Sustentabilidade exige adoção de ferramentas adequadas

De tempos em tempos, novos paradigmas são incorporados às sociedades modernas. Hoje, a sustentabilidade é – e deve ser – parte central dos negócios em qualquer área. Esse paradigma é, mais do que nunca, evidente na agricultura, seja por pressão da sociedade, dimensão de potenciais impactos ou consciência adquirida pelo setor. O caso do setor sucroenergético não é diferente. Essa indústria encontra-se no centro do debate sobre fontes alternativas de energia, um dos maiores desafios desse século. Hoje, 18% de toda a energia que o país usa vêm da cana-de-açúcar.

A emergência de novos produtos, como os bioplásticos ou a alcoolquímica com base na cana, reforça ainda mais o papel deste setor na busca da redução da dependência global do petróleo. Porém, em um mundo de crescentes exigências da sociedade, de clientes e dos próprios empresários, a busca pela tão sonhada sustentabilidade passa a ser mais do que um ideal para se tornar também um real diferencial competitivo. 
A indústria sucroenergética tem se envolvido em uma série de projetos e programas que visam aliar o atendimento da crescente demanda por produtos renováveis com melhorias nas práticas produtivas. Essas ações são estratégicas na consolidação dos produtos dessa indústria como soluções para o mundo de baixo carbono. A efetividade de qualquer ação, entretanto, depende de uma série de fatores, sendo um dos mais importantes também o mais básico: o alinhamento entre objetivo geral e a ferramenta utilizada. Em outras palavras, aonde queremos chegar e qual é a melhor maneira para tanto? É possível usar um canhão para matar uma formiga, mas poucas pessoas optariam por esse método ao serem incomodadas durante um piquenique em família. Por outro lado, ninguém enfrentaria uma legião inimiga de chinelo em punho.

Não é incomum vermos projetos fracassarem porque a estratégia de ação não foi apropriada ao resultado que se pretendia alcançar. A indústria sucroenergética tem, na medida do possível, buscado alinhar ações e objetivos. Existem projetos com objetivos focados em poucos alvos e visando a grande taxa de adesão, bem como projetos mais complexos e elaborados que, obviamente, possuem menor capilaridade. Todos possuem seu valor.

PROTOCOLO AGROAMBIENTAL 
Um exemplo de sucesso que merece desta-que no setor é o Protocolo Agroambiental do Estado São Paulo. A mecanização da colheita da cana-de-açúcar, que dispensa o uso do fogo, passou a ser induzida por uma série de questões, incluindo fatores legais, ambientais e econômicos. O chama-do Protocolo Agroambiental veio reforçar este processo, antecipando os prazos legais para o fim da queima para 2014, em áreas mecanizáveis, e 2017 para outras áreas. 
Trata-se de um projeto voluntário que hoje reúne mais de 90% da indústria canavieira paulista e 29 associações de produtores de cana-de-açúcar, além das Secretarias Estaduais de Meio Ambiente e de Agricultura do Estado. Para que o fim da prática da queima gere os impactos desejados, a adesão deve ser setorial. A mecanização da colheita em poucas unidades de produção certamente não traria os resultados almejados. Não seria possível verificar melhorias na qualidade do ar caso, por exemplo, apenas uma usina de uma região adotasse as metas do Protocolo.

Neste sentido, a ampla abrangência do projeto torna-se essencial. O projeto é inovador e criou um modelo de “au-torregulamentação” que rapidamente ganhou escala e adesão, por traçar obje-tivos claros e focados, se enquadrar nas possibilidades reais de maneira setorial e ter sido negociado entre as partes en-volvidas. Dessa maneira, coloca-se como um exemplo de sucesso.

COMPROMISSO NACIONAL 
Outro exemplo de programa com abrangência setorial é o Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar, que estabelece um conjunto de boas práticas trabalhistas no campo, que vão além do que é exigido por lei. As práticas listadas neste Compromis-so, resultado de uma negociação tripartite – Indústria Sucroenergética, Trabalhadores e Governo Federal –, serão agora auditadas por instituições independentes. 
As empresas verificadas e aprovadas serão incluídas em uma “lista positiva”, a ser divulgada pela Secretaria Geral da Presidência da República, além de receber um selo. A intenção, como o Protocolo Agro-ambiental, é criar um compromisso de autorregulamentação, voluntário, focado em um tema específico e pré-acordado en-tre as partes interessadas, gerando, assim, benefícios com objetivos claros para todas as partes envolvidas.

