A diferença entre o simbolismo histórico da esfera e do círculo reside, fundamentalmente, na transição da geometria plana para a tridimensionalidade espacial, o que altera a percepção humana e cosmológica de ambos os símbolos ao longo das eras. O círculo é o segundo símbolo fundamental da humanidade e representa a extensão bidimensional do ponto primordial. Historicamente, ele é o signo da homogeneidade, da ausência de divisão e do tempo em seu aspecto cíclico, por não ter começo nem fim, imitando o movimento inalterável dos céus e das revoluções planetárias. No plano místico, o círculo evoca a atividade do céu cósmico em sua relação com a terra e a bondade divina difundida como a origem e a consumação de todas as coisas.

Ele funciona frequentemente como um limite mágico ou como a taça que projeta as realidades celestes na terra. Por outro lado, a esfera eleva esse mesmo simbolismo para a ordem dos volumes, conferindo relevo e terceira dimensão às significações circulares. Enquanto o círculo atua no plano, a esfera corresponde de forma mais fidedigna à experiência física da percepção espacial e da totalidade cósmica. Na história da filosofia, como na cosmogonia de Platão no diálogo Timeu, a esfera é descrita como a forma mais perfeita e natural por conter em si todas as outras formas existentes e manter todas as extremidades à mesma distância do centro, simbolizando a autonomia absoluta e a bissexualidade do andrógino original.

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Na arquitetura sagrada, essa diferenciação geométrica ganha um papel ritualístico na dialética entre a esfera e o quadrado. A estrutura cubo-cúpula, comum na arte românica e bizantina, utiliza a semiesfera da cúpula para emular a própria abóbada do céu assentada sobre o altar terrestre quadrangular. Na tradição islâmica, a esfera desdobra-se em camadas concêntricas cristalinas para explicar a hierarquia dos intelectos e dos céus superpostos, estendendo-se da periferia do mundo até o coração da terra. Portanto, enquanto o círculo simboliza o dinamismo dos ciclos, do tempo e a perfeição linear da unidade de princípio, a esfera encarna a totalidade volumétrica do próprio universo, a harmonia tridimensional absoluta e o receptáculo de todas as manifestações da criação.

Simbologia da esfera

A esfera possui o mesmo simbolismo fundamental que o círculo, constituindo-se, em essência, como o círculo transposto para a ordem dos volumes. Ela confere o relevo e a terceira dimensão às significações circulares, correspondendo de forma mais fidedigna à experiência humana da percepção espacial e cósmica. A totalidade que abrange o plano celeste e o plano terrestre expressa-se magistralmente através do binômio cubo-esfera, onde a estabilidade do sólido retangular encontra a perfeição dinâmica do volume esférico. Na arquitetura sagrada, essa relação é frequentemente materializada pelo quadrilátero inserido na esfera, ou mais especificamente, pela base quadrada sobre a qual se assenta a cúpula. Esta última é normalmente reduzida à semiesfera, como se observa nas absides e nos domos que coroam as basílicas bizantinas, as mesquitas islâmicas e as grandes obras do Renascimento, sendo o exemplo mais notável a cúpula de São Pedro, no Vaticano, que emula a própria abóbada do céu sobre o altar terrestre.

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Acima: domo que fica na maior Basilica dos EUA: National Shrine of the Immaculate Conception na capital Washington DC.

Em certas representações da iconografia cristã, observa-se a figura de um personagem sagrado coberto por uma abóbada e com os pés devidamente pousados sobre um banco ou estrado retangular. Trata-se do símbolo de Deus ou do Cristo descendo de seu trono celeste, representado pela curvatura esférica, para habitar a terra, representada pela forma angular e fixa. A transição geométrica da esfera, do círculo ou do arco para as formas retangulares simboliza, em última análise, o mistério da Encarnação: a manifestação de uma mesma pessoa oriunda de duas naturezas distintas, a divina e a humana, estabelecendo a ponte, a ligação e a união definitiva entre o céu e a terra. Inversamente, a passagem do quadrado ao círculo, processo conhecido no hermetismo como a quadratura do círculo, simboliza a volta do criado ao não-criado, a ascensão da terra ao céu e a plenitude da realização espiritual que encerra a perfeição do ciclo completo da existência.

