A fábrica descartada (livro No Logo)

Aqui voce confere um trecho do livro No Logo, de Naomi Klein.

A escritora Naomi Klein demonstra em "No Logo" como o foco das empresas em produzir bens e produtos mudou para o gerenciamento de marcas. E como observa um relatório das Nações Unidas de 1997, mesmo em países do terceiro mundo onde os salários já eram baixos, os custos de mão-de-obra estão sendo responsáveis por uma fatia cada vez menor dos orçamentos corporativos na produção.

Em todo mundo as marcas globais estão transferindo a responsabilidade pela produção a terceiros: elas apenas dizem a eles para produzir, e bem barato, assim sobra muito dinheiro para o branding. E que façam barato mesmo.

fábrica abandonada

A produção degradada na Era da Supermarca

Nosso plano estratégico na América do Norte é focalizar intensamente o gerenciamento de marca, o marketing e o projeto de produto como um meio de atender às necessidades e desejos de roupas informais dos consumidores. Mudar uma parcela significativa de nossa fabricação de mercados americanos e canadenses para terceiros em todo o mundo dará à empresa maior flexibilidade para alocar recursos e capital a suas marcas. Esses passos são essenciais se quisermos continuar competitivos. - John Ermatinger, presidente da divisão Levi Strauss América, explicando a decisão da empresa de fechar 22 fábricas e demitir 13.000 trabalhadores norte-americanos entre novembro de 1997 e fevereiro de 1999

Muitas multinacionais de nome de marca, como vimos, querem transcender sua necessidade de se identificar com seus produtos terrenos. Elas imaginam, para isso, profundos significados para suas marcas - o modo como capturam o espírito da individualidade, do atletismo, da vida selvagem ou da comunidade. Nesse contexto em que a pose vale mais que o objeto, os departamentos de marketing encarregados do gerenciamento de identidades de marca começaram a ver seu trabalho como algo que acontece não em conjunção com a produção da fábrica, mas em competição direta com ela. "Produtos são feitos na fábrica", diz Walter Landor, presidente da agência de criação de marcas Landor, "mas marcas são feitas na mente."' Peter Schweitzer, presidente da gigante da publicidade J. Walter Thompson, reitera essa idéia: "A diferença entre produtos e marcas é fundamental. Um produto é algo feito na fábrica; uma marca é algo comprado por um consumidor." As agências de publicidade espertas abandonaram a idéia de que elas estão empenhadas em um produto feito por outra pessoa e passaram a pensar em si mesmas como fábricas de marca, produzindo o que é de valor verdadeiro: o conceito, o estilo de vida, a atitude. Os construtores de marca são novos produtores primários em nossa chamada economia do conhecimento.

Essa idéia nova tem feito mais do que nos trazer campanhas publicitárias modernas, superlojas eclesiásticas e campi corporativos utópicos. Ela está mudando a face do emprego global. Depois de estabelecer a "alma" de suas corporações empresas de supermarcas estão se livrando de seus embaraçosos corpos, e nada parece mais embaraçoso, mais repugnantemente corpóreo, do que as fábricas que fazem seus produtos. O motivo para essa mudança é simples: construir uma supermarca é um projeto extraordinariamente dispendioso, que precisa de constante gerenciamento, vigilância e reabastecimento.

Acima de tudo, as supermarcas precisam de muito espaço para imprimir seus logos. Para que uma empresa seja eficaz em custos, contudo, há uma quantidade finita de dinheiro que pode ser utilizada para cobrir todos esses gastos - material, fabricação, despesas gerais e gestão de marca - para que os preços de seus produtos no varejo não fiquem altos demais.

Depois de patrocínios multimilionários terem sido assinados e cool hunters e especialistas em marketing receberem seus cheques, pode não haver tanto dinheiro sobrando. Assim, isso se torna, como sempre, uma questão de prioridades; mas essas prioridades estão mudando. Como explicou Hector Liang, ex-diretor do conselho da United Biscuits: "As máquinas se desgastam. Os carros enferrujam. As pessoas morrem. Mas o que permanece são as marcas."

De acordo com essa lógica, as corporações não devem gastar seus recursos finitos em fábricas que exigirão manutenção física, em máquinas que sofrerão corrosão ou funcionários que certamente envelhecerão e morrerão. Em vez disso, elas devem concentrar seus recursos nos elementos utilizados para construir suas marcas; isto é, patrocínios, embalagem, expansão e publicidade.

Elas devem também gastar em sinergias: comprar canais de distribuição e varejo para levar sua marca às pessoas. Essa mudança lenta mas decisiva nas prioridades corporativas deixou os produtores não virtuais de ontem - os trabalhadores de fábrica e os artesãos - em uma situação precária. Os gastos excessivos em marketing, fusões e extensões de marca na década de 1990 foram acompanhados de uma resistência nunca vista ao investimento em instalações de produção e mão-de-obra.

Empresas que tradicionalmente ficavam satisfeitas com uma margem de 100 por cento entre o custo de fabricação e o preço no varejo têm atravessado o globo em busca de fábricas que possam fazer seus produtos a preços tão baixos que a margem fique mais próxima de 10 por cento. E como observa um relatório das Nações Unidas de 1997, mesmo em países onde os salários já eram baixos, os custos de mão-de-obra estão sendo responsáveis por uma fatia cada vez menor dos orçamentos corporativos. "Em quatro de cinco países em desenvolvimento, a participação dos salários no valor agregado de fabricação de hoje é consideravelmente menor do que foi na década de 1970 e no inicio dos anos 80."

O oportunismo dessas tendências reflete não só o status do branding como panacéia econômica percebida, mas também uma desvalorização correspondente do processo de produção de produtores em geral. O branding, em outras palavras, foi engolindo todo o "valor agregado". Quando o processo de fabricação real é tão desvalorizado, logicamente é mais provável que as pessoas que fazem o trabalho de produção sejam tratadas como lixo - coisas das quais você pode se livrar.

A idéia tem uma certa simetria: uma vez que a produção em massa criou a necessidade do branding, seu papel foi crescendo em importância até que, mais de um século e meio depois da Revolução Industrial, ocorreu a essas empresas que talvez o branding pudesse substituir completamente a produção. Como disse o tenista André Agassi em um comercial da câmera fotográfica Canon em 1992, "Imagem é tudo".

logo nikeAgassi pode ter feito propaganda da Canon na época, mas ele é antes de tudo um membro da equipe Nike, a empresa que foi a pioneira na filosofia empresarial de gastos ilimitados em gestão de marca, acompanhados de uma espoliação quase completa dos trabalhadores terceirizados que produzem seus calçados em fábricas de áreas remotas.

Como afirmou Phil Knight, "Não há mais valor em produzir coisas. O valor é agregado pela pesquisa cuidadosa, pela inovação e pelo marketing". Para Phil Knight, a produção não é a base de seu império da marca, é, em vez disso, uma tarefa tediosa e marginal. E por isso que muitas empresas estão agora afastando-se completamente da produção.

Em vez de fabricarem elas mesmas os produtos, em suas próprias fábricas, as "exploram", como as corporações nos setores de recursos naturais exploram urânio, cobre ou madeira. Elas fecham as fábricas que já existem, transferindo a produção para fábricas terceirizadas, principalmente no exterior. E quando os velhos empregos voam para fora do país, algo mais está voando com eles: a idéia obsoleta de que um fabricante é responsável por sua própria força de trabalho.

logo disneyO portavoz da Disney, Ken Green, deu uma indicação da profundidade dessa mudança quando se mostrou publicamente frustrado com o fato de sua empresa estar sendo criticada pelas condições desesperadoras em uma fábrica haitiana que produz roupas Disney. "Não empregamos ninguém no Haiti", disse ele, referindo-se ao fato de que a fábrica é de propriedade de outra empresa "Tem alguma idéia das condições de trabalho envolvidas na produção do papel de jornal que você usa?", perguntou Green a Cathy Majtenyi, do Catholic Register.

De El Paso a Pequim, de San Francisco a Jacarta, de Munique a Tijuana as marcas globais estão transferindo a responsabilidade pela produção a terceiros: elas apenas dizem a eles para fazer essa porcaria, e que façam barato, assim sobra muito dinheiro para o branding. E que façam barato mesmo.

Exportando o modelo Nike

A Nike, que começou como um esquema de importação/exportação dos calçados "Made in Japan" e não montou nenhuma de suas fábricas, tornou-se o protótipo de marca liberta do produto. Inspiradas pelo sucesso desconcertante do swoosh, muitas empresas de administração mais tradicional ("verticalmente integradas", como dizem) dedicam-se a imitar o modelo da Nike, não só copiando a abordagem de marketing da empresa, como vimos em "Sem espaço", mas também sua estrutura de produção terceirizada e barata.

Em meados dos anos 90, por exemplo, a empresa de tênis de corrida Vans deixou o reino ultrapassado da fabricação e converteu-se à moda Nike. Em um prospecto para uma oferta pública inicial de ações, a empresa expõe como "posicionou-se recentemente de uma fabricante doméstica para uma empresa orientada para o mercado" ao patrocinar centenas de atletas e eventos de esportes radicais bem divulgados como o Vans Warped Tour. O "gasto" pela empresa, "de fundos significativos para criar demandas de consumo", foi financiado pelo fechamento de uma fábrica na Califórnia e pela contratação da produção na Coréia do Sul de "fabricantes terceirizados".

logo adidasA Adidas seguiu uma trajetória similar, entregando suas operações em 1993 a Robert Louis-Dreyfus, ex-diretor executivo da gigante de publicidade Saatchi Et Saatchi. Anunciando que queria cativar o coração dos "adolescentes globais , Louis-Dreyfus imediatamente fechou as fábricas de propriedade da empresa na Alemanha e transferiu a produção para empresas contratadas na Ásia. Livre dos grilhões da produção, a empresa teve tempo e dinheiro renovados para criar uma imagem de marca ao estilo Nike. "Fechamos tudo", disse orgulhosamente o porta-voz da Adidas, Peter Csanadi. "Mantivemos apenas uma pequena fábrica que é nosso centro de tecnologia global e é responsável por cerca de 1 por cento da producao total."

Embora não ganhem as manchetes como no passado, muitos fechamentos de fábricas são anunciados na América do Norte e na Europa a cada ano - 45.000 trabalhadores do setor de vestuário perderam seus empregos nos Estados Unidos, só em 1997." Esses padrões de migração de emprego do setor têm sido igualmente drásticos em todo o planeta. Embora o fechamento de fábricas em si mal tenha declinado desde os dias mais sombrios da recessão do final dos anos 80 e início dos anos 90, houve uma mudança acentuada nos motivos dados para essas "reorganizações".

Demissões em massa eram antes apresentadas como uma necessidade infeliz, ligadas ao mau desempenho da empresa. Hoje elas são simplesmente mudanças sensatas na estratégia da empresa, uma "reorientação estratégica", para usar a expressão empregada pela Vans. Cada vez mais, essas demissões são anunciadas em conjunção com promessas de aumento na receita através de gastos com publicidade, com os executivos jurando passar a se concentrar nas necessidades de suas marcas em vez de dar atenção às necessidades de seus trabalhadores. Considere o caso da Sara Lee Corp., um conglomerado no velho estilo que abrange não somente sua homônima no ramo de alimentos congelados, mas também marcas "não integradas" como as roupas íntimas Hanes e Wonderbra, artigos de couro Coach, roupas esportivas Champion, graxa de sapato Kiwi e Bali Park Franks.

