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Jogo de cartas, sem dúvida, dos mais antigos, apresenta um mundo de símbolos cuja densidade cultural ultrapassa em muito a sua aparência lúdica. Não se pode duvidar do seu ensinamento esotérico, mais ou menos secretamente transmitido ao longo dos séculos, por meio de tradições orais, escolas iniciáticas e correntes de pensamento que viram nesse conjunto de imagens uma forma de preservar conhecimentos sob a forma velada de figuras. O problema de sua origem é muito difícil, senão impossível de ser resolvido, e essa obscuridade histórica contribui para o seu prestígio simbólico. Desde Court de Gébelin que, no século XVIII, apaixonou-se por sua interpretação e procurou nele vestígios de uma sabedoria antiga, as mais diversas teorias foram propostas, muitas delas refletindo o fascínio europeu pelas civilizações orientais e pelo Egito antigo, então redescoberto pelas correntes eruditas. Que tenha vindo da China, da Índia, do Egito; que seja obra do próprio Tot-Hermes Trismegisto, dos boêmios errantes, dos alquimistas medievais, dos cabalistas judeus, ou de um homem excepcional, o mais sábio dos sábios, o Tarô, na verdade, apresenta uma iconografia nitidamente medieval, profundamente marcada pelo imaginário cristão, pelas hierarquias sociais do feudalismo e pelos símbolos morais e religiosos que estruturavam a cultura europeia da época.

As cores e os números

Na sua forma mais tradicional, a do Tarô de Marselha, cuja difusão se consolidou entre os séculos XV e XVII nas oficinas de gravura europeias, o jogo compõe-se de 78 cartas: 56 arcanos menores, 22 arcanos maiores. Esses números merecem atenção não apenas como elementos quantitativos, mas como portadores de uma lógica simbólica herdada de tradições antigas. Observemos, primeiramente, que o número vinte e dois é o número das letras hebraicas que, segundo a Cabala, apresentam o Universo como uma estrutura linguística e espiritual. Esse número, no Tarô, é feito de vinte e um arcanos numerados e do Louco: o número vinte e um, ou seja, três vezes sete, é o da perfeição humana enquanto realização completa de um ciclo, sendo três o número da totalidade dinâmica e sete o número dos ciclos sagrados, tão presentes nas tradições bíblicas e antigas. É preciso lembrar aqui que o arcano de número 21 representa o Mundo, figura da totalidade realizada. O Louco que lhe é acrescentado, diria um sábio africano, é a palavra dada a essa perfeição, a sua animação, o sopro vital que impede o fechamento definitivo do sistema e introduz a errância, o acaso e a liberdade.

Dos 56 arcanos menores, lembraremos apenas que constituem quatro grupos, poder-se-ia dizer, quatro colunas de quatorze cartas, que correspondem aos quatro naipes dos jogos de cartas derivados do Tarô e que podem ser associados, em uma leitura simbólica mais ampla, aos quatro elementos da natureza ou às quatro funções fundamentais da experiência humana. Mas, acima de tudo, é preciso assinalar que setenta e oito, total de todo o jogo de Tarô, é também a soma, e portanto, segundo a linguagem dos esoteristas que o interpretaram, a significação secreta dos doze primeiros números, frequentemente ligados à ordem cósmica e ao ciclo zodiacal. Secretamente, esse livro que se apresenta como um jogo contém, portanto, a substância somada do número que estrutura tanto o universo quanto o pensamento humano, funcionando como um espelho numérico da realidade.

Todas as cartas são vivamente coloridas, e essa policromia não é arbitrária, mas responde a um código simbólico herdado das tradições pictóricas medievais. Antes de examinarmos as suas significações particulares, lembraremos em algumas linhas o simbolismo das cores dominantes do Tarô: rosa-ocre, azul, vermelho e amarelo. O rosa-ocre sempre indica o que é humano ou o que se liga à humanidade, sendo a cor da carne, dos rostos, dos corpos e das construções, marcando a presença do homem no mundo material. O azul, cor noturna, passiva, lunar, muito utilizada nas representações da Virgem na arte cristã, é a cor do segredo, do sentimento, da anima, dos valores femininos por excelência, evocando o recolhimento e a interioridade. O vermelho é a cor masculina da força interna, da energia potencial, das manifestações do animus, do sangue e do Espírito, frequentemente associado ao poder, à ação e ao sacrifício. O amarelo, por fim, em toda a sua ambivalência, é ao mesmo tempo a cor da terra e do sol, da riqueza do mel e das colheitas, mas também da luz intelectual na sua pureza de ouro inalterável, simbolizando tanto a matéria quanto a inteligência.

