A criação da deslealdade (livro No Logo)

Aqui voce confere um trecho do livro No Logo, de Naomi Klein.

A escritora Naomi Klein demonstra em "No Logo" como a relação das empresas com sua força de trabalho foi se transformando. Muitos dos empregados nessa nova fase de economia globalizada estão assustados de anos de demissões e projeções econômicas sombrias. Devido a essa instabilidade no mercado de trabalho, a maioria engoliu a retórica de que deveriam ser felizes pegando qualquer toco de pagamento que estivesse espalhado por nosso caminho.

a criação da deslealdade

Tudo que vai, volta

  • "Em nossas instalações de fabricação, administração e distribuição, temos uma filosofia específica - as câmeras fazem com que as pessoas honestas continuem honestas" - Leo Myers, engenheiro de segurança e sistemas de segurança da Mattel, explicando o uso entusiástico pela empresa de sistemas de vigilância sobre sua força de trabalho global, 1990

Quando saí da universidade em 1993, podia contar nos dedos de uma só mão o número de amigos que estavam empregados. "A Recessão", repetíamos uns aos outros inúmeras vezes, ao longo dos anos de verões sem trabalho, decisões vãs de se esforçar depois de ter obtido o diploma, períodos de cortes em nossas universidades, épocas infelizes quando os pais estavam fora do trabalho. Assim como culparíamos o El Nino por tudo, de secas a inundações, a Recessão era um sistema climático econômico ruim que sugava os empregos como se eles estivessem em campos de trailers no Missouri.

Quando os empregos desapareceram, compreendemos que isso era fruto do difícil período econômico que parecia estar afetando a todos (embora talvez não atingisse a todos igualmente), de presidentes de empresa que encaravam a falência a políticos desempregados - todos, homens e mulheres, velhos e jovens, em todas as esferas da vida e do trabalho, diretamente ligados a mim e a meus amigos de classe média e nossas buscas desanimadas por empregos. A mudança da Recessão para a economia global implacável aconteceu tão de repente que senti como se estivesse doente naquele dia e tivesse perdido tudo - como acontecia com a álgebra no curso secundário, eu estaria sempre tentando sair do atraso. Tudo que sei é que em um minuto estávamos todos juntos na Recessão. No minuto seguinte, uma nova estirpe de líderes de empresas surgia como uma fênix das cinzas - ternos recém-passados, entusiasmo bombeado - anunciando a chegada de uma nova era de ouro.

Mas, como vimos nos últimos dois capítulos, quando os empregos voltaram (se voltaram), apareceram modificados. Para os trabalhadores de fábricas contratadas das zonas de processamento de exportação, e para legiões de temporários, empregados de meio expediente, contratados e trabalhadores do setor de serviços nos países industrializados, o empregador moderno tinha começado a parecer uma aventura de uma noite que tinha a audácia de esperar monogamia depois de um encontro sem importância. E muitos deles compreenderam isso por algum tempo. Fugindo assustados de anos de demissões e projeções econômicas sombrias, a maioria de nós engoliu a retórica de que devíamos ser felizes pegando qualquer toco de pagamento que estivesse espalhado por nosso caminho.

Existem cada vez mais evidências, contudo, de que a transitoriedade do local de trabalho está finalmente erodindo nossa fé coletiva, não somente nas corporações individuais, mas no próprio princípio econômico da suposta distribuição de riqueza. Lucros e taxas de crescimento crescentes, bem como os salários e bonificações inacreditavelmente altos que os CEOs das grandes corporações pagam a si mesmos, têm mudado radicalmente as condições sob as quais os trabalhadores originalmente aceitam salários mais baixos e segurança reduzida, levando muitos a sentir que não têm escapatória.

logo upsEm nenhum lugar essa mudança na atitude é mais aparente do que na simpatia pública pelos trabalhadores grevistas da United Parcel Service (EPS) em 1997. Embora os americanos sejam famosos por sua falta de solidariedade para com as greves de trabalhadores, a difícil situação dos trabalhadores de meio expediente da UPS tocou em um ponto fraco. Pesquisas de opinião revelaram que 55 por cento dos americanos apoiavam os trabalhadores da UPS, e somente 27 por cento se colocaram ao lado da empresa. Keffo, editor de um zine mordaz para trabalhadores temporários, resumiu o sentimento público: "Dia após dia, [as pessoas] lêem e ouvem como a economia é grande, e não é preciso ser um gênio da ciência para perceber que, cara, se a UPS está indo tão bem, por que não pode pagar mais a seus trabalhadores, ou contratar os de tempo parcial como de horário integral, ou manter seus dedos imundos longe dos fundos de pensão de seus trabalhadores?