Na tradição filosófica e religiosa da Grécia antiga, notadamente no pensamento de Parmênides e nos textos sagrados do orfismo, duas esferas concêntricas eram utilizadas para representar o mundo terrestre e o Outro-Mundo, o plano invisível das almas. A morte, dentro desta cosmogonia, é entendida como a transição necessária que nos faz passar de uma esfera de existência para a outra. Conforme se lê em um tablete órfico destinado a guiar o defunto, o iniciado proclama haver saído do círculo onde se estava sob o peso de terríveis lutos para entrar no círculo desejável com passos rápidos, penetrando finalmente no seio da Senhora, a rainha do reino infernal e regenerador.

A cosmogonia exposta por Platão em seu diálogo Timeu apresenta o universo em sua totalidade sob a forma de uma esfera perfeita. Segundo o filósofo, o Criador deu ao Universo a forma mais conveniente e natural possível. Ora, a forma mais adequada ao animal cósmico que deveria conter em si mesmo todos os demais seres vivos só poderia ser aquela que abrangesse todas as formas existentes em seu interior. Por isso, a Divindade torneou o mundo em forma de esfera, garantindo que todas as suas extremidades estivessem a igual distância do centro. Para Platão, esta é a mais perfeita das formas por ser a mais semelhante a si mesma em qualquer ângulo, fundamentando-se na crença de que o semelhante é mil vezes mais belo e harmonioso do que o não-semelhante.

Nessa mesma linha de pensamento, o andrógino original, figura mítica da unidade primordial, era frequentemente concebido como um ser de formato esférico. É sabido que a esfera simbolizou, desde o nível das mais arcaicas culturas, os conceitos de perfeição, totalidade e autonomia absoluta. Como figura de simetria por excelência, a esfera torna-se também um símbolo de ambivalência e equilíbrio de opostos. Certas populações australianas mantêm a crença, análoga à de Platão, de que o ser primordial era esférico em sua bissexualidade. Essa mesma associação entre a origem da vida, a totalidade dos sexos e a forma esférica é detalhadamente explorada no discurso de Aristófanes em O Banquete, onde a esfera representa a unidade que foi fragmentada e que o amor busca restabelecer.

Segundo as visões dos profetas e a mística das cores, de Deus emanam três esferas primordiais que preenchem os três céus da existência. A primeira delas, denominada esfera do amor, manifesta-se na cor vermelha do fogo vital; a segunda, ou esfera da sabedoria, apresenta-se no azul profundo do intelecto iluminado; e a terceira, a esfera da criação ou da ação formal, reveste-se da cor verde, símbolo da natureza e da fertilidade.

A cosmogonia islâmica também recorre constantemente à simbologia da esfera para explicar a ordem da criação. Uma tradição transmitida por Ibn Abbas descreve a origem da Água como a criação de uma pérola branca monumental, com as dimensões do céu e da terra. Os sete céus da teologia muçulmana apresentam-se, na visão de diversos místicos, sob a forma de tendas redondas ou esferas cristalinas superpostas. Al-Farabi detalha esse processo através de sua teoria das emanações intelectuais: após a emanação da Esfera Superior, a produção continua de forma conjunta, gerando um Intelecto e uma Esfera correspondente. Do segundo Intelecto produz-se a Esfera das Estrelas fixas; do terceiro, a Esfera de Saturno; e assim sucessivamente através de Júpiter, Marte, o Sol, Vênus e Mercúrio, até atingir o décimo Intelecto, que gera a Esfera da Lua, a mais próxima do mundo sublunar.