Apesar do fato de a Sara Lee ter desfrutado um sólido crescimento, lucros crescentes, bom retorno das ações e nenhuma dívida, em meados dos anos 90 Wall Street se desencantou com a empresa e desvalorizou suas ações. Seus lucros tinham aumentado 10 por cento no ano fiscal 1996-97, alcançando US$ 1 bilhão, mas Wall Street, como vimos, é norteada pelas metas espirituais, além das metas econômicas.

E a Sara Lee, orientada para essa coisa corpórea dos produtos do mundo real em vez de acalentar idéias de identidade de marca, ficou simplesmente fora de moda no mundo econômico. "Fornecedora de trambolhos", como diria Tom Peters. Para corrigir sua situação, em setembro de 1997 a empresa anunciou um plano de reestruturação de US$ 1,6 bilhão para deixar o negócio das "coisas", purgando sua base de fabricação. Treze de suas fábricas, começando pelos setores de tecelagem e têxteis, seriam vendidas a terceiros, que se tornariam fornecedores da Sara Lee. A empresa poderia utilizar o dinheiro economizado para duplicar seu gastos em publicidade. "Para nós, faz parte do passado ser tão verticalmente integrados como fomos", explicou o CEO da Sara Lee, John R Bryan.

Wall Street e a imprensa de negócios adoraram a nova Sara Lee orientada para o marketing recompensando a empresa com um salto de 15 por cento no preço das ações e produzindo perfis lisonjeiros de seu CEO arrojado e imaginativo. "A mudança de Bryan, que passou da fabricação para focalizar o marketing de marca, reconhece que o futuro pertence às empresas - como a Coca-Cola Co. - que possuem pouco mas vendem muito", elogiou um artigo na Business Week.

Ainda mais eficaz foi a analogia escolhida pela Crain's Chicago Business: "A meta da Sara Lee é tornar-se mais como a Nike Inc. do Oregon, que terceiriza sua fabricação e dedica-se principalmente ao desenvolvimento de produto e o gerenciamento de marca."

Em novembro de 1997, a Levi Strauss anunciou uma sacudida de igual motivação. Entre 1996 e 1997 a receita da empresa havia caído de US$ 7,1 bilhões para US$ 6,8 bilhões. Mas uma queda de 4 por cento dificilmente parece explicar a decisão da empresa de fechar onze fábricas. Os fechamentos resultaram na demissão de 6.395 trabalhadores, um terço da já reduzida força de trabalho na América do Norte. Nesse processo, a empresa fechou três de suas quatro fábricas de El Paso, no Texas, uma cidade onde a Levi's era a única empregadora privada de grande porte.

Ainda insatisfeita com os resultados, no ano seguinte a Levi's anunciou outra rodada de fechamentos na Europa e na América do Norte. Outras onze fábricas na América do Norte foram fechadas e o número total de trabalhadores demitidos saltou para 16.310 em apenas dois anos.

John Ermatinger, presidente da divisão Levi's Américas, tinha uma explicação familiar. "Nosso plano estratégico na América do Norte é focalizar intensamente o gerenciamento de marca, o marketing e o projeto de produto como um meio de atender aos desejos e necessidades de roupas informais dos consumidores", disse ele. O presidente do conselho da Levi's, Robert Haas, que no mesmo dia recebeu um prêmio da ONU por proporcionar uma vida melhor a seus funcionários, disse ao Wall Street Journal que os fechamentos refletiam não apenas "supercapacidade", mas também "nosso próprio desejo de refocalizar no marketing, conferindo mais qualidade e distinção a nossa marca". Em 1997 a qualidade e a distinção chegaram na forma de uma campanha publicitária internacional partivularmente modernosa acompanhada de boatos de que teria custado US$ 90 milhões, a campanha mais cara da Levi's até então, superando os gastos da empresa publicidade para a marca em todo o ano de 1996.

"Essa não é uma história de evasão de empregos"

Ao explicar o fechamento de fábricas como uma decisão de transformar a Levi's em "uma empresa de marketing", Robert Haas foi cauteloso em dizer à imprensa que os empregos que foram eliminados não estavam se "evadindo", era apenas uma espécie de evaporação. "Essa não é uma história de evasão de empregos", disse ele depois da primeira rodada de demissões. A declaração é tecnicamente correta. Ver a Levi's como uma história de evasão de empregos desconsidera a mudança mais fundamental - e mais prejudicial - representada pelo fechamento. No que diz respeito à empresa, aqueles 16.310 empregos saíram da folha de pagamento para sempre, eles foram substituídos, de acordo com Ermatinger, por "empresas contratadas em todo o mundo". Essas empresas desempenharão as mesmas funções das antigas fábricas de propriedade da Levi's - mas seus trabalhadores jamais serão empregados pela Levi Strauss.

logo gmPara algumas empresas, um fechamento de fábrica ainda é uma decisão direta de transferir suas instalações para um local mais barato. Mas para outras - particularmente aquelas com fortes identidades de marca, como a Levi Strauss e a Hanes - as demissões são somente a manifestação mais visível de uma mudança muito mais fundamental: uma mudança menos relacionada com onde produzir do que com como produzir. Ao contrário de instalações de produção que saltam de um lugar para outro, essas fábricas jamais se rematerializarão. A meio vôo, elas se metamorfoseiam em algo completamente diferente: "pedidos" a serem cumpridos por uma empresa contratada, que pode por sua vez repassar esses pedidos a outras dez subcontratadas, que - particularmente no setor de vestuário - podem por sua vez repassar uma parte de seus contratos a uma rede de profissionais que trabalham em casa, que atenderão às encomendas em porões ou salas de estar.

Efetivamente, apenas cinco meses após a primeira rodada de fechamentos ter sido anunciada, a Levi's fez outra declaração pública: reassumiria a fabricação na China.

logo levi'sA Levi's havia deixado a China em 1993, mencionando questões relacionadas com violações de direitos humanos. Agora ela voltara, não para construir suas fabricas, mas para encomendar a fabricação a três contratadas que a empresa prometeu monitorar de perto para evitar violações das leis trabalhistas.

A mudança de atitude em direção à produção é tão profunda que, se houve uma época anterior em que corporações de bens de consumo exibiam seus logos nas fachadas das fábricas, muitas das multinacionais atuais baseadas na marca agora sustentam que a localização de suas operações de produção é um "segredo comercial", a ser guardado a todo custo.

logo reebokQuando solicitada por grupos de direito humanos em abril de 1999 a revelar os nomes e endereços de suas fábricas contratadas, Peggy Carter, vice-presidente da indústria de roupas Champion, respondeu: "Não nos interessa que nossos concorrentes saibam onde elas estão localizadas e tirem vantagem do que levamos anos para construir."

Cada vez mais, as multinacionais de marca - Levi's, Nike, Champion, WalMart, Reebok, The Gap, IBM e a General Motors - insistem que são apenas como qualquer um de nós: caçadores de pechinchas em busca do melhor negócio no shopping global. Elas são consumidores muito exigentes, com instruções específicas relacionadas com projeto sob encomenda, matéria-prima, prazos de entrega e, mais importante, a necessidade dos preços mais baixos possíveis. Mas o que não interessa a eles é a onerosa logística de como esses preços caem tanto; construir fábricas, comprar maquinaria e orçar a mão-de-obra têm sido operações rebatidas diretamente para a quadra de terceiros. E a verdadeira história de evasão de empregos é que um número cada vez maior das corporações mais conhecidas e lucrativas do mundo está abandonando completamente o negócio de empregos.

fábrica na Ásia

A insustentável leveza de Cavite: dentro das zonas de livre comércio

Apesar do fulgor conceitual da estratégia "marcas, não produtos", a produção tinha uma desagradável forma de jamais ser inteiramente transcendida: alguém tinha de fazer o trabalho sujo, os produtos que as marcas globais impregnariam de significado. E é aí que entram as zonas de livre comércio. Na Indonésia, na China, no México, no Vietnã, nas Filipinas e em outros lugares, as zonas de processamento de exportação (como são chamadas essas áreas) estão surgindo como importantes produtoras de roupas, brinquedos, calçados, eletrônicos, maquinaria e até carros.

Se a Nike Town e as outras superlojas são as novas e resplandecentes entradas para o mundo de sonhos de marca, então a Zona de Processamento de Exportação de Cavite, localizada cerca de 150 quilômetros ao sul de Manila, na cidade de Rosário, é o armário de vassouras da criação de marcas. Depois de um mês visitando áreas industriais semelhantes na Indonésia, cheguei a Rosário em setembro 1997 no final da estação das monções e no inicio da tempestade econômica asiática. Cheguei a passar uma semana em Cavite porque é a maior zona de livre comércio das Filipinas, uma área industrial murada de 276 hectares, abrigando 207 fábricas que produzem bens estritamente para o mercado de exportação.

logo coca-colaA população de Rosário, de 60.000 habitantes, parecia estar sempre em movimento; a atividade da cidade, as ruas abafadas apinhadas de jipes do exército convertidos em miniônibus e motos que serviam de táxi com precários sidecars, suas calçadas enfileirando quiosques que vendem arroz frito, Coca-Cola e sabão. A maior parte dessa atividade comercial atende aos 50.000 trabalhadores que atravessam Rosário em suas viagens de ida e volta do trabalho na zona de exportação, cuja entrada fechada por portões está localizada bem no meio da cidade.

Do lado de dentro dos portões, os trabalhadores de fábricas montam os produtos acabados de nosso mundo de marca: tênis de corrida Nike, pijamas Gap, monitores de computador IBM, jeans Old Navy. Mas apesar da presença de tais multinacionais ilustres, Cavite - e um número crescente de zonas de processamento de exportação semelhantes em todo o mundo em desenvolvimento - pode bem ser o único lugar que resta na Terra onde as supermarcas realmente não são muito populares. Na verdade, elas são positivamente discretas. Seus nomes e logos não estão espalhados pelas fachadas das fábricas na zona industrial. E, aqui, etiquetas concorrentes não estão segregadas a sua própria superloja; são freqüentemente produzidas nas mesmas fábricas, coladas pelos mesmos trabalhadores, costuradas e soldadas pelas mesmas máquinas.

Foi em Cavite que eu finalmente encontrei um exemplo de espaço sem o logo da Nike, e o encontrei, curiosamente, em uma fábrica de calçados desta empresa. Obtive permissão para apenas uma visita ao outro lado dos portões da zona de exportação para entrevistar funcionários - as fábricas, disseram-me, estão fora do alcance de todos, exceto de importadores e exportadores. Mas alguns dias depois, com a ajuda de um trabalhador de 18 anos que havia sido demitido de seu emprego em uma fábrica de produtos eletrônicos, consegui me esgueirar de volta para uma visita não-oficial.

Nas filas de estruturas semelhantes a galpões praticamente idênticas, uma fábrica se destacava: o nome no prédio retangular branco dizia "Philips", mas através da cerca pude ver montanhas de calçados Nike empilhados. Parecia que em Cavite a produção tinha sido degradada ao status mais baixo de nossa época: suas fábricas não tinham marca, nem logos; os produtores são os intocáveis industriais. Será que foi isso que Phil Knight quis dizer, imaginei, quando falou que sua empresa não tinha nada a ver com tênis?

