Renda dos empregos do agro crescem mais que a média da economia

Até o século XIX, a agricultura era a principal atividade exercida pelo homem. Depois da Revolução Industrial, com o desenvolvimento das cidades e o crescimento da indústria, a vida urbana passou a ser sinônimo de melhor qualidade de vida e a vida rural o antônimo disso. O trabalho rural é até hoje associado a condições precárias e baixa renda. No entanto, a renda agrícola evoluiu muito nos últimos dez anos, e proporcionalmente mais do que a renda média do Brasil, mostrando que o crescimento do agro está gerando um aumento real do salário dos trabalhadores do setor. Existem outros fatores que devem ser levados em consideração para avaliar a qualidade dos empregos, sejam eles agro ou não agro, mas nesse momento, o foco será na evolução dos salários.

Diante disso, é importante enfatizar que o contexto mudou dado que a importância das atividades não agrícolas aumentou junto com o desenvolvimento industrial. O próprio setor agro passou por transformações através do desenvolvimento tecnológico, da integração com a indústria e do surgimento de grandes empresas. Por isso, devemos esclarecer o que são considerados empregos agro e não agro: empregos agro são todos aqueles em empresas do setor agrícola, que englobam desde executivos dentro de escritórios de grandes empresas do setor até trabalhadores rurais no campo. Trabalhadores rurais representam 70% do total de empregados em empresas do setor agro e não a totalidade dos empregados no setor. Da mesma forma, os empregos não agro são aqueles em empresas de outros setores, englobando diversos níveis de profissionais e empregados. 

A evolução de empregos e salários foi analisada através de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE anualmente para levantar dados gerais sobre a população, trabalho, rendimento, educação, etc. Observando os dados, fica claro que, apesar dos salários agrícolas serem, em termos absolutos, mais baixos que os de outros setores, o crescimento do rendimento mensal dos trabalhos agrícolas foi, em média, maior (17% ao ano) relativo ao crescimento do rendimento de outros setores (14% ao ano) no período analisado (2002 a 2009). Esse dado indica que houve um ganho salarial real para os trabalhadores do setor nos últimos anos.

Analisando a evolução do número de empregos, percebe-se que, no agro, se manteve praticamente constante, enquanto nos setores não agro aumentou em média 5% ao ano entre 2002 e 2009. Porém, no mesmo período, o crescimento do rendimento médio mensal dos trabalhos agrícolas foi, em termos reais, 3% maior que o rendimento de outros setores. Quando analisamos esse crescimento dentro da divisão por categorias de ocupação, as diferenças são ainda maiores. Por exemplo, o salário médio mensal de “profissionais de nível superior do agro” em empresas agrícolas passou de R$1.033 em 2002 para R$2.349 em 2009, enquanto em empresas não agrícolas, para a mesma categoria de profissionais, o aumento foi de R$1.569 para R$3.153 entre os mesmos dois anos. Isso significa que, apesar do nível de salário ser maior nas empresas não agro, essa diferença está diminuindo com o tempo, já que houve um crescimento anual de 22 % nas empresas agro e 9% nas não agro. Da mesma forma, trabalhadores em “serviços e apoio à produção” em empresas agrícolas tiveram um aumento do salário médio mensal de R$155 para R$767 entre 2002 e 2009, enquanto em empresas não agrícolas o aumento foi de R$265 para R$785 no período analisado. Na evolução da renda média mensal de diretores e gerentes em empresas do setor agrícola, o salário passou de R$373 em 2002 para R$1.346 em 2009, enquanto em empresas não agrícolas o aumento foi de R$1.251 para 3,046. Em termos percentuais, os valores representam um crescimento de 20% por ano para empresas do agro e 13% por ano para outros setores no período utilizado.

Analisando a evolução dos salários por hora, para considerar as diferentes jornadas de trabalho, observamos a mesma tendência que na evolução dos salários mensais. Na evolução da renda média por hora de diretores e gerentes de empresas do agro, observamos um aumento de 21% por ano contra 14% por ano dos mesmos empregados em empresas não agrícolas. Em valores absolutos, isso significa uma evolução de R$8,42 por hora em 2002 para R$28,43 por hora em 2009 no setor agro e de R$28,74 por hora em 2002 para R$80,69 por hora em 2009 nos outros setores. No caso de trabalhadores em serviços e apoio à produção em empresas agrícolas, o aumento da renda média por hora foi de 22% ao ano, enquanto os mesmo empregados em empresas não agrícolas tiveram um crescimento de 16% ao ano. Embora haja aumento da renda em termos reais em todos os casos, os aumentos nas empresas agrícolas são maiores proporcionalmente. Isso permite concluir que o aumento da renda não está necessariamente relacionado a uma jornada de trabalho mais longa, já que tanto o salário por mês quanto o por hora aumentaram na mesma proporção.

Também foi avaliada a evolução do número de empregos e da renda dos trabalhadores em empresas agro nas diferentes regiões do País. Em termos de crescimento por ano do número de empregos, a região Norte cresceu muito mais que todas as outras, a uma taxa de 13% ao ano, comparado com um aumento de 1% na região Centro-Oeste, uma redução de 1% nas regiões Nordeste e Sudeste e uma redução de 3% na região Sul.

A região Centro-Oeste é a que mais merece destaque nessa análise, pois apresentou o maior nível salarial em empregos agro. O salário médio mensal na região em 2009 foi de R$762, valor alto comparado com outras regiões mais desenvolvidas como o Sudeste, onde o salário médio mensal foi de R$484 no mesmo ano. Em empresas não agro, a diferença regional é muito mais sútil. O salário médio mensal nas regiões Centro-Oeste e Sudeste é próximo a R$1.200. Isso mostra que o crescimento do agro está gerando novas oportunidades de emprego e melhores condições de renda em áreas menos desenvolvidas.

A geração de mais empregos e o aumento do nível salarial no setor agrícola no Norte e no Centro-Oeste é um fator muito positivo para o País, considerando a escassez de oportunidades de empregos e o baixo desenvolvimento dessas regiões. Embora a renda e os empregos estejam crescendo também nos setores não agro em todas as regiões, proporcionalmente o crescimento do setor agrícola é maior. Isso significa que o agro deve ser visto como um setor que emprega um número significativo de pessoas e que oferece salários que, embora ainda mais baixos, estão aumentando significativamente ao longo do tempo.

 Fonte: RedeAgro, por Paula T. Moura e Laura Antoniazzi