Essa complexa arquitetura esferoidal do cosmos está igualmente presente na obra de Avicena e nas doutrinas dos Irmãos da Pureza. Para estes pensadores, o universo é uma sucessão de esferas concêntricas que se estendem desde a Esfera periférica, que limita o mundo, até o núcleo central que se encontra no coração da terra. A noção de esfera e de movimento orbicular é dominante nestas escolas, expressando a perfeição do movimento divino que não tem princípio nem fim. Se um ser ou um estado de consciência é concebido como perfeito, ele será simbolicamente imaginado como uma esfera, pois esta realiza a harmonia absoluta da equidistância, onde todos os pontos da superfície estão em contato igualitário com o centro interior e invisível.

Simbologia do círculo
Segundo símbolo fundamental, no grupo a que pertencem o centro, a cruz e o quadrado. Em primeiro lugar, o círculo é um ponto estendido; participa da perfeição do ponto. Por conseguinte, o ponto e o círculo possuem propriedades simbólicas comuns: perfeição, homogeneidade, ausência de distinção ou de divisão. O círculo pode ainda simbolizar não mais as perfeições ocultas do ponto primordial, mas os efeitos criados; noutras palavras, pode simbolizar o mundo, quando se distingue de seu princípio. Os círculos concêntricos representam categorias de ser, as hierarquias criadas. Para todas essas categorias, eles constituem a manifestação universal do Ser único e não manifestado. Portanto, o círculo é considerado em sua totalidade indivisa. O movimento circular é perfeito, imutável, sem começo nem fim, e nem variações; o que o habilita a simbolizar o tempo. Define-se o tempo como uma sucessão contínua e invariável de instantes, todos idênticos uns aos outros. O círculo simbolizará também o céu, de movimento circular e inalterável.

Em um outro nível de interpretação, o próprio céu torna-se símbolo, o símbolo do mundo espiritual, invisível e transcendente. Mais diretamente, porém, o círculo simbolizes o céu cósmico, particularmente em suas relações com a terra. Nesse contexto, o círculo simboliza a atividade do céu, sua inserção dinâmica no cosmo, sua causalidade, sua exemplaridade, seu papel providente. E por essa via junta-se aos símbolos da divindade debruçada sobre a criação, cuja vida ela produz, regula e ordena (CHAS, 28).

Segundo textos de filósofos e de teólogos, o círculo pode simbolizar a divindade considerada não apenas em sua imutabilidade, mas também em sua bondade difundida como origem, substância e consumação de todas as coisas; a tradição cristã dirá: como alfa e ômega.

Dionísio o Areopagita conseguiu descrever, em termos de filósofo e de místico, as relações do ser criado para com sua causa, graças ao simbolismo do centro e dos círculos concêntricos: ao afastar-se da unidade central, tudo se divide e se multiplica. Inversamente, no centro do círculo todos os raios coexistem numa única unidade, e um ponto único contém em si todas as linhas retas, unitariamente unificadas em relação às outras e todas juntas em relação ao princípio único do qual todas elas procedem. No próprio centro, sua unidade é perfeita; se elas se afastarem um pouco do centro, distinguem-se pouco; se se separarem ainda mais, distinguem-se melhor. Em resumo, na medida em que estão mais próximas do centro, mais íntima se torna sua união mútua: na medida em que estão mais afastadas do centro, aumenta a diferença entre elas. O símbolo evidencia aqui seu alcance, social e místico ao mesmo tempo.

No zen-budismo encontram-se muitas vezes desenhos de círculos concêntricos. Esses círculos simbolizam as etapas do aperfeiçoamento interior, a harmonia progressiva do espírito. O círculo é o signo da Unidade de princípio, e também o do Céu: como tal, indica a atividade e os movimentos cíclicos de ambos. É o desenvolvimento do ponto central, sua manifestação: Todos os pontos da circunferência reencontram-se no centro do círculo, que é seu princípio e seu fim, escreveu Proclo. Segundo Plotino, o centro é o pai do círculo, e segundo Angélus Silesius, o ponto conteve o círculo. Inúmeros autores, dentre os quais Henri Suso, aplicam a mesma comparação do centro e do círculo a Deus e à criação.