RENOVAÇÃO 
A capacidade de articulação e coordenação entre os elos da cadeia produtiva também é um fator chave para o sucesso de ações para promoção de melhores práticas. É relevante mencionar aqui o Projeto Renovação, que reúne represen-tantes dos trabalhadores (Feraesp) e da indústria sucroenergética (Unica), além de contar com o apoio de outras empresas da cadeia sucroenergética (Case IH, John De-ere, Syngenta e Iveco), de um organismo internacional (BID) e também do setor não governamental (Fundação Solidaridad). 
O projeto surgiu como resposta ao processo de mecanização da colheita da cana-de-açúcar, que tem como externalidade negativa a redução de empregos na colheita manual e, como objetivo, treinar e requalificar trabalhadores e integrantes das comunidades locais, direcionando-os para atividades dentro da própria indústria e também em outros setores da economia paulista. 
O modelo multissetorial desse programa é interessante, pois permite o envolvimento de diversas partes que estão, de alguma forma, envolvidas no processo da mecanização. Tais parcerias também permitem ganhos de escala na medida em que esforços e custos são compartilhados. É claro, também que é preciso alinhar objetivos. Apenas o Projeto Renovação não será capaz de suprir toda a demanda por requalificação de trabalhadores. No entanto, é possível notar a disseminação de projetos com esse modelo dentro das próprias usinas. As associadas da Unica, individualmente, já estão requalificando quatro vezes mais trabalhadores do que o Renovação.

INFORMAÇÕES E CERTIFICAÇÕES 
Além disso, com o avanço da importância estratégica do setor, a coleta e o acesso de dados setoriais passou a ser extrema-mente relevante. Nesse ponto, a cooperação entre a indústria, a academia e os órgãos governamentais é estratégica. Sem o Canasat, por exemplo, iniciativa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que conta com apoio da Unica e de outros parceiros, o desafio para demonstrar que a cana-de-açúcar não exerce pressão sobre áreas de mata nativa no País teria sido muito maior.

Hoje, com as imagens de satélite coletadas, mapeadas e disponibilizadas online gratuitamente pelo INPE, é impossível argumentar contra esse fato. Essa transparência tem tido impactos importantíssimos no caminho para a comoditização do etanol. Outra ferramenta importante de transparência são os relatórios de sustentabilidade. A Unica publica seus relatórios seguindo o modelo internacional da Global Reporting Initiative (GRI). Essa ferramenta, reconhecida mundialmente como padrão, traz transparência e credibilidade aos dados publicados. Mais do que isso, uma vez que para a elaboração desse relatório a entidade de classe depende de dados e do envolvimento de suas associadas, há um efeito multiplicador.

Ao auxiliar a Unica, a usina já se prepara para elaborar o seu próprio relatório. Hoje, mais de 70 usinas publicam seus próprios relatórios GRI, algo inexistente no setor antes de 2008. É possível encontrarmos no mercado a proliferação de selos de sustentabilidade com requisitos focados em melhores práticas produtivas. O selo Bonsucro – uma mesa-redonda internacional que conta com a participação de produtores, consumidores e ONGs – se encaixa nesse modelo. 
O sistema entrou em operação em meados deste ano e já conta com duas usinas certificadas. Diversas outras estão em processo de auditoria e deverão receber o selo em breve. A adesão aos esquemas de certificação existentes geralmente implica um grau de complexidade considerável. Não tanto para o cumprimento dos requisitos, mas muitas vezes pela dificuldade em de-monstrar tal cumprimento. Além disso, as demandas vão muito além dos princípios básicos – como respeito às questões trabalhistas ou desmatamento –, incluindo também indicadores mais complexos, como cálculos de emissões, existências de serviços de ouvidoria, monitoramento de biodiversidade e rastreabilidade de produtos.

