Resgate as ruas (livro No Logo)

Aqui voce confere um trecho do livro No Logo, de Naomi Klein.

Um tema comum começou a surgir entre as contraculturas em luta: o direito ao espaço não-colonizado - para morar, para árvores, para se reunir, para dançar. O que brotou dessas colisões culturais entre DJs, militantes anticorporações, artistas políticos ou Nova Era e ecologistas radicais pode bem ser o movimento político mais vibrante e de mais rápido crescimento desde 68 em Paris: Reclaim the Streets (RTS, Resgate as ruas).

Resgate as ruas

  • Retrato a realidade em que vivo em termos de ocupação militar. Fomos ocupados, como os franceses e noruegueses foram ocupados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, mas hoje por um exército de profissionais de marketing. Temos de resgatar nosso país das mãos daqueles que o ocuparam em nome de seus mestres globais. - Ursula Franklin, professora emérita, Universidade de Toronto, 1998
  • Isto não é um protesto. Repito. Isto não é um protesto. É uma espécie de expressão artística. E é só. - Chamada ouvida no sistema de rádio da polícia de Toronto em 16 de maio de 1998, data da primeira Global Street Party

É uma das ironias de nossa época que agora, quando a rua se tornou a mercadoria mais quente na cultura da publicidade, a própria cultura das ruas esteja sitiada. De Nova York a Vancouver e Londres, punições policiais por grafites, colocação de pôsteres, mendicância, arte em calçadas, flanelinhas, jardinagem comunitária e vendedores de comida estão rapidamente criminalizando tudo que, na vida de uma cidade, pertencia à rua. Essa tensão entre a mercantilização e a criminalização da cultura das ruas se revelou de uma forma particularmente dramática na Inglaterra. De inicio a meados anos 90, à medida que o mundo da publicidade passou a se utilizar dos sons e imagens da cena rave para vender carros, aviões, refrigerantes e jornais, os legisladores da Grã-Bretanha tornaram todas as raves ilegais, através da Lei de Justiça Criminal de 1994. A lei deu à policia amplos poderes para apreender aparelhos de som e lidar de forma severa com ravers em quaisquer confrontações publicas.

Para lutar contra a Lei de Justiça Criminal, a cena club (antes preocupada em encontrar o próximo lugar onde dançar a noite toda) forjou novas alianças com subculturas mais politizadas que também estavam alarmadas com esses novos poderes da policia. Os ravers se uniram a grileiros que enfrentavam ordens despejo, com os chamados viajantes Nova Era que enfrentavam punições por seu estilo de vida nômade, e com "ecoguerreiros" radicais que lutavam contra a pavimentação de áreas florestais britânicas construindo casas nas árvores e cavando túneis nos caminhos dos tratores.

Um tema comum começou a surgir entre essas contraculturas em luta: o direito ao espaço não-colonizado - para morar, para árvores, para se reunir, para dançar. O que brotou dessas colisões culturais entre DJs, militantes anticorporações, artistas políticos ou Nova Era e ecologistas radicais pode bem ser o movimento político mais vibrante e de mais rápido crescimento desde 68 em Paris: Reclaim the Streets (RTS, Resgate as ruas). Desde 1995, o RTS vem seqüestrando ruas movimentadas, cruzamentos importantes e até trechos de rodovias para reuniões espontâneas.

festa resgate as ruas

Em um momento, uma multidão de festeiros aparentemente improvisados transformam uma artéria de tráfego em um cercadinho de criança surrealista. Eis como funciona. Como a localização das raves originais, o local das festas RTS é mantido em segredo até o dia em que acontece. Milhares se reúnem no lugar de encontro escolhido, do qual partem em massa para um destino conhecido somente por uns poucos organizadores. Antes de a multidão chegar, uma van equipada com um potente sistema de som é sorrateiramente estacionada na rua a ser resgatada. Em seguida, são planejadas algumas formas teatrais de bloquear o trânsito - por exemplo, dois carros velhos deliberadamente batem e uma falsa luta é encenada entre os dois motoristas.