O círculo é a figura dos ciclos celestes, principalmente das revoluções planetárias, do ciclo anual representado pelo Zodíaco. Caracteriza a tendência expansiva (rajas). Por conseguinte, é o signo da harmonia, e isso explica que as normas arquitetônicas se assentem frequentemente na divisão do círculo. Por que o céu se move com um movimento circular?, indaga Plotino. Porque ele imita a Inteligência. O simbolismo do Zodíaco reencontra-se em outras irradiações semelhantes ao redor do Centro solar: os doze Aditya da Índia, os Cavaleiros da Távola Redonda, o Conselho circular do Dalai-Lama.

A forma primordial é, efetivamente, menos o círculo do que a esfera, representação do Ovo do Mundo. Todavia, o círculo é a taça, ou a projeção da esfera. Por isso o Paraíso terrestre era circular. A passagem do quadrado ao círculo — na mandala, por exemplo — é a da cristalização espacial ao nirvana, à indeterminação original; passagem da Terra ao Céu, segundo a terminologia chinesa. O que confirma a simbólica ocidental e cristã.

Entretanto, o simbolismo não é sempre tão simples, pois a imutabilidade celeste encontra também sua expressão no quadrado, e as mutações terrestres, no círculo. Ambos os aspectos são utilizados na arquitetura hindu tradicional, da qual já se disse que consistia na transformação do círculo em quadrado, e do quadrado em círculo. Por outro lado, o círculo, símbolo da animação (dar alma ou vida), é a forma habitual dos santuários entre os povos nômades, e o quadrado é a forma habitual dos templos entre os povos sedentários (DURA, BENA, DANA, GUEM, GUEC, GUER, GUES, KRAT, SECA).

Combinada com a do quadrado, a forma do círculo evoca uma ideia de movimento, de mudança de ordem ou de nível. A figura circular, adjunta à figura quadrada, é espontaneamente interpretada pelo psiquismo humano como a imagem dinâmica de uma dialética entre o celeste transcendente, ao qual o homem aspira naturalmente, e o terrestre, onde ele se situa no momento, onde percebe a si mesmo como sujeito de uma passagem a realizar a partir de agora, graças à ajuda dos signos.

Os esquemas do quadrado encimado por um arco (fragmento do círculo) ou prolongado por um arco na horizontal, a estrutura cubo-cúpula, tão frequentes na arte muçulmana como na arte românica, materializam essa dialética do terrestre e do celeste, do imperfeito e do perfeito. Essa forma complexa provoca uma ruptura de ritmo, de linha, de nível, que convida à pesquisa do movimento, da mudança, de um novo equilíbrio; simbolizaria a aspiração a um mundo superior ou a um nível de vida superior. Tornou-se a imagem clássica do arco do triunfo, reservado à passagem do herói vitorioso; na ordem intelectual, o herói é o gênio que penetrou um enigma: na ordem espiritual, o herói é o santo, que triunfou sobre as tendências inferiores de sua natureza. Ambos têm acesso, cada qual em sua ordem, a um outro modo de vida, que participa mais de perto no da divindade, considerada em sua força, sua sabedoria ou sua santidade.

O círculo inscrito num quadrado é um símbolo bem conhecido dos Cabalistas. Representa a centelha do jogo divino oculta na matéria, e que anima essa matéria com o fogo da vida.

