Tecnologia e educação, por Paul Krugman

Paul Krugman recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2008, e é um dos mais renomados economistas da atualidade. É autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.

Nesses 2 artigos abaixo ele afirma que a tecnologia e a educação não são suficientes para reacender a economia mundial, pois o ciclo de avanços tecnológicos que efetivamente aumentou a produtividade das empresas durou entre 1995 e 2005.

Revolução tecnológica pode ter sido tremendamente superestimada

Você se lembra de "O Guia do Mochileiro das Galáxias", romance de Douglas Adams lançado em 1979? A história começa com um chato tecnológico qualquer descartando a Terra por ser um planeta cujas formas de vida são tão primitivas que "elas ainda acham relógios digitais uma ideia bacana". Mas estamos falando do passado, dos primeiros estágios da revolução da tecnologia da informação.

De lá para cá, avançamos para coisas muito mais significativas, a tal ponto que a grande ideia tecnológica de 2015 é, até o momento, um relógio digital. Mas este instrui o portador a se levantar se ele passar tempo demais sentado.

Está bem, também estou sendo chato. Mas existe uma questão verdadeira nisso. Todo mundo sabe que vivemos em uma era de mudança tecnológica incrivelmente rápida, que está mudando tudo. Mas e se aquilo que todo mundo sabe estiver errado? E não estou sendo do contra por pura teimosia, quanto a isso. Crescente número de economistas, estudando dados de renda e produtividade, começa a imaginar se a revolução tecnológica não foi tremendamente superestimada –e alguns tecnólogos compartilham dessa preocupação.

Já passamos por isso. "O Guia do Mochileiro da Galáxia" foi publicado na era do "paradoxo da produtividade", um período de duas décadas de duração durante o qual a tecnologia parecia estar avançando rapidamente –computadores pessoais, telefones celulares, redes de computação e os estágios iniciais da Internet –mas o crescimento econômico era lento e a renda estava estagnada. Muitas hipóteses foram propostas para explicar o paradoxo, e a mais popular provavelmente era a de que inventar uma tecnologia e aprender a usá-la não são efetivamente a mesma coisa. Os historiadores econômicos argumentaram que era preciso tempo para que os computadores por fim se provassem capaz de cumprir suas promessas e prover os bens (e serviços) alardeados.

O otimismo parecia ter sido confirmado quando o crescimento da produtividade por fim decolou, por volta de 1995. O progresso estava de volta –assim como os Estados Unidos, que aparentemente eram a vanguarda da revolução.

Mas uma coisa engraçada aconteceu no caminho da revolução tecnológica. Na verdade não obtivemos um retorno sustentado a um rápido progresso econômico. Em lugar disso, tivemos um surto isolado de crescimento, que minguou cerca de uma década atrás. Desde então, vivemos em uma era de iPhones, iPads, e AiMeuDeus; mas mesmo que desconsiderados os efeitos da crise financeira, o crescimento e a tendência de renda retornaram à lentidão que caracterizou os anos 70 e 80.

Em outras palavras, a esta altura, toda a era digital, abarcando mais de quatro décadas, parece antes de tudo uma decepção. Novas tecnologias produziram grandes manchetes, mas resultados econômicos modestos. Por quê?

Uma possibilidade é de que os números estejam desconsiderando a realidade, especialmente os benefícios dos novos produtos e serviços. Tecnologia que me permite assistir na Web apresentações ao vivo dos meus músicos favoritos me propicia muito prazer, mas isso não é computado no Produto Interno Bruto (PIB). Ainda assim, a nova tecnologia deve supostamente servir às empresas tanto quanto aos consumidores, e deveria estimular a produção dos bens tradicionais, e não só dos novos. Os grandes avanços da produtividade no período 1995-2005 vieram principalmente em áreas como o controle de estoques, e influenciaram igualmente ou até mais as empresas não tecnológicas, como o setor de varejo, se comparado ao setor de tecnologia. Nada parecido está acontecendo no momento.

logomarca paypalOutra possibilidade é que as novas tecnologias sejam mais divertidas que fundamentais. Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal, é conhecido por ter declarado que o que queríamos eram carros voadores, e o que recebemos foram 140 caracteres. E ele não está sozinho em sugerir que a tecnologia da informação que empolga as classes twitterantes pode não fazer grande efeito sobre a economia como um todo.

Assim, o que está acontecendo com a tecnologia, em minha opinião? A resposta é que não sei –e ninguém mais sabe. Talvez meus amigos do Google estejam certos e o Big Data em breve venha a transformar tudo. Talvez a impressão 3D conduza a revolução tecnológica ao mundo material. Ou talvez estejamos a caminho de outro grande nhé.

Mas estou bem certo de que precisamos economizar nos exageros.

O fato é que escrever e falar entusiasticamente sobre como a tecnologia tudo muda pode parecer inofensivo, mas na prática serve como distração ante questões mais mundanas –e como desculpa para lidar mal com elas. Se você recuar aos anos 30, verá muita gente influente dizendo o mesmo tipo de coisa que pessoas dizem hoje: o problema não é o ciclo de negócios, quanto mais debater política macroeconômica; é a mudança tecnológica radical e uma força de trabalho que não conta com a capacitação necessária para a nova era.

E em seguida, graças à Segunda Guerra Mundial, enfim recebemos a injeção de estímulo à demanda de que precisávamos, e todos aqueles trabalhadores supostamente não capacitados –e nem vou mencionar o ingresso das mulheres na força de trabalho industrial– provaram ser muito úteis para a economia moderna, assim que lhes foi dada uma chance.