Assim, em uma reviravolta hilariante do destino, todas as 'boas' novas econômicas operam contra a UPS e a favor de seus funcionários". Percebendo que tinha se tornado pára-raios de um mal-estar maior, a UPS concordou em converter 10.000 empregos de meio expediente em empregos de horário integral dobrando o pagamento por hora, e aumentou o pagamento dos funcionários de meio período em 35 por cento em um prazo de cinco anos. Ao explicar as concessões, o vice-presidente do conselho da UPS, John W. Alden, disse que a empresa nunca previra que seus trabalhadores se tornariam símbolos do rancor contra a Nova Economia: "Se soubesse que passaria de uma negociação da UPS para uma negociação sobre o emprego de meio expediente da América, nossa abordagem teria sido diferente."

De criadores de emprego a criadores de riqueza

Como vimos, foi somente nos últimos três ou quatro anos que as corporações pararam de esconder as demissões e reestruturações por trás da retórica da necessidade e começaram a falar abertamente e sem arrependimento de sua aversão a contratar pessoal e, nos casos extremos, seu abandono completo do negócio de empregos. As multinacionais que antes jactavam-se de seu papel como "máquinas de crescimento de emprego" - e usavam isso como alavanca para extrair todo tipo de apoio governamental - agora preferem se identificar como máquinas de "desenvolvimento econômico". As corporações estão na verdade "desenvolvendo" a economia, mas elas estão fazendo isso, como vimos, através de demissões, fusões, consolidações e terceirização - em outras palavras, por meio de enfraquecimento e cortes de postos de trabalho. E à medida que a economia cresce, a porcentagem de pessoas diretamente empregadas pelas maiores corporações do mundo está na verdade decrescendo. As corporações transnacionais, que controlam mais de 33 por cento dos ativos produtivos do mundo, são responsáveis por somente 5 por cento do emprego direto no planeta. E embora os ativos totais das cem maiores empresas do mundo tenham aumentado 288 por cento entre 1990 e 1997, o número de pessoas que essas corporações empregaram cresceu menos de 9 por cento durante o mesmo período de enorme crescimento.

O número mais impressionante é mais recente: em 1998, apesar do fantástico desempenho da economia americana e apesar da mais baixa taxa de desemprego da história, as corporações americanas eliminaram 677.000 postos de trabalho permanentes - mais cortes de postos do que em qualquer outro ano dessa década. Um em cada nove desses cortes ocorreu como resultado de fusões: muitos outros se originaram no setor de produção. Como sugere o baixo índice de desemprego nos Estados Unidos, dois terços das empresas que eliminaram postos criaram novos cargos e os trabalhadores demitidos encontraram empregos alternativos com relativa rapidez.

Mas o que esses drásticos cortes de vagas demonstram é que um relacionamento estável e confiável entre trabalhadores e seus em pregadores corporativos tinha pouco ou nada a ver com o índice de desemprego ou a saúde relativa da economia. As pessoas estão vivendo com menos estabilidade mesmo na melhor das épocas econômicas - de fato, esses bons tempos da economia podem estar fluindo, pelo menos em parte, dessa perda de estabilidade

A criação de empregos como parte da missão corporativa, particularmente a criação de empregos estáveis de horário integral e remuneração decente, parece ser secundária em muitas grandes corporações, independente dos lucros da empresa. Em vez de ser um componente de uma operação saudável, a mão-de-obra é cada vez mais tratada pelo setor corporativo como um fardo inevitável, como pagar imposto de renda; ou um inconveniente caro, como a proibição de despejo de lixo tóxico em lagos.

