É preciso pensar com profundidade na extrema importância do bestiário lunar nesta tapeçaria subjacente da fantasia profunda, onde estão inscritos os arquétipos fundamentais do mundo simbólico, para compreender a significação das inúmeras lebres e coelhos, seres ao mesmo tempo misteriosos e familiares, companheiros muitas vezes inconvenientes dos luares do imaginário. Estas criaturas povoam todas as nossas mitologias, nossas crenças ancestrais e nossos folclores mais remotos. Até em suas aparentes contradições todas se parecem e se harmonizam, como também são semelhantes e mutáveis as imagens da Lua em suas diferentes fases. Com ela, lebres e coelhos estão indissociavelmente ligados à velha divindade Terra Mãe, ao simbolismo das águas fecundantes e regeneradoras que regem os ciclos das marés, ao da vegetação que brota sob o sereno noturno e ao da renovação perpétua da vida sob todas as suas formas orgânicas. Este é o mundo do grande mistério, o domínio ctônico onde a vida se refaz através da morte e da decomposição necessária para o novo florescer. O espírito humano que é somente diurno, regido pela lógica solar da clareza, nele se choca e se perturba, preso, ao mesmo tempo, de uma profunda inveja e de um medo ancestral diante das criaturas que, necessariamente, assumem para ele significações ambíguas e sombrias.

simbologia coelho

Lebres e coelhos são considerados animais essencialmente lunares porque, por natureza, dormem durante o dia ofuscante e saem aos pulos ágeis sob o manto da noite, demonstrando uma afinidade biológica com a escuridão. Eles sabem, seguindo o exemplo mutável da própria Lua, aparecer e desaparecer com o silêncio absoluto e a eficácia das sombras, movendo-se entre o visível e o invisível de forma quase mágica. Enfim, são lunares porque são de tal modo prolíficos e férteis, dotados de uma capacidade reprodutiva tão vasta, que Larousse escolheu historicamente o seu nome para ilustrar e definir o sentido pleno desta palavra no vocabulário francês. Sua fecundidade é o reflexo terrestre da força geradora que os antigos atribuíam à luz fria e úmida do astro noturno, capaz de germinar as sementes ocultas no seio da terra.

A Lua chega a transformar-se, nas lendas de diversas civilizações, numa própria lebre gigante que corre pelos campos celestes. Ou, pelo menos, a lebre é amiúde considerada como uma manifestação direta e corpórea da Lua no plano físico. Para os astecas, na sua rica cosmogonia mesoamericana, as manchas escuras que se observam na face do astro provinham de um coelho que um deus irritado lhe havia jogado na face para obscurecer seu brilho excessivo, imagem cuja significação sexual e de fertilidade é facilmente perceptível aos estudiosos dos mitos. Na Europa medieval, na Ásia dos imperadores e na África das tradições orais, essas manchas lunares são invariavelmente identificadas como lebres ou coelhos em movimento, ou então como um Grande Coelho Cósmico que zela pelo sono das criaturas. Essa percepção fica evidente e sobrevive ainda hoje em dia na canção infantil e no folclore popular, que sussurra ter visto na Lua três pequenos coelhos que comiam ameixas e bebiam vinho, unindo o prazer sensorial à magia do astro que governa os sentidos e as marés da vida. No Antigo Egito, o hieróglifo da lebre era o próprio verbo ser ou existir, ligando o animal ao conceito de vida eterna e renovação cíclica, tal qual a Lua que morre a cada mês para renascer com vigor renovado no firmamento.

