HTML5, uma questão de linguagem

Na última década, a linguagem básica de programação da web estacionou. A rede começou a se perder, até que um grupo de empresas rivais se uniu para salvá-la, como relembra esta reportagem, e criou uma linguagem que pode transformar sites em programas.

Ainda que parecesse saudável, a web tinha perdido o vigor. Apesar da evolução assombrosa entre as páginas estáticas dos anos 1990 e os sites mais poderosos e inteligentes da última década, as novas tecnologias foram corrompendo o frescor e a fluidez da rede. Conseguir que os sites funcionassem em todos os navegadores exigia dos desenvolvedores muito trabalho de “copiar e colar”. O áudio e o vídeo, a animação e outros elementos multimídia começaram a ser criados com aplicativos proprietários pela simples razão de que a programação básica em HTML –a linguagem-padrão que deu vida à web– tinha ficado atrasada no que se referia a funcionalidades.

Essa deficiência forçou os usuários a baixar plug-ins para que seus navegadores pudessem interpretar a informação. Os sites se tornaram lentos e complicados. Se essa web já era incômoda em um microcomputador, tornou-se totalmente inviável em dispositivos móveis, sem dúvida a plataforma computacional do futuro.

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Desenvolveram-se então aplicativos adaptados para equipamentos específicos, como smartphones e tablets, para envio de informação, filmes e jogos ao usuário sem a necessidade de conexão à internet. A primeira loja de aplicativos proprietários para telefones móveis foi lançada pela Apple. Depois surgiram mercados abertos, como o que floresceu em torno do sistema operacional Android, do Google, permitindo criar aplicativos compatíveis com o sistema central.

No entanto, continuava sendo uma abertura limitada, muito distante da ideia fundadora da web: que a informação estivesse disponível para qualquer um que tivesse acesso a um navegador e a um sistema de buscas.

Há 15 anos, as pessoas entravam na internet por meio de serviços fechados, oferecidos por provedores. Quando a web emergiu como plataforma comum, com o HTML em seu DNA, a rede se transformou no maior motor de criação de valor econômico do mundo. No entanto, o tempo passou, a web se afastou de seus princípios e sua condição de “livre e aberta” foi posta em xeque.

Felizmente, um grupo de indivíduos decidiu deixar de lado suas rivalidades históricas e liderar uma insurreição.

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O golpe

No final dos anos 1980, quando Tim Berners-Lee teve a ideia de uma gigante rede de documentos entrelaçados, precisava de um sistema para classificar e vincular as páginas. Como não havia uma linguagem com essa capacidade, ele criou a HyperText Markup Language, mais conhecida por sua sigla, HTML, um sistema de rótulos para estruturar documentos, apresentá-los corretamente e conectá-los uns aos outros.

Com o tempo, o HTML se tornou a língua-mãe da web. A partir de um dicionário-padrão que identifica quais partes da página são imagens, textos ou menus “destacáveis”, os desenvolvedores instruem o navegador para que saiba o que fazer quando encontra um site. O HTML encarna o ideal de que o conhecimento existe para ser compartilhado.

No final da década de 1990, durante o boom da web, Berners- Lee advertiu que o HTML não seria capaz de lidar com toda a complexidade que estava surgindo na rede. Como dirigente do World Wide Web Consortium (W3C), organização que promove os padrões da internet, recomendou o desenvolvimento de uma nova linguagem de programação, capaz de gerir a transferência de dados entre os sites e os computadores dos usuários de maneira mais eficiente.

O W3C decidiu então deixar de atualizar o HTML. Então, surgiu uma linguagem alternativa: o XHTML. No primeiro momento, os gigantes da internet (entre eles o Google e a Microsoft) respaldaram a estratégia, mas logo reconsideraram. O XHTML não era totalmente compatível com o que tinha sido feito, motivo pelo qual as páginas da web deveriam ser reprogramadas para “conversar” com o novo padrão. O XHTML também era intolerante a falhas.

Até então, a web tinha sido indulgente com os erros cometidos pelos programadores; podia suportar boa dose de código mal escrito. O novo sistema, porém, apresentava mensagens de erro à menor falha. Até os programadores mais experientes tinham problemas para escrever bem em XHTML.

Aí entra um movimento “conspirador” digno do enredo de um filme. O desacordo se tornou palpável em 2004, durante um evento do W3C em San José, Califórnia, na sede central da Adobe Systems, empresa criadora do Flash.

Håkon Wium Lie, diretor de TI do fabricante do navegador Opera, um dos organizadores do evento, recorda: “A pergunta que colocamos foi: ‘Evolução ou revolução?’. Deveríamos impulsionar o crescimento do HTML ou criar outra linguagem?”.

Ian Hickson, programador da equipe de Wium Lie, propôs que o W3C e seus colegas de indústria unissem forças para renovar o HTML, deixando de lado o XHTML. De 19 pessoas, 11 respaldaram a proposta. Os adeptos tinham algo em comum: representavam a Microsoft, a Apple e a Mozilla, todas fabricantes de navegadores.

