A percepção de um símbolo varia de forma drástica dependendo das lentes culturais através das quais ele é observado. Para a mente ocidental contemporânea, habituada com o pragmatismo e distanciada dos grandes mitos zoológicos, o elefante é frequentemente reduzido a uma imagem viva do peso bruto, da lentidão e de uma suposta falta de jeito decorrente de sua magnitude carnal. Trata-se de uma visão puramente mecanicista e sensorial. No entanto, quando cruzamos as fronteiras em direção ao Oriente, especificamente no vasto continente asiático, a ideia que se tem desse imponente paquiderme é fundamentalmente diferente, elevando-o ao status de uma das criaturas mais sagradas, nobres e místicas da história da humanidade.
No Oriente, o elefante deixa de ser um mero animal de carga para se transformar em um tratado vivo de teologia, política e cosmologia.

Nas cortes da Índia e do Sudeste Asiático, o elefante firma-se historicamente como a montaria dos reis e imperadores, um privilégio que advém diretamente do plano divino, visto que ele é a montaria oficial de Indra, o Rei celeste e o senhor do panteão védico. Ao cavalgar o grande elefante mítico chamado Airavata, Indra estabelece o arquétipo da soberania. O animal simboliza, portanto, o poder régio em toda a sua imponência, justiça e direito divino. Essa associação com a liderança e a governança sagrada é tão profunda que, no exercício de suas complexas funções de soberania cósmica, o próprio deus Shiva recebe o epíteto e o nome de elefante. A presença do paquiderme é o anúncio de que a ordem foi restabelecida. Sabendo que a paz e a prosperidade coletivas são os efeitos diretos do poder régio firmemente estabelecido, a potência espiritual do elefante, denominada matangi, atua como um canal de graça e generosidade, possuindo a virtude oculta de conceder àqueles que a invocam com pureza de coração tudo o que possam desejar no plano material e espiritual.
Essa vertente benfeitora manifesta-se de forma ainda mais vital na economia agrícola das regiões asiáticas dependentes dos ciclos climáticos. Naquelas paragens onde sopra a monção, a chuva é entendida como a bênção máxima do Céu e a dádiva mais ardentemente almejada para a sobrevivência das populações.

No Sião, no Laos e no Camboja, o surgimento de um elefante branco é saudado como um milagre. Acredita-se que o elefante branco possui o poder místico de conceder a chuva abundante e, por consequência, garantir as boas colheitas e afastar a fome. Essa conexão com as águas celestes deriva novamente de Indra, que além de rei é a divindade das tempestades e das chuvas. Na iconografia sagrada, o elefante ostenta no topo de sua cabeça uma pedra preciosa mística que refulge com a intensidade e o brilho do raio, atuando como um para-raios cósmico que atrai as forças benéficas das nuvens para fertilizar o solo terrestre.
Para além de sua massa física, o elefante é um símbolo metafísico não de peso bruto ou opressão, mas de estabilidade absoluta, de imutabilidade e de firmeza espiritual. Na ciência milenar da ioga e da anatomia sutil humana, os sábios costumam atribuir o elefante ao chakra muladhara, o centro de energia basal situado na base da coluna vertebral. Neste alicerce do corpo sutil, o animal corresponde, consequentemente, ao elemento terra e à estabilidade da cor ocre, representando a força fundamental que ancora a consciência humana na realidade antes de sua ascensão espiritual. Reforçando essa natureza imutável, o elefante acompanha o Boddhisattva Akshobhya, cujo próprio nome significa literalmente o Imutável ou Aquele que nunca se agita.
Na arquitetura geométrica do sagrado, especificamente em certas mandalas tântricas de alta complexidade, a figura do elefante é estrategicamente posicionada quer às portas cardeais, quer nos pontos colaterais, atuando como um guardião inabalável do espaço sagrado. Esse arranjo arquitetônico-simbólico pode ser encontrado esculpido na pedra de monumentos grandiosos como o complexo de Angkor, no Camboja, visível no Mebon oriental e, sobretudo, no templo-montanha de Bakong. Nessas ruínas sagradas, a sentinela do paquiderme significa a dominação espiritual e política do centro real sobre as oito direções do espaço terrestre.