Existem empresas que possuem capacidade para cumprir com tais critérios, mas há também produtores que simplesmente não detêm os sistemas de gestão necessários para essas demandas. Uma vez mais, é preciso alinhar expectativas e percepções. As certificações, em seus modelos atuais, selecionam os melhores produtores. Ou seja, diferenciam companhias com as melhores práticas e, em geral, excluem empresas e produtores menores. Tal característica não faz dessas certificações algo sem valor. Pelo contrário, são de enorme importância para os produtores certificados e para as grandes indústrias consumidoras, como a alimentícia, que buscam estratégias de comunicação sobre sustentabilidade para seus produtos e marcas. Servem de exemplo. Além disso, tais certificações demandam a implementação de elaboradas práticas de gestão que podem, inclusive, trazer maior eficiência. 
Com a adoção desses sistemas, por exemplo, uma empresa poderá identificar que está aplicando mais fertilizantes do que o necessário. Assim, está claro que tais certificações são ferramentas importantes com impactos significativos, mas que, em seu modelo atual, não são a ferramenta mais adequada para difundir práticas responsáveis de maneira abrangente, envolvendo um setor como um todo. A escolha e os resultados de qualquer programa de sustentabilidade depende-rão de uma série de variáveis. 
A definição clara dos objetivos e do nível de adesão desejado ao programa são absolutamen-te essenciais para um desenho de sucesso. É preciso usar a ferramenta correta para o objetivo desejado. Não há “bala de prata” que possa ser utilizada em todas as situações e para todos os setores. Por fim, existem ainda outras duas características que podem influenciar no sucesso ou fracasso de um programa de sustentabi-lidade setorial: (a) as características da cadeia produtiva e (b) a capacidade de coordenação dessa mesma cadeia. 
Alguns atributos tecnológicos e organizacionais do setor sucroenergético colocam esse setor em uma posição favorável à implementação da agenda da sustentabilidade. A proximidade entre indústria e área agrícola, por exemplo, permite o uso e disseminação de tecnologias que impactam positivamente a sustentabilidade da produção. Avanços como a compostagem das cinzas das caldeiras e o amplo uso do controle biológico só foram possíveis graças a essa proximidade entre o capital industrial e o campo.

Essa não é, por exemplo, uma característica do setor de soja, que possui cadeia muito mais complexa, em que os grãos podem viajar milhares de quilômetros antes de serem processados por grandes conglomerados industriais. Esses fatores devem ser levados em conta. Um modelo de sucesso em um setor não será, necessariamente, bem-sucedido em outro. A boa capacidade de organização institucional do setor sucroenergético também é um fator relevante para o desenvolvimento de estratégias de sustentabilidade. 
A coleta e sistematização de informações, a adoção de modelos mais sofisticados de relação com partes interessadas, a coordenação entre entidades envolvidas e a comunicação dos resultados são exemplos que só podem ser atingidos com organização institucional setorial forte. Algumas das características apontadas, como a proximidade entre campo e indústria, são peculiares ao setor sucroenergético. Porém, outras, como a organização setorial, não o são necessariamente.

Entidades fortes, capazes de mobilizar e promover cooperação, são muito importantes para desenvolvimentos setoriais no tema da sustentabilidade. A experiência do setor sucroenergético é relevante, mas não é única. As decisões e os programas devem estar atrelados à busca do modelo adequado para cada finalidade e para cada tipo de cadeia produtiva. A busca pela tão sonhada sustentabilidade é um processo de aprendizado e transformação contínua. Ele pode ser motivado por convicções pessoais, por decisões estratégicas institucionais ou por pressões institucionais. Pragmaticamente, não há motivação mais “nobre” do que outra. O importante são os resultados gerados e para obtê-los é preciso utilizar as ferramentas adequadas a cada situação. “Um marceneiro jamais usaria um martelo para serrar uma tábua.”

Fonte: Visão Agrícola, por Luiz Fernando do Amaral e Beatriz Stuart Secaf