O mandala e sua natureza geométrica fundamental configuram-se literalmente como um círculo, ainda que o seu desenho apresente uma densa complexidade simbólica e muitas vezes se encerre em uma moldura quadrada de caráter ritualístico. Como o iantra, de uso emblemático e rigoroso, mas de modo menos esquemático e mais figurativo, o mandala constitui-se ao mesmo tempo como um resumo da manifestação espacial e uma imagem totalizante do mundo. Ele opera como a representação e a atualização efetiva de potências divinas no plano terrestre, configurando-se assim como uma imagem psicagógica de profunda eficácia, própria para conduzir aquele que a contempla à jornada interior em direção à Iluminação.
O mandala tradicional hindu é a determinação rigorosa, estabelecida pelo rito da orientação sagrada, do espaço central ocupado pelo altar e pelo templo, o centro imóvel do movimento cósmico.

É o símbolo espacial de Purusha, especificamente o Vastu-Purusha mandala, que encarna a Presença divina no centro do mundo e a harmonia entre a arquitetura humana e a ordem universal. Ele se apresenta visualmente como um quadrado subdividido em quadrados menores; os modelos mais elementares possuem quatro ou nove casas, dedicadas respectivamente a Xiva e a Prithivi, a terra. No entanto, os esquemas mais utilizados em ritos complexos apresentam sessenta e quatro e oitenta e uma casas. O quadrado ou os quadrados elementares do centro absoluto são o lugar de Brama, o Bramasthana, a fonte primordial de toda a existência. Eles comportam a sala principal conhecida como Garbhagriha, a cella ou o ventre do templo onde reside a divindade. As fileiras concêntricas de quadrados que circundam este centro estão em relação direta com os ciclos solar e lunar, refletindo o tempo sagrado. Se esse esquema rigoroso é encontrado no plano dos grandes templos da Índia, como os exemplares magníficos de Khajuraho, também é encontrado na Índia exterior e especialmente no complexo de Angkor, onde a arquitetura se torna a própria materialização da cosmologia mandálica.
O mandala tântrico deriva essencialmente do mesmo simbolismo fundamental, mas expande sua aplicação para o campo da prática ritual imediata. Pintado em tecidos ou desenhado na areia como o suporte necessário para a meditação, ou ainda riscado diretamente no chão para os ritos de iniciação esotérica, trata-se de um quadrado orientado para os quatro pontos cardeais, dotado de quatro portas e contendo círculos e lótus em sua estrutura interna, povoado de imagens e de símbolos divinos multifacetados. As portas dos cinturões exteriores são providas de guardiões coléricos ou protetores; o seu acesso progressivo por parte do iniciado corresponde, portanto, às etapas sucessivas na progressão espiritual e aos graus de iniciação aos mistérios, até que seja finalmente atingido o centro vibrante, o estado indiferenciado do Buda-chakravartl, o regente da roda da lei. O mandala pode, assim, ser interiorizado pela visualização mental, constituído no silêncio da caverna do coração do praticante. Templos monumentais como o de Borobudur, em Java, com suas estupas e níveis ascendentes, exprimem com uma precisão arquitetônica monumental o que é a progressão no interior do mandala, transformando o ato de caminhar em uma ascensão mística.
O budismo do Extremo Oriente, notadamente na escola Shingon, apresenta mandalas pintados em forma de lótus sagrado, cujo centro e cada pétala trazem a imagem radiante de um Buda ou de um Bodhisattva. Aí se encontra principalmente o conceito do mandala duplo, cujos centros são igualmente ocupados por Vairocana, o Sol Central. Existe o mandala do mundo de diamante (vajradhatu), que representa o reino do não-manifestado e da sabedoria indestrutível, e aquele do mundo-matriz (garbhadhatu), que simboliza a realidade universalmente manifesta, mas cujo fruto a nascer é sempre o da liberação final. Para os japoneses budistas da seita Shingon, as figurações concêntricas dos mandalas são a imagem dos dois aspectos complementares e finalmente idênticos da realidade suprema: o aspecto da razão original, inata em todos os seres, que utiliza as imagens e as ideias do mundo ilusório como veículo; e o aspecto do conhecimento terminal, produzido pelos exercícios ascéticos e adquirido pelos Budas, onde as percepções se fundem umas com as outras na intuição absoluta do Nirvana.