Quando não é identificada como a própria Lua, a lebre ou o coelho é seu cúmplice direto ou seu parente mais próximo na hierarquia cósmica. Não pode ser propriamente seu esposo, pois para tal união deveria possuir uma natureza solar oposta; antes, é seu irmão ou amante, o que confere às suas relações uma aura de incesto ou de natureza contrafeita, típica das divindades que operam nas sombras. No complexo calendário asteca, os anos coelho são governados por Vênus, a irmã mais velha do Sol, que comete adultério com sua própria cunhada, a Lua, em uma trama de desejos que rege o tempo. Para os Maias Quiché, conforme o relato do Popol Vuh, a deusa Lua, ao encontrar-se em perigo mortal, foi socorrida e salva por um Herói Coelho. Essa crença é cristalizada no Códex Borgia, que reúne em um mesmo hieróglifo a efígie de um coelho e a de um jarro de água, representação clássica do astro lunar que contém os líquidos da vida. Ao salvar a Lua, o coelho preserva o princípio da renovação cíclica da existência, que garante sobre a terra a continuidade ininterrupta das espécies vegetais, animais e da própria linhagem humana.

simbolismo cultural do coelho

O coelho, e ainda mais frequentemente a lebre, transmuta-se assim em um Herói Civilizador, um demiurgo ou um ancestral mítico fundamental. É sob esta forma que surge Menebuch, o Grande Coelho das nações algoquinas Ojibwa e dos Sioux Winebago. Detentor do segredo da vida elementar, característica já reconhecida na antiga glíptica egípcia, ele coloca seus conhecimentos transcendentais a serviço da humanidade. Menebuch manifestou-se na terra sob as vestes de uma lebre e ensinou aos seus tios e tias, isto é, à espécie humana, as artes manuais e os meios de subsistência. Ele combateu monstros aquáticos nas profundezas abissais, recriou a terra após o cataclismo do dilúvio e, ao partir para o reino invisível, deixou o mundo em sua configuração atual. Por participar do inacessível e do desconhecido, sem deixar de ser um vizinho familiar do homem, a lebre mítica atua como intercessora entre este mundo denso e as realidades do outro lado. Menebuch é a única ligação entre os homens e o invisível Grande Manitu, divindade suprema que, tal como Jeová, representa o pai arquetípico. Ele é, portanto, o herói filho, o que o aproxima da figura de Cristo. Para os povos da África e das Américas, a Lua é lebre, um animal mártir cuja doçura deve ser associada ao cordeiro cristão, o emblema do messias lunar em oposição ao guerreiro conquistador. Os algonquinos, após o contato com a evangelização, reintroduziram Menebuch sob a forma de Jesus Cristo, vendo nele o herói que sacrifica seu caráter infantil e instintivo em prol de uma evolução espiritual futura.

A mitologia egípcia reforça essa poderosa sugestão ao atribuir a forma da lebre ao grande iniciado Osíris, que é despedaçado e lançado às águas do Nilo para assegurar a regeneração periódica da natureza. Ainda hoje, camponeses xiitas da Anatólia mantêm a proibição de consumir carne de lebre por acreditarem que o animal é a reencarnação de Ali, o verdadeiro intercessor entre Alá e os crentes, santo herói que sacrificou seus próprios filhos. Esse caráter de mediador é sublinhado pelo esoterismo dos dervixes Bektachi: Maomé é o quarto, Ali é o limiar. Na Índia, a Sheshajataka descreve o Bodhisattva surgindo sob a forma de uma lebre para se lançar ao fogo em um ato de sacrifício supremo. No taoísmo, a lebre que morre para renascer tornou-se a preparadora da droga da imortalidade, sendo representada à sombra de uma figueira, moendo ervas medicinais em um almofariz. Ferreiros chineses utilizavam seu fel para fundir lâminas de espadas, acreditando que o animal transmitia força e eternidade ao aço, pela mesma lógica que a tornava, na Birmânia, o ancestral da dinastia lunar.

