Os diferentes aspectos do simbolismo da escada estão todos intrinsecamente ligados ao problema fundamental das relações entre o céu e a terra. A escada constitui o símbolo por excelência da ascensão espiritual e da valorização ontológica, vinculando-se de forma absoluta à simbólica da verticalidade. Ela não indica apenas um movimento abrupto, mas uma ascensão gradual, organizada e uma via de comunicação em sentido duplo entre diferentes níveis de realidade.
Conforme observou Gaston Bachelard, quando se trata de valores morais ou espirituais, todo progresso humano é concebido como uma subida; toda elevação se descreve por uma curva que se projeta de baixo para cima. A verticalidade seria, portanto, a linha do qualificativo, da retidão e da elevação do ser, enquanto a horizontalidade representaria a linha do quantitativo, da extensão material e da superfície plana. Nesse contexto, a altura seria a dimensão de um ser visto do exterior, em sua manifestação pública, ao passo que a profundidade seria essa mesma dimensão vista do interior, na introspeção da alma. Na história da arte e da mística, a escada surge como o suporte imaginário e estrutural necessário para a transmutação do indivíduo.

Ela funciona também como o símbolo das permutas constantes e das idas e vindas entre as esferas celestiais e o mundo sublunar. Dante Alighieri, em sua Divina Comédia, descreve essa visão monumental no canto 21 do Paraíso: Vi uma escada de ouro que fulgia e que se elevava tanto que meus olhos não podiam segui-la. Vi descerem pelos degraus tantos esplendores que pensei que todas as luzes do céu se tivessem juntado ali. Esta imagem reforça a ideia de que a escada é o condutor da luz divina para o plano humano. Fisicamente, ela pode assumir formas diversas conforme a cultura: pode ser confeccionada com estacas fincadas no flanco de uma montanha sagrada ou, segundo lendas da Oceania, com flechas sucessivas lançadas ao firmamento que formam uma cadeia ininterrupta, onde a ponta de uma se planta na base da outra até atingir a abóbada celeste. Pode ser ainda de matéria aérea e efêmera, como o arco-íris, ou de ordem puramente metafísica, representando os degraus da perfeição interior e as virtudes cardeais.

A noção de um contato primordial entre o céu e a terra, que teria sido rompido em tempos remotos por uma queda ou transgressão, é um conceito quase universal na mitologia comparada. O fato de que esse contato tenha sido mantido ou possa ser restaurado com o auxílio de uma escada é encontrado no Xintoísmo japonês, onde a deusa Amaterasu toma emprestada a escada do céu para transitar entre os mundos.
Simbolismo idêntico é verificado no Laos e entre os montanheses do sul do Vietnã. Nesses diversos casos, a escada desempenha o mesmo papel que a árvore do mundo ou o eixo central do cosmos (axis mundi). Ela compartilha a identidade mística com a famosa escada de Jacó, mencionada no Gênesis, pela qual os anjos subiam e desciam em constante vigília; com a escada feita de duas serpentes sagradas (nagas), utilizada pelo Buda para descer do monte Meru após pregar aos deuses; com o mi’radj do Profeta Maomé em sua ascensão noturna; e com a bétula ritual de sete entalhes utilizada pelos xamãs siberianos para alcançar o êxtase. É digno de nota que até na tradição chinesa e vietnamita o imperador Minh-Huang teria alcançado a lua servindo-se de uma escada mágica.

Cumpre observar o rigor numérico que acompanha este símbolo: a bétula siberiana comporta frequentemente sete, nove ou dezesseis entalhes; a escada do Buda possui sete cores distintas; a escada dos mistérios mitraicos é forjada em sete metais diferentes; e a dos Kadosch, na Maçonaria de rito escocês, possui sete degraus que representam virtudes e ciências. A passagem da terra ao céu exige, portanto, a travessia de sete patamares cósmicos, que correspondem às sete esferas planetárias clássicas e às sete artes liberais mencionadas por Dante. A esses degraus correspondem graus iniciáticos de conhecimento; no culto de Mitra, por exemplo, o iniciado devia purificar-se ao passar por cada metal. A ascensão da alma é vista como uma sucessão de estados espirituais cuja hierarquia é rigidamente assinalada pelos degraus, simbolizando a superação das paixões materiais em direção à iluminação pura.
Na patrística cristã, a noção de escada (do grego climax) foi desenvolvida por São João Clímaco, cujo próprio nome deriva de seu tratado sobre a Escada do Paraíso. Trata-se de uma cuidadosa gradação de exercícios ascéticos galgados degrau por degrau para evitar a queda espiritual. Santo Isaac, o Sírio, aprofunda essa visão ao afirmar que a escada deste reino está escondida dentro da alma de cada homem; ao lavar-se do pecado, o indivíduo descobre em si os degraus necessários para a subida. No budismo, os estados de absorção meditativa, conhecidos como jhanas, apresentam uma estrutura análoga de progressão por etapas. Na iniciação de Mitra, conforme relatado por Celso em Orígenes, o primeiro degrau era de chumbo (Saturno), o segundo de estanho (Vênus), o terceiro de bronze (Júpiter), o quarto de ferro (Mercúrio), o quinto de liga monetária (Marte), o sexto de prata (Lua) e o sétimo de ouro (Sol). O oitavo degrau representava o limite das estrelas fixas, onde o iniciado finalmente atingia o Empíreo, a morada da luz suprema.
Os textos hindus, persas e gregos invocam reiteradamente a escada dos metais, que reencontramos também nas profecias bíblicas de Daniel ao descrever a sucessão dos impérios. Hesíodo propõe uma escala de metais aplicada às diferentes idades do mundo, e esta estrutura foi adaptada no século XII para classificar a própria literatura cristã segundo uma escala de valores sagrados. Na Bíblia, a escada é onipresente: o Talmude de Jerusalém menciona a escada de Tiro e a longa escada egípcia.