O mandala é uma imagem ao mesmo tempo sintética e dinamogênica, que representa e tende a superar as oposições do múltiplo e do uno, do decomposto e do integrado, do diferenciado e do indiferenciado. Ele atua na fronteira entre o exterior e o interior, do difuso e do concentrado, conduzindo o fiel do visível aparente ao invisível real, e do plano espaço-temporal ao intemporal e extraespacial. Henry Corbin, em seus estudos sobre o esoterismo oriental, apresentou diagramas circulares ismaelitas cujo parentesco de concepção e de significação com o mandala búdico e hindu é surpreendente e revela uma estrutura universal da imaginação religiosa humana.
Na tradição tibetana, o mandala é o guia imaginário e provisório da meditação, uma ferramenta de transformação da consciência. Ele manifesta em suas combinações variadas de círculos e de quadrados o universo espiritual e material, assim como a dinâmica complexa das relações que os unem no plano tríplice: cósmico, antropológico e divino. No ritual, ele funciona como o suporte vibratório da divindade, do qual é o símbolo cósmico e a morada temporária. Sendo uma projeção visível de um mundo divino, no centro do qual se situa o trono da divindade eleita, o mandala não pode comportar nenhum erro de interpretação gráfica ou simbólica, pois a palavra do Mestre é capaz de animá-lo e torná-lo uma entidade viva. Por exemplo, em certas representações, cinco grandes círculos concêntricos envolvem um lótus de oito pétalas, no coração do qual se desenha um edifício de diversos quadrados encaixados e geometricamente perfeitos, abertos de cada um dos lados por quatro portas monumentais diante dos quatro pontos cardeais. No interior, doze figuras de Buda da meditação envolvem um outro quadrado dentro do qual se inscreve um círculo; mais uma vez, no coração desse círculo, repousa um lótus de oito pétalas, no centro do qual está sentada a divindade principal. Nos intervalos e nas bordas, distinguem-se os símbolos do raio, do fogo purificador e das nuvens primordiais; em torno dos grandes círculos, destacam-se de um fundo de nuvens e flamas as divindades e os animais tutelares, por vezes temíveis para afastar as influências profanas. O mandala, pela magia intrínseca de seus símbolos, é ao mesmo tempo a imagem e o motor da ascensão espiritual, que procede através de uma interiorização cada vez mais elevada da vida e através de uma concentração progressiva do múltiplo no uno: o eu reintegrado no todo, e o todo reintegrado no eu.
C. G. Jung recorre à imagem do mandala para designar uma representação simbólica da psique total, cuja essência última nos é desconhecida e inefável. Ele observou, assim como seus discípulos no campo da psicologia analítica, que essas imagens emergem como instrumentos para consolidar o ser interior ou para favorecer a meditação em profundidade em momentos de crise ou transição. A contemplação de um mandala supostamente inspira a serenidade e o sentimento de que a vida reencontrou seu sentido, sua ordem e seu centro de gravidade. O mandala produz o mesmo efeito ordenador quando aparece espontaneamente nos sonhos do homem moderno que ignora essas tradições religiosas milenares, revelando-se como um arquétipo do Self. As formas redondas do mandala simbolizam, em geral, a integridade natural e o potencial da totalidade psíquica, enquanto a forma quadrangular representa a tomada de consciência dessa integridade e sua fixação na realidade terrena. No sonho, o disco quadrado e a meta redonda se encontram, anunciando uma tomada de consciência iminente do centro do ser. O mandala possui, portanto, uma eficácia dupla e terapêutica: conservar a ordem psíquica, se ela já existir no indivíduo, ou restabelecê-la de forma compensatória, se ela desapareceu diante do caos. Nesse último caso, o mandala exerce uma função estimulante, integradora e curativa, atuando como um receptáculo para as tensões opostas da alma.

