Líder em citros, Brasil ajusta setor às necessidades contemporâneas

Após a Reunião de Brundtland, os conceitos de sustentabilidade evoluíram no sentido de atender aos objetivos de um complexo sistema que contemple o desenvolvimento economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente sustentável. É importante ressaltar que, desde 1991, muito foi feito nos vários segmentos da sociedade para estabelecer os caminhos e atender às necessidades do presente, criando mecanismos que levem à equidade e preservem os potenciais para atendimento às necessidades das gerações futuras. 
A citricultura, como a maioria dos agronegócios, passou a incorporar melhorias nesse sentido, embora uma aferição quantitativa ainda seja difícil, face às dificuldades em se estabelecer um quadro de metas e um plano integrado de ações para os diferentes elos da cadeia produtiva.

Para avaliar o quanto já se conseguiu em direção à sustentabilidade, seria interessante adotar um modelo que discipline as ações dos diferentes segmentos da cadeia produtiva. Nesse sentido, nossas considerações serão agrupadas seguindo o modelo sugerido por Coral (2002), que agrega os sistemas de produção de modo a permitir a identificação de aspectos positivos e negativos, bem como medidas tomadas a fim de se aproximar aos conceitos de sustentabilidade. Para facilitar a identificação das mudanças ocorridas ou que vêm ocorrendo, podemos agrupar os indicadores em sustentabilidade econômica, ambiental e social, conforme adotado pelas empresas e outros segmentos ava-liados no planejamento e na avaliação da sustentabilidade.

SUSTENTABILIDADE ECONÔMICA 
A área de citros é a segunda maior em relação às outras frutas: são cerca de 7,63 milhões de hectares pelo mundo, perdendo apenas para a produção de banana (10,2 milhões de ha). O Brasil detém, atualmente, 50% da produção mundial de suco de laranja, exporta 98% do que produz e consegue incríveis 85% de participação no mercado mundial. A liderança brasileira na produção de laranja iniciou-se na safra 1981/82, quando a produção nacional superou a americana por ocorrências de geadas que atingiram a Flórida, principal região produtora da fruta nos Estados Unidos. 
De cada cinco copos de suco de laranja consumidos no mundo, três são produzidos em fábricas brasileiras. Trinta e cinco envasadores na Europa compram 80% do suco exportado pelo Brasil. Nos Estados Unidos, os quatro maiores envasadores detêm 75% do mercado. De acordo com a evolução histórica baseada no conhecimento e nas condições climáticas, essa é uma cultura que se concentrou na região Centro-Sul. Somente o estado de São Paulo possui 53% da produção mundial de suco e detém a maior população de plantas cítricas. Na safra 2009/2010, a produção brasileira foi de 397 milhões de caixas de laranja de 40,8 kg. O Produto Interno Bruto citrícola representou, em 2009, US$ 6,5 bilhões, sendo US$ 4,39 bilhões no mercado interno e US$ 2,15 bilhões no mercado externo.

No período de 1962 a 2009 a citricultura exportou, em valores de 2009, quase US$ 60 bilhões, ou R$ 111 bilhões, trazendo, em média, US$ 1,3 bilhão por ano em divisas ao país. Do ponto de vista da sustentabilidade econômica, estudos realizados destacam que a cadeia produtiva da laranja, a exemplo de outros produtos agrícolas, sofre com a variação normal das commodities que dependem prioritariamente do mercado de exportação. 
Apesar dessas flutuações, o agronegócio da laranja ainda apresenta vantagem competitiva em relação à maioria das cadeias produtivas. A experiência acumulada ao longo dos anos e a competência de inovação permitiram que o setor atingisse os níveis demandados, no momento e no futuro, pelo mercado internacional. A manutenção da competitividade pode ser avaliada ao partir do início da formação dos pomares. 
A evolução alcançada na produção de mudas em viveiro telado, sem dúvida, contribui para se reduzir o risco de introdução de viroses, cancro cítrico e gomose, oferecendo condições para a sustentabilidade. Hoje, com base na exigência legal estabelecida em São Paulo, os pomares são formados ou renovados com mudas que garantem início da produção em menor espaço de tempo, resultando em retorno dos investimentos em poucos anos.