A ambivalência simbólica deste animal é tão profunda que os aspectos de fasto e nefasto, do bem e do mal, tornam-se quase indissociáveis. Na China, afirma-se que a lebre concebe apenas ao olhar para a Lua, e as jovens são frequentemente comparadas a lebres que buscam a luz lunar. Daí advém a crença de que, se uma mulher grávida receber raios lunares diretos, sua criança nascerá com um focinho de lebre, o que remete à significação sexual difusa que une o astro e o animal. No Camboja, o acasalamento das lebres era visto como capaz de atrair as chuvas fertilizantes, oriundas da Lua, que é princípio yin. Para os astecas, os protetores das colheitas eram os quatrocentos coelhos, número que exprime a ideia de abundância inesgotável e excesso. Entretanto, essas divindades agrárias eram também os senhores da preguiça e da embriaguez, vícios combatidos pelo rígido código civil mexicano. Essa mesma dualidade encontra-se no calendário: os anos coelho podiam ser bons ou maus, pois o animal salta de um lado para o outro, simbolizando a instabilidade da sorte.

Tudo o que se liga à abundância e à multiplicação dos seres traz em si os germes da luxúria e da desmedida. Em certo estágio da história, o espírito insurge-se contra esses símbolos da vida elementar que deseja controlar. Receia que essas forças, positivas na infância do mundo, destruam a civilização edificada pela razão. Surge então o tabu: no Deuteronômio e no Levítico, a lebre é estigmatizada e proibida como animal impuro. Os celtas criavam-nas por prazer, mas abstinham-se de sua carne, hábito atestado também entre bálticos e em toda a Ásia. Simbolicamente associada à puberdade, a lebre representa o estágio que já não tem a inocência da infância, mas produz seus primeiros frutos. Vizinha de macacos e raposas no bestiário lunar, a lebre é companheira de Hécate, deusa que alimenta a juventude, mas que assombra as encruzilhadas perigosas e, por fim, inventa a feitiçaria como o domínio das sombras sobre a luz.

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O coelho como símbolo e mascote de times de futebol e clubes

O América MG é o representante mais famoso desse mascote no Brasil, apelidado carinhosamente de Coelho, e além dele existem outros clubes que adotaram o animal, embora ele seja consideravelmente mais raro no futebol do que leões, águias ou tigres. Aqui estão alguns exemplos notáveis no Brasil e na Europa.

Outro clubes no Brasil

Rio Branco SP, da cidade de Americana em São Paulo, também tem o coelho como mascote oficial. A escolha surgiu na década de 1940, inspirada justamente pelo América MG, e consolidou-se pela rapidez e agilidade que o animal representa em campo.

América PE, de Recife em Pernambuco, seguindo a tradição de vários Américas pelo país, também utiliza o coelho como seu símbolo.

Nacional AM, de Manaus no Amazonas, embora tenha como mascote principal o Leão da Vila Municipal, já teve associações históricas e variações de mascotes que incluíam o coelho em períodos específicos de sua trajetória.

Na Europa

Na Europa, o coelho é um mascote extremamente incomum para clubes de elite, sendo mais encontrado em divisões inferiores ou em esportes como o rugby. No entanto, há alguns casos curiosos.

S C Beira Mar, de Aveiro em Portugal, é um dos poucos exemplos conhecidos. O mascote oficial é um coelho chamado Auri, em referência às cores amarela e azul do time, e ele é presença garantida nos jogos em casa para animar os torcedores.

Rabbitohs, do South Sydney na Austrália, embora não seja futebol e nem europeu, merece menção. Trata-se de uma das equipes de rugby mais tradicionais do mundo, que elevou o coelho a um status de ícone global de marketing esportivo.

No futebol, a preferência costuma recair sobre animais predadores ou que simbolizam força bruta, como o urso ou o lobo. O coelho é escolhido geralmente por clubes que querem destacar a astúcia, a velocidade e a inteligência para vencer adversários maiores.


Fonte:

Texto criado com auxílio editorial do ChatGPT 5 a partir de trechos do livro DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS - autores Jean Chevalier e Alain Gheerbrant

Artigo atualizado na Agência EVEF por Everton Ferretti em 13/04/2026