A dose correta para os defensivos agrícolas

A segurança dos alimentos que consumimos diariamente – principalmente frutas, verduras e legumes – está sendo questionada constantemente por aqueles que são contra o uso de defensivos (também chamados de agroquímicos, agrotóxicos ou veneno) na produção agrícola. Campanhas contra os defensivos giram em torno da contaminação dos alimentos e possíveis efeitos negativos da ingestão de alimentos contaminados, como o aparecimento de problemas neurológicos, reprodutivos e até câncer.

É importante avaliar até que ponto as acusações e críticas ao uso de defensivos e à contaminação dos alimentos são baseados em fatos e não simplesmente em opiniões que geram pânico e inquietação na população. Uma comunicação efetiva de riscos é fundamental, mas deve ser baseada na história completa e não em dados ou fatos isolados que possam dar uma conotação diferente para a história. A discussão é complexa e é impossível afirmar que não existem riscos relacionados aos agrotóxicos. No entanto, é importante esclarecer algumas questões constantemente utilizadas pela mídia e por grupos contra os defensivos para criticar o uso dessa ferramenta na produção agrícola.

Os defensivos são uma tecnologia utilizada na agricultura para proteger as plantas de pragas, doenças e fungos. Assim como existem remédios contra doenças para pessoas e animais, os defensivos são os remédios das plantas. Em conjunto com o desenvolvimento de sementes transgênicas e uso de fertilizantes, os defensivos agrícolas desempenharam um papel importante no aumento da produtividade das principais culturas agrícolas no Brasil nos últimos 30 anos. No futuro, com o aumento da demanda mundial por alimentos, decorrente do crescimento da população mundial (que deve chegar a 9 bilhões de habitantes em 2050), o uso de tecnologias será cada vez mais importante na agricultura, principalmente diante de um cenário onde a área disponível para expansão é limitada.

A FAO estima que 40% do aumento na produção de alimentos necessário para atender a demanda por alimentos nos próximos 30 anos se dará no Brasil. Isso só será possível através do uso de tecnologias que aumentem a produtividade das culturas e reduzam a necessidade de área para expansão.

Os defensivos agrícolas são produtos tóxicos e, por isso, devem receber os devidos cuidados, assim como temos com medicamentos e até produtos de limpeza que usamos dentro das nossas casas. Mas é importante lembrar que estes produtos são todos regulamentados. No caso dos agroquímicos, pela ANVISA e por padrões internacionais, como o Codex Alimentarius. As normas estabelecem índices, como o Índice Diário Aceitável (IDA) e o Limite Máximo de Resíduos (LMR), que regulamentam a quantidade de resíduos de defensivos aceitável nos alimentos sem oferecer riscos para a saúde e os riscos baseados em nível de exposição.

Os índices de LMR são constante foco de notícias na mídia para retratar os riscos de alimentos contaminados com resíduos de defensivos. No entanto, é comum que irregularidades encontradas estejam relacionadas à falta de registro de defensivos utilizados em determinados produtos, o que muitas vezes não é divulgado. Ou seja, porque o produto utilizado não tem registro para uso na produção de determinado tipo de alimento, a amostra verificada é apontada como quase 100% irregular. Esse tipo de avaliação gera pânico e faz com que as pessoas parem de consumir alimentos que são, na verdade, saudáveis.

O segundo ponto que deve ser esclarecido diz respeito à formulação dos produtos. Os agroquímicos, assim como os medicamentos, são compostos por ingredientes ativos, que são substâncias químicas que tem ação contra as pragas, doenças, fungos, etc. e diluídos em água. Recentemente, a mídia veiculou notícias de que o consumo de agroquímicos por habitante é de 5,2 litros por ano, estatística calculada de forma simplista, dividindo o volume de defensivos utilizados pelo número da população brasileira. O resultado é baseado no volume total de defensivos e não leva em conta a diluição dos ingredientes ativos em água. A contabilização do uso de defensivos – seja por habitante, por hectare ou outra unidade – deve ser baseada no volume de ingredientes ativos e não no volume total.

A conscientização dos produtores é outro aspecto fundamental que é pouco discutido na retratação da mídia e nas discussões sobre o uso de defensivos. Os produtores devem utilizar os defensivos de forma racional, baseado em aplicações e quantidades recomendadas pelos agrônomos. Assim como as pessoas tomam remédios sem consultar um médico e sem receitas médicas, alguns agricultores fazem mais aplicações do que o necessário, em quantidades excessivas ou utilizando produtos não registrados para certas lavouras, muitas vezes por falta de orientação. Nesse aspecto, a conscientização dos produtores e a fiscalização e monitoramento são fundamentais.

Além disso, de acordo com o Dr. Ângelo Trapé, médico toxicologista da UNICAMP, os riscos relacionados aos agroquímicos são muito mais relacionados à exposição dos agricultores por falta de uso de equipamentos de proteção individual do que aos resíduos nos alimentos. Há 30 anos, o médico atende produtores rurais contaminados no ambulatório de toxicologia da UNICAMP e afirma nunca ter atendido um caso de intoxicação alimentar por agroquímicos.

Em conclusão, precisamos tomar cuidado ao fazer afirmações baseadas em números ou fatos que distorçam a realidade. A comunicação, principalmente relacionada aos riscos dos defensivos à saúde humana, é fundamental, mas deve ser transparente e baseada em fatos e não em informações distorcidas ou incompletas que causam pânico na população.