Braspress: encantar o cliente ou buscar um cliente encantador?

A Braspress é uma empresa de encomendas rápidas que se diferenciou no mercado logístico por meio da adoção de um modelo de negócio que envolve tecnologia, busca constante de eficiências, operação capilar em todo o Brasil e técnicas de segmentação.

Em um mercado altamente competitivo, a Braspress tem um critério de segmentação bem particular: busca clientes que compartilhem os seus valores.

Urubatan estava na ponte aérea se preparando para decolar de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro. Essa viagem era emblemática. O empresário iria inaugurar a nova filial da Braspress. Mais do que uma filial, a nova unidade era uma ação ousada e a concretização de um sonho. O novo terminal seria o mais moderno e equipado com o maior sorter da América Latina. Os investimentos na nova casa somavam R$ 35 milhões e a meta era crescer 10 vezes a área de atuação no estado fluminense. Tinha de dar certo.

Enquanto ouvia o barulho das turbinas do avião, lembrava do início da trajetória da empresa há 32 anos. Durante todo esse tempo precisou tomar decisões que impactaram diretamente no resultado da transportadora. Preferiu apostar mais na sua própria experiência do que confiar em regras prontas. Muitas vezes ignorou alguns conselhos e desafiou o senso comum. Foi difícil, mas tinha valido a pena...

A história da Brasspress

O transporte de cargas é o principal componente dos sistemas logísticos das empresas. Sua importância pode ser medida por meio de, pelo menos, três indicadores financeiros: custo, faturamento e lucro. O transporte representa, em média, 64% dos custos logísticos, 4,3% do faturamento, e em alguns casos, mais que o dobro do lucro (FLEURY; WANKE; FIGUEIREDO, 2000; BOWERSOX; CLOSS; STANK, 1999). No Brasil, 60% da movimentação de cargas são feitas pelo transporte rodoviário. Portanto, é possível afirmar que a economia brasileira move-se sobre rodas. A frota brasileira é formada por 1,4 milhões de caminhões que atravessam o território nacional. É nesse cenário que atua a Braspress Transportes Urgentes, empresa especializada em distribuição de encomendas expressas.

logo braspressEm julho de 1977, a Braspress despontava no mercado de transporte com um telefone, uma Kombi e um velho F350. A população brasileira era de 113,2 milhões de pessoas. O Brasil vivia sob o regime militar. O então presidente da república, Ernesto Geisel, só iria revogar o AI-5 em 31 de dezembro de 1978, dando um passo decisivo no processo de redemocratização do país. A crise do petróleo estremeceu as economias mundiais e abriu as portas para as pesquisas e programas de combustíveis alternativos como o Proalcool no Brasil.

Hoje, com mais de 190 milhões de pessoas, o Brasil vive uma nova etapa de sua história política e econômica. O regime democrático está estabelecido, Luiz Inácio Lula da Silva é o atual presidente. Os biocombustíveis são uma realidade. Mas a matriz do transporte não mudou. O transporte de carga rodoviário ainda é o principal responsável pela movimentação das riquezas produzidas no Brasil.

Passados 32 anos, a Braspress que atua na distribuição de encomendas urgentes, opera com uma frota própria de 985 veículos. As operações envolvem mais 500 veículos agregados e um contingente de 4.288 funcionários distribuídos em 89 filiais em todo o território nacional. Os caminhões da Braspress rodam mais de 66 milhões de quilômetros ao ano, consumindo cerca de 14 milhões de litros de combustíveis. A cada mês emite 800 mil despachos em média, o que significa realizar cerca de 8.000 coletas/dia e 40.000 entregas/dia, movimentando 125.000 volumes/dia. A Braspress integra o GRUPO H&P Empreendimentos e Participações Ltda, formado ainda pelas empresas Planex – Locação de Equipamentos Ltda; Aeropress – Transportes Aéreos Ltda; T.C.G. – Terminal de Cargas de Guarulhos e Air Minas – Linhas Aéreas Ltda.

Concorrendo com várias empresas, inclusive com os Correios, a Braspress atingiu um lugar de destaque no mercado de entregas expressas. Hoje a empresa é referência em tecnologia, confiabilidade e agilidade. A Braspress tem crescido em um ritmo forte. Para 2009 a meta é de 30% de crescimento sobre o faturamento de 2008. A empresa faturou cerca de R$ 430 milhões em 2008, e espera alcançar a marca de R$ 540 milhões neste ano, que foi marcado pela crise financeira internacional. Tecnologia, processos, informação, confiabilidade, profissionalismo, uma área comercial agressiva e uma posição desafiadora perante o mercado. Urubatan Helou, diretor da Braspress, garante que a empresa não procura encantar o cliente, na verdade espera que o cliente a encante.