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Os arcanos maiores: caminhos iniciáticos

Os próprios arcanos maiores são caminhos iniciáticos, cujas etapas foram interpretadas de inúmeras formas ao longo da história. Apresentam-se como a quintessência do hermetismo, como os altos graus colocados acima da massa anônima, condensando saberes que, em muitas tradições, eram reservados a iniciados. São estudados em detalhe sob o nome de cada carta:

I. O Mago representa o ponto de partida, a unidade e o impulso criador. Ele é o artesão que possui todas as ferramentas sobre sua mesa, simbolizando a consciência que desperta e a vontade que transforma a matéria bruta em algo novo. Sua posição indica a ligação entre o céu e a terra, agindo como um canal para a manifestação da inteligência.

II. A Papisa encarna o conhecimento oculto, a intuição e a gestação silenciosa. Sentada entre colunas e segurando um livro, ela guarda os mistérios que não podem ser revelados apressadamente. Representa a memória do mundo e a paciência necessária para que a sabedoria floresça no tempo certo.

III. A Imperatriz é a expressão da fertilidade, da natureza em expansão e da inteligência criativa. Ela simboliza a abundância e a capacidade de dar forma aos projetos. É a mãe generosa e a força geradora que traz beleza, harmonia e crescimento ao plano material através do poder do amor e da arte.

IV. O Imperador estabelece a ordem, a autoridade e a estabilidade. Ele é o princípio organizador que define limites e cria leis para que a sociedade e a vida possam prosperar com segurança. Sua figura representa o domínio da razão sobre os instintos e a construção de estruturas sólidas e duradouras.

V. O Papa atua como o mediador entre o divino e o humano, representando a tradição, o ensino e a ponte espiritual. Ele é o guia que interpreta os símbolos sagrados para a coletividade, oferecendo bênção e conselho. Simboliza a moralidade e o conhecimento que é transmitido através da palavra e do ritual.

VI. O Enamorado apresenta o dilema das escolhas e a força da atração. Este arcano fala sobre a necessidade de decidir com o coração e as consequências dos afetos. Ele representa o livre-arbítrio e o momento em que o indivíduo deve harmonizar seus desejos internos para seguir um caminho autêntico.

VII. O Carro simboliza o triunfo da vontade, a direção e o domínio sobre as forças opostas. O condutor que guia os dois cavalos demonstra a capacidade de governar a mente e as emoções para alcançar um objetivo específico. É o arcano da vitória, do movimento consciente e do sucesso obtido pelo esforço.

VIII. A Justiça personifica o equilíbrio, a verdade e a lei da causa e efeito. Com sua balança e espada, ela avalia cada ação com imparcialidade, cortando o que é supérfluo ou injusto. Representa o rigor necessário para a harmonia social e a clareza mental para distinguir o certo do errado.

IX. O Eremita é a busca interior, a solidão necessária e a sabedoria acumulada pela experiência. Caminhando com sua lanterna, ele ilumina o passado para entender o presente. Simboliza a prudência, o tempo que amadurece todas as coisas e a luz da verdade que brilha apenas para quem se retira do ruído do mundo.

X. A Roda da Fortuna ilustra a natureza cíclica da vida e a inevitabilidade das mudanças. Ela nos lembra que o que está em cima logo estará embaixo, representando o destino em constante movimento. É o arcano da impermanência e da necessidade de encontrar o centro estável enquanto as circunstâncias giram ao redor.

XI. A Força demonstra o domínio da inteligência e da doçura sobre os instintos primordiais. A figura que fecha a boca do leão sem usar violência física simboliza a coragem moral e a disciplina interna. Representa a energia vital canalizada de forma consciente para superar obstáculos com resiliência.

