Cerrado brasileiro carece de mais investimentos em práticas sustentáveis

Ocupando área de cerca de 200 milhões de hectares, aproximadamente 22% do território nacional, em sua maior parte concentrada no Planalto Central do Brasil, o Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, somente superado pela Floresta Amazônica. Estima-se que 70% dessa área sejam potencialmente agricultáveis. Esse bioma engloba Goiás, Distrito Federal e parte dos estados de Minas Gerais, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Tocantins, Maranhão, Piauí e Pará.

O Cerrado brasileiro tem o privilégio de contar com o fator mais importante para a produção de alimentos: o clima. Com precipitação média anual entre 1.200 mm e 1.800 mm, distribuída basicamente entre os meses de outubro a abril, o Cerrado tem permitido a implantação de diversas culturas, principalmente soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, em extensas áreas de cultivo. De acordo com Prevedello & Carvalho (2006), nas últimas quatro décadas, o Cerrado tornouse a maior fonte brasileira de grãos de soja e de área para pastagem, além de significativa contribuição na produção de arroz, milho e algodão. Ademais, passou a ser reconhecido como a última grande fronteira agrícola do mundo.

No Cerrado predominam Latossolos, presentes em 46% da área desse bioma. Caracterizam, principalmente, pela baixa fertilidade e elevada acidez – condições em que se faz necessária a correção dos atributos químicos e o fornecimento de nutrientes no desenvolvimento das culturas. Esse tipo de solo é profundo e permeável, de ótima drenagem, e situa-se em relevos planos ou levemente ondulados, permitindo o uso intensivo da mecanização (Cunha, 1994). Embora até a década de 1970 o solo do Cerrado tenha sido considerado praticamente impróprio para o cultivo agrícola, foram principalmente as suas condições edafoclimáticas que, com o avanço tecnológico, garantiram a expansão agrícola na região abrangida por esse bioma.

É possível corrigir a acidez e a baixa fertilidade dos Latossolos com o uso adequado de corretivos e de fertilizan-tes. Grande parte desses solos, cuja fertilidade foi construída à custa de altos investimentos, tem a sua capacidade de produção reduzida com o tempo e com a intensidade de cultivo, na grande maioria das vezes, devido a fatores como: deterioração dos atributos físicos, como consequência do sistema convencional de manejo do solo (excesso de preparo com implementos de discos, o que resul-ta na desagregação da estrutura do solo); ausência de resíduo vegetal em superfície; processos erosivos; compactação e impermeabilidade do solo; a adoção do monocultivo, principalmente da soja.

Apesar dos problemas enumerados, especialistas consideram possível a sustentabilidade da agricultura em áreas de Latossolos, desde que sejam adotadas técnicas agronômicas de manejo de solo e de rotação de culturas. Para viabilizar uma agricultura sustentável no Cerrado com culturas anuais, a necessidade de se manter o máximo de cobertura sobre a superfície do solo no período de entressafra é cada vez mais evidente. A essa cobertura vegetal são atribuídos os seguintes benefícios:

  • (I) controle de processos erosivos, por meio da eliminação do impacto direto das gotas de chuva sobre o solo, da re-dução da velocidade de escorrimento da água – fato que propicia mais tempo para que ocorra a infiltração, assim como reduz a ação de ventos; 
  • (II) diminuição da amplitude térmica, favorecendo os processos biológicos, como fixação biológica do nitrogênio atmosférico, germinação das sementes e crescimento das plantas, absorção de nutrientes e atividade da microfauna do solo; 
  • (III) manutenção da umidade e redução da evaporação da água do solo, bem como estresse hídrico da planta em situações de períodos de estiagem; 
  • (IV) controle de plantas daninhas, seja por efeito alelopático ou pela forma-ção de barreira física, que impede a penetração da radiação solar necessária para a germinação de sementes de algumas plantas daninhas, em particular aquelas consideradas fotoblásticas positivas, bem como a própria emergência das plântulas; 
  • (V) melhoria da fertilidade, com pequeno aumento no conteúdo de matéria orgâ-nica e da capacidade de troca catiônica (CTC) – assim, contribui com o processo de agregação e a diminuição das perdas de nutrientes por lixiviação. 