Lá vou eu de novo, invocando a História. Será que não compreendo que agora é tudo diferente? Bem, compreendo por que as pessoas gostam de dizer que é. Mas isso não faz com que a afirmação se torne verdade.

educação e tecnologia

Conhecimento não quer dizer poder

Os leitores habituais de minha coluna sabem que às vezes zombo das "pessoas muito sérias" - políticos e sabichões que repetem solenemente verdades convencionais vistas como objetivas e realistas. O problema é que parecer sério e ser sério de modo algum são a mesma coisa, e algumas dessas posições aparentemente firmes na verdade são maneiras de evitar as questões realmente difíceis.

Um exemplo recente e importante é a "síndrome de Bowles-Simpson", que envolve desviar o discurso da elite de uma tragédia em curso, o alto desemprego no país, para a supostamente crucial questão de como exatamente custearemos nossos programas de previdência social dentro de duas décadas. Essa obsessão específica, fico feliz por dizer, parece estar desaparecendo.

Mas minha sensação é a de que existe uma nova forma de falsa seriedade em ascensão, com o objetivo de evitar as questões importantes. Desta vez, a evasão envolve tentar mudar o curso de nosso debate sobre a desigualdade e transformá-lo em uma discussão sobre os supostos problemas da educação.

E o motivo para que isso seja uma evasão é que, não importa o que as pessoas sérias desejem acreditar, a desigualdade que não para de crescer não se relaciona à educação; ela gira em torno de poder.
Para deixar claro: favoreço uma melhora na educação. A educação é minha amiga. E deveria estar disponível para todos, e a preço acessível.

Mas o que continuo a ver são pessoas insistindo em que problemas na educação são a raiz de nossa criação de empregos ainda fraca, dos salários estagnados e da crescente desigualdade. Isso parece sério e ponderado. Mas na verdade é uma posição contrariada por boa parte das provas disponíveis, bem como uma maneira de tentar escapar a um debate real, que inevitavelmente tornaria necessário tomar partido.

A história que confere à educação posição central nos nossos problemas se desenrola assim: vivemos em um período de mudanças tecnológicas sem precedentes, e número excessivo de norte-americanos não dispõem da capacitação que seria necessária para lidar com essas mudanças. Essa "lacuna de capacitação" é que segura o crescimento, porque as empresas não conseguem encontrar os trabalhadores de que precisam. E isso também alimenta a desigualdade, porque os salários dos trabalhadores com a capacitação requerida disparam, e os dos menos educados ficam estagnados ou declinam. Assim, o que precisamos é de mais e melhor educação.

Meu palpite é que essa história parece familiar - é exatamente aquilo que ouvimos dos apresentadores de programas matutinos aos domingos, nos artigos de opinião de líderes de negócios como Jamie Dimon, presidente-executivo do JPMorgan Chase, e nos "estudos de orientação" do Hamilton Project, um esforço de pesquisa centrista da Brookings Institution. É algo repetido com tanta frequência que muita gente provavelmente presume que seja verdade. Mas não é.

Para começar, o ritmo da mudança tecnológica é realmente tão rápido assim? "Queríamos carros voadores, e o que conseguimos foram 140 caracteres", resmungou o ranzinza Peter Thiel, veterano do setor de capital para empreendimentos. O crescimento da produtividade, que passou por um breve surto de alta forte depois de 1995, parece ter se desacelerado acentuadamente.

Além disso, não existem provas de que o emprego não vem crescendo por conta de uma lacuna na capacitação. Afinal, se as empresas estivessem desesperadas por obter trabalhadores dotados de determinadas capacitações, estariam oferecendo salários generosos para atrai-los. Mas onde estão essas profissões afortunadas? Pode-se encontrar exemplos isolados aqui e ali. Interessantemente, alguns dos maiores avanços de salários aconteceram entre os operários capacitados - operadores de máquina de costura, soldadores de caldeiras -, agora que alguns empregos industriais estão retornando aos Estados Unidos. Mas a ideia de que os trabalhadores de alta capacitação estão em forte demanda no mercado em geral é falsa.

conhecimentoPor fim, embora a história que correlaciona educação e desigualdade possa um dia ter parecido plausível, ela se afastou da realidade há muito tempo. "Os salários das pessoas mais capacitadas e mais bem pagas continuaram a crescer firmemente", segundo o Projeto Hamilton. Na verdade, considerada a inflação, os salários dos norte-americanos com nível mais elevado de educação não avançaram em nada do final dos anos 90 para cá.

O que está acontecendo de verdade, então? Os lucros das empresas dispararam como proporção da renda nacional, mas não existe sinal de alta no retorno sobre o investimento. Como isso é possível? Bem, é o que se deve esperar se a alta no lucro reflete poder de monopólio e não retorno sobre o capital.

Quanto aos salários, os diplomas universitários não importam - todos os grandes ganhos beneficiam alguns poucos indivíduos que ocupam posições estratégicas em grandes empresas ou nas encruzilhadas das finanças. A desigualdade crescente não se relaciona a quem tem e não tem conhecimento, mas a quem detém o poder.

Bem, há muito que podemos fazer para corrigir esse desequilíbrio de poder. Podemos impor tributos mais altos às grandes empresas e aos ricos, e investir os proventos em programas que ajudem as famílias de classe trabalhadora. Podemos elevar o salário mínimo e facilitar a sindicalização dos trabalhadores. Não é difícil imaginar um esforço realmente sério para tornar os Estados Unidos menos desiguais.

Mas dada a determinação de um dos grandes partidos quanto a adotar políticas diametralmente opostas, advogar um esforço como esse faz com que o proponente pareça parcial. E daí deriva o desejo de fazer com que a coisa toda seja vista como um problema na educação. Mas é preciso que reconheçamos essa evasão tão comum pelo que realmente é: uma fantasia sem nada de sério.

Fonte: New York Times, com tradução de Paulo Migliacci