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O mercado e as dificuldades

A Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) registrou 985.537 transportadores em 2008 entre autônomos, empresas e cooperativas. Dados da ANTT mostram o cenário atual e informações gerais do setor:

  • O Transporte Rodoviário é responsável pela movimentação de mais de 60% das cargas transportadas no Brasil; • Estima-se que os veículos de carga estejam envolvidos em 30% dos acidentes com vítimas fatais;
  • O setor apresenta altos custos operacionais;
  • Existe elevada incidência de roubo de carga;
  • A idade média dos caminhões que trafegam pelas estradas brasileiras é de 16 anos;
  • Muitos veículos trafegam com sobrepeso de carga (além da capacidade técnica do caminhão);
  • O valor do frete está abaixo do ideal devido à competição entre os transportadores (excesso de oferta de transporte versus disponibilidade de carga);

Roubo de carga, estradas em péssimas condições, concorrência predatória, o custo Brasil são alguns dos problemas do setor de transporte de cargas. Problemas que na visão da Braspress não atrapalham o desempenho da empresa. Segundo Urubatan Helou, fundador, Diretor-Presidente e controlador do Grupo H&P, do qual a Braspress é a empresa-mãe, “os problemas são isonômicos, ou seja, todo mundo tem”. O que diferencia uma empresa da outra são as estratégias adotadas frente ao mercado. “A forte política de comercialização aliada à qualidade dos serviços oferecidos e prestados, bem como a malha operacional são alguns dos trunfos da Braspress”, explica Helou.

O desafio

Durante 32 anos a Braspress se desenvolveu e se diferenciou da concorrência atendendo o segmento de cargas fracionadas, mais especificamente o segmento de cargas expressas. Muitas escolhas e decisões precisaram ser tomadas. Decisões estas que impactaram diretamente na segmentação, área de atuação, crescimento e rentabilidade da empresa.

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Durante a década passada, a expansão eletrônica decretava verdades absolutas. “Só haverá dois tipos de empresas: as que estarão na Internet e as que não existirão”, garantia Craig Barrett, presidente da Intel. No mundo dos transportes a lei era “quem não atender empresas do comércio eletrônico estará fadado ao fracasso”.

A Braspress até hoje não possui nenhum cliente desse setor. “Temos 0% de clientes do comércio eletrônico. Decidimos não atendê-los. Esse tipo de cliente demanda mais tempo de atendimento, inclui serviço de logística reversa e não remunera mais por isso”, explica Helou. Uma encomenda de uma loja virtual precisa ser entregue em horários específicos; o conhecimento deve ser assinado, o comprador deve estar no local para receber, a documentação precisa ser checada, se algum desses fatores não estiver de acordo ou se produto não estiver em conformidade com o pedido a mercadoria retorna para a base e é preciso fazer um novo processo. “Somos uma empresa B2B e não B2C”, completa Helou.

Em todos esses anos de atuação o maior desafio da Braspress e das empresas de cargas expressas é receber pelo peso e cubagem transportados. As transportadoras locam espaço dentro dos baús de seus caminhões e cobram pelo volume ou peso da encomenda. O problema é que os clientes acabam colocando um valor (peso ou medidas) menor na nota fiscal. A evasão de receita causada por essa diferença gira em torno de 15% do faturamento das empresas. Vale lembrar que, a Braspress transporta 125.000 volume/dia e espera faturar em 2009 R$ 540 milhões. Então, o que fazer? Como confrontar o cliente e fazer com que ele pague pelo volume correto sem perdê-lo? Como fazer isso de forma eficiente, sem comprometer o desempenho e o tempo de coleta e entrega?

A estratégia

Pioneira na utilização de eficientes ferramentas de gestão, a companhia sempre teve obstinação na busca de tecnologias, o que acabou ao longo do tempo transformando- a em uma referência para o setor logístico. Urubatan Helou gosta de afirmar que a Braspress é uma “fábrica de encomendas” e que os critérios de melhoria continua e gestão de processos aplicados a produção funcionam muito bem para os serviços de encomendas expressas.

Para dar vida a essa ideia, a Braspress decidiu que precisava ganhar escala e confiabilidade nos processos. Precisava investir para poder crescer. E é nessa hora que as empresas muitas vezes empacam. É o chamado ‘dilema de Tostines’ “É preciso crescer e faturar mais para investir ou investir para poder crescer e faturar mais?” Bem, a Braspress decidiu que se não investisse em tecnologia não teria condições de crescer. O faturamento só poderia aumentar se as operações crescessem de uma forma agressiva e para isso era preciso automatizar as operações. A empresa investe entre 6,5% a 7% do seu faturamento em tecnologia. Essa é uma porcentagem relativamente alta quando se sabe que os bancos, um dos setores que mais investem em tecnologia, aplicam 8% de seus recursos nessa área.

