Agricultura high tech

Presidente da Embrapa, Maurício Lopes, antevê o campo cada vez mais tecnológico. 

logotipo da embrapaA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vai lançar ainda este ano um projeto especial chamado “Agropensa”. Será o primeiro passo para o desenho de um novo modelo de planejamento estratégico da empresa.

Em entrevista exclusiva ao Sou Agro, o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, conta que trata-se de um trabalho de inteligência estratégica pautado pelo monitoramento do que está sendo feito no mundo em termos de pesquisa e a posterior elaboração de estudos para o desenvolvimento de novas tecnologias.

Segundo Lopes, a Embrapa também está atenta aos desdobramentos do processo de migração do meio rural para as cidades. “A mão de obra vai se tornar rarefeita no campo, e vamos ter que investir mais em automação, em sistemas rastreados e certificados”, diz.

Na entrevista abaixo, Lopes falou ainda sobre o desafio da transferência de tecnologia para pequenos produtores, mudanças climáticas e agricultura, sobre o papel relevante da biotecnologia e a contribuição que sistemas consorciados de produção como, por exemplo, a integração-lavoura-pecuária-floresta, trará em termos de produtividade e sustentabilidade do agro brasileiro. Confira:

SOU AGRO: Nesses primeiros meses à frente da Embrapa, suas prioridades já foram definidas?

MAURÍCIO LOPES: Vejo que o mais importante é projetar os próximos ciclos da Embrapa. A empresa se consolidou em planejamentos estratégicos de quatro anos, que na minha visão são um modelo ultrapassado. Um dos maiores passivos da agricultura brasileira é que os outros países que avançaram nessa área sempre fizeram investimento em inteligência estratégica. No Brasil, temos poucos investimentos, muito rarefeitos. Morei na Coreia do Sul, que é um país com uma visão de antecipação muito sofisticada.

Como será esse trabalho de inteligência da Embrapa?

Precisamos de um planejamento permanente, de inteligência, com dois pilares. O primeiro é um observatório tecnológico atento para perceber rapidamente as mudanças na pesquisa e no mercado no mundo todo. O segundo é fazer ou encomendar estudos, a partir do que foi captado por esse observatório, para definir nossas prioridades constantemente, e não em ciclos fechados.

Esse novo modelo já está sendo implantado?

A Embrapa vai lançar ainda em dezembro um projeto especial chamado Agropensa, englobando esses dois pilares de observação e estudo. Já temos centros no exterior captando o que está acontecendo lá fora e a Embrapa Estudos Estratégicos, que funciona há cerca de dois anos, consolidando tudo isso.

Há entidades de inteligência no setor privado, como as consultorias, que antecipam movimentos. A Embrapa quer se unir com outros organismos, como os “think tanks”, mas é preciso ter isso também no setor público. Sem o mínimo de capacidade de antecipação, é quase como um voo cego.

Como essa inteligência será aplicada na prática, nas pesquisas da Embrapa?

Um exemplo é com a tendência de migração do campo para a cidade. A mão de obra vai se tornar rarefeita no campo, e vamos ter que investir mais em automação de sistemas, em sistemas rastreados e certificados. Outro caso é o desenvolvimento de métricas para certificação de emissão de gases. Temos que desenvolver as nossas próprias métricas.

Um dos desafios do agro brasileiro é ampliar o acesso de pequenos agricultores a tecnologias de produção. Como a Embrapa enxerga e atua nesta questão?

A inclusão tecnológica no agro é uma grande prioridade para nós. Isso porque existe um contingente enorme de produtores que não consegue acessar tecnologias que já estão disponíveis. São aproximadamente três milhões, entre pequenos e médios, que devido a esta falta de infraestrutura perdem competitividade, se afastam do mercado, têm menos qualidade de vida.

Para reverter este quadro, a Embrapa está, por exemplo, fortemente engajada nas discussões do resgate da assistência técnica e extensão rural no País. É preciso criar um sistema de transferência de tecnologia compatível com a realidade brasileira, que leve a ciência e a pesquisa para o dia a dia da maioria dos produtores.

Neste sentido, qual o papel da biotecnologia?

Ela terá uma participação cada vez mais marcante na agropecuária brasileira, com foco em ganhos de produtividade e redução de custos. Imagino ser difícil o futuro do agro sem o aporte de novas soluções relacionadas à biotecnologia. Ela será fundamental, por exemplo, para que a agricultura se adapte a desafios como o das mudanças climáticas a partir de uma abordagem cuidadosa e planejada.

A agricultura registrou acentuada elevação de produtividade nos últimos anos. A pecuária trilha o mesmo caminho?

É óbvio que quando se compara o aumento de produtividade dos grãos, como soja e milho, talvez os ganhos da pecuária não tenham sido tão expressivos, mas este parâmetro não é o mais adequado. A pecuária avançou forte em genética, na adaptação de diversas raças ao clima tropical, na produção de forragens, e assim por diante. É fato que, ainda, há muito a ser feito neste aspecto, o que será benéfico também para a agricultura.

Existem aproximadamente 60 milhões de pastagens degradadas, que sendo recuperadas abrirão espaço para a agricultura, como o cultivo de grãos, florestas plantadas, entre outras culturas. Um passo importante será o estímulo cada vez maior a sistemas de produção consorciados, como a integração-lavoura-pecuária-floresta. Isso será importante para elevar a produtividade de maneira sustentável atendendo ao recrudescimento constante de demandas ambientais.