Outra técnica é plantar tripés de andaimes de 6 metros no meio de uma rodovia com um corajoso militante pendurado no alto - a base do andaime evita que os carros passem, mas as pessoas podem circular entre elas livremente; e uma vez que esbarrar no tripé mandaria a pessoa que está no topo direto para o chão, a polícia não tem alternativa a não ser ficar a postos e observar o desenrolar dos acontecimentos. Com o trânsito bloqueado de forma segura, a rodovia é declarada uma "rua aberta". São erguidas placas que dizem "Respire". "Sem carros" e "Resgate o espaço". A bandeira do RTS - um relâmpago com fundo em diversas cores - é hasteada e o sistema de som começa a berrar de tudo, do último hit eletrônico a "What a Wonderful World", de Louis Armstrong. Então surge- aparentemente do nada, o carnaval itinerante dos membros do RTS: cliclistas, homens em pernas de pau, ravers, tambores.

Em festas anteriores, brinquedos infantis foram instalados no meio dos cruzamentos, bem como caixas de areia, balanços, piscinas rasas, sofás, tapetes de lançamento de beisebol e redes de vôlei. Centenas de frisbees voavam pelo ar, houve distribuição gratuita de comida e começou a dança - sobre os carros, nos pontos de ônibus, nos telhados e perto dos sinais de trânsito. Os organizadores descrevem seu sonho acordado como algo que vai da realização de "uma fantasia coletiva" a "uma coincidência em larga escala". Como os adbusters, os participantes do RTS têm transposto a linguagem e as táticas da ecologia radical na selva urbana, exigindo espaço não comercializado na cidade, bem como áreas naturais no país ou nos mares. Nesse espírito, a proeza mais teatral do RTS ocorreu quando 10.000 festeiros ocuparam a M41de Londres, uma via expressa de seis pistas. Duas pessoas vestidas em elaborados trajes de carnaval sentaram-se 9 metros acima da rodovia, empoleiradas em andaimes que foram cobertos por imensas saias-balão.

  • A multidão nos seguiu e a estrada, de um engarrafamento, se transformou em uma rave com centenas de pessoas gritando e exigindo ar puro, transporte público e ciclovias. - Relato por e-mail do RTS, Tel Aviv, Israel, 16 de maio de 1998

resgate as ruas protesto

A polícia ficou a postos sem ter idéia de que por baixo das saias estavam jardineirosguerrilheiros com britadeiras, abrindo buracos na via expressa e plantando mudas de árvores no asfalto. Os membros do RTS - admiradores intransigentes dos situacionistas - chegaram ao que queriam: "Sob o asfalto... uma floresta", uma referência ao slogan da Paris de 68, "Sob as pedras da rua... uma praia". Os eventos levaram a outro nível a filosofia de culture jamming de resgatar o espaço público. Em vez de encher o espaço que não foi ocupado pelo comércio com paródias de anúncios, os membros do RTS tentam enchê-lo com uma visão alternativa de como a sociedade pode ser na ausência de controle comercial.

As sementes do ambientalismo urbano RTS foram plantadas em 1993 na Claremont Road, uma tranqüila rua de Londres que desapareceria sob uma nova via expressa. "A M11 Link Road", explica o membro do RTS John Jordan, "se estenderá de Wanstead a Hackney em East London. Para construí-la, o Departamento de Tranporte teve de derrubar 350 casas, deslocar vários milhares de pessoas, atravessar um dos mais antigos bosques de Londres e arrasar uma comunidade com uma extensão de asfalto de seis pistas ao custo de 240 milhões de libras, aparentemente para economizar seis minutos em uma viagem de carro."

Quando a cidade ignorou a feroz oposição local à rodovia, um grupo de artistas militantes assumiu a responsabilidade de tentar bloquear os tratores, transformando a Claremont Road em uma fortaleza escultural viva. Colocaram sofás nas ruas, penduraram aparelhos de TV nos galhos das árvores, pintaram um tabuleiro de xadrez gigante no meio da estrada e ergueram paródias de outdoors de desenvolvimento urbano em frente das casas previstas para demolição: "Bemvindo a Claremont Road - Casas modelo".

Os militantes se instalaram em castanheiras, ocuparam gindastes de construção, berraram música e mandaram beijos aos policiais e trabalhadores de demolição abaixo deles. As casas agora vazias foram transformadas - ligadas entre si por túneis subterrâneos e recheadas de instalações de arte. Do lado de fora, carros velhos foram pintados com slogans e faixas zebradas e transformados em jardineiras de flores. Os carros não só ficaram mais bonitos como também funcionaram como barricadas eficazes, como uma torre de andaimes de 30 metros construída no telhado de uma das casas. A tática, explica Jordan, não era usar a arte para alcançar fins políticos, mas a transformação da arte em uma ferramenta política pragmática "tanto bela quanto funcional".