Os políticos podem dizer que os empregos são sua prioridade, mas o mercado de ações reage animadamente a cada vez que demissões em massa são anunciadas, e afunda sombrio se percebe que os trabalhadores podem receber aumento. Qualquer que seja a estranha rota que tenhamos tomado para chegar até aqui, uma mensagem inequívoca emana agora de nossos mercados livres: bons empregos são ruins para os negócios, ruins para "a economia" e devem ser evitados a todo custo. Embora essa equação tenha inegavelmente produzido lucros recorde a curto prazo, pode bem se provar um erro de cálculo estratégico por parte de nossos capitães da indústria.

Descartando sua identificação como criadores de emprego, as empresas se abrem a um tipo de reação que pode vir de uma população que sabe que o suave fluxo da economia é de pouco benefício demonstrável para ela. De acordo com o relatório de 1997 da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), "As crescentes desigualdades representam uma séria ameaça de reação política contra a globalização, que provavelmente virá tanto do Norte quanto do Sul. (...) As décadas de 1920 e 30 são um lembrete perfeito, e perturbador, da rapidez com que a fé nos mercados e na abertura econômica pode ser sobrepujada pelos acontecimentos políticos".6 Com os efeitos das crises econômicas russa e asiática em plena atividade, o relatório da ONU sobre "desenvolvimento humano" dizia que o ano seguinte seria ainda mais severo: observando as crescentes disparidades entre ricos e pobres, James Gustave Speth, administrador do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, disse, "Os números são assustadoramente altos em meio à riqueza. O progresso deve ser distribuído com mais uniformidade".

Ouvimos esse tipo de conversa cada vez mais hoje em dia. Advertências agourentas sobre uma reação antiglobalização em ebulição lançam uma sombra sobre a habitual euforia da reunião anual dos líderes corporativos e políticos em Davos, na Suíça. A imprensa de negócios está coberta de prognósticos apreensivos; como observou alguém na Business Week, "A visão de cofres corporativos abarrotados coexistindo com uma contínua estagnação do padrão de vida dos americanos pode se tornar politicamente insustentável".

E essa é a América, que tinha o menor índice de desemprego. A situação tornou-se ainda menos confortável no Canadá, onde o desemprego é de 8,3 por cento, e nos países da União Européia que estão atolados em um índice de desemprego de 11,5 por cento. No discurso feito ao Business Council on National Issues, Ted Newall, diretor executivo da Nova Corp., em Calgary, Alberta, classificou o fato de 20 por cento dos canadenses viverem abaixo da linha de pobreza de "bomba-relógio que está a ponto de explodir". Na verdade, desenvolveu-se uma pequena indústria marginal de CEOs caindo uns sobre os outros para se proclamar clarividentes éticos: eles escrevem livros sobre a nova "sociedade do acionista", censuram publicamente seus colegas em conversas no almoço por sua falta de escrúpulos e anunciam que já foi o tempo em que os líderes corporativos preocupavam-se com disparidades no crescimento econômico. O problema é que eles não concordam sobre quem vai chegar primeiro. O medo de que os pobres tomem de assalto as barricadas é tão velho quanto fossos em castelos particularmente durante períodos de grande prosperidade econômica acompanhada de distribuição desigual de riqueza.

logo general motorsBertrand Russell escreve que a elite vitoriana na Inglaterra era tão consumida pela paranóia de que a classe trabalhadora se rebelaria contra sua "pobreza apavorante" que, "na época de Peterloo, muitas mansões do país mantinham artilharia de prontidão, temendo que fossem atacadas pela turba. Meu avô paterno, que morreu em 1869, enquanto delirava durante os últimos dias de sua doença ouviu um barulho na rua e pensou que era a revolução irrompendo, mostrando que pelo menos inconscientemente a idéia da revolução permaneceu com ele durante todos os longos anos de prosperidade".