Há uma relação profunda entre os degraus da escada e a oitava musical, onde cada degrau corresponde a um novo nível vibratório de existência. O próprio Cristo e a cruz são descritos como a escada que une a humanidade à divindade; o mosteiro, como espaço de ascese, é uma escada viva, razão pela qual muitos receberam o nome de Scala Dei.
A escada estabelece uma ponte no sentido metafísico proposto por Jâmblico, convidando os homens a se elevarem como se atravessassem um abismo. Na visão de Santa Perpétua, momentos antes de seu martírio, a ascensão aparece como uma escada de bronze de espantosa grandeza, mas perigosamente estreita e repleta de instrumentos cortantes como espadas e lanças nos seus montantes. Na base dessa escada, um dragão monstruoso tentava impedir os escaladores; Perpétua relata que, ao pisar no primeiro degrau, esmagou a cabeça da fera, indicando que a vitória sobre os instintos inferiores é a condição sine qua non para o início da jornada. Santo Agostinho, ao comentar este relato, reforça que a cabeça do dragão forma o degrau inicial: não se sobe ao céu sem primeiro subjugar o que há de rasteiro em si mesmo.
Os místicos da Idade Média dividiram essa ascensão em tríades tradicionais: a via purgativa, a via iluminativa e a via unitiva, correspondendo aos estados de novato, avançado e perfeito. Orígenes descreve sete etapas da alma baseadas nos livros da Escritura, culminando no Cântico dos Cânticos, o livro da união nupcial com o Verbo. Guilherme de Saint-Thierry e Dionísio, o Areopagita, estruturaram essas hierarquias como um anabathmon, uma subida do coração. Para Tiago de Sarug, a cruz é a escada maravilhosa que esvaziou os Infernos e permitiu que os mortais caminhassem em direção à imortalidade. São Bento, em sua Regra, descreve doze degraus de humildade, enquanto João Clímaco fala em trinta, em homenagem aos anos da vida oculta de Cristo.
Um símbolo dessa magnitude indica uma hierarquia clara: parte-se da condição terrestre para atingir o estado angélico. Os patamares não são locais de repouso definitivo, mas momentos de beleza pressentida que encorajam o viajante. À medida que o indivíduo se despoja de seus fardos materiais, a caminhada torna-se mais leve. Mestre Eckhart destaca a paradoxal relação de verticalidade: o que existe de mais alto na Divindade corresponde ao que existe de mais profundo na humildade. Macrobius, em seu comentário ao Sonho de Cipião, reforça que tudo no universo está encadeado por vínculos indissolúveis, do Deus supremo até a mais vil escória, como degraus de uma corrente de ouro.
No Islã, a escada é o símbolo do êxtase do Profeta (mi’radj), manifestando-se como uma luz cintilante em direção à qual os moribundos dirigem seu último olhar. Para os sufistas, é a subida da alma que foge dos vínculos sensoriais em busca do conhecimento místico. Até na tradição egípcia, a escada de Ré permite o acesso visual aos deuses, estando ligada ao mito do centro do mundo e à asket pet, a verdadeira escada mencionada no Livro dos Mortos. Amuletos de escadarias eram comuns em túmulos egípcios para garantir que o defunto pudesse subir ao horizonte. Na Amazônia, xamãs índios utilizam infusões de cipós cujos nós sugerem degraus para alcançar o país dos espíritos. Enfim, como resume Mircea Eliade, todo simbolismo ascensional significa a transcendência da vocação humana e a penetração nos níveis cósmicos superiores. A escada é o caminho real que permite tanto a descida da graça divina — como o sol que baixa à terra para fecundá-la — quanto a subida da alma justificada, funcionando como uma balança de justiça imanente entre o esforço humano e a recompensa celestial.
Simbologia das escadas das igrejas católicas no Brasil
As escadas de acesso às igrejas católicas tradicionais no Brasil vão muito além da mera função arquitetônica de vencer um desnível no terreno. Nas vilas coloniais e nas cidades históricas — especialmente em estados como Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco —, as escadarias foram projetadas como potentes elementos de transição espiritual, carregados de misticismo, simbolismo numérico e centralidade comunitária.
Abaixo, exploramos o significado histórico, cultural e religioso dessas estruturas que marcam a paisagem urbana e a fé brasileira.
1. A Simbologia Religiosa e Mística: A Ascensão Espiritual
Na tradição católica, a subida de uma escada é uma metáfora visual e física para a ascensão da alma em direção a Deus. Ao se aproximar do templo, o fiel deixa o plano terreno (profano) e, degrau por degrau, eleva-se ao plano celestial (sagrado).
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O Número de Degraus: Muitas escadarias coloniais foram projetadas com base na numerologia bíblica. É comum encontrar escadas com 7 degraus (os sete sacramentos, as sete virtudes ou os sete dons do Espírito Santo), 3 degraus (a Santíssima Trindade), 12 degraus (os doze apóstolos) ou 33 degraus (a idade de Cristo).
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As Promessas e a Penitência: Culturalmente, a escadaria se tornou o próprio altar da devoção popular. Subir as escadas de joelhos é uma das formas mais tradicionais de pagamento de promessas no Brasil, transformando o esforço físico em um ato de purificação e sacrifício.
2. Exemplos Históricos Marcantes no Brasil
As escadarias ganham contornos únicos dependendo do padroeiro, da época de construção e das tradições locais:

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (Congonhas, MG)
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Ano de Construção: A construção do santuário começou em 1757, e o imponente adro com a escadaria monumental foi finalizado no início do século XIX, decorado com os famosos 12 profetas esculpidos por Aleijadinho.
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Simbologia: A subida simula o percurso dos peregrinos em direção à salvação. O desenho cenográfico da escadaria e dos terraços cria uma experiência teatral tipicamente barroca, onde o fiel se sente pequenino diante do sagrado.
Igreja de Nossa Senhora da Penha (Rio de Janeiro, RJ)
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Ano de Construção: A igrejinha original data de 1635, mas a famosa escadaria escavada na rocha foi inaugurada em 1819.
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Número de Degraus: São 365 degraus, talhados diretamente na pedra. O número simboliza cada dia do ano, reforçando a ideia de uma devoção contínua e diária. É o maior símbolo de pagamento de promessas de joelhos do país.
Escadaria da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim (Salvador, BA)
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Ano de Construção: A igreja foi concluída em 1754, e sua escadaria tornou-se o palco de um dos maiores sincretismos religiosos do mundo.
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Simbologia Cultural: Embora o templo seja católico, o ato de lavar a escadaria (iniciado em 1773) conecta o Senhor do Bonfim a Oxalá no Candomblé. Subir e lavar esses degraus é um ato de purificação, pedido de caminhos abertos e celebração da identidade baiana.
3. Festividades, Quermesses e o Espaço Social
Se dentro da igreja o clima é de recolhimento, a escadaria e o adro funcionam como a ponte entre a Igreja e a Praça. Elas são o coração pulsante das festividades comunitárias.
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As Quermesses e Barracas: Durante o mês do santo padroeiro, as escadarias servem de moldura para as quermesses. É ao redor delas que se montam as barracas de comidas típicas, bingos, leilões e apresentações musicais.
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As Lavagens Tradicionais: A mais famosa ocorre na segunda quinta-feira do ano, em Salvador, na Lavagem do Bonfim, onde baianas com trajes tradicionais despejam água de cheiro e flores nos degraus, unindo católicos e praticantes de religiões de matriz africana em um clamor por paz.
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Datas Comemorativas e Procissões: Na Semana Santa, no Corpus Christi ou no dia do padroeiro local, as escadas transformam-se em palcos. Elas servem de ponto de partida ou de chegada para as procissões. É o local onde o padre concede a bênção final ao povo e onde os tapetes de serragem colorida ganham o relevo que impressiona os fiéis.
Conclusão
As escadas das igrejas católicas tradicionais no Brasil não são apenas elementos de transição arquitetônica; elas contam a história da formação cultural do país. Elas testemunharam o trabalho de escravizados e artífices coloniais, o sincretismo que moldou nossa identidade e, até hoje, continuam sendo o cenário onde o sagrado e o profano se encontram para celebrar a fé, a cultura e a comunidade.
Texto criado com auxílio editorial do Google Gemini. Artigo atualizado na Agência EVEF por Everton Ferretti em 08/06/2026