A presença marcante do elefante, disposta entre outros símbolos dinásticos junto a Vasudeva, que é Vishnu considerado como o senhor supremo dos três mundos, parece indicar justamente a sua soberania incontrastável sobre o mundo terrestre, conferindo legitimidade ao monarca que governa a partir do palácio central.
O elefante evoca ainda, de maneira quase imediata na mente oriental, a imagem compassiva de Ganesha, o amado deus hindu da Ciência, das Letras e da sabedoria, representado com um corpo humano e uma cabeça de elefante. Ganesha é o símbolo definitivo do conhecimento integral e o removedor de todos os obstáculos do caminho. Sob a análise da filosofia esotérica, o corpo de homem desse deus representa o microcosmo, ou seja, o mundo da manifestação, das formas e da experiência terrena; por sua vez, a sua cabeça de elefante simboliza o macrocosmo, a realidade da não-manifestação, o Absoluto infinito que transcende a compreensão humana linear. Segundo essa interpretação hermenêutica, o elefante assume a condição de o começo e o fim de todas as coisas. Ele é aquilo que se depreende, a um só tempo, do desenvolvimento macrocósmico do mundo manifestado a partir da vibração da sílaba sagrada Om e da realização mística interior do iogue que busca a iluminação. Gaja, a palavra em sânscrito para elefante, carrega em suas sílabas um enigma: Ga significa a meta ou o destino, e Ja significa a origem ou o nascimento. O elefante é, efetivamente, o alfa e o ômega da existência.
Essa riqueza simbólica foi amplamente absorvida e empregada nas formulações e textos sagrados do budismo primitivo e mahayana. De acordo com as escrituras búdicas, a rainha Maya concebeu aquele que seria o Buda histórico, Siddhartha Gautama, após uma visão onírica na qual um filhote de elefante branco dotado de seis presas entrava suavemente em seu flanco direito. Neste contexto de natividade sagrada, o elefante desempenha um papel angélico e anunciador que poderia parecer imprevisto para os olhos ocidentais, mas que se torna perfeitamente lógico quando compreendemos que o animal é o instrumento por excelência da ação direta e da bênção compassiva do Céu sobre a Terra. Em algumas representações da arte budista primitiva, onde a figura humana do Iluminado ainda não era retratada, o elefante é figurado completamente só para significar a própria concepção e presença espiritual do Buda. Noutros sítios arqueológicos, quando colocado de forma monumental no topo de uma pilastra ou coluna de pedra, como nos pilares do imperador Ashoka, o elefante evoca o momento do Despertar e da Iluminação, o que nos conduz novamente ao simbolismo do conhecimento transcendental representado por Ganesha. O elefante é também a montaria do Boddhisattva Samantabhadra, cuja função é exprimir, de forma visual e formal, o poder invencível do conhecimento correto sobre a ignorância. Em um aspecto secundário e de advertência moral, a força bruta sem o controle da sabedoria é expressa no episódio em que o primo invejoso de Buda, Devadatta, jança o elefante furioso Nalagiri para esmagar o mestre; contudo, diante da emanação de amor compassivo de Buda, o animal ensandecido se ajoelha em total submissão, demonstrando a vitória do espírito sobre a matéria descontrolada.

Assim como ocorre com a figura do touro mítico, da tartaruga cósmica, do crocodilo e de outros animais de sustentação, o elefante também desempenha, na rica mitologia da Índia e do Tibete, o papel fundamental de animal-suporte-do-mundo. Na cosmografia tradicional, o universo inteiro e os continentes conhecidos repousam estavelmente sobre o lombo de um gigantesco elefante primordial, que por sua vez se apoia sobre a carapaça da tartaruga. Em numerosos monumentos e templos escavados na rocha, a figura do elefante faz as vezes de cariátide na base das estruturas, sustentando o peso dos tetos e santuários. Ele é um cosmóforo, o carregador do cosmo. O elefante é considerado um animal cósmico por excelência devido à semelhança perfeita de sua estrutura anatômica com a própria engenharia do universo: suas quatro patas robustas são os quatro pilares que sustentam as direções cardeais, enquanto seu dorso curvado mimetiza a abóbada da esfera celeste.