A fabricação está concentrada e isolada dentro da zona de exportação com se fosse lixo tóxico: pura produção a preços terrivelmente baixos. Cavite, como demais zonas que competem com ela, se apresenta como um Clube de Desconto no atacado para as multinacionais à espreita de pechinchas - agarradas a um grande carrinho de compras. Dentro, é óbvio que a fila de fábricas, cada uma com seu próprio portão e seu próprio segurança, foi cuidadosamente planejada para comprimir o máximo de produção em sua faixa de terreno.

Oficinas sem janelas, de plástico barato e tapumes de alumínio, apertam-se ao lado de outras, com menos de meio metro de distância entre elas. Quadros de cartões de ponto torram ao sol, garantindo que o máximo de trabalho seja extraído de cada trabalhador, o número máximo de horas de trabalho seja arrancado a cada dia. As ruas na zona de exportação são soturnamente vazias, e as portas abertas - o sistema de ventilação da maioria das fábricas - revelam filas de jovens mulheres curvadas em silêncio sobre máquinas barulhentas.

Em outras partes do mundo, os trabalhadores vivem dentro das zonas econômicas, mas não em Cavite: este é um lugar de puro trabalho. Toda a azáfama e as cores de Rosário cessam abruptamente nos portões, onde os trabalhadores, se quiserem entrar, devem mostrar suas carteiras de identidade para seguranças armados. Raramente se permitem visitantes na zona de exportação, e pouco ou nenhum comércio interno acontece em suas ruas ordenadas, nem mesmo de doces e bebidas. Ônibus e táxis devem reduzir sua velocidade e silenciar suas buzinas quando chegam à área - uma mudança acentuada em relação às ruas turbulentas de Rosário. Se tudo isso faz com que Cavite se sinta um país diferente, é porque, de certa forma, ela é.

A zona é uma economia isenta de impostos, isolada dos governos municipais e estaduais - um miniestado militar dentro de uma democracia. Como conceito, as zonas de livre comércio são tão antigas quanto o próprio comércio, e eram as mais importantes antigamente, quando o transporte de bens exigia diversos adiamentos e paradas para descanso. Cidades-estado pré-romanas, incluindo Tiro, Cartago e Útica, estimulavam o comércio se declarando "cidade livres", onde os bens em trânsito podiam ser armazenados sem taxas e os mercadores seriam protegidos de danos. Essas áreas sem impostos posteriormente denvolveram importância significativa durante a época colonial, quando cidades inteiras - incluindo Hong Kong, Cingapura e Gibraltar - eram designadas como "portos livres" a partir dos quais os despojos do colonialismo podiam ser embarcados com segurança para a Inglaterra, a Europa continental ou a América com tarifas de importação baixas.

Hoje, o planeta é pontilhado de variações desses bolsões de isenção fiscal, desde lojas duty-free em aeroportos e zonas bancárias livres nas Ilhas Cayman até armazéns alfandegários e portos onde os bens em trânsito são mantidos, separados e embalados. Embora tenha muito em comum com esses outros paraísos fiscais, a zona de processamento de exportação na verdade pertence a uma categoria própria.

Menos um reservatório de propriedades que um território soberano, a ZPE é uma área por onde os bens não só passam, mas são realmente fabricados, uma área, além de tudo, onde não há tarifas de importação e exportação, e com freqüência nenhum imposto sobre renda ou propriedade. A idéia de que as ZPEs podiam ajudar as economias do Terceiro Mundo ganhou aceitação pela primeira vez em 1964, quando o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas adotou uma resolução endossando tais zonas como um meio de promover o comércio com as nações em desenvolvimento. A idéia só decolou, contudo, no início dos anos 80, quando a índia suspendeu os impostos por cinco anos para empresas que produzissem em suas zonas de baixos salários. Desde então, a indústria da zona de livre comércio explodiu.

Existem 22 zonas econômicas só nas Filipinas, empregando 459.000 pessoas - muito mais que os 23.000 funcionários da zona econômica em 1986, e mais que os 229.000 que já existiam em 1994. A maior economia desse tipo é a China, onde estimativas conservadoras apontam para 18 milhões de pessoas em 124 zonas de processamento de exportação em 1996.

A Organização Internacional do Trabalho afirma que existiam pelo menos 850 ZPEs no mundo em 1996, no total, mas esse número provavelmente está mais próximo de 1.000, espalhadas em setenta países e empregando aproximadamente 27 milhões de trabalhadores. A Organização Mundial do Comércio estima um valor entre US$ 200 e US$ 250 bilhões em fluxo de comércio nessas zonas. O número de fábricas instaladas nesses parques industriais também está se expandindo.

Na verdade, as fábricas de livre comércio ao longo da fronteira dos Estados Unidos com o México - em espanhol, maquiladoras (de maquilar, "maquiar") - provavelmente são as únicas estruturas que proliferam com a mesma velocidade das lojas WalMart: havia 789 maquiladoras em 1985. Em 1995, eram 2.747. Em 1997, 3.508 maquiladoras empregavam cerca de 900.000 trabalhadores. Independente de onde as ZPEs estejam localizadas, as histórias dos trabalhadores têm uma certa uniformidade mesmerizante: o dia de trabalho é longo - 14 horas no Sri Lanka, 12 horas na Indonésia, 16 no sul da China, 12 nas Filipinas.

A grande maioria dos trabalhadores é composta de mulheres, sempre jovens sempre trabalhando para contratados ou subcontratados da Coréia, de Taiwan ou de Hong Kong. Os contratados em geral atendem a pedidos de empresas sediadas nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, no Japão, na Alemanha ou no Canadá. O gerenciamento tem estilo militar, os supervisores cometem abusos, os salários ficam abaixo do nível de subsistência e o trabalho exige pouca habilidade e é tedioso.

Como modelo econômico, as zonas de processamento de exportação de hoje têm muito mais em comum com as franquias de fast-food do que com o desenvolvimento sustentável, tão afastadas são elas dos países que as hospedam. Esses bolsões de indústria pura ocultam-se por trás de uma capa de transitoriedade: os contratos vêm e vão quase sem aviso; os trabalhadores são predominantemente migrantes, distantes de casa e com pouca conexão com a cidade ou província onde as zonas estão localizadas; o próprio trabalho é de caráter precário, com freqüência sem renovação de contrato.

À medida que caminho pelas ruas vazias de Cavite, posso sentir a impermanência ameaçadora, a instabilidade subjacente da zona de exportação. As fábricas como barracões são tão tenuamente ligadas ao país em torno delas, à cidade adjacente, à própria terra em que repousam que parece que os empregos que migraram do Norte para cá podem voar novamente com a mesma rapidez. As fábricas são construídas de forma barata e lançadas juntas em um terreno que é alugado, em vez de comprado.

Quando subi na torre de água à margem da zona econômica e vi centenas de fábricas embaixo, parecia que todo o complexo de papelão podia se erguer e voar para longe, como a casa de Dorothy em O mágico de Oz. Não surpreende que as fábricas na ZPE da Guatemala sejam chamadas de "andorinhas". O medo permeia essas zonas econômicas. Os governos temem perder as fábricas estrangeiras; as fábricas temem perder seus compradores de marcas; e os trabalhadores temem perder seus instáveis empregos. As fábricas não são construídas na terra, mas no ar.

"Era para ser uma Rosário diferente"

O ar em que são construídas as zonas de processamento de exportações é a promessa da industrialização. A teoria que sustenta as ZPEs é que elas atrairão investidores estrangeiros que, se tudo correr bem, decidirão permanecer no país, e as linhas de montagem segregadas das zonas se transformarão em desenvolvimento permanente: transferência de tecnologia e indústrias nacionais. Para seduzir as andorinhas para sua armadilha, os governos de países pobres oferecem isenção de impostos, regulamentações frouxas e os serviços de um exército disposto e capaz de esmagar qualquer inquietação da mão-de-obra.

Para adoçar ainda mais o pote, eles leiloam seu próprio povo, caindo uns sobre os outros para oferecer o salário mínimo mais baixo, permitindo que os trabalhadores recebam menos do que o custo real de vida. Em Cavite, a zona econômica é planejada como uma ilha da fantasia para investidores estrangeiros. Campos de golfe, clubes executivos e escolas particulares foram construídos nos arredores de Rosário para atenuar os desconfortos da vida no Terceiro Mundo. O aluguel cobrado das fábricas é obscenamente barato: 118 pesos por metro quadrado - menos que um centavo de dólar. Nos primeiros cinco anos de sua permanência, as corporações são obsequiadas com "férias fiscais" com todas as despesas pagas, durante as quais não arcam com nenhum imposto de renda ou sobre a propriedade.

É um bom negócio, sem dúvida, mas não é nada quando comparado ao Sri Lanka, onde os investidores da ZPE ficam dez anos sem pagar imposto algum. A expressão "férias fiscais" é grotescamente adequada. Para os investidores, as zonas de livre comércio são uma espécie de Club Med corporativo, onde o hotel paga tudo e os hóspedes moram de graça, e onde se mantém no mínimo o nível de integração com a cultura e a economia locais.

Como argumenta um relatório da Organização Internacional do Trabalho, a ZPE "é para o investidor inexperiente o que o pacote de férias é para o turista cauteloso". Globalização de risco zero. As empresas apenas embarcam as peças de roupa ou componentes de computadores - livres de impostos de importação - e a força de trabalho barata e não sindicalizada monta os produtos para elas. Depois as roupas ou bens eletrônicos acabados são embarcados de volta, sem tarifa de exportação.

O raciocínio é mais ou menos este: é claro que as empresas devem pagar impostos e se submeter estritamente às leis nacionais mas, neste caso em particular, neste pedaço específico de terra, só por algum tempo, poderá se fazer uma exceção - em nome da prosperidade futura. As ZPEs, portanto, existem dentro de uma espécie de conjunto econômico e legal de categorias, separadas do restante de seu pais - a zona Cavite, por exemplo, está sob jurisdição exclusiva do departamento federal de comércio e indústria das Filipinas; a política local e o governo municipal sequer têm o direito de cruzar a soleira.

As camadas de bloqueios servem a um propósito duplo: manter as hordas longe dos bens dispendiosos que são fabricados na zona econômica, e também, o que talvez é mais importante proteger o país do que acontece do lado de dentro da zona de exportação. Como tais acordos dóceis têm sido elaborados para atrair as andorinhas, as barreiras em torno da zona econômica servem para reforçar a idéia de que o que está acontecendo dentro dela é apenas temporário, ou simplesmente não acontece.

Essa negação coletiva é particularmente importante nos países comunistas, onde as zonas abrigam as formas mais selvagens do capitalismo ocidental deste lado de Moscou: definitivamente isso não está acontecendo, certamente não aqui, onde o governo no poder afirma que o capital é o demônio e os trabalhadores reinam soberanos. Em seu livro Losing Control?, Saskia Sassen escreve que as zonas econômicas são parte do processo de dividir as nações de forma que "uma parcela real da terra torna-se desnacionalizada (...)".

Não importa que as fronteiras desses espaços somente temporariamente desnacionalizados, onde na verdade "isso não está acontecendo", continuem se expandindo e engolfando cada vez mais as verdadeiras nações. Vinte e sete milhões de pessoas em todo o mundo estão agora vivendo e trabalhando nesses bolsões, e os bolsões, em vez de ser removidos aos poucos, estão se tornando cada vez maiores. É uma das ironias mais cruéis das zonas econômicas que todo incentivo que os governos criem para atrair as multinacionais somente reforce a sensação de que as empresas são turistas econômicos em vez de investidores de longo prazo.