Quando a Claremont Road foi resgatada em novembro de 1994, tornou-se a mais criativa, festiva e vibrante rua residencial de Londres. Era "um tipo de microcosmo temporário de uma cultura ecológica verdadeiramente liberada", de acordo com Jordan. Quando todos os militantes foram retirados de suas casas nas árvores e fortalezas, a finalidade da ação - de que as estradas de alta velocidade sugam a vida de uma cidade - tinha conseguido a maior expressão gráfica e a maior eloqüência.

Embora outro grupo tenha usado o mesmo nome alguns anos antes, a encarnação atual do Reclaim the Streets foi formada em maio de 1995, com o propósito expresso de tornar o que aconteceu em Claremont Road um vírus transportado pelo ar que podia se disseminar a qualquer momento, em qualquer lugar na cidade - uma "zona autônoma temporária" ambulante, para usar a expressão cunhada pelo guru anarquista americano Hakim Bey. De acordo com Jordan, a idéia era simples: "Se não podemos mais resgatar a Claremont Road, vamos resgatar as ruas de Londres."

Quinhentas pessoas apareceram na festa RTS na Camden Street em maio de 1995 para dançar com um sistema de som alimentado por uma moto, tambores e apitos. Com a Lei de Justiça Criminal em pleno vigor, a reunião atraiu a atenção da cena rave recém-politizada e uma importante aliança foi formada. No evento seguinte do RTS, 3 mil pessoas apareceram para uma festa na Upper Street, em Islington; dessa vez, dançaram música eletrônica que explodia de dois caminhões equipados com sistemas de som com a qualidade de boates.

A combinação de rave e ódio se mostrou contagiosa, espalhando-se por toda Grã-Bretanha para Manchester, York, Oxford e Brighton, e, no maior evento isolado do RTS até esta data, 20.000 pessoas foram levadas à Trafalgar Square em abril de 1997. Na época, as festas Reclaim the Streets se tornaram internacionais, pipocando em cidades tão distantes como Sidney, Helsinque e Tel Aviv. Cada festa era organizada localmente mas, com a ajuda de listas de e-mail e web sites relacionados, ativistas de diferentes cidades podiam ler relatos de eventos em todo o mundo, trocar estratégias de driblar a policia, informações sobre bloqueios de rodovia eficazes e ler pôsteres, press releases e folhetos uns dos outros.

  • Os anarquistas entre a multidão tiraram vantagem da oportunidade de dar vazão a sua fúria em bancos, joalherias e franquias do McDonald's. Janelas foram quebradas, bombas de tinta arremessadas e slogans antiglobalização grafitados. - Relato por e-mail de RTS, Genebra, Suíça, 16 de maio de 1998

Depois que as câmeras de vídeo e digitais se tornaram os acessórios favoritos das festas de rua, os participantes do RTS também buscaram inspiração em filmes de festas distantes, que circulavam por redes de vídeo de militantes, como a Undercurrents, de Oxford, e eram transmitidos em vários web sites da RTS.

massa crítica

A massa crítica abraça o RTS

Em muitas cidades, as festas de rua harmonizavam-se com outro novo e explosivo movimento internacional - as "bicicletadas" (grupos de ciclistas) da Massa Crítica. A idéia começou em San Francisco em 1992 e se espalhou por cidades em toda a América do Norte, Europa e Austrália mais ou menos na mesma época da RTS.

As bicicletadas da Massa Crítica também favoreciam a retórica da coincidência em larga escala: em muitas grandes cidades do mundo, na última sexta-feira de cada mês, algo entre dezenas e milhares de ciclistas se reuniam em uma praça ou cruzamento escolhido e partiam para pedalar juntos. Pela força do número, os ciclistas formam uma massa crítica e os carros devem se render a eles. "Não estamos bloqueando o trânsito", disse um participante da Massa Crítica, "nós somos o trânsito."

Uma vez que há uma forte sobreposição entre os festeiros do RTS e os ciclistas da Massa Critica, tornou-se uma tática popular para os locais de festas de rua ter o trânsito limpo por ciclistas "espontâneos" da Massa Crítica que "varrem" o trânsito da rua momentos antes dos bloqueios serem estabelecidos e as festas da RTS chegarem.