QUALIDADE E CUSTO 
A superioridade da produção de laranja paulista da década de 2000 é destinada à produção de suco com orientação quase exclusiva para o mercado internacional. O consumo de sucos cítricos no Brasil é baixo, mas a demanda pela fruta fresca é elevada. O brasileiro, em cidades menores e em status de menor renda, ainda possui o hábito de elaborar o suco no local de consumo, ou consumir o próprio fruto. 
Na safra de 2009/10, o consumo per capita de suco de laranja no Brasil foi de 12,3 litros, quando somados o consumo das 41 mil toneladas de suco de laranja concentrado congelado (FCOJ) diluído aos 100 milhões de caixas de laranja vendidas in natura no mercado interno que, na sua quase totalidade, se transformam em suco em bares, padarias, restaurantes, hotéis e residências. 
Se o consumo interno de suco de laranja no Brasil se equiparasse aos patamares de países que possuem hábito diário de consumo de suco de laranja industrializado, a demanda incremental pela laranja brasileira poderia ser da ordem de 22 milhões a 65 milhões de caixas. Isso demonstra a necessidade de políticas de governo e estratégias da iniciativa privada para explorar mais fortemente o mercado interno. Por outro lado, políticas que incentivem o consumo de suco podem apenas deslocar a demanda da fruta in natura para o produto processado, não proporcionando uma ampliação efetiva do consumo de laranja. 
Outro fator de atenção é a tendência de outros sucos estarem ganhando espaço perante os sucos cítricos, como os de maçã, goiaba e pêssego, carecendo de estratégias de marketing conjuntas para disputar o consumidor com a concorrência.

Importante destacar as possibilidades da cadeia produtiva fundamentadas nos estudos sobre mudanças climáticas, realizados pela Embrapa e pela Unicamp, que projetaram as possíveis alterações provocadas em várias culturas incluindo a laranja. As projeções para 2050 apontam para as mudanças que poderão levar a cultura mais ao sul de São Paulo em condições de sequeiro, enquanto a irrigação será crescente nas regiões Norte e Noroeste. 
Ao longo dos ciclos agrícolas, a cadeia produtiva de citros mostrou-se muito importante na geração de oportunidades de trabalho, à medida que os cultivos se deslocavam por diferentes regiões do país, em geral, com terras mais baratas e falta de mão de obra. O reconhecimento de sua importância econômica e social levou ao desenvolvimento da capacidade de enfrentamento das crises que periodicamente ocorrem no setor, desde a dramática ocorrência da tristeza dos citros, causada pelo Citrus Tristeza Vírus (CTV), cujo primeiro foco foi detectado em 1937, na região do Vale do Paraíba, SP, até os dias atuais, do cancro cítrico e do greening. 
Apesar da importância econômica e social para o Brasil, o setor citrícola é carente de políticas de incentivo à produção, principalmente no segmento dos pequenos produtores que têm sofrido por não conseguirem renovar seus pomares em decorrência da contaminação pelo greening e cancro cítrico, com tecnologias mais adequadas para ganhos de produtividade.

CRESCIMENTO DA COMUNIDADE 
A legislação trabalhista desenvolvida e a compreensão dos responsáveis pelos diferentes elos da cadeia têm permitido crescente atendimento aos trabalhadores e no aperfeiçoamento da justiça social. Além dos compromissos assumidos de eliminação de trabalho infantil e respeito à qualidade de vida dos trabalhadores, a preocupação com a preservação ambiental ocupa ações e tecnologias de segurança do trabalho. O amadurecimento dos elos da cadeia produtiva leva ao desenvolvimento de ações dentro de uma nova orientação de benefícios pela adoção de boas práticas agrícolas e comerciais. 
Essa atitude positiva tem possibilitado o trabalho de criação do Conselho Estadual de Citricultura (Consecitrus), permitindo ampla convergência dos diferentes interesses dos elos da cadeia, de modo a garantir a competitividade da cultura com justiça social. Essa evolução levou à formulação do Plano Agrícola e Pecuário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que contará com crédito para estocagem de suco da fruta, evitando picos de oferta e baixos preços. 
O valor de referência para a caixa de 40,8 kg de laranja será de R$ 10,00, com limites de R$ 1,3 milhão para produtores e agroindústrias. O prazo de contratação era até 30 de setembro de 2011, com vencimento da primeira parcela do reembolso para 30 de junho de 2012 e prazo máximo para amortização até fevereiro de 2013. O suco de laranja penhorado como garantia não poderá ser comercializado antes do prazo de vencimento de cada parcela do financiamento.

Nas ferramentas disponibilizadas para a gestão do risco, a citricultura faz parte das culturas contempladas com Estudos de Zoneamento Agrícola de Risco Climático e está incluída no Programa de Subvenção ao Prêmio de Seguro Rural. Entretanto, este último ainda é pouco utilizado, atingindo, em 2009, apenas 11% de toda área ocupada pela agricultura brasileira. Um avanço importante para o setor foi a criação do seguro rural contra o greening e cancro cítrico, totalizando R$ 35 milhões em recursos. 
Serão beneficiados citricultores com até 20 mil pés, por volta de 87% dos produtores do estado de São Paulo. Novos incentivos aparecem também com a doação de 36 máquinas extratoras de sucos prontos para beber, para as prefeituras dos municípios citrícolas que tenham interesse em incluir o suco de laranja no cardápio das merendas escolares.