E o clássico círculo vicioso: em uma tentativa de aliviar a pobreza, os governos oferecem mais e mais incentivos; mas então as ZPEs devem ser isoladas como colônias de leprosos, e quanto mais isoladas são, mais as fábricas parecem existir em um mundo completamente separado do país que as hospeda, e fora da zona de exportação a pobreza só faz crescer da forma mais desesperadora. Em Cavite, a zona econômica é uma espécie de subúrbio industrial futurista onde tudo é arrumadinho; os trabalhadores são uniformizados, a grama é tratada, as fábricas sujeitas a uma rígida disciplina. Há placas atraentes por toda parte instruindo os trabalhadores "Mantenha nossa zona limpa" e "Promova a paz e o progresso das Filipinas".

Mas basta sair pelo portão e a bolha explode. A não ser pelos enxames de trabalhadores em inicio ou fim de expediente, você jamais saberia que Rosário abriga duas centenas de fábricas. As estradas são uma porcaria, a água encanada é rara e o lixo transborda. Muitos trabalhadores moram em choças nos arredores da cidade e em aldeias vizinhas. Outros, particularmente os mais jovens, vivem nos dormitórios, uma mixórdia de blocos de concreto separados do enclave da zona de exportação por uma parede fina. A estrutura é na verdade uma fazenda convertida, e alguns quartos, segundo me disseram os trabalhadores, são realmente chiqueiros com telhados colocados descuidadamente sobre eles. A experiência filipina da "industrialização em bolsões" não é de forma alguma única. A mania atual de seguir o modelo ZPE é baseada no sucesso das economias dos chamados Tigres Asiáticos, em particular as economias da Coréia do Sul e de Taiwan.

Quando somente alguns países tinham as zonas econômicas, incluindo a Coréia do Sul e Taiwan, os salários aumentavam de forma estável, as transferências de tecnologia ocorriam e os impostos foram sendo gradualmente introduzidos. Mas, como assinalam rapidamente os críticos das ZPE, a economia global tornou-se muito mais competitiva depois que aqueles países fizeram a transição de indústrias de baixos salários para indústrias de maior qualificação. Hoje, com setenta países competindo pelo dólar gerado nas zonas de processamento de exportação, os incentivos para atrair investidores estão aumentando e os salários e padrões são mantidos como reféns pela ameaça de retirada das empresas. O resultado é que países inteiros são transformados em favelas industriais e guetos de mão-de-obra barata, e não há perspectiva de que isso irá terminar.

Como trovejou o presidente de Cuba Fidel Castro aos líderes mundiais reunidos na comemoração do qüinquagésimo aniversário da Organização Mundial do Comércio em maio de 1998, "O que vai acontecer com a nossa vida? (...) O que a produção industrial deixará para nós? Apenas o que é de baixa tecnologia, intensivo em mão-de-obra e altamente contaminante? Será que vocês querem transformar uma grande parte do Terceiro Mundo em uma imensa zona de livre comércio cheia de montadoras que jamais pagam impostos?"

Embora a situação seja ruim em Cavite, não chega a ser comparável com a do Sri Lanka, onde as férias fiscais ampliadas significam que as cidades não podem sequer fornecer transporte público para os trabalhadores das ZPEs. As estradas por onde andam para chegar ou sair das fábricas são escuras e perigosas, já que não há dinheiro para iluminação pública. A superlotação nos dormitórios é tão grande que há linhas brancas pintadas no piso para demarcar onde cada trabalhador vai dormir - "parecem estacionamentos", como observou um jornalista 30 José Ricafrente tem a duvidosa honra de ser prefeito de Rosário.

Encontrei-me com ele em seu pequeno gabinete, enquanto uma fila de pessoas necessitadas esperava do lado de fora. No passado uma modesta vila de pescadores, sua cidade hoje tinha o investimento per capita mais alto de todo o pais - graças à zona de exportação de Cavite -, mas carecia até dos recursos básicos para arrumar a bagunça que as fábricas criaram na comunidade. Rosário tinha todos os problemas da industrialização - poluição, uma população explosiva de trabalhadores migrantes, aumento na criminalidade, rios de esgoto - e nenhum de seus benefícios.

O governo federal estima que somente 30 por cento das 207 fábricas da zona econômica pagam algum imposto, mas mesmo esse baixo número é questionado por todos. O prefeito diz que a muitas empresas são concedidas prorrogações de suas férias fiscais, do contrário elas fecham, reabrem com outro nome e têm todas as despesas pagas novamente. "Elas fecham antes que as férias fiscais expirem, depois transformam-se em outra empresa, apenas para evitar o pagamento de impostos. Elas não pagam nada ao governo, assim, estamos vivendo um dilema", contou-me Ricafrente.

Um homem baixo, com uma voz profunda e poderosa, Ricafrente é amado por seus eleitores por suas posições francas em relação aos direitos humanos e à democracia durante o regime brutal de Ferdinand Marcos. Mas no dia em que conversou comigo o prefeito parecia exausto, desgastado por sua impotência em influenciar a situação em seu próprio quintal. "Não podemos nem mesmo fornecer os serviços básicos que nosso povo espera de nós", disse ele, com um certo rancor. "Precisamos de água, precisamos de estradas, precisamos de serviços médicos, educação. Eles esperam que forneçamos todos esses serviços ao mesmo tempo, esperando que recolhamos impostos dentro da zona de exportação."

O prefeito está convencido de que sempre haverá um pais - seja o Vietnã, a China, Sri Lanka ou México - disposto a oferecer custos mais baixos. E nisso cidades como Rosário terão vendido seu povo, comprometido seu sistema educacional e poluído seus recursos naturais. "Devia ser um relacionamento simbiótico , diz Ricafrente sobre o investimento estrangeiro. "Eles derivam renda de nós, assim o governo deve também derivar renda deles. (...) Era para ser uma Rosário diferente.

Trabalhando nas zonas de exportação

Assim, se agora está claro que as fábricas não rendem impostos ou criam infra-estruturas locais, e que todos os bens produzidos são exportados, por que países como as Filipinas ainda se curvam para atrai-los para dentro de suas fronteiras? O motivo oficial baseia-se em uma teoria da distribuição espontânea de riqueza: essas zonas são programas de criação de empregos, e a renda que os trabalhadores auferem acabará estimulando o crescimento sustentável da economia local. O problema com essa teoria é que os salários na zona de exportação são tão baixos que os trabalhadores gastam a maior parte do que ganham em dormitórios coletivos e transporte; o resto é gasto em macarrão e arroz frito, comprados de vendedores alinhados do lado de fora do portão.

Os trabalhadores da zona de exportação certamente não podem sequer sonhar com os bens de consumo que produzem. Esses baixos salários são em parte resultado de uma competição feroz para que as fábricas saiam de outros países em desenvolvimento. Mas, sobretudo, o governo é extremamente relutante em impor o respeito às próprias leis trabalhistas por temer afugentar as andorinhas. Desse modo os direitos trabalhistas estão sob ataque tão feroz dentro das zonas de exportação que há pouca probabilidade de que os trabalhadores ganhem o suficiente para se alimentar adequadamente, quanto mais estimular a economia local.

O governo filipino nega isso, é claro. Ele diz que as zonas são sujeitas aos mesmos padrões trabalhistas do restante da sociedade das Filipinas: os trabalhadores devem receber o salário mínimo, benefícios da previdência social, devem ter algum grau de segurança no emprego, ser demitidos somente por justa causa e receber pagamento por horas extras, e têm o direito de formar sindicatos independentes de comerciários. Mas na realidade o governo vê as condições de trabalho nas fábricas para exportação como uma questão de política de comércio externo, não como um problema de direitos trabalhistas.

E uma vez que o governo atraiu os investidores estrangeiros com a promessa de uma força de trabalho mais dócil e mais barata, é isso que ele pretende fornecer. Por esse motivo, os funcionários do departamento de trabalho fazem vista grossa às violações na zona de exportação, ou até as facilitam. Muitas fábricas na zona de exportação são administradas de acordo com as regras inflexíveis que sistematicamente desrespeitam as leis trabalhistas das Filipinas. Alguns empregadores, por exemplo, mantêm os banheiros trancados exceto durante dois intervalos de 15 minutos, durante os quais todos os trabalhador têm de bater o ponto na entrada e na saída para que a gerência possa controlar seu tempo improdutivo.

logo gapAs costureiras em uma fábrica que produz roupas para Gap, a Guess e a Old Navy me contaram que às vezes têm de lançar mão de saco plásticos debaixo de suas máquinas para urinar. Existem regras contra falar, e na fábrica de eletrônicos Du Young, uma regra contra sorrir. Uma fábrica humilha quem as desobedece elaborando uma lista dos "Trabalhadores mais tagarelas".

As fábricas regularmente fraudam os pagamentos da previdência social e recolhem "doações" ilegais dos trabalhadores para tudo, de material de limpeza para a fábrica a festas de Natal. Na fábrica que produz monitores de computador para a IBM, a "bonificação" por horas extras trabalhadas não é um salário maior por hora, mas donuts e uma caneta.

Alguns proprietários esperam que os trabalhadores arranquem as ervas daninhas do chão no caminho para o trabalho; outros devem limpar o chão e os banheiros depois de completado seu expediente. A ventilação é insuficiente e raro é o equipamento de proteção. E há a questão dos salários. Na zona Cavite, o salário mínimo é considerado mais uma diretriz frouxa do que uma lei rígida. Se 6 dólares por dia é oneroso demais, os investidores podem solicitar ao governo que renuncie também a esse direito. Assim, enquanto alguns trabalhadores da zona de exportação ganham o salário mínimo, a maioria - graças à renúncia do direito - ganha menos.

Não é suficientemente baixo: esmagando os salários na China

Parte do motivo pelo qual a ameaça de a fábrica voar é tão tangível em Cavite é que, comparados com a China, os salários filipinos são muito altos. A verdade é que todos os salários são altos quando comparados com os da China. Mas o que é verdadeiramente extraordinário nisso é que as fraudes mais notórias nos salários têm origem na própria China.

Grupos trabalhistas concordam que um salário mínimo para um trabalhador da linha de montagem na China deveria ser de aproximadamente US$0,87 por hora. Nos Estados Unidos e na Alemanha, onde as multinacionais fecharam centenas de fábricas têxteis domésticas e transferiram a produção para as zonas de exportação, os trabalhadores do setor de vestuário ganham em média US$ 10 e US$ 18,50 por hora, respectivamente.

