transcender velhas rivalidades dentro dos movimentos sociais e ecológicos.

O sindicato United Food and Commercial Workers, que começou a se voltar contra a WalMart por causa de seus baixos salários e táticas de destruição de sindicatos, agora coleciona e divulga informações sobre as lojas da WalMart que estão sendo construídas em áreas sagradas de sepultamento dos nativos americanos. Desde quando um sindicato de trabalhadores de armazéns considerou as reivindicações indígenas de terras? Desde que a destruidora WalMart começou a dar motivos em si e por si mesma.

Por que os ecoanarquistas de Londres por trás do julgamento McLibel - que não acreditam em trabalhar para o Homem de forma alguma - tomaram as dores de trabalhadores adolescentes do McDonald's? Porque, para eles, este é outro ângulo do qual atacar a besta dourada. O pano de fundo político para esse fenômeno é bem conhecido.

Muitos movimentos de cidadãos vêm tentando reverter as tendências econômicas conservadoras na última década elegendo governos liberais, trabalhistas ou social-democratas, somente para descobrir que a política econômica continua inalterada ou serve ainda mais diretamente aos caprichos das corporações globais. Séculos de reformas democráticas que ganharam maior transparência no governo subitamente parecem ineficazes no novo clima de poder multinacional. Que bem podia haver em um parlamento ou congresso abertos e responsáveis se corporações opacas estavam estabelecendo o programa político global nos bastidores? A desilusão com o processo político foi ainda mais pronunciada no cenário internacional, onde tentativas de regulamentar multinacionais por meio das Nações Unidas e de organismos de regulamentação comercial têm sido bloqueadas a cada tentativa.

Um significativo contratempo veio em 1986, quando o governo dos Estados Unidos efetivamente matou a pouco conhecida Comissão sobre Corporações Transnacionais das Nações Unidas. Criada em meados dos anos 70, a comissão tinha a intenção de elaborar um código universal de conduta para corporações multinacionais. Sua meta era evitar os abusos corporativos como lançamento pelas empresas, no Terceiro Mundo, de drogas que eram ilegais no Ocidente; examinar o impacto ambiental e no trabalho de fábricas de exportarão e extração de recursos; e pressionar o setor privado a mostrar maior transparência e responsabilidade.

O mérito dessas metas parece evidente por si mesmo hoje, mas a comissão, de muitas formas, foi um desastre em sua época. A indústria americana se opôs a sua criação desde o início, e no coração da mania da Guerra Fria conseguiu garantir a oposição do governo com base no argumento de que a comissão era uma conspiração comunista e que os soviéticos a estavam usando para fins de espionagem. Por que, perguntaram eles, as empresas do bloco soviético não estavam sujeitas à mesma devassa que as empresas americanas?

Durante essa época, a crítica dos abusos de corporações multinacionais era tão atada à paranóia anticomunista que quando aconteceu a tragédia em Bhopal em 1984, a reação imediata de um funcionário da embaixada dos EUA em Nova Deli não foi demonstrar horror, mas dizer, "É uma festa para os comunistas. Vão falar nisso por semanas".

Mais recentemente, tentativas de obrigar a Organização Mundial do Comércio a incluir o cumprimento de leis trabalhistas básicas como uma condição para o comércio global têm sido rejeitadas pelas nações que o compõem, que insistem que tal imposição é tarefa da Organização Internacional do Trabalho da ONU. A OIT "é o organismo competente para determinar e lidar com esses padrões, afirmamos nosso apoio a esse trabalho em promovê-los", diz a Declaração Ministerial de Cingapura da OMC de 13 de dezembro de 1996. Contudo, quando a OIT se envolveu em uma iniciativa para elaborar um importante código de core corporativo, ela também foi impedida.

A princípio, esses fracassos em regulamentar o capital deixaram muitos movimentos de reforma e oposição em um estado de quase paralisia: os cidadãos, ao que parecia, tinham perdido seu direito de se manifestar. Lentamente, contudo, um punhado de organizações nãogovernamentais e grupos de intelectuais progressistas têm desenvolvido uma estratégia política que reconhece que as marcas multinacionais, por causa de seu perfil público, podem ser alvos muito mais galvanizadores do que os políticos que eles financiam. E uma vez que as corporações estão sentindo a pressão, aprenderam eles, fica muito mais fácil atrair a atenção de politicos eleitos. Ao explicar por que escolhera dirigir seu ativismo contra a corporação Nike, o militante trabalhista de Washington Jeff Ballinger disse claramente: "Porque temos mais influência sobre uma marca do que sobre nossos próprios governos".

Além disso, acrescenta John Vidal, "Os militantes sempre almejaram as pessoas que têm o poder (...) assim, se o poder sai do governo e vai para a indústria e as corporações transnacionais, as armas serão orientadas contra essas pessoas".

Está surgindo um imperativo comum de movimentos dispares contra as corporações multinacionais: o direito que têm as pessoas de saber. Se as multinacionais se tornaram maiores e mais poderosas que os governos, prossegue o argumento, então por que não deveriam estar sujeitas aos mesmos controles de responsabilidade e transparência que exigimos de nossas instituições públicas? Assim, os ativistas que lutam contra as fábricas que exploram a mão-deobra têm exigido que a WalMart divulgue listas de todas as fábricas no mundo que abastecem a cadeia com produtos acabados.

Estudantes universitários, como veremos no Capítulo 17, estão exigindo a mesma informação sobre fábricas que produzem roupas com os símbolos de sua faculdade. Os ambientalistas, enquanto isso, têm usado os tribunais para devassar o trabalho interno do McDonald's.

logo monsantoE em todo o mundo os consumidores exigem que empresas como a Monsanto forneçam rótulos claros de alimentos geneticamente modificados e abram sua pesquisa a investigação externa. Fazer exigências como essas às empresas privadas, cujo dever legal é para com seus acionistas, gerou um número surpreendente de êxitos.

O motivo é que muitas multinacionais tem um ponto fraco de bom tamanho. Como veremos no próximo capítulo, militantes de todo o mundo estão fazendo uso liberal do mesmo ator que tem sido tema deste livro até agora: a marca. A imagem de marca, a de tanta riqueza corporativa, é também, ao que parece, o calcanhar de Aquiles das empresas.