XII. O Enforcado simboliza a pausa necessária, o sacrifício pessoal e a mudança de perspectiva. Pendurado por um pé, ele vê o mundo sob um novo ângulo, indicando que, às vezes, é preciso abandonar velhas crenças para ganhar iluminação. Representa o desapego e a aceitação de um tempo que não é o da ação.

XIII. O Arcano sem nome, frequentemente associado à Morte, trata da transformação radical e da renovação. Ele indica o fim de um ciclo necessário para que o novo possa surgir. Não representa o fim da existência, mas a limpeza do terreno, a eliminação do que está estagnado e a transmutação profunda da alma.

XIV. A Temperança é o arcano da alquimia interior, do equilíbrio e da moderação. A figura que derrama fluidos entre dois vasos simboliza a fusão dos opostos e a harmonia dos ritmos. Ela representa a cura, a fluidez das emoções e a paciência para misturar os elementos da vida em proporções perfeitas.

XV. O Diabo representa o magnetismo, os desejos materiais e as correntes que nos prendem aos instintos básicos. Ele lida com o poder da sombra, a tentação e a energia criativa bruta que, se não for integrada, torna-se obsessão. Simboliza as forças do inconsciente e o confronto com os próprios medos.

XVI. A Torre simboliza a destruição súbita das estruturas construídas sobre bases falsas ou orgulhosas. O raio que atinge o topo da construção representa a intervenção da verdade que liberta o indivíduo de sua própria prisão mental. É o colapso necessário para que uma fundação mais honesta seja erguida.

XVII. A Estrela é o arcano da esperança, da inspiração e da pureza. Após a tempestade da torre, ela traz a promessa de renovação e a conexão com o cosmo. Representa a fé no futuro, a generosidade da alma que se derrama sobre o mundo e a luz guia que nunca se apaga nas noites mais escuras.

XVIII. A Lua mergulha nas profundezas do imaginário, dos sonhos e das ilusões. Ela representa o mundo do subconsciente, onde os medos e as intuições se confundem. Simboliza o caminho obscuro que deve ser trilhado com cautela, revelando que nem tudo é o que parece sob a luz pálida do reflexo.

XIX. O Sol é a plena consciência, a clareza e a alegria de viver. Ele ilumina todas as coisas, dissipando as sombras da dúvida e trazendo vitalidade e calor. Representa o sucesso, a transparência nas relações e a verdade radiante que nutre o crescimento de todos os seres sob sua influência.

XX. O Julgamento simboliza o renascimento, o despertar da consciência e o chamado para uma nova vida. É o momento de prestação de contas com o passado e de ouvir a trombeta que anuncia a transfiguração. Representa a cura espiritual e a libertação de velhos pesos através da compreensão profunda.

XXI. O Mundo representa a realização total, o sucesso absoluto e a integração de todos os elementos. A figura central rodeada por uma guirlanda simboliza o fim da jornada iniciática e a perfeição alcançada. É o estado de plenitude onde o indivíduo e o universo tornam-se um só em harmonia divina.

O Louco, arcano sem número, é o viajante eterno, o espírito livre que caminha em direção ao desconhecido. Ele representa a energia pura antes da forma, a espontaneidade e a fé absoluta no caminho. É o princípio e o fim de tudo, carregando em sua trouxa todas as potencialidades sem se prender a nenhuma delas.


Essa sequência pode ser lida como uma narrativa simbólica da existência humana, desde o impulso inicial até a realização total, passando por provas, crises, equilíbrios e revelações.

Os ternários e os setenários

Excluindo o Louco, que não faz parte do grupo numerado, temos vinte e um arcanos que se dividem seja em sete ternários, seja em três setenários. Em cada ternário, o primeiro termo é ativo; o segundo, intermediário: ativo em relação ao seguinte, mas passivo em relação ao precedente, enquanto o terceiro é estritamente passivo. O primeiro corresponde ao espírito, o segundo à alma e o terceiro ao corpo, retomando uma concepção tripartida do ser humano presente em diversas tradições filosóficas e religiosas. Assim, agrupam-se: O Mago, a Papisa e a Imperatriz; depois, o Imperador, o Papa e o Enamorado; o Carro, a Justiça e o Eremita, e assim por diante. Esta mesma distinção, espírito, alma e corpo, é encontrada nas relações dos três setenários: do Mago ao Carro, os valores do espírito; da Justiça à Temperança, os da alma; e do Diabo ao Mundo, os do corpo.