Todavia, mesmo com essa economia maciça no custo de mão-de-obra, quem fabrica para as marcas mais ricas e mais proeminentes do mundo ainda se recusa a pagar aos trabalhadores na China os 87 centavos de dólar que cobririam seu custo de vida, afastaria a doença e lhes permitiria até mandar um pouco de dinheiro para sua família em casa.

logo ralph laurenUm estudo de 1998 sobre a fabricação de marca nas zonas econômicas especiais chinesas revelou que a WalMart, a Ralph Lauren, Ann Taylor, Esprit, Liz Claiborne, Kmart, Nike, Adidas, J.C Penney e The Limited estavam pagando apenas 13 centavos de dólar por hora. O único modo de compreender como as corporações multinacionais ricas e supostamente fiéis à lei podem voltar aos níveis de exploração do século XIX (e ainda assim continuarem atraentes) é através dos próprios mecanismos da terceirização: em cada camada de contratação, subcontratação e trabalho em casa, os fabricantes brigam entre si para forçar os preços para baixo, e em cada nível o contratador e subcontratador arrancam seu pequeno lucro.

logo walmartNo final dessa cadeia de preços baixos e terceirizações está o trabalhador - freqüentemente três ou quatro níveis abaixo da empresa que fez a encomenda original - com um cheque de pagamento podado a cada elo da cadeia. "Quando as multinacionais espremem os subcontratados, estes espremem os trabalhadores", explica um relatório de 1997 sobre as fábricas chinesas de calçados da Nike e da Reebok.

"Sem sindicato, sem greve"

Uma grande placa está na interseção central da Zona de Processamento de Exportação de Cavite: "NÃO DÊ OUVIDOS A AGITADORES E BADERNEIROS". As palavras estão em inglês, pintadas em maiúsculas com tinta vermelha, e todo mundo sabe o que significam. Embora os sindicatos de comerciários sejam tecnicamente legais nas Filipinas, é amplamente compreendida - embora não esteja escrita - a política "sem sindicato, sem greve" dentro das zonas de exportação. Como sugere a placa, os trabalhadores que tentam organizar sindicatos em suas fábricas são vistos como baderneiros, e com freqüência sofrem ameaças e intimidações.

Um dos motivos por que fui a Cavite é que tinha ouvido dizer que esta zona era um ninho de "baderneiros", graças a uma organização recém-formada chamada Centro de Assistência aos Trabalhadores. Ligado à Igreja Católica de Rosário e localizada a apenas algumas quadras da entrada da zona de exportação, o centro está tentando derrubar o muro de medo que cerca as zonas de livre comércio nas Filipinas. Lentamente, eles foram coletando informação sobre as condições de trabalho na zona de exportação. Nida Barcenas, uma das organizadoras do centro me disse, "No início, em geral tinha de seguir os trabalhadores até suas casas e implorar para que conversassem comigo. Eles ficavam muito assustados - seus familiares disseram que eu era uma baderneira".

Mas depois que o centro cresceu e manteve suas atividades por um ano, os trabalhadores da zona de exportara afluíam para lá depois do expediente - para dormir, jantar e comparecer a seminários. Conversei sobre o centro, quando voltei a Toronto, e vários especialistas em trabalho internacional disseram que a pesquisa e organização em zonas de livre comércio realizada por essa operação pequena e destituída de recursos estava entre as mais avançadas feitas em qualquer lugar da Ásia.

O Centro de Assistência aos Trabalhadores, conhecido como WAC (de Workers Assistance Center), foi fundado para apoiar o direito constitucional dos trabalhadores de fábricas de lutar por melhores condições - dentro ou fora da zona de exportação. Zernan Toledo é o mais intenso e radical organizador do centro e embora tenha apenas 25 anos e pareça um universitário, administra os assuntos do centro com toda a disciplina de uma célula revolucionária. "Fora da zona de exportação os trabalhadores são livres para organizar um sindicato, mas dentro dela elas não podem montar piquetes ou manifestações", disse-me Toledo em minha "sessão de orientação" de duas horas no centro. "Discussões em grupo nas fábricas são proibidas e nós não podemos entrar na zona de exportação", disse ele, apontando para um diagrama da zona de exportação pendurado na parede.

Esse ardil interminável existe por toda parte nas zonas semiparticulares. Como afirma o relatório da Confederação Internacional de Sindicatos do Livre Comércio: "Os trabalhadores estão efetivamente vivendo em território 'sem lei" onde, para defender seus direitos e interesses, são constantemente forçados a praticar atos 'ilegais'."

Nas Filipinas, a cultura de incentivos e exclusão da zona de exportação, que se pretendia abandonar quando as empresas estrangeiras se unissem à economia nacional, teve o efeito oposto. Não somente novas andorinhas apareceram, como fábricas com operários sindicalizados que já existiam no pais fecharam as portas e as reabriram dentro da Zona de Processamento de Exportação de Cavite para tirar vantagem de todos os incentivos. Por exemplo, os produtos Marks Ett Spencer costumavam ser fabricados em uma fábrica com operários sindicalizados ao norte de Manila. "Foram necessários apenas dez caminhões para trazer a Marks Et Spencer para Cavite", disse-me um organizador sindical da área. "O sindicato foi eliminado."

Cavite não é absolutamente excepcional nesse ponto. Uma organização sindical fonte de grande temor em todas as zonas econômicas, onde um esforço bem-sucedido pode ter conseqüências terríveis para sindicalistas e trabalhadores. Essa foi a lição aprendida em dezembro de 1998, quando a fabricante americana de camisas Phillips-Van Heusen fechou a única fábrica sindicalizada de roupas para exportação em toda a Guatemala, demitindo 500 trabalhadores.

A fábrica Camisas Modernas foi sindicalizada em 1997, depois de um longo e amargo esforço de organização e significativa pressão feita sobre a empresa por grupos de direitos humanos americanos. Com o sindicato, os salários passaram de US$ 56 para US$ 71 por semana, e a fábrica, antes suja, ficou limpa. Jay Mazur, presidente da Union of Needletrades, Industrial and Textile Employees (UNITE) - o maior sindicato da indústria de vestuário da América -, chamou o acordo de "um sinal de esperança para mais de 80.000 trabalhadores de maquiladoras na Guatemala".

Quando a fábrica fechou, contudo, o sinal de esperança se transformou em uma luz vermelha de alerta, reforçando a advertência familiar: sem sindicatos, sem greve. O patriotismo e o dever nacional estão inseparavelmente ligados à exploração das zonas de exportação, com os jovens - principalmente mulheres - sendo mandados para fábricas com péssimas condições de trabalho do mesmo modo que uma geração anterior de jovens era mandada para a guerra.

Não se permite ou se espera nenhum questionamento da autoridade. Em algumas ZPEs da América Central e da Ásia, as greves são oficialmente ilegais; no Sri Lanka, é ilegal fazer qualquer coisa que possa comprometer os ganhos do país com a exportação, incluindo publicar e distribuir material que contenha críticas. Em 1993, um trabalhador da zona de exportação do Sri Lanka de nome Ranjith Mudiyanselage foi morto por desafiar essa politica.

Depois de reclamar de uma máquina com defeito que havia decepado o dedo de um colega, Mudiyanselage foi raptado quando voltava de um inquérito sobre o incidente. Seu corpo espancado e queimado foi encontrado em uma pilha de pneus velhos do lado de fora de uma igreja. Seu advogado, que o acompanhou ao inquérito, foi assassinado da mesma forma.

Apesar da constante ameaça de retaliação, o Centro de Assistência aos Trabalhadores fez algumas tentativas tímidas de organizar sindicatos dentro das fábricas da zona Cavite, com variados graus de sucesso. Por exemplo, quando uma ofeçnsiva foi empreendida na fábrica de roupas All Ásia, os organizadores enfrentaram um obstáculo verdadeiramente desafiador: a exaustão dos trabalhadores.

A maior queixa entre as costureiras da All Ásia, que produz roupas para a Ellen Tracy e a Sassoon, são as horas extras obrigatórias. O expediente normal vai das 7 da manhã às 10 da noite, mas em algumas noites por semana as funcionárias devem trabalhar "até tarde": até 2 da manhã. Durante os períodos de pico não é incomum trabalhar até 2 da manhã duas vezes seguidas, deixando muitas mulheres com apenas duas horas de sono antes que tenham de começar sua viagem de volta à fábrica. Mas isso também significa que a maioria das trabalhadoras da All Ásia passa seus preciosos 30 minutos de intervalo tirando um cochilo na fábrica, em vez de falar de sindicatos. "Tive grande dificuldade em falar com as trabalhadoras porque elas estavam sempre dormindo", contou-me uma mãe de quatro filhos, explicando por que não teve sorte em suas tentativas de formar um sindicato na fábrica All Ásia. Estava trabalhando na empresa há quatro anos e ainda não tinha previdência e seguro saúde.

O trabalho na zona de exportação é caracterizado por sua brutal combinação de enorme intensidade e segurança inexistente no emprego. Todos trabalham seis ou sete dias na semana, e quando uma grande encomenda deve ser embarcada, os empregados trabalham até que o embarque seja feito. A maioria dos trabalhadores faz algumas horas extras porque precisa do dinheiro, mas os turnos da noite são considerado um fardo por muitos deles. Não existe a alternativa, contudo, de se recusar a ficar. Por exemplo, de acordo com o livro de regulamentos oficial da fábrica Philips (uma contratada que atende a pedidos da Nike e da Reebok), "Recusar-se a fazer hora extra quando solicitado" é uma transgressão "que pode ser punida com a demissão". O mesmo acontece em todas as fábricas que conheci, e há muitos relatos de trabalhadores pedindo para sair mais cedo - antes das 2 da manhã, por exemplo - e ouvindo como resposta que não retornem ao trabalho no dia seguinte.

As histórias do horror das horas extras nas zonas de processamento de exportação, independente do local, correm em profusão: na China, há casos documentados de turnos de três dias, quando os trabalhadores são obrigados a dormir sob suas máquinas. Os contratados freqüentemente enfrentam punições financeiras se deixam de entregar os pedidos no prazo, não importa o quão irracional ele seja. Em Honduras, foi denunciado que, quando sufocados por um pedido particularmente grande ou um prazo reduzido, os gerentes de fábrica injetam anfetaminas nos trabalhadores para que eles se mantenham despertos nas maratonas de 48 horas.

O que aconteceu com Carmelita...

Em Cavite, não se pode falar de horas extras sem que a conversa se volte para Carmelita Alonzo, que morreu, de acordo com suas colegas, "de tanto trabalhar". Alonzo segundo ouvi repetidamente - de grupos de trabalhadoras reunidas no Centro de Assistência aos Trabalhadores e de trabalhadores em entrevistas individuais -, era costureira na fábrica V.T. Fashion, costurando roupas para a Gap e a Liz Claiborne, entre muitas outras etiquetas.

Todos os trabalhadores com quem conversei procuraram-me com urgência para me contar como essa tragédia aconteceu para que eu pudesse explicar às "pessoas no Canadá que compram esses produtos". A morte de Carmelita Alonzo ocorreu depois de um longo período de turnos noturnos em uma temporada de pico particularmente pesada, "Havia muitos produtos para embarcar e ninguém tinha permissão de ir para casa", conta Josie, cuja fábrica de denim é de propriedade da mesma empresa da de Carmelita, e que também enfrentou grandes encomendas naquela época. "Em fevereiro, o chefe de linha virou quase todas as noites em uma semana." Não somente Alonzo tinha trabalhado nesses turnos, como tinha de fazer uma viagem de duas horas de volta para sua casa.

Sofrendo de pneumonia - uma doença comum nas fábricas que são sufocantemente quentes durante o dia e cheias de vapores condensados à noite -, ela pediu a sua gerente algum tempo para se recuperar. A gerente negou. Alonzo acabou dando entrada no hospital, onde morreu em 8 de março de 1997 - Dia Internacional da Mulher.