O círculo é também símbolo do tempo: a roda gira. Desde a mais remota Antiguidade, o círculo tem servido para indicar a totalidade, a perfeição, englobando o tempo para melhor o poder medir. Os babilônios utilizaram-no para medir o tempo: dividiram-no em 360 graus, decomposto em seis segmentos de 60 graus; seu nome, shar, designava o universo, o cosmo. A especulação religiosa babilônica daí retirou, mais tarde, a noção do tempo infinito, cíclico, universal, que foi transmitida na Antiguidade — à época grega, por exemplo — através da imagem da serpente que morde a própria cauda. Na iconografia cristã, o motivo do círculo simboliza a eternidade; três círculos unidos entre si evocam a Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Entre os indígenas da América do Norte, igualmente, o círculo é o símbolo do tempo, pois o tempo diurno, o tempo noturno e as fases da Lua são círculos por cima do mundo, e o tempo do ano é um círculo em volta da extremidade do mundo (Narrativa do Chefe Espada, Xamã Dakota).

No mundo céltico, o círculo tem uma função e um valor mágicos. Cuchulainn gravou uma inscrição em letras ogâmicas (escritura celta) num círculo de madeira, a fim de deter o exército da Irlanda que invadira o Ulster. O círculo foi afixado a uma pilastra, e a inscrição ordenava expressamente a quem a lesse que não seguisse adiante, a menos que estivesse disposto a aceitar o duelo. O círculo, portanto, simboliza um limite mágico infranqueável. O círculo tem aplicações religiosas imediatas: o grande ídolo da Irlanda (pedra de Fál ou Cromm Cruaich), segundo os textos hagiográficos, está rodeado de outras doze pedras, de menor altura, dispostas em círculo. Templos galo-romanos circulares estão inscritos em um quadrado, em Périgueux (Dordogne) e Allonne (Sarthe), como imagem das inter-relações do céu (círculo) e da Terra (quadrado). Vercingetórix, no momento de sua rendição, descreve a cavalo um grande círculo ao redor de César. O simbolismo do círculo é duplo, a um só tempo mágico e celeste (ver recinto-1 e recinto-2) (WINI, 5, 69; CELT, 1, 159-184).

Quanto às tradições judaicas e cristãs, o círculo não se encontra nas construções públicas; ele é bizantino de origem. No plano arquitetônico, precedeu a cúpula. Igrejas românicas que reproduzem o Santo Sepulcro de Jerusalém tomam uma forma arredondada, tal como as igrejas construídas pelos templários ou as abadias de Charroux e de Fontevrault (1099). A abside das igrejas românicas apresenta uma semicúpula.

O Santo Sepulcro de Jerusalém era uma tentativa de imitar a grande abóbada do universo, que é simbolizada no homem por sua caixa craniana. Honório de Autun retoma essa dupla divisão quando se refere à igreja em cruz (quadrado) e à igreja redonda; utiliza a terminologia usual e o sentido simbólico nela implícito.

O círculo exprime o sopro da divindade sem princípio nem fim. Esse sopro processa-se continuamente e em todos os sentidos. Se o sopro parasse, haveria imediatamente uma reabsorção do mundo. O sol e o ouro, imagens do Sol, são designados por um círculo. O plano circular é associado ao culto do fogo, dos heróis, da divindade. O redondo possui um sentido universal (orós-órbita) simbolizado pelo globo. A esfericidade do universo e da cabeça do homem são também indícios de perfeição.