Uma mesma carta pode, assim, ser interpretada como espírito e alma, ou como alma e corpo, segundo o lugar que ocupa no conjunto escolhido e segundo os níveis da análise. Por exemplo, a Imperatriz é corpo no primeiro conjunto ternário, espírito no primeiro conjunto setenário; as relações se alteram no interior dos diferentes conjuntos. Todas as chaves da interpretação chegam a diferentes aspectos de uma mesma carta. Nenhuma delas possui um sentido absoluto e definitivo. É sempre um sistema móvel de relações que exige a maior flexibilidade de interpretação, refletindo a própria complexidade do pensamento simbólico.

No interior de cada setenário, os três primeiros arcanos opõem-se aos três seguintes e o sétimo traz o todo de volta à unidade, o que põe em valor a significação sintetizante do Carro, da Temperança e do Mundo: dominação da vontade no mundo do espírito, equilíbrio no mundo da alma, eterno movimento no mundo do corpo.

Relações com o Zodíaco e os planetas

É possível comparar esse agrupamento ternário à concepção astrológica segundo a qual a roda zodiacal representa, nas suas três posições sucessivas, os quatro elementos: nascimento, culminação e queda. Os signos do Fogo, da Terra, do Ar e da Água seguem esse ciclo, refletindo uma visão do universo como processo dinâmico. No agrupamento ternário do Tarô, as cartas em que os símbolos do Zodíaco são indicados ocupam posições correspondentes, sugerindo uma afinidade simbólica entre essas duas tradições.

Mas, se quisermos ir mais longe e reconstruir um Tarô astrológico, deparamo-nos com profundas divergências entre os autores. Existem tantas correspondências diferentes quanto intérpretes, revelando que essas associações pertencem mais ao campo da interpretação do que a uma estrutura fixa. Diante dessa diversidade, alguns propuseram relacionar os arcanos não com planetas ou signos, mas com as casas do horóscopo, cujos setores representam domínios específicos da vida humana. Assim, o Tarô se integra a uma visão mais ampla em que o homem é pensado em relação ao cosmos.

A interpretação cabalística

Várias observações se impõem, segundo os cabalistas que estudaram o Tarô. Há o mesmo número de arcanos maiores e de letras no alfabeto hebraico. Esse número é exatamente o das vinte e duas vias da Sabedoria, dos canais que reúnem, entre si, os dez princípios metafísicos da Cabala judaica. Esses princípios desenvolvem-se sob forma de trindades, nas quais dois extremos são unidos por um termo médio. E eles correspondem ao sentido simbólico das cartas: ao Mago, causa e ponto de partida, corresponde a Coroa; à Papisa, a Sabedoria; à Imperatriz, a Inteligência; ao Imperador, a Grandeza; ao Papa, o Rigor; ao Enamorado, a Beleza; ao Carro, a Vitória; à Justiça, a Glória; ao Eremita, o Fundamento; e à Roda da Fortuna, o Reino. Como há correspondências entre todas as cartas, é possível desenvolver todo um simbolismo cabalístico do Tarô, pois, na cadeia que contém os diferentes graus da essência, tudo é ligado.

O antropocentrismo do Tarô

Tarô alquímico, tarô mágico, até mesmo maçônico, todas as chaves de interpretação foram tentadas, desde que se tenha encontrado um ou dois signos simbólicos que possam ser associados a esta ou àquela doutrina. Mas o Tarô permanece, acima de tudo, antropocêntrico, e as figuras que o compõem têm uma significação psicológica e cósmica; referem-se ao homem, em si mesmo e no mundo. Mesmo quando não nos mostram personagens humanos, como a Roda da Fortuna e a Lua, os elementos figurados permanecem projeções simbólicas da condição humana.