Talvez, considerando essas conexões, a mídia dominante quase invariavelmente descreva os eventos RTS como "protestos anticarros". A maioria dos membros do RTS, contudo, insiste que esta é uma supersimplificação profunda de suas metas. O carro é um símbolo, dizem eles - a manifestação mais tangível da perda de espaço comunitário, ruas em que se possa caminhar e lugares de livre expressão. Em vez de simplesmente se opor ao uso de automóveis, como diz Jordan, "o RTS sempre tentou abordar a questão do transporte e do carro como uma crítica mais ampla da sociedade (...) para sonhar com o resgate do espaço para uso coletivo do povo".

logo shellPara salientar essas conexões mais amplas, o RTS organizou uma festa de rua em Londres em solidariedade aos trabalhadores grevistas do metrô de Londres. Outra foi um evento conjunto com os queridinhos de estrelas do rock, jogadores de futebol e anarquistas britânicos - os estivadores demitidos de Liverpool.

Outras ações disseram respeito a antecedentes de direitos humanos e ecológicos de Shell, British Petroleum e Mobil. Essas coalizões tornam extremamente difícil categorizar o RTS. "Será que uma festa de rua é um comício político?", pergunta Jordan retoricamente. "Um festival? Uma rave? Ação direta? Ou apenas uma boa festa?" De muitas formas, as festas desafiam os rótulos fáceis: elas camuflam líderes identificáveis, e não têm centro ou ponto focal. As festas RTS são um "redemoinho", como diz Jordan.

logo bpBrincando de política

Não somente a confusão é deliberada, mas é precisamente essa ausência de rigidez que ajudou a RTS a capturar a imaginação de milhares de jovens em todo o mundo. Desde os dias em que Abbie Hoffman e os Yippies impregnaram absurdos de autoconsciência em seus "happenings", o protesto político tem se transformado em um negócio ritualizado, acompanhando um programa sem imaginação de cantilena repetitiva e confronto previsto com a polícia.

O pop, nesse meio-tempo, tornou-se igualmente forma em sua recusa em permitir a que seriedade percebida da convicção política penetrasse seu irônico espaço de jogo. É onde entra o RTS. Os choques culturais deliberados das festas de rua misturam a cuidadosa previsibilidade da política com a ironia divertida do pop. Para muitas pessoas em sua adolescência ou em seus vinte anos, isso representa a primeira oportunidade de conciliar criaturas vivas de sua infância de desenhos animados das manhãs de sabado com uma autêntica preocupação política com suas comunidades e seu ambiente.

logo mobilO RTS é assim divertido e irônico o bastante para finalmente tornar a seriedade possível. De muitas formas, Reclaim the Streets é a contrapartida urbana da florescente subcultura do faça-você-mesmo da Inglaterra. Colocados à margem da economia por décadas de governo conservador, e com poucos motivos para responder às políticas de centro-direita do Novo Trabalhismo de Tony Blair, uma infra-estrutura muito autoconfiante de cooperativas de alimentos, ocupação ilegal de terras, mídia independente e festivais gratuitos de música surgiu em todo o país. Festas espontâneas de rua são uma extensão do estilo de vida faça-você-mesmo, afirmando, como fazem, que as pessoas podem criar sua própria diversão sem pedir permissão a nenhum Estado ou depender da generosidade de nenhuma corporação.

Visitamos a Virgem na catedral, que certamente não nos espera e portanto não se une à dança. Apesar disso, oferecemos um espetáculo feliz muito legal até tarde naquela noite, passando das onze, resgatando a rua por cerca de cinco horas. - Relato por e-mail de RTS, Valência, Espanha, 16 de maio de 1998

Na festa de rua, o simples comparecimento faz de você um participante e parte do entretenimento. A festa de rua também difere do modo como nossa cultura tende a imaginar a liberdade. Sejam hippies caindo fora para viver em comunidades rurais, ou yuppies fugindo da selva urbana em veículos utilitários, a liberdade em geral se relaciona com abandonar a claustrofobia da cidade. A liberdade está na Rota 66, no "Pé na estrada". No ecoturismo. Em qualquer lugar, menos aqui.