RECURSOS HUMANOS
No cinturão citrícola de São Paulo, assim como acontece nas principais regiões produtoras de laranja do mundo, as atividades de formação dos pomares, cultivo da safra, colheita das frutas e transporte da laranja até o ponto de compra, são de responsabilidade dos produtores agrícolas. Para tanto a citricultura gera, entre empregos diretos e indiretos, um contingente de 230 mil posições e uma massa salarial anual de R$ 676 milhões. De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, a safra de laranja de 2009/10 começou com aproximadamente 58 mil trabalhadores contratados no Brasil. Ao longo da safra foram admitidos trabalhadores temporários que normal-mente são desligados no final do período. Em julho/2010, desde o início da safra, obteve-se mais 90 mil pessoas envolvidas na cultura. Nenhuma outra cultura absorve tamanha quantidade de trabalhadores temporários por hectare no estado de São Paulo como a citricultura. Os dados comprovam a importância do setor na geração de empregos no campo, que contribuem para a movimentação da economia de muitos municípios brasileiros, localizados em maior número no estado de São Paulo.

O desenvolvimento da citricultura tem recebido apoio de inovações que permitem o enfrentamento de demandas contínuas que surgem em uma cultura perene. Essa característica da espécie exige a capacidade de antecipação da tendência do mercado e de ocorrências biológicas que precisam de ajustes para manter a sustentabilidade econômica e, ao mesmo tempo, atender às demandas de qualidade e mínimo impacto sobre o ambiente e utilização sustentável de recursos naturais. Um excelente exemplo vem sendo desenvolvido face à crescente demanda de pulverização contra o psilídeo, vetor da bactéria causadora do greening e da doença estrelinha causada pelo fungo Colletotrichum acutatum.

A necessidade de pulverizações em espaços curtos de tempo estão exigindo que a estratégia de controle seja revista Tradicionalmente, as pulverizações utilizavam volumes elevados de calda que variavam em torno de 10 litros por planta. Considerando os espaçamentos existentes, a quantidade de água exigida era de 2.000 a 4.000 litros por hectare. No momento, considera-se não mais o volume por planta, mas o volume nas linhas em um hectare (volume total da linha). Assim, uma quadra no espaçamento de 7,5 m com 5 m de profundidade e 5 m de altura teria um volume de 33.333 m³. As pesquisas indicam a possibilidade de aplicar com eficiência e efetividade 30 ml por m³. Essa dosagem corresponde ao uso de 1.000 litros por hectare. Considerando o uso de 3.000 litros por hectare, conforme recomendações dos fabricantes, teríamos uma economia de 2.000 litros. Tomando-se 15 pulverizações usuais em um pomar teríamos uma economia de 30.000 litros de água por hectare. Considerando que temos 600.000 hectares de citros, estaríamos economizando 18 bilhões de litros de água por ano. Para um cálculo mais preciso seria importante estender esses cálculos, considerando a realidade dos nossos pomares, levando em conta espaçamento, idade e porte das plantas.

É evidente que poderíamos considerar de forma conservadora pomares, em média, com 20.000 m³. Mesmo assim teríamos uma economia expressiva. Além da economia de água, é preciso ressaltar que o escorrimento de produtos no solo evitaria o risco de contaminação do solo e dos lençóis aquíferos. A política fitossanitária, baseada na supressão do cancro cítrico, obteve excelentes resultados do ponto de vista econômico e ambiental. A doença permaneceu sob controle até 2009, quando a política fitossanitária foi alterada. Estima-se que foram evitadas pelo menos três pulverizações com cúpricos por ano pelo controle da expansão da doença. Considerando a aplicação de 5 kg de produto cúprico por hectare, seriam colocados anualmente no ambiente nove mil toneladas do fungicida e cerca de 3,6 bilhões de litros de água (considerando o uso médio de 2.000 litros de água/ hectare). A cadeia produtiva do citros, graças ao desenvolvimento das pesquisas e tecnologias financiadas principalmente pelos produtores, evolui rapidamente dentro da visão da sustentabilidade, cobrindo os seus diferentes aspectos de forma mais ou menos intensa.

Fonte: Visão Agrícola, por Lourival Carlos Mônaco