Fonte: souagro.com.br, por Ronaldo Luiz e Luiz Silveira


Os próximos saltos tecnológicos do agronegócio

Não é só dos campos de teste de novas sementes que sairão os próximos avanços da tecnologia agropecuária. Com mais de 20 anos de carreira na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o agrônomo Mauricio Antonio Lopes bem que poderia puxar a sardinha para o seu lado e ressaltar apenas o papel do melhoramento genético no aumento da produtividade e da sustentabilidade do agronegócio.

Mas Lopes vai muito além. Atual diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, ele ressalta que os avanços da computação tiveram e terão papel fundamental em permitir o desenvolvimento tecnológico do agro. De outro lado, ele alerta que os produtores brasileiros precisam investir em inteligência estratégica “para aproveitar os benefícios da inovação tecnológica”.

Graduado pela Universidade Federal de Viçosa e doutor em biologia molecular vegetal pela Universidade do Arizona, Lopes tem uma visão ampla dos desafios e dos caminhos para a solução. Além de sua experiência no Brasil e do mestrado e do doutorado no exterior, ele já foi articulador internacional da Embrapa.

De abril de 2007 a outubro de 2008, Lopes trabalhou junto à Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma, ajudando na criação de uma plataforma global para promoção do uso sustentável da genética das plantas para a alimentação e a agricultura (GIPB/FAO).

A quais as demandas a pesquisa agropecuária precisa responder hoje?

Diversos estudos e análises recentes mostram que a nossa agricultura será desafiada por transformações substanciais ao longo das próximas décadas. A agricultura brasileira precisará demandar à pesquisa agropecuária avanços em diversificação, agregação de valor, produtividade, segurança e qualidade, com velocidade e eficiência superiores àquelas alcançadas no passado. É também chegado o momento de se investir de forma mais agressiva em inovações para agregação de valor às chamadas commodities, criando mais oportunidades para a agroindústria brasileira, em especial em mercados mais competitivos, sofisticados e rentáveis.

Como a tecnologia pode resolver questões de sustentabilidade do agro?

Para se garantir a sustentabilidade futura da agricultura frente às mudanças climáticas e à intensificação de estresses térmicos, hídricos e nutricionais previstos para as próximas décadas, serão necessários avanços substanciais em diversos campos do conhecimento científico e tecnológico. O aumento da demanda por alimentos, fibras e bioenergia exigirá sofisticação tecnológica que racionalize o uso dos insumos ambientais. Isto é, os recursos naturais – água, solo, biodiversidade etc. – e dos serviços ambientais – reciclagem de resíduos, suprimento de água, qualidade da atmosfera etc.

A ciência dará conta de superar todos esses desafios, no tempo necessário?

Os desafios são enormes. Mas conta a nosso favor o fato de que o avanço tecnológico, em diversas frentes, é impressionante. Verdadeiras revoluções estão acontecendo em vários campos do conhecimento. Na biologia, com a genômica; na física e na química, com a nanotecnologia; no campo da informação e da comunicação, com inúmeras inovações que aumentam a nossa capacidade de responder a riscos e desafios. Veja, por exemplo, o que vem acontecendo na Biologia, ao longo das últimas décadas, com os tremendos avanços nos estudos dos genomas, que nos permitem ampliar a compreensão de mecanismos complexos em plantas, animais e microrganismos. Daí surgirão muitas inovações que permitirão à agricultura avançar em diversificação, agregação de valor, produtividade, segurança e qualidade.

Como os avanços da computação afetam a agropecuária?

Inovações nos campos da tecnologia da informação e da comunicação, do sensoriamento remoto, da instrumentação avançada, da automação e da robótica indicam que a agricultura de precisão emergirá como prática comum nas propriedades do futuro. Essas ferramentas e processos nos permitirão utilizar a nossa base de recursos naturais de forma cada vez mais inteligente, garantindo mais produtividade, eficiência e sustentabilidade à nossa agricultura. A nanotecnologia, com inovações na escala do bilionésimo do metro, também promete revolucionar o desenvolvimento de múltiplos produtos, processos e instrumentos. Sensores avançados viabilizarão o monitoramento de sistemas produtivos com grande precisão. Novos materiais nos permitirão construir máquinas e equipamentos mais eficientes, precisos e duráveis.

O que o agro precisa fazer para converter esse conhecimento científico em realidade?

O agronegócio brasileiro precisará investir em capacitação de recursos humanos e sofisticação de processos, métodos e instrumentação para continuarmos competitivos. As tecnologias da informação e da comunicação prometem também revolucionando os métodos de gestão das propriedades, o acesso a mercados, a gestão da logística e a relação com os consumidores. Tais tecnologias são revolucionárias também do ponto de vista das mudanças de comportamento que provocam. Isso exigirá atenção às tendências de consumo e às percepções da sociedade em relação ao agronegócio.

Isso quer dizer que os produtores precisam se adaptar para essa nova realidade?

Liderar o processo de inovação agropecuária em momentos tão dinâmicos e desafiadores demanda estratégias mais aprimoradas de gestão, para antevisão de futuros possíveis e desafios a eles associados. Eu não tenho dúvida de que o agronegócio brasileiro precisará se nortear por uma inteligência estratégica cada vez mais sofisticada se quiser aproveitar os benefícios das mudanças de paradigmas esperadas no campo da inovação tecnológica.

Fonte: souagro.com.br, porLuiz Silveira