Foi o golpe de mestre. Dois dias depois do evento, os dissidentes anunciaram que se reuniriam para retomar o trabalho com o HTML que o W3C tinha decidido abandonar. O grupo se pôs a desenhar uma nova versão quase imediatamente, e Hickson se tornou o editor. Foi o nascimento do HTML 5, batizado com esse nome por ser, essencialmente, a quinta grande versão do “dicionário” HTML.

O W3C, porém, ainda trabalhava duro para atualizar o XHTML, enquanto a maioria dos fabricantes de navegadores respaldava o HTML 5 (ainda que logo a Microsoft tenha dado um passo atrás). No final de 2006, Berners-Lee se viu obrigado a admitir a derrota. Garantiu que o W3C colaboraria com os rebeldes para criar “uma das joias da tecnologia web”.

O W3C planeja ratificar oficialmente o HTML5 nos próximos dois anos. De qualquer maneira, trata-se apenas de uma questão técnica. O ponto-chave é que o desenvolvimento da nova versão está nas mãos de empresas que precisam responder aos clientes. Esse trabalho é a maior e mais consciente atualização feita na programação da web em sua história.

Novos truques

O HTML 5 foi pensado para simplificar o funcionamento da web. Basicamente, o que faz é transformar os sites em programas. Por exemplo, entre as novas funcionalidades de seu dicionário de programação inclui-se o aplicativo Canvas, elemento que permite a um programador da web criar gráficos dinâmicos para jogos ou animações (algo que antes tinha de ser feito com programas complementares).

logo blackberryO dicionário também facilita a etiquetagem de áudio e vídeo, o que tornará muito mais eficiente a maneira como a web maneja os elementos multimídia. Agregar áudio ou vídeo a um site não exigirá mais programas complexos ou componentes como o Flash; será tão fácil agregar quanto texto ou fotos –e isso aumentará a velocidade dos navegadores.

De alguma forma, o HTML 5 está pegando o melhor do funcionamento da web e transformando-o em padrão. O Gmail, do Google, por exemplo, permite que o usuário arraste um arquivo armazenado no computador até a janela do navegador para anexá-lo a uma mensagem de correio eletrônico. Essa capacidade virá naturalmente na quinta versão do HTML, o que significa que levar um elemento de um lado para outro será algo básico da funcionalidade dos sites.

Uma nova especificação, ainda em desenvolvimento, ampliará a capacidade de armazenamento dos navegadores para cinco megabytes por domínio web, mil vezes maior do que a capacidade atual. Com isso, as pessoas poderão usar as funções das páginas de web até quando não estiverem conectadas à internet.

O site, então, se encarregará de sincronizar o trabalho feito. Enquanto a pessoa estiver online, essa função também será uma grande vantagem. Se o navegador for capaz de armazenar tanta informação, não terá de atualizar constantemente a página em que se está trabalhando.

E tudo funcionará mais rápido, uma vez que a “conversa” constante entre os computadores e as bases de dados deixará de interromper os canais que transmitem a informação. Sabe-se que Steve Jobs, da Apple, detesta os problemas que o Flash causou à programação da web. Por isso, diz que nunca fabricaria iPads ou iPhones nos quais esse programa pudesse funcionar e não se cansa de elogiar o HTML 5 por sua capacidade de criar gráficos avançados e animações.

Como a Apple, o site de troca de documentos Scribd.com foi um dos primeiros a empregar especificações do HTML 5 compatíveis com os navegadores. Os fundadores do Scribd estavam preocupados porque o site, que usava o Flash para exibir a informação, era visualmente confuso. Os documentos apareciam em uma moldura “como se estivessem dentro de uma caixa”, segundo o cofundador da empresa, Jared Friedman.

Seus engenheiros passaram seis meses reconstruindo as páginas. Decidiram se livrar do Flash ainda que isso significasse converter dezenas de milhões de arquivos em HTML 5.

A estafante corrida de programação deu resultado. O Scribd melhorou sua apresentação visual, o que garantiu que os usuários passassem três vezes mais tempo na página do que antes. O novo projeto de Friedman também tornou o Scribd compatível com o navegador do iPad. Agora, para transferir um livro para o dispositivo da Apple, basta tocar a tela com um dedo.

Isso é apenas um exemplo do que será a principal vantagem do HTML 5: a compatibilidade da web com os dispositivos móveis. Parte do crédito por esse avanço deve ser dado à Apple, um dos grandes players da internet, ainda que sua porção do mercado de navegadores seja pequena.

Em 2007, quando a empresa lançou o iPhone, alterou drasticamente as expectativas do público em relação à web móvel. Até aquele momento, a maioria dos smartphones oferecia uma versão mais pobre da web, assim como se via no microcomputador. A Apple optou por usar o mesmo sistema que deu vida a seu navegador, o Safari: o WebKit, sistema de fonte aberta que traduz o código de uma página da web para o que se vê na tela do telefone.

logo microsoftEm 2008, o Google adotou o WebKit como base para seu navegador Chrome, que funciona em computadores desktop e em telefones com o sistema operacional Android. Depois dele vieram os demais fabricantes: Nokia, Palm, Samsung e Research in Motion, o criador do BlackBerry.