Assim, aparece claramente que o eixo vertical do Tarô une os arcanos VI e XVII, o Enamorado e a Estrela, o primeiro sendo a afetividade e o outro, a esperança, como se esses dois valores fossem o pivô em torno do qual gravitam todos os outros, estabelecendo uma ligação profunda entre o impulso humano e a promessa de transcendência. Essa relação não é apenas estrutural, mas também cultural, pois reflete uma visão antiga segundo a qual o amor e a esperança são forças fundamentais que sustentam a experiência humana, tanto no plano psicológico quanto no espiritual.

Um caminho de evolução em direção à sabedoria

Só diante do mundo, o homem busca o caminho da sabedoria na aquisição de um domínio duplo: o do mundo exterior e o do seu universo interior, dois domínios que, na tradição filosófica e religiosa do Ocidente, sempre foram considerados inseparáveis. Esse domínio provém de uma iniciação progressiva que, por sua vez, distingue duas vias, duas formas ou duas fases principais, de predominância ativa ou passiva, solar ou lunar, retomando antigas oposições simbólicas presentes na alquimia, na astrologia e na filosofia hermética.

A primeira se baseia na exaltação do princípio de iniciativa individual, na razão e na vontade, valores que marcaram profundamente o pensamento clássico e renascentista. Convém ao erudito que tem sempre o domínio de si mesmo, que só conta com os recursos da sua própria personalidade, sem esperar ajuda das influências exteriores, numa atitude que lembra o ideal do sábio estoico ou do filósofo humanista. A segunda é totalmente diferente, pois toma uma posição exatamente contrária à da primeira. Longe de desenvolver o que tem dentro de si e de agir segundo a expansão de suas energias íntimas, o místico deve colocar-se em estado de receber, em toda a medida de uma receptividade especialmente cultivada, atitude que encontra eco nas tradições contemplativas, tanto cristãs quanto orientais. Assim, de dois em dois, o racional e o místico — como o masculino e o feminino — se opõem e se completam, constituindo uma dialética essencial à compreensão do simbolismo do Tarô.

A Força (XI) e o Enforcado (XII), por exemplo, são apenas dois aspectos de um mesmo símbolo: força exterior do arcano XI, visível, dominadora e afirmativa; força interiorizada e espiritualizada do Enforcado (XII), que renuncia à ação direta para alcançar uma compreensão mais profunda. Nesse sentido, também, o Mago em busca da iniciação se choca, primeiramente, com a Papisa, detentora dos segredos do mundo, figura que evoca tanto a sabedoria oculta quanto o conhecimento reservado das tradições antigas; para ler no seu livro, é preciso ter a inteligência da Imperatriz e do Imperador, que representam, respectivamente, a criatividade e a organização do pensamento. Com o Papa, figura da autoridade espiritual herdada da tradição cristã medieval, a iniciação torna-se efetiva: o homem conseguirá elevar-se através das provas dos demais arcanos, a primeira das quais será a tensão do Enamorado, centro da primeira fileira de cartas, pois sem o impulso afetivo nada é possível, nem mesmo a escolha que determina o destino.

Após essa escolha que o compromete, o senhor do Carro pode vir a abusar do seu poder e a orgulhar-se de sua força, refletindo a tentação do domínio sem medida; a Justiça lembrar-lhe-á a lei do equilíbrio indispensável, princípio fundamental tanto na ética quanto na ordem cósmica, e, fortalecido por um ideal, ele partirá, como um Eremita, através do mundo, figura do sábio solitário que busca a verdade. Mas, na medida em que o Eremita procura essa verdade, ele julga e põe em movimento a Roda da Fortuna, símbolo antigo do destino e da instabilidade das coisas humanas, que dá a cada um o que deve receber, segundo o seu estado interior e o seu próprio desejo de evolução. Só a Força pode deter essa roda, pois representa a consciência que domina o movimento cego das circunstâncias. No final dessa primeira via, o iniciado encontrou o que procurava; a Força usa o mesmo chapéu que o Mago, a lemniscata do signo do infinito, indicando que o início e o fim se correspondem e que o conhecimento adquirido fecha um ciclo.