A mandala no século 21
A expansão da influência da mandala na modernidade ocidental revela uma transição fascinante do sagrado ritualístico para o funcionalismo psicológico e terapêutico. No início do século vinte, Carl Gustav Jung redescobriu a mandala não como um artefato exótico do oriente, mas como uma manifestação espontânea do inconsciente humano. Jung observou que, em períodos de intensa desorientação psíquica ou crise existencial, seus pacientes frequentemente desenhavam formas circulares organizadas em torno de um centro. Ele interpretou esses desenhos como tentativas da própria psique de restabelecer a ordem e a integridade, denominando a mandala como o arquétipo do Si-mesmo ou Self. Para a psicologia analítica, a mandala atua como um receptáculo para os conteúdos caóticos da mente, oferecendo uma moldura que protege e organiza o processo de individuação, que é a busca permanente pela totalidade do ser e pela reconciliação dos opostos internos.
Essa perspectiva psicológica abriu caminho para que a mandala se tornasse uma ferramenta central na arte-terapia contemporânea e na educação emocional. Diferente do uso religioso tradicional, onde o praticante segue modelos canônicos e iconográficos rígidos, na modernidade a criação de mandalas é frequentemente livre e intuitiva. O ato de colorir, pintar ou desenhar a partir de um ponto central estimula estados de relaxamento profundo e concentração, similares aos alcançados em técnicas de meditação ativa ou mindfulness. Cientificamente, essa prática ajuda a reduzir os níveis de cortisol e a ansiedade, permitindo que o hemisfério direito do cérebro, ligado à intuição e à criatividade, processe emoções complexas de forma não verbal. Assim, a mandala deixou de ser apenas um símbolo de divindades externas para se tornar um espelho da ecologia interna do homem moderno, auxiliando na regulação do estresse e na recuperação de traumas através da expressão visual.
Na espiritualidade secular e nos movimentos de autoconhecimento, a mandala é utilizada como um instrumento de harmonização de ambientes e de focalização de intenções. Ela aparece em diversas formas de expressão artística contemporânea, desde a arquitetura de centros de meditação e hospitais que buscam ambientes mais humanizados até instalações artísticas que promovem a paz e a unidade global. A ideia de que o microcosmo do indivíduo reflete o macrocosmo do universo, conceito central nas mandalas antigas, permanece viva na noção moderna de interconectividade e ecologia profunda. Hoje, a mandala é amplamente reconhecida como uma linguagem universal que transcende dogmas religiosos específicos, servindo como uma ponte visual que une a herança sábia do passado com as necessidades urgentes de cura, equilíbrio e clareza mental do mundo atual. Ela funciona como um porto seguro visual, onde o indivíduo pode reencontrar seu próprio centro em meio à fragmentação da vida urbana e digital.
Mandala foi o nome de uma das novelas mais polêmicas da TV Globo
Mandala foi o título de uma das novelas mais controversas e debatidas da história da teledramaturgia brasileira, não apenas pelo conteúdo narrativo que apresentou, mas também pela ousadia estética e simbólica com que foi concebida. Produzida pela TV Globo e exibida no horário nobre das 20 horas entre 12 de outubro de 1987 e 14 de maio de 1988, a obra foi escrita por Dias Gomes, um dos autores mais importantes da dramaturgia nacional, conhecido por incorporar elementos políticos, sociais e simbólicos em suas narrativas. A novela ganhou notoriedade ao realizar uma adaptação livre e contemporânea da tragédia grega Édipo Rei, originalmente escrita por Sófocles, transportando o núcleo da história para o contexto urbano do Rio de Janeiro da década de 1980.
O enredo de Mandala é estruturado em duas fases temporais distintas, o que reforça a ideia de continuidade e inevitabilidade do destino. Na primeira fase, ambientada nos anos 1960, o público acompanha a história de Jocasta, uma jovem que engravida de Laio. Ao buscar orientação com um místico, Laio recebe uma profecia perturbadora: seu filho estaria destinado a matá-lo e, posteriormente, a se casar com a própria mãe. Dominado pelo medo e pela tentativa de evitar esse destino, Laio toma uma decisão extrema e sequestra o bebê recém-nascido, abandonando-o para morrer. Esse ato inicial, motivado pela tentativa de romper o ciclo profético, acaba funcionando, paradoxalmente, como o primeiro passo para sua concretização.