Perguntei a um grupo de trabalhadoras reunidas tarde da noite em torno de uma longa mesa no centro como se sentiram em relação ao que aconteceu com Carmelita. As respostas foram confusas no inicio. "Como me sinto! "Mas Carmelita somos nós." Mas então Salvador, um rapaz de expressão doce de 22 anos que trabalha em uma fábrica de brinquedos, disse algo que fez com que todos os seus colegas concordassem vigorosamente com a cabeça. "Carmelita morreu por causa das horas extras. Pode acontecer o mesmo com qualquer um de nós", explicou ele, as palavras estranhamente incongruentes com sua camiseta azul-claro trazendo os dizeres Beverly Hills 90210.

A maior parte do estresse causado pelas horas extras podia ser aliviada se as fábricas contratassem mais trabalhadores e criassem dois turnos mais curtos. Mas por que deveriam fazê-lo? O funcionário do governo nomeado para supervisionar a zona de exportação não está interessado em confrontar proprietários e gerentes de fábricas com as violações nas horas extras. Raymondo Nagrampa, o administrador da zona de exportação, reconheceu que certamente seria melhor se as fábricas contratassem mais pessoal para trabalhar em expedientes menores mas segundo me disse ele, "Acho que não vou me envolver. Acho que essa é uma decisão mais gerencial". De sua parte, os proprietários das fábricas não têm pressa em expandir o tamanho de sua força de trabalho, porque depois que uma grande encomenda é atendida pode haver um período de seca e eles não querem ser surpreendidos com mais empregados do que trabalho.

Depois de compreender que a lei trabalhista das Filipinas é "uma decisão gerencial", a maioria decide que é mais conveniente ter um grupo de funcionários que seja simplesmente obrigado a trabalhar mais horas quando há mais trabalho e um grupo menor quando o trabalho diminui. E este é o efeito adverso da equação de horas extras: quando uma fábrica está vivendo uma calmaria de pedidos ou um embarque de suprimentos está atrasado, os trabalhadores são mandados para casa sem pagamento, às vezes por uma semana.

O grupo de trabalhadores reunidos em torno da mesa no Centro de Assistência aos Trabalhadores explode numa gargalhada quando pergunto a eles sobre segurança no emprego ou um número garantido de horas de trabalho. "Sem trabalho, sem pagamento!", o jovem e a mulher exclamaram em uníssono. A regra "sem trabalho, sem pagamento" se aplica a todos os trabalhadores, contratados ou "regulares". Os contratos, quando existem, duram somente cinco meses ou menos, depois do que os trabalhadores têm de ser "recontratados". Muitos trabalhadores de fábrica em Cavite são na verdade contratados através de uma agência de empregos, localizada dentro dos muros da zona de exportação, que recolhe seus cheques e fica com uma parte - uma agência de trabalho temporário para trabalhadores de fábrica, em outras palavras, e mais um nível no sistema de múltiplos níveis sustentado por sua mão-de-obra.

A gerência usa uma variedade de truques em diferentes zonas para evitar que os empregados tenham o status de efetivos e, assim, não tenha de recolher os direitos e benefícios que os acompanham. Nas maquiladoras da América Central, é uma prática comum nas fábricas demitir trabalhadores ao término de um ano e recontratá-los algumas semanas depois, de forma que eles não tenham a garantia da efetivação; nas zonas tailandesas, a mesma prática é conhecida como "empregar e fritar".

Na China muitos trabalhadores das zonas de exportação não têm contrato nenhum, o que os deixa sem quaisquer direitos ou recursos. É nesse novo relacionamento informal com o emprego na fábrica que o sistema das ZPEs sucumbe completamente.

Em principio, as zonas são um mecanismo egenhoso de redistribuição de riqueza global. Sim, elas atraem empregos do Norte, mas alguns observadores imparciais contestariam a proposição de que, na medida em que as nações industrializadas mudam para economias de alta tecnologia, é somente uma questão de justiça global que os empregos sobre os quais nossa classe média foi construída devam ser compartilhados com países que ainda são escravizados pela pobreza. O problema é que os trabalhadores em Cavite, e nas zonas de exportação em toda a Ásia e América Latina, não estão herdando "nossos" empregos.

Gerard Greenfield, ex-diretor de pesquisa do Centro de Monitoração e Recursos Asiático em Hong Kong, diz, "Um dos mitos da realocação é que aqueles empregos que pareciam ser transferidos do chamado Norte para o Sul são percebidos como empregos similares aos que já existiam antes". Eles não são. Assim como a fabricação de propriedade da empresa se transformou - em algum lugar no oceano Pacífico - em "pedidos" a serem atendidos por terceiros, o emprego de horário integral passou por uma transformação em pleno vôo para "contratos". "O maior desafio para a Ásia", diz Greenfield, "é que o novo emprego criado pelas multinacionais ocidentais e asiáticas que investem na Ásia é temporário e de curto prazo."

Na verdade, os trabalhadores das zonas de exportação de muitas partes da Ásia, do Caribe e da América Central têm mais em comum com trabalhadores temporários de escritório na América do Norte e na Europa do que com trabalhadores de fábrica nesses países do Norte. O que está acontecendo nas ZPEs é uma alteração radical na própria natureza do trabalho na fábrica. Esta foi a conclusão de um estudo conduzido em 1996 pela Organização Internacional do Trabalho, que declarou que a realocação drástica de produção nos setores de vestuário e calçados "foi acompanhada de uma mudança paralela na produção do setor formal para o informal em muitos países, com conseqüências geralmente negativas para os níveis salariais e as condições de trabalho". O emprego nesses setores, continua o estudo, foi alterado de "empregos de horário integral na fábrica para empregos temporários e de meio expediente e, especialmente no setor de vestuário e calçados, ao emprego cada vez maior de trabalho em casa e em pequenas oficinas". Na verdade, esta não é apenas uma história de evasão de empregos.

Uma força de trabalho flutuante

Em minha última noite em Cavite, encontrei nos dormitórios das trabalhadoras um grupo de seis adolescentes que compartilhavam um quarto de concreto de 1,8 por 2,4 metros: quatro dormiam no beliche improvisado (duas em cada cama), e as outras duas em esteiras estendidas no chão.

logo ibmAs garotas que produziam drives de CD-ROM Aztec, Apple e IBM compartilhavam o beliche de cima; as que costuravam roupas Gap, o de baixo. Todas eram filhas de fazendeiros, longe de suas famílias pela primeira vez. A caixa de sapatos apertada que lhes servia de lar tinha o ar do final de uma festa de crianças apocalíptica: parte cela de prisão, parte Gatinhos e gatões.

Pode ter sido um chiqueiro convertido, mas eram garotas de 16 anos e, como as adolescentes de todo o mundo, elas haviam coberto as paredes cinzentas e manchadas com fotos: de animais peludos, estrelas de filmes de ação filipinos e vistosos anúncios de revista com modelos exibindo sutiãs e calcinhas de renda.

Depois de algum tempo, a conversa séria sobre as condições de trabalho explodiu em ataques de risadinhas e rostos se escondendo sob os cobertores. Parecia que minhas perguntas lembravam a duas das garotas uma paixonite que tinham por um sindicalista que recentemente dera um seminário no Centro de Assistência aos Trabalhadores sobre os riscos de infertilidade oriundos do trabalho com substâncias químicas perigosas. Então elas se preocupavam com infertilidade: - Ah, sim. Muito preocupadas agora.

Em todas as zonas de exportação da Ásia, vêem-se filas de adolescentes em camisetas azuis nas estradas, de mãos dadas com suas amigas e carregando guarda-chuvas para protegêlas do sol. Parecem estudantes indo para casa depois da escola. Em Cavite, como em toda parte, a grande maioria de trabalhadores é de mulheres solteiras entre 17 e 25 anos de idade. Como as garotas nos dormitórios, aproximadamente 80 por cento das trabalhadoras migraram de outras províncias das Filipinas para trabalhar nas fábricas - apenas 5 por cento são nativas da cidade de Rosário. Como as fábricas andorinhas, elas também têm pouca ligação com o lugar.

Raymondo Nagrampa, o administrador da zona de exportação, diz que as migrantes são recrutadas para a ZPE para compensar alguma coisa inata no "caráter Cavite", algo que torna as pessoas do lugar inadequadas para o trabalho nas fábricas situadas próximo de suas casas. "Não quero de forma alguma ofender a personalidade de Cavite", explicou ele, em seu espaçoso escritório com ar-condicionado. "Mas do que eu conheço, esse caráter em particular não é adequado para a vida na fábrica - eles preferem partir para alguma coisa rapidamente. Eles não têm paciência para o trabalho preciso na linha da fábrica." Nagrampa atribui isso ao fato de que Rosário fica perto demais de Manila, "e assim podemos dizer que os caviteanos não se preocupam com ter alguma renda para a subsistência diária... "

Mas no caso daqueles que vêm de outras províncias, de áreas mais pobres, eles não estão expostos ao estilo de vida da cidade grande. Eles se sentem mais à vontade trabalhando na linha de montagem da fábrica, pois, afinal, essa é uma melhoria acentuada em relação ao trabalho na fazenda com o qual estavam acostumados, onde eram expostos ao sol. Para eles, para o trabalhador humilde da província rural, o trabalho em uma fábrica fechada é melhor do que ficar do lado de fora." Perguntei a dezenas de trabalhadores da zona de exportação - todos migrantes de áreas rurais - sobre o que dissera Raymondo Nagrampa. Todos ficaram ultrajados. "Isso não é humano!", exclamou Rosalie, uma adolescente cujo trabalho é instalar "luzes traseiras" em monitores de computador IBM. "Nossos direitos estão sendo atropelados e o Sr. Nagrampa diz isso porque não viveu o trabalho em uma fábrica e as condições dentro dela."

Salvador, com sua camiseta 90210, ficou fora de si: "O Sr. Nagrampa ganha muito dinheiro e tem uma sala com ar-condicionado e seu próprio carro, então é claro que ele diria que prefere esse trabalho - é bom para ele, mas não para nós. (...) Trabalhar na fazenda é difícil, é verdade, mas lá nós temos nossa família e nossos amigos e, em vez de sempre comer peixe seco, temos alimento fresco para comer." Suas palavras claramente lembraram algo à saudosa Rosalie: "Queria estar com minha família na província", disse ela em voz baixa, parecendo ainda mais nova do que seus 19 anos. "É melhor, porque quando adoeço, meus pais estão lá, e aqui não há ninguém para cuidar de mim."

Muitos outros trabalhadores da área rural me contaram que teriam ficado em casa, se pudessem, mas a escolha foi feita para eles: a maioria de suas famílias tinha perdido suas fazendas, substituídas por campos de golfe, desapropriadas por leis de reforma agrária e mais zonas de processamento de exportação. Outros disseram que a única razão para que fossem para Cavite era que quando os recrutadores da zona de exportação chegaram a seus vilarejos, prometeram que os trabalhadores ganhariam o suficiente nas fábricas para enviar dinheiro para suas empobrecidas famílias. O mesmo incentivo foi oferecido a outras garotas de sua idade, disseram-me, para ir para Manila trabalhar no comércio sexual. Muitas outras jovens queriam me contar sobre essas promessas, também.