O RTS, por outro lado, não anula a cidade ou o presente. Ele utiliza a urgência de entretenimento e as raves (e seu lado mais sombrio - o desejo de assustar e criar tumulto) e as canaliza em um ato de desobediência civil que é também um festival. Por um dia, o desejo por espaço livre não é apenas fuga, mas transformação do aqui e agora. É claro que se você quer ser realmente cínico, o RTS é também ecopoesia floreada sobre vandalismo. É uma conversa arrogante de bloquear o trânsito. São crianças singelamente vestidas e pintadas gritando com policiais extremamente confusos e possivelmente bemintencionados sobre a tirania da "cultura do carro". E quando os eventos RTS dão errado - porque só um punhado de pessoas apareceu, ou a anti-hierarquia dos organizadores anarquistas é incapaz ou não tem vontade de se comunicar com a multidão - é exatamente isso que se torna a festa: algum idiota exigindo o direito de se sentar no meio da rua por motivos malucos que só ele conhece.

Mas na melhor das hipóteses, as ações RTS têm sido muito alegres e humanas, zombando do cinismo de muitos espectadores, da imprensa musical britânica moderninha, que declarou a festa na Trafalgar Square "a melhor rave ilegal ou festa de música e dança na história", a um estivador grevista de Liverpool que observou que "os outros falam de fazer alguma coisa - esses caras real mente fazem". E, como todo movimento radical bem-sucedido, algumas vozes se preocupam que o apelo popular do RTS tenha ficado demais na moda, que a teoria sutil de "aplicar poesia radical a políticas radicais" esteja sendo dominada pelas batidas e pela mentalidade da plebe.

Em outubro de 1997, Jordan me disse que a RTS estava passando por um processo de reexame rigoroso. Ele afirmou que a festa de 20.000 pessoas na Trafalgar Square não foi o tipo de clímax do RTS que tinham pretendido. Quando a polícia tentou apreender a van com o sistema de som, os manifestantes não mandaram beijos ousadamente como se esperava, eles atiraram garrafas e pedras e quatro pessoas foram acusadas de tentativa de homicídio (as acusações foram retiradas depois).

Apesar dos esforços dos organizadores, a RTS resvalou em hooliganismo de futebol e, como um porta-voz da RTS disse ao Daily Telegraph, quando os organizadores tentaram recuperar o controle, alguns baderneiros se voltaram contra eles. "Vi alguns dos nossos realmente tentando deter uns desordeiros que estavam cheios de cerveja e atiravam garrafas e pedras de forma irracional. Alguns de nós realmente se colocaram na linha de fogo e um foi atingido. (...)" Tais nuances, contudo, foram perdidas na mídia britânica que cobriu Trafalgar Square com manchetes como "Frenesi de tumulto - Bandidos anarquistas levam o terror a Londres".

"A resistência será transnacional como o capital"

Depois de Trafalgar Square, diz Jordan, ficou claro que "era fácil demais para festa de rua ser vista apenas como diversão, apenas uma festa com um toque de ação política. (...) Se as pessoas pensam que aparecer em uma festa de rua uma vez por ano, ficar feito louco e dançar até não poder mais em um pedaço resgatado de terra pública é o suficiente, então não estamos conseguindo alcançar nosso potencial". A próxima tarefa, diz ele, é imaginar uma tomada de controle maior do apenas uma rua. "A festa de rua é só o começo, um gostinho das futuras possibilidades. Até agora fizemos trinta festas de rua em todo o país. Imagine que aumentem para cem, imagine cada uma delas acontecendo no mesmo dia, imagine cada uma durante dias e crescendo. (...) Imagine a festa de rua criando raízes (...) la fête permanente."

Admito que na época em que conversei com Jordan eu estava cética de que esse movimento pudesse saltar para esse nível de coordenação. Nas melhores oportunidades, Reclaim the Streets andou por uma corda delicada, flertando abertamente com o impulso pelo tumulto mas tentando transformá-lo em um protesto mais construtivo. Os membros londrinos da RTS dizem que uma das metas das festas é "visualizar o colapso industrial" - o desafio, então, é que os participantes inspirem-se mutuamente o bastante para dançar e plantar árvores no cascalho, em vez de banhá-lo em gasolina e acender um Zippo.