Um amigo meu, cuja família mora na Índia, disse que sua tia punjab tem tanto medo de uma insurreição entre os empregados da casa que mantém trancadas as facas da cozinha, deixando aos empregados o trabalho de cortar os vegetais com gravetos afiados. Isso não é muito diferente do número cada vez maior de americanos que se mudam para comunidades fechadas por portões porque os subúrbios não proporcionam mais a proteção adequada contra a ameaça urbana percebida. Apesar do abismo entre ricos e pobres, relatado pela ONU, e do muito discutido desaparecimento da classe média do Ocidente, o ataque aos empregos e níveis de renda não é provavelmente o mais grave crime corporativo que enfrentamos como cidadãos globais: ele não é, em tese, irreversível. Muito pior, a longo prazo, são os crimes cometidos por corporações contra o ambiente natural, o suprimento de comida e os povos e culturas indígenas.

Todavia, a erosão de um compromisso para com o emprego estável é o fator isolado mais significativo a contribuir para um clima de militância anticorporativa, e foi o que deixou os mercados mais vulneráveis à "inquietação social", para citar The Wall Street Journal. Quando as corporações são percebidas como veículos que trabalham para a distribuição de riqueza - efetivamente distribuindo empregos e receita em impostos -, elas pelo menos proporcionam o alicerce para as freqüentes barganhas faustianas pelas quais os cidadãos oferecem lealdade às prioridades corporativas em troca da garantia de um cheque de pagamento.

No passado, a geração de empregos serviu como uma espécie de armadura corporativa, protegendo as empresas da ira que seria dirigida a elas como resultado das agressões ao ambiente e aos direitos humanos. Em lugar nenhum essa armadura é mais protetora do que nos debates "empregos versus ambiente" do final dos anos 80 e início dos anos 90, quando os movimentos progressistas estavam muito divididos, por exemplo, entre aqueles que apoiavam os direitos dos lenhadores e os que queriam proteger as antigas florestas.

Na Colúmbia Britânica, militantes são pessoas que chegam de ônibus, vindas da cidade, enquanto os lenhadores são ferrenhamente leais às corporações multinacionais que se fixaram em suas comunidades há gerações. Esse tipo de divisão está se tornando claro para muitos participantes, à medida que as corporações começam a perder seus aliados naturais entre os funcionários de linha de produção que têm sido privados de seus direitos por demissões realizadas de forma desumana, fechamentos inesperados de fábricas e constantes ameaças da empresa de se mudar para o exterior.

Hoje é difícil encontrar uma cidade que não esteja brigando com uma empresa, onde os cidadãos acham que foram de algum modo traídos pelo setor corporativo local. E em vez de dividir as comunidades em facções, as corporações estão cada mais servindo como ameaça comum pelas quais as violações aos direitos trabalhistas, ambientais e humanos podem ser reunidas em uma única ideologia política. Depois de algum tempo torna-se claro que a busca insustentável por lucros por exemplo, levam ao desmatamento de florestas antigas é a mesma filosofia que devasta cidades de lenhadores ao transferir as fábricas para a Indonésia.

John Jordan, ambientalista e anarquista britânico, coloca desta forma: "As transnacionais estão afetando a democracia, o trabalho, as comunidades, a cultura e a biosfera. Inadvertidamente, elas têm nos ajudado a ver todo o problema como um sistema, a ligar cada questão a outra, a não ver um problema isoladamente." Essa reação em ebulição é mais do que um conjunto de queixas pessoais. Mesmo que você seja um dos sortudos que conseguiram um bom emprego e nunca foram demitidos, todos têm ouvido o alerta - se não por si mesmos, então por seus filhos ou pais, ou pelos amigos. Vivemos em uma cultura de insegurança no emprego, e as mensagens de auto-suficiência estão chegando a cada um de nós.