Ao movermos nossa análise para o continente africano, percebemos que o elefante mantém sua aura de dignidade, embora adaptado às realidades das florestas e savanas locais. Segundo as crenças tradicionais do povo baoulé, habitante da Costa do Marfim, o elefante simboliza as quatro virtudes cardeais da liderança tribal: a força física inabalável, a prosperidade econômica da comunidade, a longevidade biológica e a sabedoria acumulada pelos anciãos. Todavia, em outras etnias, o símbolo adquire nuances mais sombrias e intimidadoras. Ele é visto como um símbolo de violência incontrolável e de feiura ritual entre os ekois, um povo da Nigéria cujos vizinhos, os ibos da Biafra, imitaram o culto e as rigorosas instituições secretas do Ekkpe na região leste do território nigeriano. Nestes cultos de máscaras e sociedades de guerreiros, a face do elefante é utilizada para evocar o terror e o poder destrutivo da natureza selvagem. No entanto, neste caso específico da África Ocidental, o símbolo não ultrapassa o nível da metáfora visual, sendo usado mais como uma representação de poder físico do que como um mistério metafísico.
É ainda nesse mesmo nível de atributo e metáfora moral que o elefante penetrou no imaginário da Europa clássica e renascentista através dos relatos de naturalistas da antiguidade. Ele serve de atributo ao poderio régio quando os reis europeus consideravam apenas a sua imensa massa física como símbolo de dominação militar, vide o uso de elefantes de guerra por Aníbal e pelos reis helenísticos. No plano das virtudes morais, o paquiderme passou a representar o governante sábio que evita a loucura e a imprudência, tendo em vista a conhecida desconfiança, precaução e excelente memória atribuídas ao animal, que caminha testando o solo à sua frente antes de depositar seu peso.
O elefante também se tornou um símbolo de profunda piedade e devoção religiosa na literatura europeia graças aos relatos fantásticos deixados por Plínio, o Velho, em sua História Natural, e confirmados mais tarde por Eliano. Plínio narra que, quando brilha a lua nova no firmamento, os elefantes, movidos por uma espécie de inteligência natural, misteriosa e piedosa, caminham em procissão até as margens dos rios. Lá, eles carregam ramos verdes recentemente arrancados às florestas onde pascem, erguem-nos em direção ao astro e, com os olhos voltados para o céu, agitam brandamente esses galhos como se estivessem dirigindo uma prece fervorosa à deusa lunar, a fim de que ela lhes seja propícia, benevolente e abençoe suas manadas. Esse comportamento idealizado transformou o elefante em um emblema de devoção natural e submissão ao Criador nos bestiários medievais cristãos.
Por fim, a tradição clássica atribuiu ao elefante a virtude da castidade e da fidelidade conjugal. Baseando-se nos escritos de Aristóteles, os autores medievais difundiram a crença de que, enquanto a fêmea do elefante está prenhe durante o longo período de dois anos, o macho demonstra um autocontrole absoluto, não se aproximando dela para o ato sexual e recusando-se terminantemente a cobrir qualquer outra fêmea da manada. Devido a esse autocontrole lendário, o elefante passou a ser considerado nos tratados de moralidade europeus como o próprio vingador do adultério e o guardião da pureza do lar. Há uma célebre gravura emblemática do século XVII que ilustra com perfeição essas fábulas morais, mostrando um majestoso elefante engajado em uma luta mortal contra um javali selvagem. Na linguagem cifrada da emblemática renascentista e barroca, aquela imagem não representava um combate da fauna selvagem, mas sim o conflito eterno e cósmico do pudor, da castidade e da razão representados pelo elefante contra a concupiscência, a baixeza moral e a libido descontrolada simbolizadas pelo javali. Assim, da Ásia profunda às gravuras da Europa antiga, o elefante permanece como o grande pilar que sustenta o triunfo da ordem, do conhecimento e da estabilidade sobre as forças do caos.