A igreja românica apresenta a imagem do homem, mas apresenta sobretudo o símbolo do homem perfeito, ou seja, do Cristo-Jesus. Notemos, além disso, que a palavra Jesus, em letras hebraicas, significa: o homem. O Verbo, ao fazer-se homem e assumir a humanidade, adquire proporções humanas. Através da Encarnação, une sua divindade à humanidade, liga o céu à terra, e lança no círculo uma forma quadrada que corresponde à forma do homem, ou melhor, ele inscreve o quadrado no círculo da divindade. Embora o significado disso vá ainda mais além, pois o quadrado indica a força. Semelhante evidência impõe-se, por exemplo, na visão de Daniel (7, 1-28), com os quatro animais e os quatro reis. Ora, pela Redenção, o Cristo faz despedaçar-se o quadrado e o inutiliza, pois ele é um rei privado de poder e de bens. Nada mais resta do quadrado senão a cruz. E, assim, o Cristo situa sua natureza humana no seio da natureza divina, e o homem quadrado, por causa da Encarnação e da Redenção, insere-se, ele próprio, dentro do círculo. Noutras palavras, a humanidade está ligada à divindade, tal como o tempo à eternidade, o visível ao invisível, o terrestre ao celeste.
Os autores modernos falam sem reservas da igreja edificada à imitação do Cristo crucificado. É assim e não é bem assim. Toda natureza humana é crucificada, porquanto a efígie do homem simboliza a cruz e significa os eixos cardeais. Por isso o templo é sempre construído à imagem do homem. O templo cristão resulta da quadratura segundo os eixos cardeais introduzidos em um círculo. A planta do templo hindu apresentada no Vâstu Parusha-mandala é também uma figura quadrada, expressão da divisão quaternária de um grande círculo que simboliza o ciclo solar. Isso leva a crer que toda arquitetura sagrada tenha recorrido a essas figurações fundamentais.

Na tradição islâmica, a forma circular é considerada como a mais perfeita de todas. E é por isso que os poetas dizem que o círculo formado pela boca é a mais bela das formas, por ser completamente redonda. Concentrado em si mesmo, sem princípio nem fim, realizado, perfeito, o círculo é o signo absoluto. O problema residia em passar do quadrado ao círculo, uma vez que o recinto de reunião dos fiéis é uma sala quadrada, embora somente uma cúpula seja digna de representar a incomensurável grandeza divina. Na Meca, o cubo negro da Ka’ba ergue-se em um espaço circular branco, e a procissão de peregrinos inscreve, ao redor do cubo negro, um círculo ininterrupto de prece (BAMC, 120). É costume fazer-se a volta completa dos mausoléus dos santos, das mesquitas, do local onde um animal foi sacrificado no momento em que a criança recebeu seu nome etc.

As rosetas ou rosáceas de muitas pétalas, tão frequentes como motivos de bordados, decoração, amuletos e arquitetura, no Oriente Médio, podiam-se encontrar já nas civilizações pré-islâmicas. Se por um lado pode-se considerá-las como tendo, mais especificamente, uma significação profilática contra o mau-olhado, por outro lado pode-se também (e, ao que parece, com razão) ver nessas rosáceas a sugestão de uma imagem da roda sob a aparência de flor, e um símbolo da vida, da duração da vida terrena. Na Baixa Mesopotâmia, o zero é o número perfeito, que exprime o todo e, portanto, o universo. Quando dividido em graus, representa o tempo. Do círculo e da ideia do tempo nasceu a representação da roda, que deriva dessa ideia, e que sugere a imagem do ciclo correspondente à noção de um período de tempo (etimologicamente, o hebraico associa a torre, que é circular, com o verbo mover-se em círculos, girar, dar a volta; da mesma forma, liga a geração humana a esse “mover-se em círculos”). O simbolismo do círculo abrange o da eternidade ou dos perpétuos reinícios.

A abóbada giratória dos céus, a Roda do céu, são expressões correntes na literatura persa. Implicam a ideia de destino. Por isso, Omar Khayyam escreve:

Uma vez que a Roda do céu jamais girou de acordo com a vontade de um sábio. Que importa que se contem sete ou oito céus!
A dança circular dos dervixes “mawlavis”, denominados dervixes rodopiantes, inspira-se num simbolismo cósmico: eles imitam a ronda dos planetas em torno do Sol, o turbilhão de tudo o que se move, mas também imitam a busca de Deus, simbolizado pelo Sol. Seu fundador, Jelal ed-din Rumi, mais comumente chamado Mevlana, o maior poeta do sufismo, celebrou essa circum-ambulação da alma em sua obra monumental, o Mathnawi: Eu girei, diz ele, com os nove pais (planetas) em cada céu. Durante anos, girei com as estrelas...