Na América do Norte, ponto final dos caminhões de 18 rodas que partem do México, trabalhadores chorando no portão da fábrica, janelas cobertas com tapumes em uma cidade industrial esvaziada e pessoas dormindo em soleiras e nas calçadas têm sido algumas das imagens econômicas mais poderosas de nossa época: metáforas, marcadas a ferro em nossa consciência coletiva, de uma economia que consistentemente, e sem arrependimento, favorece os lucros em detrimento das pessoas.

logo general electricEssa mensagem talvez tenha sido recebida mais vivamente pela geração que atingiu a maioridade desde a recessão do final dos anos 80. Quase sem exceção, ela planejou minuciosamente sua vida enquanto ouvia um coro de vozes lhes dizendo para diminuir suas expectativas, não confiar em ninguém para ter sucesso. Se queriam um emprego na General Motors, na Nike ou na General Electric, ou em qualquer lugar no setor corporativo, a mensagem era a mesma: não conte com ninguém.

Só para ter certeza de que estavam prestando atenção, isso foi forçado por conselheiros vocacionais nas escolas secundárias que deram seminários sobre como tornar-se "Eu Inc.", por noticiários noturnos cheios de histórias sobre como os fundos de pensão logo estariam vazios e por empresas como a Prudential Insurance incitando a todos nós: "Seja seu próprio esteio." Nos campi universitários em toda a América do Norte os eventos da primeira semana do ano letivo - quando os estudantes são apresentados à vida acadêmica - são agora patrocinados por empresas de fundos mútuos, que usam a oportunidade para encorajar os novos alunos a começar a economizar para sua aposentadoria antes mesmo que comecem sua especialização. Tudo isso teve seus efeitos.

De acordo com a bíblia do marketing demográfico The Yankelovich Report, a crença na necessidade de ser autoconfiante tem aumentado em um terço a cada geração - dos "Maduros" (nascidos entre 1909 e 1945), aos "pós-guerra" (de 1946 a 1964) e à "geração X" (definida frouxamente como todos que nasceram entre 1965 e a época atual). "Mais de dois terços dos membros da Geração X concordam que: 'Tenho de conseguir o que puder nesse mundo porque ninguém vai me dar nada.'

Um número muito menor de Maduros e Pós-guerra concordam - somente metade e um terço, respectivamente", declara o relatório." A agência de publicidade de Nova York DMBEtB descobriu atitudes similares em seu estudo dos adolescentes globais. "De uma longa série de itens relacionados com a atitude, o único com o qual os adolescentes mais concordam com o mundo é: 'Cabe a mim conseguir o que quero da vida.'" Nove entre dez jovens americanos consultados concordam com esse sentimento de total autoconfiança.

Essa mudança de atitude se traduziu em um forte crescimento no setor de fundos mútuos. Os jovens, ao que parece, estão comprando mais fundos mútuos do que nunca. "Por que a geração X é mais voltada para a necessidade de economizar?", pergunta um repórter na Business Week. "Grande parte disso tem a ver com a autoconfiança. Eles acreditam que só terão sucesso por iniciativa própria e têm pouca confiança de que a previdência social ou as tradicionais pensões pagas por empregadores estarão disponíveis quando se aposentarem."

Na verdade, se você acredita na imprensa de negócios, o único impacto que esse espírito de autoconfiança terá será a disseminação de uma nova onda de iniciativas empresariais cruéis quando a garotada não puder contar com ninguém escolhido como Número Um. Não há dúvida de que muitos jovens têm compensado o fato de que não confiam em políticos ou corporações adotando os valores do darwinismo social do sistema que engendrou sua insegurança: eles serão mais gananciosos, mais rigorosos, mais focalizados. Eles apenas farão, como no slogan da Nike.

Mas e aqueles que não seguem o caminho MBA, que não querem ser o próximo Bill Gates ou Richard Branson? Por que deveriam começar a investir em metas econômicas de corporações que os têm espoliado tão ativamente? Qual é o incentivo para ser leal ao setor que os está bombardeando, em toda sua vida adulta, com uma única mensagem: Não conte conosco? Essa questão não gira em torno somente do desemprego por si. Seria um grave erro supor que qualquer velho cheque de pagamento comprará o nível de lealdade e proteção com o qual muitas corporações - algumas vezes diretamente - estavam acostumadas no passado.