O problema, disseram elas, é que não importa quanto tempo elas trabalhem na zona de exportação, nunca sobra mais que alguns pesos para mandar para casa. "Se tivéssemos a terra ficaríamos lá para cultivá-la e atender a nossas necessidades" contou-me Raquel, uma adolescente que trabalha em uma das fábricas de roupas "Mas ficamos sem a terra, e assim não temos alternativa a não ser trabalhar na zona econômica, embora seja muito difícil e as condições aqui sejam muito injustas. Os recrutadores disseram que teríamos uma renda alta, mas pela minha experiência, em vez de mandar dinheiro para meus pais, não posso sequer arcar com minhas próprias despesas."

Assim, os trabalhadores de Cavite perderam em todos os cálculos: são sem dinheiro e sem teto. É uma combinação poderosa. Nos dormitórios, a privação de sono, a desnutrição e a saudade de casa se mesclam para criar uma atmosfera de profunda desorientação. "Somos estranhas nas fábricas. Também somos estranhas nos alojamentos porque todos viemos de províncias distantes", diz Liza, trabalhadora de uma fábrica de produtos eletrônicos. "Somos estrangeiras aqui."

Cecille Tuico, uma das organizadoras do Centro de Assistência aos Trabalhadores, ficou ouvindo nossa conversa. Depois que os trabalhadores deixaram o centro para tomar o caminho de volta a seus dormitórios através das escuras ruas de Rosário, ela assinalou que a alienação de trabalhadores tão comovedoramente descrita é precisamente o que querem os empregadores quando buscam trazer migrantes em vez de locais para trabalhar na zona de exportação. Com a mesma raiva muda e comum que reconheci em tantos militantes de direitos humanos filipinos, Tuico disse que os gerentes de fábrica preferem mulheres jovens que estão longe de casa e não terminaram o curso secundário porque "são assustadas e não conhecem seus direitos".

Outro produto da zona de exportação: novo tipo de trabalhador de fábrica

A ingenuidade e a insegurança indubitavelmente tornam mais fácil para gerentes de fábricas impor a disciplina, mas as jovens trabalhadoras são preferidas também outras razões. Mulheres são freqüentemente demitidas de seus empregos na zona de exportação por volta dos 25 anos, ouvindo dos supervisores que elas são "velhas demais", e que seus dedos não são mais suficientemente ágeis. Essa prática é uma forma muito eficaz de minimizar o número de mães na folha de pagamento da empresa.

Em Cavite as trabalhadoras me contaram histórias sobre gestantes obrigadas a trabalhar até as 2 da manhã, mesmo depois de protestar com o supervisor; de mulheres que trabalham na seção de passagem a ferro das roupas dando à luz bebês com queimaduras na pele; de mulheres que moldam o plástico para telefones sem fio dando à luz natimortos. O que ouvi em Cavite é contado em voz baixa e com urgência por mulheres com a mesma expressão aterrorizada que vi quando a conversa se voltava para Carmelita Alonzo. Algumas histórias eram certamente apócrifas - lendas geradas pelo medo na zona de exportação -, mas os maus-tratos de gestantes em zonas de processamento de exportação também são bem documentados e o problema vai bem além de Cavite.

Pelo fato de a maioria dos empregadores da zona de exportação querer evitar o pagamento de benefícios, a atribuição aos trabalhadores de um cronograma previsível ou a garantia de qualquer segurança no emprego, a maternidade tornou-se o tormento dessas zonas de colarinho rosa. Um estudo realizado pelo Human Rights Watch, que foi a base para uma queixa submetida ao acordo colateral do Nafta sobre o trabalho, revelou que as mulheres utilizadas em empregos nas maquiladoras mexicanas rotineiramente tinham de se submeter a exames de gravidez.

logo geO estudo, que envolve investidores nas zonas de exportação como Zenith, Panasonic, General Electric, General Motors e Fruit of the Loom, revelou que "às gestantes era negada a contratação. Além disso, os empregadores das maquiladoras às vezes maltratavam e dispensavam as empregadas grávidas". Os pesquisadores descobriram maus-tratos planejados para encorajar as trabalhadoras a se demitir: exigiam das gestantes trabalhar nos turnos da noite, ou fazer horas extras excepcionalmente longas sem pagamento e tarefas fisicamente fatigantes.

A elas também era recusada licença do trabalho para ir ao médico, uma prática que levava a abortos espontâneos no local de trabalho. "Desta forma", relata o estudo, "uma gestante é obrigada a escolher entre ter uma gravidez saudável, e levá-la a termo, e manter seu emprego."

Outros métodos de evitar os custos e responsabilidades de empregar trabalhadoras com filhos são relatados de forma mais casual em todas as zonas Em Honduras e El Salvador, os depósitos de lixo nas zonas de exportação são cobertos de caixas de contraceptivos vazias que foram largadas pelo chão da fábrica. Nas zonas de Honduras houve relatos de gerentes forçando trabalhadoras a fazer abortos. Em algumas maquiladoras mexicanas, exige-se que as mulheres provem que estão menstruadas através de práticas humilhantes, como verificações mensais nos vasos sanitários. As empregadas têm contratos de 28 dias - o tempo médio de duração do ciclo menstrual -, para facilitar, tão logo uma gravidez venha à luz, que a trabalhadora seja demitida.

Na zona de exportação do Sri Lanka, uma trabalhadora relatou estar tão aterrorizada de perder seu emprego depois de dar à luz que afogou seu bebê recém-nascido em um toalete. O ataque disseminado às liberdades de reprodução das mulheres nas zonas de exportação é a expressão mais brutal do fracasso de muitas corporações de bens de consumo de cumprir seu papel tradicional como empregadoras de massa. O "new deal", o "novo pacto", de hoje com os trabalhadores é um não-pacto; antigos fabricantes, transformados em especialistas em marketing, pretendem tão resolutamente fugir de todo e qualquer compromisso que estão criando uma força de trabalho de mulheres sem filhos, um sistema de fábricas desembaraçadas empregando trabalhadoras desembaraçadas.

logo gmEm uma carta ao Human Rights Watch explicando por que discriminava gestantes nas maquiladoras, a General Motors declarou francamente que "não contratará candidatas a empregos que possam engravidar" como uma forma de evitar "encargos financeiros substanciais impostos pelo sistema de previdência social do México". Depois que o relatório crítico foi publicado, a GM mudou sua política. Permanece, entretanto, um violento contraste com os dias em que a empresa tinha uma política de vanguarda, segundo a qual os homens adultos que trabalhavam em suas fábricas de automóveis deviam ganhar o suficiente não somente para sustentar a família de quatro pessoas, mas também para dirigir um carro ou caminhonete GM. A General Motors cortou cerca de 82.000 empregos nos Estados Unidos desde 1991 e espera cortar outros 40.000 em 2003, transferindo a produção para maquiladoras e suas clones em todo o planeta. Uma grande distância daquele tempo em que ela clamava com orgulho, "O que é bom para a General Motors é bom para o país".

Fábricas migrantes

Nesse sistema reestruturado, os trabalhadores não são os únicos de passagem. As fábricas andorinha que os empregam foram construídas para maximizar a flexibilidade: buscar isenções e incentivos fiscais, aproveitar as desvalorizações da moeda e se beneficiar dos rigorosos governos de ditadores. Na América do Norte e na Europa, a migração de empregos é uma ameaça com a qual os trabalhadores estão demasiado acostumados. Um estudo encomendado pela comissão de trabalho do Nafta revelou que nos Estados Unidos, entre 1993 e 1995, "os empregadores ameaçaram fechar as fábricas em 50 por cento de todas as eleições de certificação de sindicatos. (...) Ameaças específicas e claras iam de colocar etiquetas de embarque em equipamentos por toda a fábrica com endereço mexicano a pendurar mapas da América do Norte com uma seta apontando para o local da atual fábrica no México". O estudo revelou que os empregadores levaram a cabo todas as ameaças, fechando todas ou parte das fábricas recém-sindicalizadas, em 15 por cento desses casos - triplicando a taxa de fechamento da década de 1980 pré-Nafta.

Na China, na Indonésia, na índia e nas Filipinas a ameaça de fechamento de fábricas e migração de empregos é ainda mais poderosa. Uma vez que as indústrias podem fugir rapidamente de salários crescentes, regulamentações ambientais e impostos, as fábricas são feitas para que sejam móveis. Algumas dessas fábricas andorinha podem bem estar em seu terceiro ou mesmo quarto vôo e, como fica claro pela história da terceirização, elas aterrissam cada vez mais leves a cada nova parada.

Quando as multinacionais voadoras chegaram pela primeira vez a Taiwan, à Coréia e ao Japão, muitas de suas fábricas eram de propriedade e operadas por contratados locais. Em Pusan, na Coréia do Sul, por exemplo - conhecida durante os anos 80 como "a capital mundial dos tênis" -, empresários coreanos administravam fábricas para a Reebok, a L.A. Gear e a Nike. Mas quando, no final dos anos 80, os trabalhadores coreanos começaram a se rebelar contra os salários de um dólar por dia e formaram sindicatos para lutar por melhores condições, as andorinhas mais uma vez levantaram vôo. Entre 1987 e 1992, 30.000 empregos em fábricas foram perdidos nas zonas de processamento de exportação da Coréia, e em menos de três anos um terço dos empregos no setor de calçados desaparecera. A história é quase a mesma em Taiwan.

Os padrões de migração foram claramente documentados em relação aos fabricantes da Reebok. Em 1985, a Reebok produzia quase todos os seus tênis na Coréia do Sul e em Taiwan, e nenhum na Indonésia e na China. Em 1995, quase todas as fábricas haviam fluido da Coréia e de Taiwan e 60 por cento dos contratados da Reebok aterrissaram na Indonésia e na China. Mas, nessa nova etapa da jornada, as fábricas não eram de propriedade de contratados indonésios e chineses. Em vez disso, eram de propriedade e administradas pelas mesmas empresas coreanas e taiwanesas que as controlavam antes da mudança.

Quando as multinacionais retiravam os pedidos da Coréia e de Taiwan seus contratados as seguiam, fechando oficinas em seus países e construindo as novas fábricas em países onde a mão-de-obra ainda era barata: China, Indonésia Tailândia e Filipinas. Um desses contratados - o maior fornecedor individual da Reebok, Adidas e Nike - é uma empresa de propriedade taiwanesa chamada Yue Yuen. A Yue Yuen fechou a maioria de suas fábricas em sua terra natal, Taiwan, e partiu em busca dos baixos salários da China, onde emprega 54.000 pessoas em um único complexo de fabricação. Para Chi Neng Tsai, um dos proprietários da empresa, é muito bom para os negócios ir para onde os trabalhadores são famintos: "Trinta anos atrás, quando Taiwan estava com fome, nós também éramos mais produtivos", diz ele.

Os chefes taiwaneses e coreanos são singularmente posicionados para explorar essa fome: eles podem dizer aos trabalhadores, por experiência pessoal, o que acontece quando os sindicatos chegam e os salários aumentam. E manter contratados que já foram descartados antes é um golpe gerencial de gênio desfechado pelas multinacionais ocidentais. Que melhor maneira de manter os custos baixos do que fazer das vítimas de ontem os carcereiros de hoje? É um sistema que não contribui muito para a sensação de estabilidade de Cavite, ou para a economia filipina em geral, que já é incomumente vulnerável a forças globais, uma vez que a maioria de suas empresas é de propriedade de investidores estrangeiros. Como me disse o economista filipino Antônio Tujan, "Os contratados substituíram o intermediário filipino".