  • O ataque policial foi tão violento que até o público tcheco ficou chocado (...) Sessenta e quatro pessoas foram detidas, incluindo 22 menores de idade e 13 mulheres. Durante a ação policial, pessoas inocentes (que estavam apenas passando) foram igualmente agredidas. Todos os detidos foram espancados, maltratados e humilhados até de manhã - Relato por e-mail de RTS, República Tcheca, 16 de maio de 1998

Pouco tempo depois de nossa entrevista, porém, chegou a noticia de duas listas de discussão de militantes, espalhando a idéia de um dia coordenado de festas de rua simultâneas em todo o mundo. Sete meses depois, a primeira Global Street Party estava a caminho. Para estar absolutamente certo de que a base política do evento não se perderia, a data escolhida para a Global Street Party foi 16 de maio de 1998 - o dia em que os líderes do G-8 fariam uma reunião de cúpula em Birmingham, Inglaterra, e dois dias antes de eles seguirem para Genebra para celebrar o qüinquagésimo aniversário da Organização Mundial do Comércio.

Com fazendeiros indianos, sem-terra brasileiros, franceses desempregados, trabalhadores italianos e alemães e grupos internacionais de direitos humanos planejando ações simultâneas em torno dos dois encontros, a RTS aconteceu em um movimento internacional inexperiente e popular contra as corporações transnacionais e seu programa de globalização econômica. Esta, definitivamente, não tratou apenas de carros. Embora raramente relatados como mais do que armadilhas isoladas de tráfego, os trinta eventos RTS conseguiram acontecer em todo o mundo, em vinte países diferentes.

Em 16 de maio, mais de oitocentas pessoas bloquearam uma rodovia de seis pistas em Utrecht, na Holanda, dançando por cinco horas. Em Turku, na Finlândia, dois mil festeiros ocuparam pacificamente uma das principais pontes da cidade. Quase mil berlinenses fizeram uma rave em um cruzamento do centro da cidade, e em Berkeley, Califórnia, setecentas pessoas brincaram de Twist na Telegraph Avenue. De longe, a mais bem-sucedida das Global Street Parties aconteceu em Sidney, na Austrália, onde um comício político ilegal mesclado com festival de música aconteceu sem transtornos; entre três e quatro mil pessoas "seqüestraram" uma rodovia, montaram três palcos para os shows das bandas e apresentações de meia dúzia de DJs.

logo levi'sNão houve patrocínio de Levi's, Borders, Pepsi ou Revlon (o tipo de apoio que supostamente tornou "possíveis" festivais caros como o Lilith Fair) mas, de alguma forma, a RTS de Sidney conseguiu oferecer "três quiosques de chá, um levantador de fundos para comida, uma pista de skate, cinco terminais de internet na calçada, dois escultores de areia, poetas, cinco balizas, jardineiros de rua... e um monte de atos violentos e muita frivolidade".

A reação da polícia à Global Street Party variou muito de uma cidade para outra. Em Sidney, os policiais ficaram admirados, pedindo apenas que o volume do som fosse reduzido quando a festa se estendeu pela noite. Em Utrecht, a polícia foi tão amistosa que "a uma certa altura", relata um organizador local, "eles se misturaram com a multidão, sentada no chão à espera da chegada do sistema de som. Quando finalmente chegou, eles realmente ajudaram a colocar em funcionamento o gerador" Não é de surpreender que essas tenham sido exceções.

Da próxima vez será maior... - Relato por e-mail de RTS, Berlim, Alemanha, 16 de maio de 1998

Em Toronto, na festa a que compareci, os policiais deixaram que o evento prosseguisse por uma hora, então misturaram-se com a multidão de 400 festeiros com canivetes abertos e (absurdamente) começaram a furar os balões coloridos e a golpear energicamente as bandeiras. Como resultado, a festa degenerou em uma série de escaramuças incoerentes de tiras-são canalhas que chegaram ao noticiário das 6 horas. Mas o que aconteceu em Toronto não foi nada em comparação com os acontecimentos de outras cidades.

Cinco mil pessoas dançaram nas ruas de Genebra, mas por volta da meia-noite a festa "se transformou em um enorme tumulto. Um carro foi incendiado e milhares de policiais atacaram o acampamento principal, atirando bombas de gás lacrimogêneo contra a multidão. Os manifestantes quebraram centenas de janelas, principalmente de bancos e escritórios de empresas, até as 5 da manhã, causando um prejuízo de mais de meio milhão de libras". Com os manifestantes esperando a chegada dos líderes mundiais e autoridades do comércio para o aniversário da OMC, o tumulto continuou por vários dias.