O trabalho informal, de meio período e de baixo salário não produz na mesma identificação com um empregador que os contratos de longa duração de ontem. Vá a qualquer shopping 15 minutos depois de as lojas fecharem e você verá o novo relacionamento de emprego em ação: todos os funcionários de salário mínimo estão em fila, suas bolsas e mochilas abertas para a vistoria. É prática rotineira dos gerentes, lhe dirão os trabalhadores, procurar por artigos roubados entre seus funcionários.

E de acordo com um levantamento anual do setor, conduzido pelo Security Research Project da Universidade da Flórida, há motivos para a suspeita: o estudo revela que o roubo por parte de empregados é responsável por 42,7 por cento do total de bens furtados nas lojas americanas em 1998, a mais alta taxa jamais registrada pelo levantamento. O funcionário da Starbucks Steve Emery prefere citar uma frase que ouviu de um cliente solidário: "Quem paga uma miséria merece ser roubado." Quando ele me disse isso, lembrei-me de algo que tinha ouvido apenas dois meses antes de um grupo de trabalhadores da Nike na Indonésia. Sentados em círculo em um de seus dormitórios, eles me contaram que, no fundo, esperam que sua fábrica seja arruinada por um incêndio.

logo nikeCompreensivelmente, os sentimentos dos trabalhadores da fábrica eram muito mais extremos do que os ressentimentos expressos por McTrabalhadores no Ocidente - e os seguranças que faziam a vistoria no portão de entrada da fábrica da Nike na Indonésia estavam armados com revólveres. Mas é no exército de milhões de trabalhadores temporários que a verdadeira base de criação de uma reação anticorporativa mais provavelmente será encontrada. Uma vez que a maioria dos temporários não permanece em um emprego por tempo suficiente para que alguém possa avaliar o valor de seu trabalho, o principio do mérito - antes um dogma capitalista sagrado - está se tornando discutível. E a situação pode ser muito desmoralizante. "Muito em breve, terei passado por todos os lugares para trabalhar nesta cidade", escreve Debbie Goad, uma temporária com vinte anos de experiência como secretária. "Estou cadastrada em 15 agências de serviços temporários. É como jogar nos caça-níqueis de Las Vegas. Eles me ligam constantemente, parecendo vendedores de carros usados. 'Sei que encontraremos o emprego perfeito para você logo, logo.'" Ela escreveu essas palavras em Temp Slave, uma pequena publicação de Madison, Wisconsin, dedicada a explorar um poço aparentemente sem fundo de ressentimento. Nela, os trabalhadores que têm sido marcados como descartáveis expressam sua raiva para com as corporações que os alugam como peças de equipamento, depois os devolvem, usados, às agências.

Os temporários tradicionalmente não têm com quem falar desses problemas - a natureza do trabalho o mantém isolados uns dos outros e também, nos locais de trabalho temporário de seus colegas assalariados. Assim, não surpreende que Temp Slave, e web site como o Temp 24-7, fervam de hostilidade reprimida, oferecendo dicas úteis sobre como sabotar o sistema de computação de seu empregador, bem como ensaios com títulos como "Todo mundo odeia os temporários. O sentimento é reciproco!" e "O tédio, o absoluto tédio da vida no escritório para os temporários". Assim como a força de trabalho temporária atrapalha o principio do mérito, também o faz a prática crescente de trocar de CEOs como jogadores profissionais.

Os CEOs temporários são um importante ataque ao folclore capitalista do office-boy que por esforço próprio chega a presidente da empresa. Os executivos de hoje, uma vez que parecem apenas trocar de posição uns com os outros em altos cargos, parecem ter nascido em suas estratosferas fechadas como reis. Nesse contexto, há menos espaço para o sonho de subir a partir de baixo - especialmente porque o trabalho de escritório provavelmente foi terceirizado à Pitney Bowes e está cheio de permatemps.

logomarca microsoftEsta é a situação na Microsoft, e é parte do motivo pelo qual lá o rancor dos temporários fervilha como em nenhum outro lugar. Outro motivo é que a Microsoft abertamente admite que sua reserva de temporários existe para proteger a base de trabalhadores efetivos dos estragos do livre mercado.

