O simbolismo do osso desenvolve-se segundo duas linhas principais: o osso é o esqueleto do corpo, seu elemento essencial é relativamente permanente; por outro lado, o osso contém o tutano, assim como o caroço, a amêndoa.
No primeiro caso, o osso é símbolo de firmeza, de força e de virtude (São Martinho). Deve-se lembrar a esse propósito o osso dos meus ossos do Gênesis (2, 23).
É por isso que o caroço da imortalidade, a luz (amêndoa) ou o che-li, são ossos muito duros. A contemplação do esqueleto pelos xamãs é uma espécie de retorno ao estado primordial, pelo despojamento dos elementos perecíveis do corpo.
O uso de ossos humanos na Índia e no Tibete para a confecção de armas divinas ou de instrumentos de música não é alheio a estas considerações: ascese, superação da noção de vida e morte, acesso à imortalidade. Se a luz — que é uma amêndoa — se apresenta como um osso, é que a revivificação das ossadas dessecadas evoca a ressurreição gloriosa, e também porque ele contém o germe dessa restauração, assim como o osso contém o tutano.
É o que Rabelais exprime na sua formulação célebre: "Quebrar o osso e sugar o substancioso tutano". Para os bambaras, os ossos, constituindo a parte "mais durável, senão imperecível, do corpo humano, o interior, o suporte do visível, simbolizam o essencial, a Essência da criação".
Yo, o Espírito Primeiro, preexistente a toda criação, é o "grande construtor do tutano dos ossos"; o ponto central da cruz das direções cardeais, de onde parte a espiral do verbo criador (Faro), é chamado de "o osso do meio do mundo".
Esta crença, que, partindo do esqueleto inteiro, tem provavelmente por expressão residual o culto dos crânios, é característica dos povos de caçadores. Como a parte menos perecível do corpo é formada pelos ossos, estes exprimem a materialização da vida e, portanto, da reprodução das espécies.
Para certos povos, a alma mais importante reside nos ossos. Daí o respeito que se presta a eles. Os turco-mongóis altaicos, como os fino-úgricos, sempre respeitaram o esqueleto da caça, sobretudo da caça grande, e frequentemente reconstruíam-no, depois de terem consumido a carne, evitando cuidadosamente quebrar os ossos.
Os apões "creem que um urso cujos ossos foram cuidadosamente conservados ressuscita e se deixa abater de novo". Na Lapônia, como na Sibéria, os viajantes e os etnógrafos deram numerosos testemunhos de enterro do urso ou de exposição do esqueleto reconstruído; os ritos funerários observados são análogos aos que existem a rigor para os homens. Depois de terem matado e esquartejado o urso, os orotches levavam para a floresta todas as suas ossadas e colocavam-nas "de maneira a representar o animal inteiro".
Os tungúsios reconstituíam o esqueleto do urso sobre um estrado, na floresta, e o viravam para o oeste, na direção do país dos mortos, exatamente como se fazia para um homem. Pouco a pouco, na taiga, essas honras prestadas ao esqueleto inteiro foram conservadas apenas para o crânio da caça. "Assim, os karagasses suspendem o crânio numa árvore, não comem o cérebro para não ter de quebrar os ossos"; os sagais, os kalars, os karghinzes, os tubalares, os telengitas, os soiotes observam ritos semelhantes.
O crânio exposto adquire uma virtude mágica: "os soiotes teriam acreditado que cada passante que saudasse o crânio estaria ao abrigo de todo o mal causado por outros ursos".
Um testemunho de Maak, relatado por Uno Harva, mostra como um fenômeno de derivação faz com que ritos concernentes à conservação das espécies — e mais simplesmente da vida — passem às noções de afirmação da espécie humana, em face das outras espécies animais.
O fenômeno é ilustrado pela conservação das cabeças-troféus: Maak teria observado, com efeito, durante suas viagens, que os iacutos e os tungúsios, no retorno de uma caça ao urso, levavam os ossos do animal para a floresta, a fim de expô-los num esqueleto reconstruído, com exceção do crânio que suspendiam "perto de sua morada, em sinal de vitória". U. Harva cita igualmente o testemunho de Lehtisalo, segundo o qual "os yuraks da floresta colocavam este crânio sobre um abrigo perto do caminho, mas recolhiam os outros ossos para enterrá-los ou imergi-los no mar".
O respeito aos ossos, cujo retorno à natureza assegura a continuidade das espécies, se encontra atestado pelos costumes da pesca e da caça. Entre os lapões, "os primeiros peixes capturados são mortos sem que se quebre uma só espinha. Isto é, a carne é destacada tão destramente que as espinhas não se partem. Elas são levadas de volta para o mesmo lago e para o mesmo lugar onde o peixe foi capturado".
A senhora Lot-Falck, na sua obra sobre os ritos de caça dos povos siberianos, afirma que os ossos são indispensáveis para a ressurreição dos animais. Quando os ossos não são restituídos integralmente à natureza, como as espinhas de peixe entre os lapões, eles são queimados. J. de Plan Carpin já escrevia: "se eles matam animais para comê-los, não quebram nenhum osso, mas queimam-nos no fogo".