O Elefante na propaganda brasileira: o caso Jotalhão
O elefante é um símbolo que carrega uma imensa bagagem mística, teológica e imperial no Oriente, representando a estabilidade do cosmos e o poder divino. No entanto, quando um mito ou um símbolo migra para a cultura de massa ocidental e se cruza com a publicidade, ele passa por um processo de ressignificação fascinante. Um dos exemplos mais emblemáticos disso no Brasil é o Jotalhão, o simpático elefante verde criado por Maurício de Sousa, e sua icônica ligação com o extrato de tomate.
A Origem do Personagem
Criado na década de 1960, o Jotalhão não nasceu originalmente para a publicidade e nem para os quadrinhos da Turma da Mônica. Ele foi concebido para ser o mascote de uma campanha publicitária de um jornal (o Jornal do Brasil), mas acabou não sendo utilizado. Maurício de Sousa, então, acolheu a criatura em sua galeria de personagens, inserindo-o na "Turma da Mata" (onde contracena com o Rei Leonino, o Raposão, entre outros).
Diferente dos elefantes orientais que sustentam o mundo, o Jotalhão trazia a leveza e a subversão bem-humorada do símbolo: um animal gigante, mas de cor verde-folha, extremamente dócil, inteligente e carismático.

O Encontro com o Extrato de Tomate
A transformação do Jotalhão em um símbolo comercial definitivo aconteceu no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, através de uma parceria entre Maurício de Sousa e a marca de alimentos Cica (famosa por seus doces e o extrato de tomate Elefante).
A marca já utilizava um elefante comum e realista em suas embalagens desde a sua fundação na década de 1940. A escolha original do elefante pela Cica para o seu extrato de tomate envolvia um conceito de rendimento e força: a ideia de que o produto era tão concentrado, pesado e "forte" que apenas uma pequena quantidade rendia muito, associando a robustez do paquiderme à consistência e qualidade do purê de tomate.
Quando a empresa decidiu modernizar sua comunicação e dialogar de forma mais afetiva com as famílias brasileiras, o elefante realista foi substituído pelo Jotalhão.
Por que ele virou o símbolo definitivo?
A transição do elefante comum para o Jotalhão na publicidade do extrato de tomate gerou um fenômeno de marketing por vários motivos simbólicos e práticos:
A cor verde e o contraste visual:
Embora pareça contraditório usar um elefante verde para vender um produto estritamente vermelho (o extrato de tomate), essa combinação na verdade gerou um contraste cromático perfeito e complementar. Nas prateleiras, o Jotalhão verde se destacava imensamente no fundo vermelho das latas. Além disso, o verde remetia à natureza, ao frescor do tomateiro e à saudabilidade.
A humanização e o afeto:
O antigo elefante da Cica era um animal de carga imponente, mas distante. O Jotalhão trouxe a inocência, o calor humano e a simpatia dos quadrinhos. Ele transformou um produto industrializado de cozinha em algo familiar, gerando um forte vínculo emocional (memória afetiva) com as donas de casa e, principalmente, com as crianças.
O símbolo do "rendimento" reinventado:
O conceito de que o extrato de tomate "rende um elefante" (ou seja, rende muito) foi traduzido em comerciais de TV divertidos, onde o Jotalhão interagia com a Mônica e outros personagens, reforçando que a qualidade do produto era gigante como ele.
O sucesso dessa simbiose entre o personagem e a marca foi tão avassalador que, mesmo após décadas, a venda da marca para outras corporações e a própria modernização das embalagens, o Jotalhão permanece lá. Ele é o exemplo perfeito de como a cultura pop e a publicidade conseguem pegar um animal historicamente associado ao peso bruto no Ocidente — ou à realeza no Oriente — e transformá-lo em um símbolo doméstico de sabor, tradição familiar e aconchego na mesa dos brasileiros.
Texto criado com auxílio editorial do Google Gemini. Artigo atualizado na Agência EVEF por Everton Ferretti em 10/06/2026