Quando uma linha de produtos é descontinuada ou os custos são cortados de novas e engenhosas maneiras, são os temporários que absorvem os golpes. Se você perguntar nas agências, dirão que seus clientes não se importam em ser tratados como software ultrapassado - afinal, Bill Gates nunca lhes prometeu nada. "Quando as pessoas sabem que é um arranjo temporário, um dia, quando termina o contrato, não há uma sensação de confiança traída", explica Peg Cheirett, presidente do Wasser Group, uma das agências que fornecem trabalhadores temporários para a Microsoft.

Não há dúvida de que Gates arquitetou uma forma de downsizing que evita aqueles lamentos agudos de traição que os chefes da IBM enfrentaram no final dos anos 80 quando eliminaram 37.000 empregos, chocando os empregados que tinham a impressão de estar em empregos seguros para o resto da vida.

Os temporários da Microsoft não têm por que esperar nada de Bill Gates - o que é em grande parte verdade -, mas embora esse fato possa manter os piquetes longe da entrada do Microsoft Campus, pouco faz para proteger a empresa de ter seu próprio sistema de computadores atacado por quem está dentro dela. (Como aconteceu em 1998, quando a conspiração hacker Cult of the Dead Cow lançou um programa de hacking feito para a Microsoft de nome Back Orifice. Ele foi baixado pela intemet 300.000 vezes.) Os permatemps da Microsoft convivem com o sonho capitalista hiperativo do Ouro do Silício a cada dia, e todavia eles - mais do que qualquer outro - sabem que é uma festa só para convidados.

Assim, embora os funcionários efetivos da Microsoft sejam recompensados por seu culto corporativo, os permatemps da empresa quase não têm paralelos em seu rancor. Questionados por jornalistas sobre o que pensavam de seu emprego, eles responderam com comentários primorosos como: "Eles te tratam como lixo", ou "É um sistema de duas classes de pessoas, e instila medo, inferioridade e ódio".

Despojamento: uma transação de duas vias

Comentando essa mudança, Charles Handy, autor de The Hungry Spirit, escreve que "é claro que o contrato psicológico entre empregadores e empregados mudou. O jargão da área agora fala de garantia de 'empregabilidade', e não de 'emprego', o que, uma vez interpretado, significa não conte conosco, conte consigo mesmo, mas tentaremos ajudá-lo se pudermos".

Mas para alguns - particularmente para os trabalhadores mais jovens - há um raio de esperança. Como os jovens tendem a não ver o lugar onde trabalham como uma extensão de suas almas, eles têm, em alguns casos, encontrado liberdade em saber que jamais sofrerão o tipo de traição angustiante que seus pais sofreram. Para quase todos que entraram no mercado de trabalho na última década, o desemprego é uma realidade conhecida, como é o trabalho autogerado e errático. Além disso, perder o emprego é muito menos assustador quando obtê-lo pareceu acidental. Essa familiaridade com o desemprego cria seu próprio tipo de despojamento do trabalhador - despojamento da própria noção de dependência total do trabalho estável. Podemos mesmo começar a nos perguntar se devemos querer o mesmo emprego por toda a vida e, mais importante, por que devemos depender das reviravoltas de grandes instituições para nossa noção de identidade.

Esse lento despojamento pela cultura corporativa tem implicações que muito além da psicologia do indivíduo: uma população de trabalhadores qualificados que não se vêem como condenados a uma prisão corporativa perpétua pode levar a um renascimento da criatividade e a uma revitalização da vida cívica, duas perspectivas muito auspiciosas. Uma coisa é certa: isso já está levando a novo tipo de política anticorporativa.

logo mcdonald'sPode-se ver isso nos hackers políticos de computadores que perseguem a Microsoft e, como mostrará o próximo capítulo, na guerrilha de "adbusters" que têm como alvo os outdoors urbanos. Está também nas brincadeiras anárquicas como "Telefone para o trabalho e diga que está doente e ganhe um dia", o manifesto "Roube do trabalho! Porque o trabalho está roubando de você!" e em web sites com nomes como Corporate America Sucks, assim como em campanhas anticorporativas internacionais como aquela desencadeada contra o McDonald's pelo julgamento McLibel, e outra contra a Nike em relação às condições das fábricas asiáticas.