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A Braspress optou pelo desenvolvimento de seus próprios softwares; rastreia todos os volumes transportados por meio da adoção de um modelo próprio de código de barras, além de aferição de peso e aplicação de cubagem em toda a carga. Com isso a empresa tem o seu processo automatizado desde o pedido da coleta até a entrega. O cliente e a empresa podem monitorar a carga em tempo real. Com esse sistema a empresa pode oferecer rapidez, eficiência e segurança aos clientes. Como a cubagem e a pesagem são aferidas, a Braspress conseguiu recuperar quase 15% de evasão de receitas. Claro que alguns clientes reclamaram, mas a maioria preferiu acertar os valores e ganhar mais rapidez e confiabilidade nas entregas expressas.

Nessa hora Helou afirma, “quero que o meu cliente me encante. Não quero qualquer cliente. Nós oferecemos a maior cobertura territorial do país, cobrimos 98% da última milha territorial. Só não fazemos 100% porque os últimos 2% seguem de barca, mas nós monitoramos tudo até o final. Nem os Correios têm essa cobertura”. A Braspress aposta na eficiência como diferencial e busca clientes que reconheçam o diferencial e paguem por esse tipo de serviço.

Em junho de 2009 a empresa inaugurou o terminal de carga do Rio de Janeiro (RJ) e com ele o maior sorter da América Latina - sistema automatizado de separação de cargas, que reduz o transit-time e informa o peso e a cubagem reais. O empreendimento custou R$ 35 milhões e tem metas ousadas. A empresa quer crescer 10 vezes a sua atuação no mercado. A Braspress quer ganhar market share e se tornar líder no setor de entregas expressas no estado do Rio de Janeiro.

O sorter é um conjunto de esteiras rolantes e elétricas instrumentadas por equipamentos de leitura ótica, células fotoelétricas, balança e dimensionador de volumes, comandados eletronicamente. O sistema instalado na filial do Rio de Janeiro tem a extensão de 4,7quilômetros de esteiras e capacidade de 8.400 volumes por hora (140 volumes por minuto).

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O sistema proporciona aumento de produtividade com a diminuição do tempo das operações. Além disso, permite ainda o aumento na segurança; rastreabilidade das encomendas; maior precisão; interface IHM (Interface Homem Máquina) para o acompanhamento e visualização das operações e redução das perdas com extravios. Segundo Urubatan Helou “Com esse modelo, conseguimos a total customização na implementação da classificação das encomendas, utilizando a inteligência e expertise que possuímos. O funcionamento somente é possível com total integração e harmonia ao sistema Braspress Sorter Controller/Datapress e core business da Companhia, que proporcionará aumento de produtividade e consequente redução no tempo das operações”.

A receita da Braspress aliava tecnologia de ponta, pessoas engajadas e uma segmentação de clientes que compartilham os valores da empresa.

Urubatan chegou ao Aeroporto no Rio de Janeiro, onde um carro o aguardava. Enquanto seguia pela ponte Rio - Niterói, dava conta de que a inauguração do sorter era o começo de uma nova etapa da Braspress. Mas, quais seriam os próximos passos?

Questões para discussão

1. No mercado B2B, a segmentação de clientes por “valores percebidos” é uma metodologia que pode ser adotada por empresas em todas as indústrias? Quais seriam os passos para a implementação de tal estratégia? Quais seriam os riscos e oportunidades da adoção desta estratégia?

2. A criação de alianças duradouras com empresas escolhidas e compromissadas com um futuro próspero é uma tendência no mercado? Quais indicadores apontam nesta direção?

Referências: Entrevista coletiva e visita realizadas durante inauguração da Filial do Rio de Janeiro (RJ). TEIXEIRA, José Carlos Moreira. FOCO DO CLIENTE. Gente Editora. São Paulo. 2009. Imagens cedidas pela Braspress.

Fonte: Central de Cases da ESPM

Nota do Autor: Preparado pelo Prof. Marcus S. Piaskowy, da ESPM-SP. Recomendado para as disciplinas de: Administração, Marketing e Logística. Este caso foi escrito inteiramente a partir de informações cedidas pela empresa e outras fontes. Não é intenção do autor avaliar ou julgar o movimento estratégico da empresa em questão.