Em Praga, três mil pessoas compareceram à Global Street Party na praça Wenceslaus, onde quatro sistemas de som foram armados e vinte DJs estavam prontos para tocar. Minutos antes, contudo, um carro da policia dirigiu-se para a multidão a toda velocidade; o veículo foi cercado e virado, e novamente a festa se transformou em tumulto. Depois que os organizadores dissolveram o evento, trezentas pessoas, a maioria adolescentes, marcharam através das ruas de Praga, algumas parando para atirar pedras e garrafas nas janelas de vidro laminado das lojas do McDonald's e do Kentucky Fried Chicken.

logo mcdonald'sMais garrafas foram atiradas em Berkeley, Califórnia, bem como ocorreram várias outras ações inúteis, incluindo atirar um colchão de espuma em uma fogueira na Telegraph Avenue (criando fumaça tóxica em um protesto ambiental - brilhante!) e depredando a janela de uma livraria independente do bairro (uma forma de atingir aqueles caras corporativos maus).

Lamento pela estupidez, mas como somente dez de nós compareceram, decidimos, depois de andar pela cidade com cartazes e um tambor, ficar na praia pelo resto da tarde. - Relato por e-mail de RTS, Darwin, Austrália, 16 de maio de 1998

O evento fora anunciado como uma celebração de "arte, amor e rebelião", mas a polícia o chamou de "um tumulto" - "o maior em oito anos". Pelo menos 27 prisões foram feitas em Cambridge, quatro em Toronto, quatro em Berkeley, três em Berlim, 64 em Praga, dezenas em Brisbane e mais de duzentas durante o tumulto que durou dias em Genebra. Essa emoção estava em plena força em 16 de maio em Birmingham, quartel-general da Global Street Party.

Os oito políticos mais poderosos do mundo estavam ocupados trocando camisetas de times de hóquei, assinando acordos comerciais e - disse alguém - tendo sua própria cantoria global de "All You Need ls Love". Contra esse pano de fundo, oito mil militantes de toda a Grã-Bretanha assumiram o controle de um retorno, ligaram um sistema de som, jogaram vôlei na rua e recuperaram o espirito RTS de celebração.

Como em outras cidades, houve confrontos com a polícia que cercava a festa com três filas de policiais. Dessa vez, contudo, o absurdo criativo venceu, apesar de tudo, e em vez de pedras e garrafas a arma escolhida foi aquela munição cada vez mais popular de comedia-pastelão: a torta de creme. E uma nova faixa - uma imensa pipa vermelha foi içada entre os andaimes, placas e bandeiras, portando os nomes de todas a cidades em que as festas de rua estavam acontecendo simultaneamente em vinte países em todo o mundo. "A resistência", dizia uma placa, "será transnacional como o capital."

AGITROP RTS

A privatização do espaço público na forma do carro continua a erodir os bairros e comunidades que definem a metrópole. Esquemas de estradas, "parques" de empresas, instalação de shoppings - tudo isso aumenta a desintegração da comunidade e o nivelamento de uma localidade. Todos os lugares ficam iguais. A comunidade se torna uma mercadoria - uma aldeia de compras, tranqüila e sob constante vigilância. O desejo de comunidade é então preenchido em outro lugar, através do espetáculo, vendido a nós, de uma forma simulada. Uma "rua" ou "praça" de novela de TV imita a área que o concreto e o capitalismo estão destruindo. A verdadeira rua, nesse cenário, é estéril. Um lugar por onde passar, não onde estar. Ele existe somente como auxiliar de outro lugar qualquer - através da janela de uma loja, de um outdoor ou de um tanque de petróleo. - RTS de Londres

O que temos percebido é que todos aqueles eventos e ações tinham uma coisa em comum: RESGATAR. Estejamos nós resgatando a estrada dos carros, resgatando prédios de grileiros, resgatando excedentes de comida para sem-tetos, resgatando campi universitários como lugar de protesto e teatro, resgatando nossa voz das profundezas sombrias da mídia corporativa ou resgatando nosso ambiente visual dos outdoors, sempre estivemos resgatando. Recuperando o que devia ter sido nosso há muito tempo. Não "nosso" como "nosso clube", ou "nosso grupo", mas nosso como das pessoas. Todas as pessoas. "Nosso" como em "não os governantes" e "não as corporações". (...) Queremos devolver o poder às pessoas como coletividade. Queremos resgatar as ruas. - RTS de Toronto