Em seu ensaio "Stupid Jobs Are Good to Relax With" ("Empregos idiotas são bons para relaxar"), o escritor de Toronto Hal Niedzviecki compara a indiferença que sente pelo número de empregos temporários que entulham seu currículo com o transtorno profundo de seu pai ao ser obrigado a uma aposentadoria antecipada depois de uma carreira de contínua ascensão. Hal ajudou seu pai a arrumar a mesa em seu último dia no escritório, observando como ele passou a mão em Post-Its e outros materiais de escritório da empresa que o havia empregado por 12 anos. "Apesar de suas décadas de trabalho e o tempo que passei quase sem emprego (e os cinco diplomas de diferença entre nós), ambos terminamos no mesmo lugar. Ele acha que foi enganado. Eu não."

Os membros da cultura jovem dos anos 60 prometiam ser a primeira geração a não "se vender": eles apenas comprariam a passagem para o trem expresso com a placa "emprego para toda a vida". Mas nas fileiras de jovens trabalhadores de meio expediente, temporários e contratados, estamos testemunhando algo potencialmente mais poderoso. Estamos vendo a primeira onda de trabalhadores que jamais comprou o bilhete - alguns por opção, mas a maioria porque o trem do emprego para toda a vida passou a maior parte da década passada parado na estação.

Não se pode subestimar a extensão dessa mudança. Entre o número total adultos em idade produtiva nos Estados Unidos, no Canadá e no Reino Unido, os que têm empregos de horário integral e permanentes e trabalham para outras pessoas são minoria. O trabalhador temporário, de meio expediente e aqueles que optaram por se afastar inteiramente da força de trabalho - alguns porque não querem trabalha, mas muitos mais porque desistiram de procurar emprego - agora somam mais da metade da população em idade produtiva.

As pessoas que não têm acesso à corporação à qual podem oferecer lealdade eterna são a maioria. E para os jovens trabalhadores, com alta representação entre desempregados, e os setores de meio expediente e temporário, o relacionamento com o mundo do trabalho é ainda mais tênue.

De sem empregos a sem logo...

Não deve surpreender que as empresas que cada vez mais se descubram na extremidade errada dos frascos de tinta spray, dos ataques de hackers ou de campanhas anticorporativas internacionais sejam aquelas com a publicidade mais modeminha, os pesquisadores de mercado mais intuitivos e os mais agressivos programas no ambiente escolar. Com os ditames do branding obrigando as empresas a romper seus laços tradicionais com a criação estável de empregos, não há exagero em dizer que as marcas "mais fortes" são as que geram os piores empregos. Além disso, as empresas que fazem propaganda agressiva na MTV, no Channel One e na Details, vendendo tênis, jeans, fast-food e walkmans, são as mesmas que criaram o setor de McEmpregos e lideraram o êxodo da produção para regiões de mão-de-obra mais barata, como Cavite.

Depois de estimular os jovens com mensagens do tipo "você consegue" - os tênis "Just Do lt", as camisetas "No Fear" e jeans "No Excuses" - essas empresas têm respondido a solicitações de emprego com um sonoro "quem, eu?" Os trabalhadores de Cavite podem não ter o logo da Nike, mas os consumidores essenciais da Nike e da Levi's têm recebido outra mensagem do estratagema global das marcas: eles não servem para trabalhar. Para aumentar a injúria com mais insultos, como vimos na Parte 1, esse abandono pelas corporações de marca está ocorrendo no exato instante em que a cultura jovem é procurada por um branding mais agressivo. O estilo e a atitude jovens estão entre os geradores de riqueza mais eficazes em nossa economia do entretenimento, mas o verdadeiro jovem está sendo usado em todo o mundo como pioneiro em um novo tipo de força de trabalho descartável. É nesse contexto volátil que a economia de branding está se tornando o equivalente político de um cartaz colocado nas costas da corporação dizendo "Me bata".