Na verdade, Tujan, diretor de um comitê consultor fundamental para a política econômica filipina, corrige-me quando me refiro às construções que vi na Zona de Processamento de Exportação de Cavite como "fábricas". Não são fábricas, diz ele, "são depósitos de mão-de-obra". Ele explica que, como todo o material é importado, nada é realmente produzido nas fábricas, somente montado. (Os componentes são fabricados em outro país, onde os trabalhadores são mais qualificados, embora ainda sejam mais baratos do que europeus ou norte-americanos.)

É verdade, agora que Tujan menciona isso, que quando subi na torre de água e olhei para a zona de exportação embaixo, parte do que contribuiu para a insustentável leveza de Cavite foi que, à parte um incinerador, não havia chaminés. É uma bênção para a qualidade do ar em Rosário, mas estranho para um parque industrial do tamanho de Cavite. Nem havia nenhuma explicação razoável para o que estava sendo produzido. Quando caminhei pelas ruas recém-pavimentadas da zona de exportação, surpreendeu-me a variedade de fabricação em andamento. Como muitas pessoas, eu pensava que as zonas de exportação asiáticas eram principalmente recheadas de roupas e produtos eletrônicos, mas não Cavite: uma fábrica fazia bancos de carro perto de outra que fazia tênis, do outro lado da rua ficava uma fábrica com dezenas de lanchas de corrida estacionadas junto a seu portão. Em outra rua, as portas abertas de uma fábrica revelavam estantes de vestidos e casacos, bem ao lado da fábrica em que Salvador faz chaveiros da moda e outros pequenos brinquedos. "Está vendo?", diz Antônio Tujan. "Temos um país cuja indústria é tão deformada, tão inacreditavelmente confusa que não pode existir por si mesma. É tudo um mito. Eles falam de industrialização no contexto da globalização, mas tudo isso é um mito." Não surpreende que a promessa de industrialização em Cavite seja considerada uma ameaça. O lugar é uma miragem do desenvolvimento.

Voam os compradores

O medo de que as multinacionais volúveis mais uma vez retirem suas encomendas e migrem para condições mais favoráveis permeia tudo que acontece nas zonas de exportação, o que contribui para uma estranha dissonância: apesar do fato de não possuírem propriedades físicas - os prédios, os terrenos ou o equipamento não são seus -, marcas como a Nike, a Gap e a IBM são onipresentes, exercendo sua influência invisível em tudo. São tão poderosas como compradoras que o envolvimento prático que acarretaria possuir as fábricas chega a lhes parecer, de sua perspectiva, microgenrenciamento desnecessário.

E como os verdadeiros proprietários e gerentes de fábrica são completamente dependentes de seus grandes contratos para colocar as máquinas para funcionar, aos trabalhadores resta uma posição de barganha singularmente fraca: não é possível sentar e negociar com um formulário de pedidos. Assim, mesmo a clássica divisão marxista entre operários e patrões não funciona bem na zona de exportação, uma vez que as multinacionais de marca espoliaram os "meios de produção", para usar uma expressão de Marx, relutantes em se incumbir das responsabilidades de realmente possui gerenciar as fábricas, e empregar uma força de trabalho.

As multinacionais acabam tendo mais poder sobre a produção sem possuir a fábricas. Como a maioria dos compradores, elas não vêem necessidade de se preocupar com como suas barganhas são produzidas - simplesmente saltam sobre os fornecedores, mantendo-os sob suas garras por intermédio das ofertas de muitos outros contratados. Um contratado, a Young ll Kim da Guatemala, cuja fábrica de San Lucas produz roupas para a WalMart e a J.C. Penney, diz de seus clientes de grandes marcas, "eles estão interessados em roupas de alta qualidade entrega rápida e custos de produção baratos - e é só".

Nesse contexto implacável, cada contratado promete entregar os bens de modo mais barato do que as marcas conseguiriam se começassem a produzir na África, no Vietnã ou em Bangladesh, ou se passassem a usar profissionais que trabalham em casa. Mais espalhafatosamente, o poder das marcas pode ocasionalmente ser invocado para afetar a política pública nos países onde se localizam as zonas de exportação.

Empresas ou seus emissários podem fazer declarações públicas sobre como um aumento no salário mínimo oficial pode custar a um determinado pais da Ásia a "saída do mercado", como os contratados da Nike e da Reebok rapidamente disseram ao governo indonésio no caso de as greves saírem de controle. Chamando uma greve em uma fábrica da Nike de "intolerável", Anton Supit, presidente do conselho da Indonesian Footwear Association, que representa contratados para Nike, Reebok e Adidas, pediu a intervenção militar da Indonésia. "Se as autoridades não lidarem com as greves, especialmente as que levam a violência e brutalidade, perderemos nossos compradores estrangeiros. A renda que o governo aufere com as exportações diminuirá e o desemprego será agravado."

Os compradores corporativos também podem ajudar a planejar acordos de comércio internacionais para reduzir cotas e tarifas, ou até fazer lobby diretamente com o governo para afrouxar as regulamentações. Por exemplo, ao descrever as condições sob as quais a Nike decidiu começar a "terceirizar" a produção de seus calçados na China, o vice-presidente da empresa, David Chang, explicou que "uma das primeiras coisas que dissemos aos chineses foi que seus preços tinham de ser mais competitivos em relação a nossos outros fornecedores do Extremo Oriente porque o custo de fazer negócios na China é enorme. (...) A esperança é de uma vantagem de preços de 20 por cento em relação à Coréia".

Afinal, que consumidor preocupado com preço não faz comparações de preço nas lojas? E se uma mudança para um país mais "competitivo" causa mais demissões em outra parte do mundo, a responsabilidade não será deles, mas dos outros. Como disse o CEO da Levi's, Robert Haas, "Essa não é uma história de evasão de empregos". As corporações multinacionais têm se defendido veementemente da acusação de estão orquestrando uma "corrida pela pior posição" com o argumento de que sua presença ajudou a elevar o padrão de vida em paises subdesenvolvidos. Como disse o CEO da Nike, Phil Knight, em 1996, "Nos últimos 25 anos, a Nike proporcionou bons empregos, melhorou as práticas de trabalho e aumentou os padrões de vida onde quer que tenha operado".

Confrontado com os salários de fome no Haiti, o porta-voz da Disney disse ao Globe and Mail: "É um processo que todo pais em desenvolvimento vai atravessar, como o Japão e a Coréia, que estavam nesse estágio décadas atrás." E não faltam economistas para subverter as revelações crescentes de abuso corporativo, afirmando que as fábricas que exploram mão-de-obra não são um sinal de direitos erodidos, mas um sinal de que a prosperidade está prestes a acontecer. "Minha preocupação", disse o famoso economista de Harvard Jeffrey D. Sachs, "não é que haja fábricas demais que exploram mão-de-obra, mas que haja poucas delas (...) Estes são precisamente os empregos que representaram os degraus para Cingapura e Hong Kong e estes são os empregos que temos de levar à África para arrancá-la da opressiva pobreza rural."

O colega de Sachs, Paul Krugman, concordou, afirmando que no mundo em desenvolvimento a escolha não é feita entre empregos e bons empregos, mas entre empregos ruins e nenhum emprego. "A visão esmagadoramente preponderante entre os economistas é a de que o crescimento desse tipo de emprego é uma notícia tremendamente boa para os pobres do mundo." Entretanto a defesa das fábricas que exploram mão-de-obra, do tipo "sem sofrimento não há recompensa", sofreu uma forte derrota quando as moedas daqueles países que supostamente mais se beneficiaram de seu modelos de desenvolvimento começaram a despencar como reboco barato.

Primeiro no México, depois na Tailândia, na Coréia do Sul, nas Filipinas e na Indonésia, os trabalhadores estavam, e em muitos casos ainda estão, levando para casa seus cheques de pagamento de salário mínimo valendo menos do que quando o "milagre econômico" começou a abençoar suas nações anos antes. O diretor de relações-públicas da Nike, Vada Manager, costuma afirmar que "as oportunidades de emprego que proporcionamos a homens e mulheres nas economias em desenvolvimento como o Vietnã e a Indonésia têm formado uma ponte de oportunidade para aqueles indivíduos terem uma qualidade de vida muito melhor", mas, no inverno americano de 1998, ninguém sabia melhor do que a Nike que a ponte tinha ruído. Com desvalorização monetária e inflação crescente, os salários reais nas fábricas indonésias da Nike caíram 45 por cento em 1998.

Em julho daquele ano o presidente da Indonésia, B. J. Habibie, pediu aos 200 milhões de cidadãos de seu país que fizessem sua parte para manter o suprimento cada vez menor de arroz do país jejuando dois dias por semana, do amanhecer ao anoitecer. O desenvolvimento baseado em salários de fome, longe de dar o pontapé inicial para uma melhoria estável nas condições de vida, provou ser um exemplo de um passo para frente, três para trás. E no início de 1998 não havia mais reluzentes Tigres Asiáticos para apontar, e aquelas corporações e economistas que montaram uma defesa tão singular da exploração de mão-de-obra viram seus argumentos serem inteiramente desacreditados.

O medo de voar tem se agigantado em Cavite ultimamente. A moeda começou sua espiral descendente algumas semanas antes de eu chegar, e desde então as condições têm piorado. No início de 1999, o preço de mercadorias básicas como óleo de cozinha, açúcar, frango e sabão havia aumentado 36 por cento em relação ao ano anterior. Os cheques de pagamento, que mal davam para equilibrar o orçamento, agora não já cumpriam nem mesmo esta função. Os trabalhadores que tinham começado a encontrar coragem para enfrentar a gerência agora viviam não só sob a ameaça de demissão em massa e partida da fábrica, mas com a realidade. Em 1998, 3.072 empresas nas Filipinas fecharam as portas ou reduziram suas operações - um aumento de 166 por cento em relação ao ano anterior.

Por sua vez, a Nike demitiu 268 trabalhadores na fábrica Philips, onde eu tinha visto, através de sua cerca, os calçados dispostos em grandes pilhas. Poucos meses depois, em fevereiro de 1999, a Nike se retirou de duas outras fábricas das Filipinas, estas localizadas próximo da zona de exportação de Bataan; 1.505 trabalhadores foram afetados pelos fechamentos.

Mas Phil Knight não tem nada a ver com o trabalho sujo - ele apenas cortou os pedidos e deixou o resto para os contratados. Como as próprias fábricas, essas demissões ficaram sem o logotipo da Nike. A transitoriedade presente no tecido das zonas de livre comércio é uma manifestação extrema da espoliação corporativa do mundo do trabalho, que está ocorrendo em todos os níveis da indústria. Cavite pode ser o local das férias de sonho do capitalismo, mas a casualização é um jogo que pode ser disputado em casa, e contratar fora, como escreveu o repórter da Business Week Aaron Bernstein, é uma distribuição de riqueza às avessas. "Embora a terceirização tenha começado na fabricação no início da década de 1980, ela se expandiu por quase todos os setores à medida que as empresas se apressaram a reduzir equipes em tudo, de recursos humanos a sistemas de computação."

A mesma tendência que está por trás dos conflitos marcas-versus-produtos e contratos-versus-emprego estimula o movimento para o trabalho temporário, de meio expediente, autônomo e feito em casa na América do Norte e na Europa, como veremos no próximo capítulo. Essa não é uma história de evasão de empregos, é uma história de fuga dos empregos.