A fase mística

Com o Enforcado, começo da segunda fileira, o iniciado entra num mundo invertido, onde os meios materiais já não são eficazes: é a via mística e passiva, profundamente enraizada nas tradições de renúncia e contemplação. O arcano sem nome indica-nos a morte, cuja foice vermelha, cor de sangue e de fogo, corta e queima as ilusões, e que, longe de ser um fim, é um começo, conforme a simbologia universal da morte como transformação. Mas, nessa nova vida que nos é prometida, não se deve forçar as etapas: as exigências da Temperança são as mesmas que as do Eremita, isto é, equilíbrio, medida e consciência dos limites. É só depois de ter adquirido esse equilíbrio interior que o homem poderá enfrentar o Diabo, símbolo da mais grave tentação, profundamente enraizado na tradição cristã, a que promete poderes ocultos tão grandes quanto os poderes divinos, mas que os desvia para fins ilusórios.

Infelizmente, as construções do orgulho humano estão todas destinadas à queda, e eis a Torre fulminada, imagem poderosa herdada das representações medievais do castigo divino e da ruína das ambições humanas. Daí em diante, só a Estrela resta ao homem, dupla estrela de esperança e de amor, centro da segunda fileira e base do eixo vertical do Tarô, evocando tanto Vênus quanto a ideia de orientação espiritual. Como a Lua acompanha a estrela no céu físico, ela a segue no mundo simbólico do Tarô, condutora dos valores do passado, rica de todo o inconsciente, domínio do imaginário onde se acumulam sonhos, medos e memórias. Sem a aliança da Estrela e da Lua, não poderíamos enfrentar a luz e o fogo do Sol, arcano da iluminação total, sob o qual, pela primeira vez, o homem não está mais só, mas integrado a uma realidade mais ampla.

A partir de então, ele pode ser julgado na sua totalidade, nele próprio e nas suas obras. O seu filho, aos olhos do anjo do Juízo, simbolizará a testemunha, figura da continuidade e da responsabilidade. Alcançou o cume da iniciação, e o Mundo só existe como síntese do que ele adquiriu, como imagem da totalidade realizada. Conseguiu operar a transmutação do mundo objetivo em valor psíquico, isto é, em linguagem alquímica, transformar a matéria-prima em ouro, imagem clássica da realização espiritual.

Assim, enquanto a primeira via da iniciação conduzia à Força, condição do Mago que realizou o seu programa, a segunda via, a da mística, parte do Enforcado e nos conduz ao Louco, cuja passividade reveste-se aqui de um caráter sublime. É aquele que, depois de ter obtido deste mundo tudo o que ele pode dar, reconhece que não possui nada válido e, em consequência, volta ao desconhecido, ao não conhecível que precede a vida e continua após ela. Diante desse duplo impasse, só nos é possível continuar a procurar, tendo, porém, enfim admitido que há uma diferença entre a natureza humana e a divina; a única relação possível com ela reside na esperança, no abandono e no amor, que constituem a última lição do Tarô concebido como caminho iniciático.

Os arquétipos do Tarô

Mas os dois caminhos que distinguimos se prestam, ainda, a outras interpretações. Eles podem ser vistos como os dois aspectos da luta do homem contra os outros e contra si mesmo, a via solar da ação e da razão, e a via lunar da contemplação e da intuição, distinção que atravessa diversas tradições filosóficas e psicológicas. Observamos também que aparecem, no Tarô, vários arquétipos essenciais, profundamente enraizados na cultura humana: a Mãe, o cavalo, o velho, a roda, a Morte, o Diabo, a torre, o pássaro, a Virgem, a fonte, a estrela, a Lua, o Sol, os Gêmeos, a asa, a chama. Esses símbolos, recorrentes em mitologias e religiões, revelam que o Tarô participa de um imaginário coletivo que ultrapassa épocas e culturas.

Qualquer que seja o valor de todos esses pontos de vista, não devemos esquecer que o Tarô não se submete inteiramente a nenhuma tentativa de sistematização: há sempre alguma coisa que nos escapa, como acontece com todos os grandes sistemas simbólicos. O seu aspecto divinatório não é o menos difícil de ser apreendido, pois as combinações são infinitas e as interpretações, mesmo quando se baseiam em símbolos conhecidos, exigem uma educação da imaginação que só se adquire com longa prática e uma grande reserva de julgamento, própria daqueles que sabem que o símbolo nunca se esgota em uma única leitura.