A segunda fase da narrativa ocorre cerca de vinte e cinco anos depois e constitui o núcleo principal da trama. O bebê abandonado sobrevive e cresce sem qualquer conhecimento sobre sua verdadeira origem, sendo criado por outra família. Já adulto, passa a se chamar Édipo e leva uma vida comum, até que uma sequência de eventos aparentemente aleatórios o conduz ao encontro com seu destino. Em uma briga de trânsito, típica do ambiente urbano caótico, ele se envolve em um confronto com Laio, sem saber que se trata de seu pai biológico. O conflito termina com a morte de Laio, cumprindo a primeira parte da profecia.
Sem qualquer consciência do vínculo que os une, Édipo posteriormente conhece Jocasta e se envolve com ela em uma relação intensa e apaixonada. A narrativa conduz o espectador a perceber, com crescente tensão, que a profecia se concretiza de forma inexorável. A relação entre mãe e filho, desconhecida por ambos, materializa o aspecto mais trágico da história, reforçando a ideia de que o destino não pode ser evitado, apenas cumprido.
O elenco da novela reuniu nomes de grande relevância na televisão brasileira, o que contribuiu para a força dramática da obra. Vera Fischer interpretou Jocasta nas duas fases da história, oferecendo uma construção complexa da personagem ao longo do tempo. Felipe Camargo deu vida a Édipo, trazendo intensidade ao papel central da narrativa. Nuno Leal Maia interpretou Tony Carrado, um bicheiro carismático que se tornou um dos personagens mais populares da novela, conhecido por seu bordão marcante. Raul Cortez assumiu o papel de Laio na fase adulta, enquanto Gracindo Júnior interpretou Creonte, irmão de Jocasta, e Gianfrancesco Guarnieri viveu Túlio, o homem responsável pela criação de Édipo.
A escolha do nome Mandala não foi casual nem meramente estética, mas profundamente simbólica e alinhada com a estrutura conceitual da narrativa. A mandala, presente em diversas tradições espirituais e filosóficas, é um símbolo que representa totalidade, integração e, sobretudo, circularidade. Na novela, esse conceito é aplicado à ideia de destino como um ciclo fechado, no qual os acontecimentos tendem a retornar ao ponto de origem. A trajetória dos personagens segue um movimento circular, em que todas as tentativas de fuga acabam conduzindo exatamente ao desfecho previsto.
Além disso, a obra incorpora elementos de misticismo, astrologia e numerologia, ampliando a dimensão simbólica da narrativa. A mandala, nesse contexto, funciona como uma representação visual e conceitual do universo espiritual que permeia a história. Ela sugere que a vida humana não se desenvolve de forma linear, mas sim em padrões recorrentes, guiados por forças que ultrapassam a compreensão racional.
Dentro da lógica interna da trama, a mandala também pode ser interpretada como o ponto de convergência entre início e fim. É o momento em que a jornada do protagonista retorna à sua origem, fechando um ciclo que parecia disperso, mas que sempre esteve orientado por uma estrutura invisível. Esse retorno não é apenas físico ou narrativo, mas também simbólico, representando a revelação da verdade e o confronto inevitável com a própria identidade.
A novela enfrentou forte censura durante sua exibição, especialmente por abordar de forma direta o tema do incesto, considerado extremamente sensível para os padrões da televisão brasileira da época. Esse aspecto gerou debates intensos na sociedade e na mídia, ampliando ainda mais a repercussão da obra. Paralelamente, a vida pessoal dos protagonistas também chamou a atenção do público, uma vez que Vera Fischer e Felipe Camargo iniciaram um relacionamento fora das telas durante as gravações, o que aumentou o interesse da imprensa e contribuiu para a aura polêmica que cercou a produção.
Mandala permanece, até hoje, como um marco na televisão brasileira, não apenas por sua narrativa ousada, mas pela forma como integrou elementos clássicos da tragédia grega a uma linguagem contemporânea, criando uma obra que dialoga simultaneamente com o passado mítico e com a realidade moderna.
Fonte:
Texto criado com auxílio editorial do ChatGPT 5 a partir de trechos do livro DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS - autores Jean Chevalier e Alain Gheerbrant
Artigo atualizado na Agência EVEF por Everton Ferretti em 14/04/2026