Todos agregaram navegadores WebKit a seus sistemas. Hoje, o WebKit é o sistema de navegação móvel dominante e, como é compatível com o HTML 5, os desenvolvedores da web podem usá-lo para criar versões móveis de sites que possam ser vistos em múltiplos dispositivos. Vida nova O HTML 5 não mudará a web da noite para o dia.

O caminho ainda é longo. Apesar de os fabricantes de navegadores concordarem em vários pontos, ainda discutem, por exemplo, que padrões de vídeo apoiar. Também levará tempo para que os desenvolvedores consigam dar um uso significativo à tecnologia. Antes, vão querer se assegurar de que a maioria dos usuários usa navegadores compatíveis com o HTML 5.

logo nokiaCedo ou tarde, porém, mais sites seguirão o exemplo do Scribd. Vão se tornar inteligentes, serão compatíveis com computadores, telefones e tablets. Aos poucos, as pessoas deixarão de baixar aplicativos. Um único programa, o navegador, oferecerá uma experiência única e satisfatória em todos os equipamentos.

Isso não quer dizer que os aplicativos vão desaparecer. Na verdade, hoje parece ser deles que virão as melhorias na interface do usuário. Para algumas empresas, ainda é bom negócio adaptar conteúdo segundo plataformas específicas. Oferecer acesso à informação que seja mais rápido e simples do que o de um navegador é uma forma de construir fidelidade. Prover conteúdo exclusivo faz com que o cliente pague mais.

Foi por isso que a revista Wired proclamou, em matéria recente, que a web estava morta. Mas, com sua capacidade de simplificar, o HTML 5 aporta uma boa razão para acreditar que a web continuará sendo a principal plataforma dos novos serviços, enquanto o mundo dos aplicativos permanecerá em segundo plano. E isso é importante, porque a saúde da rede é vital para a criatividade.

Os empreendedores ainda precisam da web; sua ubiquidade oferece oportunidades inigualáveis para chegar a grandes audiências dispersas. Por isso, o HTML 5 acabará se impondo ao mundo dos aplicativos e estimulará a inovação e a criação de empreendimentos, como aconteceu durante o boom da web no final dos anos 1990.

Mapa de relações

Ivan Herman, líder da iniciativa da web semântica no W3C, explica por que a capacidade de vincular dados é o núcleo das novas tecnologias.

logo palmO W3C foi fundado em outubro de 1994 no laboratório de ciências da computação do Massachusetts Institute of Technology (MIT ), fruto da colaboração com o CERN (a organização europeia de pesquisas nucleares) e do apoio da Comissão Europeia e da agência de projetos de pesquisa avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Darpa).

Ivan Herman, matemático húngaro que entrou na organização há dez anos, é o atual diretor da iniciativa da web semântica. Em entrevista a HSM Management, Herman fala direto e sem rodeios, como todo bom cientista: “Não inventamos o termo web 3.0; surgiu, e não tem definição clara. Neste momento, a ênfase das pesquisas está na integração de vários tipos de dados que se encontram em diferentes bases e arquivos HTML. A ideia é conectá-los e publicá-los na web”.

A descrição idílica de uma rede de dados compartilhados, porém, fica obscurecida diante de uma questão: e a privacidade? As empresas vão querer abrir suas bases de dados para que outros as usem em seus desenvolvimentos? Terão medo de perder a informação? Segundo Herman, algumas vão se proteger com firewalls para evitar a intromissão indesejada, enquanto outras nunca tornarão públicas certas informações.

No entanto, haverá maior abertura, sem dúvida, porque só assim será possível estimular a cooperação entre pares e, em muitos casos, a cooperação é mais importante e necessária do que a concorrência e a ocultação de informação. “Por outro lado”, acrescenta Herman, “há muitos dados públicos por natureza, como os coletados pelos governos, os geográficos, a informação meteorológica, entre outros. Essa informação é pública e, portanto, não se deve dar desculpas para não compartilhá-las.”

logo samsungNem o temor pela perda da privacidade, nem a complexidade implicada na conexão de dados freiam as iniciativas do W3C. “Os membros de nossa organização estão em todo o mundo e incluem empresas, universidades e instituições públicas”, explica Herman. Os padrões e protocolos não se desenvolvem em pequenas equipes de trabalho, mas em grandes grupos, com integrantes das diferentes instituições-membros. Há equipes formadas por pessoas da Apple, da Microsoft, da Oracle e da IBM , entre outras empresas.

Ainda que sejam concorrentes, reconhecem a importância de padrões e protocolos e apoiam seu desenvolvimento. Além disso, um grupo central garante que todos esses padrões funcionem harmonicamente, em favor de um bem comum ou de um plano maior. O objetivo é preservar o “valor social” da web, sua capacidade de facilitar a comunicação, o intercâmbio e a possibilidade de compartilhar conhecimento –e conseguir que esse valor esteja ao alcance de todas as pessoas.

Fontes: Revista HSM Management e Wikipedia