Tarô e religião

A relação do Tarô com a religião não é direta no sentido institucional, mas profundamente simbólica e histórica. O Tarô não nasce como uma religião nem pertence oficialmente a uma tradição religiosa específica; ele se desenvolve como um sistema imagético que absorve elementos de várias correntes espirituais, filosóficas e culturais ao longo do tempo.

Historicamente, o Tarô surge na Europa medieval e renascentista, em um ambiente fortemente marcado pelo cristianismo. Por isso, muitas de suas imagens refletem estruturas simbólicas cristãs: figuras como o Papa, o Julgamento, o Diabo e a própria ideia de pecado, redenção e transcendência estão claramente alinhadas com o imaginário religioso europeu da época. No entanto, o uso dessas imagens no Tarô não é catequético, mas simbólico, funcionando mais como representação de estados humanos e princípios universais do que como doutrina religiosa.

Ao longo dos séculos, o Tarô foi reinterpretado por diferentes tradições esotéricas, criando pontes com várias religiões e sistemas espirituais. As principais afinidades são as seguintes:

A Cabala judaica talvez seja a conexão mais estruturada e sistemática. Muitos estudiosos associam os 22 arcanos maiores às 22 letras do alfabeto hebraico e aos caminhos da Árvore da Vida. Essa relação não é originalmente histórica, mas construída por ocultistas a partir do século XVIII e XIX. Ainda assim, tornou-se uma das leituras mais influentes, especialmente em escolas herméticas.

O esoterismo cristão também tem forte afinidade com o Tarô. Correntes como o hermetismo, o gnosticismo e algumas tradições místicas cristãs utilizam o Tarô como ferramenta de meditação e autoconhecimento. Nesse contexto, as cartas são vistas como representações simbólicas da jornada da alma, muito próxima da ideia cristã de queda e redenção, embora reinterpretada de forma menos dogmática.

A alquimia, embora não seja uma religião, é uma tradição espiritual e filosófica que dialoga intensamente com o Tarô. O processo alquímico de transformação da matéria em ouro é frequentemente comparado ao percurso dos arcanos maiores, que representam a transformação interior do indivíduo.

Algumas tradições do ocultismo moderno, como a Ordem Hermética da Golden Dawn, consolidaram a integração entre Tarô, astrologia, Cabala e simbolismo religioso. Essas correntes influenciaram fortemente o modo como o Tarô é entendido hoje no Ocidente.

No campo das religiões orientais, como o hinduísmo e o budismo, não há uma ligação histórica direta com o Tarô. No entanto, existem afinidades conceituais. A ideia de caminho espiritual, de ciclos de transformação, de ilusão e iluminação, encontra paralelos claros com o percurso dos arcanos. Por isso, muitos intérpretes contemporâneos fazem leituras comparativas, embora essas conexões sejam mais filosóficas do que históricas.

Já nas religiões afro-brasileiras, como umbanda e candomblé, o Tarô não faz parte da tradição original, mas pode ser incorporado como ferramenta complementar por praticantes individuais. Nesses contextos, ele é utilizado mais como instrumento intuitivo do que como sistema doutrinário.

Por outro lado, algumas religiões organizadas, especialmente vertentes mais ortodoxas do cristianismo, tendem a rejeitar o Tarô, associando-o à adivinhação, o que é visto como incompatível com seus princípios teológicos.

Em síntese, o Tarô tem maior afinidade com tradições esotéricas e místicas do que com religiões institucionais. Ele funciona como uma linguagem simbólica universal, capaz de dialogar com diferentes sistemas religiosos sem pertencer exclusivamente a nenhum deles. Sua força está justamente nessa capacidade de transitar entre culturas, absorvendo significados e oferecendo um mapa simbólico da experiência humana e espiritual.


Fonte:

Texto criado com auxílio editorial do ChatGPT 5 a partir de trechos do livro DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS - autores Jean Chevalier e Alain Gheerbrant

Artigo atualizado na Agência EVEF por Everton Ferretti em 11/04/2026

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