Sistema de Plantio Direto é opção de sustentabilidade

A Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (Febrapdp) é uma congregação de associações de agricultores e empre-sas ligadas ao agronegócio, executores e interessados no Sistema de Plantio Direto (SPD). Representa nacionalmente a classe de produtores rurais e empresas do setor que se preocupam com a produção agro-pecuária viável associada à preservação dos recursos naturais. Os objetivos da Febrapdp são difundir esse sistema de produção como uma alternativa às inú-meras atividades agropecuárias e ampliar seu reconhecimento nas esferas sociais, políticas, técnicas e científicas.

A preocupação ambiental do SPD é histórica e vem desde sua origem. Prova disso foi a iniciativa dos pioneiros do Plantio Direto: há 40 anos, eles buscaram uma alternativa de manejo de solos ao sistema tradicional da época, com prepa-ro de solo periódico, envolvendo o uso de arados e grades. Como resultado, perce-beu ser um erro fundamental preparar o solo em regiões tropicais e subtropicais, devido à agressividade do clima e à vulnerabilidade dos solos em relação ao processo erosivo – depois do preparado mecânico a que era submetido.

A ciência agronômica no Brasil tam-bém evoluiu muito durante esse período e passou a desenvolver estudos específi-cos para as condições brasileiras. Sempre houve uma grande preocupação da aca-demia com os processos erosivos que se acentuaram no final da década de 1970. Inúmeras estratégias foram colocadas em prática, porém nenhuma delas teria sido bem-sucedida se não tivesse sido as-sociada ao SPD, modelo de produção que expandiu fortemente no Brasil na década de 1990.
A agropecuária brasileira tem assu-mido papel de destaque mundial por conta de sua eficiência. Em parte, isso se deve aos avanços técnicos agronômicos promovidos pelas instituições públicas e privadas nas últimas décadas, potencia-lizados pela consolidação e expansão do SPD no Brasil. Tal associação raramente é reconhecida. Internacionalmente, a produção agropecuária brasileira base-ada no SPD é considerada pela FAO, há mais de 10 anos, como um modelo a ser seguido no mundo, tornando o Brasil uma referência no assunto.

IMPACTOS AMBIENTAIS 
Além de viabilizar os mecanismos de controle de erosão, a evolução e o aper-feiçoamento do SPD quanto à rotação de culturas têm demonstrado efeitos ambientais muito amplos e positivos. A preservação da estrutura do solo pelo efeito dos variados sistemas radiculares (i) amplia a capacidade de infiltração de água no solo, (ii) reduz as perdas de água em quantidade e em qualidade e (iii) au-menta a profundidade de solo explorado pelas raízes das plantas. Nessa intensifi-cação da produção vegetal, a extração de Carbono (C) da atmosfera pelas culturas e sua fixação no solo na forma de matéria orgânica alcança níveis superiores aos da vegetação nativa em diversos biomas (AMADO, T. J. C. et. al., 2001; CORAZZA, E. J. et.al., 1999). 
A adoção do SPD tem beneficiado muito a biodiversidade. Estudos mais recentes evidenciam que o SPD possui a capacidade de manter populações de espécies nativas de minhocas, sendo que em muitos casos as áreas sob SPD abrigam uma diversidade de espécies equivalente ou maior à das áreas de mata nativa (BARTZ, 2011). Existem ainda inúmeros estudos em microbiologia do solo que mostram os benefícios que o SPD possui sobre as populações de mi-crorganismos do solo.

IMPACTOS SOCIAIS 
Inúmeros indicadores de benefícios sociais promovidos pelo SPD podem ser apresentados, mas os que mais impres-sionam são aqueles demonstrando que diversas comunidades de agricultores familiares passaram a ter uma atividade econômica nos últimos 20 anos, devido à estratégia empregada na expansão do SPD para tal característica fundiária. E o efeito de redução de tempo de trabalho e de energia propiciado pelo SPD se torna mais evidente nessa população. A redução do tempo de trabalho tornou favo-rável a liberação de mão de obra familiar das atividades agrícolas, permitindo que parte dela fosse empregada em outras atividades econômicas importantes, e possibilitou que o ambiente familiar se tornasse mais salubre e agradável. Como consequência indireta, essas famílias passaram a ter uma função econômica na sociedade. Porém, W. Rodrigues (2005) considera que o principal benefício social advindo do SPD é o legado a toda a sociedade com a preservação do meio ambiente.

IMPACTOS ECONÔMICOS 
A pujança da agropecuária brasileira, demonstrada nos dados estatísticos amplamente divulgados, fica evidente quando se avalia o desempenho da ba-lança comercial das últimas décadas. Ele nada mais é do que o reflexo direto da eficiência apresentada pelos produ-tores agropecuários, pois, dentro de um sistema econômico de livre iniciativa e de mínima intervenção do Estado – em forma de garantias ou disponibilidade de créditos –, o risco da atividade recai ex-clusivamente sobre o produtor e o lucro passa a ser o combustível da atividade e a eficiência, o motor dela. Esta pode ser uma das explicações da expansão do SPD ocorrida na década de 1990, pois os sucessivos pacotes econô-micos do Brasil minguaram a disponibili-dade de crédito para investimento e para custeio. Os produtores passaram a buscar alternativas de melhor desempenho eco-nômico e as experiências bem-sucedidas no SPD começaram a ser divulgadas mais frequentemente, atraindo cada vez mais adeptos.

SUSTENTABILIDADE 
Eis, portanto, um exemplo real de ativida-de sustentável, o SPD brasileiro: deve ser viável economicamente, pois é a única forma de sobreviver em nosso sistema econômico. Mostrou-se socialmente justo, pois permitiu que uma parcela importante da sociedade passasse a ter acesso ao mercado, e é ambientalmente correto porque preserva e recupera os principais recursos naturais: biodiversi-dade, solo, ar e água. É nesse contexto que devem ser discu-tidas novas imposições ambientais que se colocam ao meio rural atualmente, como o substitutivo do Código Florestal. A dicotomia ruralista e ambientalista, colocada nas discussões, não é adequada porque o que se busca é o benefício de toda a sociedade. Não se pode negar que a preservação da natureza e das florestas é um interesse coletivo, assim como o é a atividade agropecuária. A diferença é que, sendo um benefício social, a pre-servação ambiental deve ser de caráter coletivo. Já a agropecuária, como ativi-dade econômica, precisa ser de caráter individual.

Há inúmeras situações e atividades no Brasil que impactam negativamente as florestas e a natureza de forma mais contundente, e que devem ser alvo de ações específicas, como a exploração ilegal de madeira e a concentração urba-na. Não há absolutamente necessidade de expansão das fronteiras agrícolas do Brasil. O aumento da produtividade e da rentabilidade das áreas agrícolas, a recuperação de áreas degradadas e a incorporação de milhões de hectares de pastagens subutilizadas em processo produtivo eficiente serão possíveis com a expansão e a adequação do SPD para os mais variados sistemas de produção. É justamente esta a proposta do programa ABC do Mapa, definindo linhas de créditos para tais ações, cuja Febrapdp é signatária. É fundamental que se crie um “código ambiental” para balizar, dentre outros setores, a agropecuária; prever que os poluidores e degradadores do meio ambiente assumam os custos desta recuperação e que os prestadores de serviços ambientais possam ser remunerados e recompensados por isso. Dessa forma, deixaríamos de ter um sistema impositor, de difícil fiscalização, e passaríamos a contar com um sistema premiador.

Fonte: Visão Agrícola, por Herbert Arnold Bartz, Marie Luise Carolina Bartz, Ivo Mello, Ricardo Ralisch