O princípio básico deve ser a proteção do solo, com a formação e o acúmulo da maior quantidade possível de resíduos vegetais depositados em sua superfície. O fato de parte de o Cerrado apresentar clima tropical (alto índice pluvial e temperaturas elevadas) faz que o incremento e a manutenção da palha sobre o solo sejam mais difícil quando comparado, por exemplo, ao ambiente de clima temperado. Tais características climáticas ocasionam maior velocidade de decomposição dos resíduos culturais, devido à maior intensidade de ação microbiana, proporcional, no entanto, à relação C/N das plantas. 
Desse modo, a utilização de plantas de cobertura que apresentam maior quantidade de carbono em relação ao nitrogênio, especialmente as plantas da família Poacea, é mais indicada. Plantas de cobertura como o milheto (Pennisetum americanum), o capim-braquiária (Brachiaria ruziziensis) e as crotalárias (Crotalaria spectabilis, Crotalaria ochroleuca e Crotalaria juncea) têm apresentado resultados benéficos aos sistemas de produção quando introduzidas nesse bioma. 
A diversidade de plantas de cobertura nos sistemas de produção é a chave na busca da sustentabilidade agrícola do Cerrado, pois proporciona reciclagem de nutrientes, equilíbrio populacional de microrganismos (benéficos versus maléficos), incremento da matéria orgânica e acúmulo de nutrientes nas camadas superficiais. Outro fator importante consiste na capacidade potencial para a manutenção e a melhoria da estrutura do solo. Esta, por sinal, está diretamente relacionada aos principais atributos que impactam o potencial produtivo, entre os quais destacam-se a capacidade de armazenamento de água, a porosidade, a resistência à penetração, a lixiviação de nutrientes e a oscilação térmica.

USO RACIONAL 
A agricultura é uma atividade que de-pende, necessariamente, dos recursos naturais, dos processos ecológicos e, na mesma medida, do desenvolvimento técnico e humano. Para ser uma ativi-dade lucrativa, a agricultura deve ser principalmente eficiente e sustentável. 
Tecnologias, insumos e máquinas estão à disposição do produtor, que deverá utilizá-los da melhor maneira para alcançar o objetivo que norteia sua decisão: a rentabilidade das culturas. Entretanto, a preocupação com o desenvolvimento sustentável é um sinal claro de que o modelo de desenvolvimento vigente é insustentável ou inadequado do ponto de vista econômico, social e ambiental. 
Uma avaliação da sustentabilidade da agricultura no Cerrado requer a análise de alguns problemas atuais: monocultivo, degradação do solo e custo de produção. O sistema de produção agrícola em vigor nessa região baseia-se no monocultivo e, com isso, compromete a sustentabilidade produtiva, por exemplo, pela distribuição generalizada de nematóides no solo (organismos extremamente pequenos e translúcidos que atacam as raízes das plantas resultando na incapacidade de absorver água e nutrientes). 
Há estimativas de que extensas áreas agrícolas já apresentam infestação em grau elevado ameaçando substancialmente o potencial produtivo das culturas. Sem a ação benéfica do policultivo, os campos de produção, cuja fertilidade foi construída nas décadas de 1980 e 1990 à custa de altos investimentos em insumos, estão colocados à prova por altíssimas produtividades, alavancadas pelo avanço contínuo na qualidade dos recursos genéticos. 
A desvantagem competitiva do Cerrado diante dos demais mercados produtores é a falta de infraestrutura para o recebimento de insumos indispensáveis à produção e, também, para o escoamento da produção. A ausência de alternativas econômicas e os gargalos estruturais induzem a persistência do produtor no monocultivo e na utilização cada vez mais intensiva do solo. A população mundial necessita de mais alimentos em quantidade e qualidade, a escassez do petróleo evidencia a necessidade de se buscar fontes alternativas de energia, principalmente as renováveis – outro papel da agricultura, a qual atribui a responsabilidade de fornecer matérias-primas aos demais setores da economia.

O aumento da oferta de produtos agrícolas pode ser feito basicamente de duas formas: aumentando a produtividade por unidade de área ou expandindo a fronteira agrícola. As ocupações plenas, intensivas e racionais da região do Cerrado brasileiro podem produzir o dobro de alimentos do que atualmente é produzido. A obtenção desse resultado pressupõe que haja insumos básicos, mão de obra especializada, maquinaria e crédito, bem como esteja disponível a infraestrutura para o armazenamento e o escoamento das safras (Marouelli, 2003).

Portanto, para melhorar o uso racional do solo, devem-se adotar práticas agronômicas fundamentais para uma atividade agrícola sustentável no Cerrado como o Sistema de Produção Plantio Direto, que integra lavoura, pecuária, rotação de culturas (importante técnica para aumentar a oferta de grãos sem a necessidade de abertura de novas áreas ou a degradação das áreas em produção), utilização de plantas para fins de formação de resíduos que sejam hospedeiras de organismos fixadores de nitrogênio da atmosfera, manejo necessário dos nematóides e reciclagem de nutrientes das camadas mais profundas do solo. 
Infelizmente, o Sistema de Produção Plantio Direto, em que se preconizam a cobertura constante do solo, a ausência de revolvimento e a rotação de culturas, ainda está distante da realidade agrícola do Cerrado brasileiro. “Sustentável significa aquilo que se sustenta, que persiste, que é permanente, que se perpetua. Agricultura sustentável é a atividade agrícola que apresenta estabilidade e continuidade.”

Fonte: Visão Agrícola, por Eros Artur Bohac Francisco e Claudinei Kappes