A comparação neoplatônica de Deus a um círculo, cujo centro está em toda parte, é um tema que reaparece em todos os autores sufistas, principalmente no Golshan-i-Raz (Rosal dos Segredos), de Mahmud Shabestari. Rumi opõe a circunferência do mundo dos fenômenos ao Círculo do Ser absoluto. Rumi diz, também, que se se abrisse um grão de poeira, nele se encontraria um sol e planetas a girar à roda. Um físico não diria do átomo a mesma coisa?

Aliás, o Trono de Deus é representado com um círculo à guisa de base: aí está o horizonte supremo. Khatt al istima, do qual Maomé fez a volta, no momento do Mi’radj (éxtase do Profeta do Islã — ver escada), em dois lances de arco. O êxtase de Maomé consistiu, portanto, em fazer a volta da inacessibilidade de Deus.

A figura do círculo simboliza igualmente as diversas significações da palavra: um primeiro círculo simboliza o sentido literal; um segundo círculo, o sentido alegórico; um terceiro, o sentido místico.

O Tawhid, ciência da atestação de que Deus é Um, é representado por al-Hallaj através de uma figura composta de três círculos concêntricos: o primeiro círculo compreende os atos de Deus; o segundo e o terceiro, suas marcas e consequências: são os dois círculos concêntricos do criado. O ponto central significa o Tawhid, a ciência. Mas, no fundo, é a ciência daquilo que se ignora.

Jung mostrou que o símbolo do círculo é uma imagem arquetípica da totalidade da psique, o símbolo do self, ao passo que o quadrado é o símbolo da matéria terrestre, do corpo e da realidade.

Em sua qualidade de forma envolvente, qual circuito fechado, o círculo é um símbolo de proteção, de uma proteção assegurada dentro de seus limites. Daí a utilização mágica do círculo, como o cordão de defesa ao redor das cidades, ao redor dos túmulos, a fim de impedir a penetração dos inimigos, das almas errantes e dos demônios. Há lutadores que costumam traçar um círculo em volta de seu corpo, antes de travar o combate.

O círculo protetor toma a forma, para o indivíduo, da argola (ou aro), do bracelete, do colar, do cinto, da coroa. O aro talismânico, o anel-amuleto, o círculo mágico pentacular que se usa no dedo foram utilizados desde tempos remotos e por todos os povos; estão ligados, efetivamente, à proteção imediata do usuário, nos pontos mais sensíveis: os dedos da mão, instrumentos naturais de emissão e de recepção do fluido mágico e, portanto, muito vulneráveis.

Esses círculos desempenhavam o papel não apenas de adornos, mas também de estabilizadores, que mantinham a coesão entre a alma e o corpo... Esse simbolismo explica, provavelmente, por que os guerreiros antigos usavam uma quantidade tão grande de braceletes. E talvez fosse também por isso que eles os recebessem de todos aqueles que desejavam vê-los retornar sãos e salvos, e com a alma devidamente unida ao corpo.

Esse mesmo valor do símbolo explica o fato de que os anéis e braceletes sejam retirados ou proibidos àqueles cuja alma deve estar livre para evadir-se, como os mortos, ou para elevar-se em direção à divindade, como os místicos. Entretanto, neste último caso, um outro valor simbólico pode estar implícito, pois o anel significa também uma união e um dom voluntário irrevogáveis; e esta é a razão pela qual algumas religiosas usam a aliança. Quando muitos valores simbólicos estão em conflito, o valor escolhido revela a importância privilegiada que lhe é atribuída, embora nem por isso o valor eclipsado neste caso especial deixe de existir com menos força.
 
Fonte:
Texto criado com auxílio editorial do Gemini a partir de trechos do livro DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS - autores Jean Chevalier e Alain Gheerbrant

Artigo atualizado na Agência EVEF por Everton Ferretti em 19/05/2026