Como observa J. P. Roux, trata-se de um costume que garante a ida do animal para o Céu, sublimado, poder-se-ia dizer, purificado pela chama. Como o Céu é o receptáculo original da vida, o ciclo desta não é, tampouco neste caso, rompido, e no complexo simbólico de onde provêm tais costumes reside talvez a origem do mito da fênix, que representava justamente a alma entre os egípcios.
O pássaro fabuloso era, aliás, considerado vermelho-púrpura, cor da força vital, como evidencia seu nome, que provém do fenício, e sabe-se que os fenícios descobriram a púrpura.
O costume de oferecer aos deuses as ossadas dos animais sacrificados, recobertas de graxa, é já atestado na Antiguidade grega; essas ossadas eram queimadas em altares, para que o animal alcançasse os Céus, onde seria regenerado.
Nos mitos recolhidos na Nova Bretanha por P. Bley, no começo do século XX, numerosos heróis são ressuscitados de entre os mortos, se as pessoas reúnem suas ossadas, cobrindo-a com folhas (em geral, de bananeiras) e fazendo passes mágicos.
Segundo uma crença caucasiana, a caça perseguida pelos caçadores deve ser abatida e devorada primeiro na corte do deus da caça, Adagwa, o Surdo. Depois de sua refeição, diz-se que o deus, seus filhos e seus servidores recolocam os ossos na pele dos animais consumidos, para que ressuscitem e os homens possam consumi-los por sua vez. Se um osso é quebrado, substituem-no, na corte do deus, por um pequeno bastão.
Mesmo respeito aos ossos, portadores do princípio de vida, é encontrado na mitologia germânica: o deus lhor, convidado à casa de um camponês, mata seus bodes, esfola-os e manda que sejam cozidos. Mas, antes da refeição, ordena que seus filhos deponham os ossos sobre a pele dos animais, estendida perto da lareira. No dia seguinte, toma seu martelo e abençoa as peles: os bodes ressuscitam. Mas um dos animais manca, por culpa de um dos filhos do camponês, que infringira a ordem divina e quebrara um fêmur para lhe sugar o tutano, por isso lhor é acometido de grande cólera e leva os filhos de seu anfitrião como castigo por esta falta.
Ossos como símbolos da impermanência no Tibet
Ossos humanos são usados como flautas há séculos no Tibet (China) - a história do Kangling.
Kangling (traduzido da língua tibetana como "perna" (kang) "flauta" (ling), é o nome tibetano para uma trombeta ou flauta feito de uma tíbia humana ou fêmur, usado no budismo tibetano para vários rituais chöd, bem como funerais realizados por um chöpa.
O osso da perna de um criminoso ou de uma pessoa que teve uma morte violenta é o preferido. Alternativamente, o osso da perna de um professor respeitado pode ser usado. O kangling também pode ser feito de madeira.
As duas extremidades do Kangling são decoradas com turquesa, coral e outras decorações gravadas em ouro e prata ou cobre, que geralmente são tocadas durante a cerimônia.

O kangling só deve ser usado em rituais de chöd realizados ao ar livre com o chöd damaru e o sino. Na prática tântrica de chöd, o praticante, motivado pela compaixão, toca o kangling como um gesto de destemor, para convocar espíritos famintos e demônios para que ela ou ele possa saciar sua fome e, assim, aliviar seus sofrimentos. Também é tocado como uma forma de "cortar o ego".
Uma figura do Mosteiro Katok, o Primeiro Chonyi Gyatso, Chopa Lugu (século XVII), é lembrada por seu "urro noturno de trombeta de osso [kangling] e gritos de phet" em peregrinação, para impressionar os viajantes que se aproximavam da cidade sagrada. Chopa Lugu tornou-se conhecido como "O Chod Yogi que dividiu um penhasco na China".

As igrejas e capelas de ossos
Ao redor do mundo estão espalhadas igrejas ornamentadas com ossos humanos, inclusive algumas delas são muito visitadas por peregrinos e turistas, que se impressionam com a atmosfera às vezes sagrada, e outras vezes macabra de suas instalações. Algumas dessas igrejas são:
- Capela de Ossos – Évora (Portugal)
- Cripta dos Capuchinhos – Roma (Itália)
- Catacumbas dos Capuchinhos de Palermo – Palermo (Itália)
- Ossuário de Wamba – Wamba (Espanha)
- Ossuário de Sedlec – Kutná Hora (República Tcheca)
- Igreja San Bernardino alle Ossa – Milão (Itália)
- Igreja St Michan´s – Dublin (Irlanda)
- Catedral de Otranto – Otranto (Itália)
- Capela dos Crânios – Czermna (Polônia)
- Capela de Ossos – Hallstat (Áustria)
História da ortopedia
A história da ortopedia começa muito antes de existir como especialidade médica formal. Desde os primórdios da humanidade, já havia a necessidade de tratar fraturas dos ossos, luxações e deformidades, principalmente em contextos de caça, guerra e trabalho físico intenso. Evidências arqueológicas mostram que povos pré-históricos já imobilizavam ossos quebrados com talas rudimentares feitas de madeira, fibras vegetais e couro. Em algumas múmias do Egito Antigo, foram encontrados sinais de fraturas consolidadas corretamente, indicando conhecimento prático de alinhamento e imobilização.
Na Grécia Antiga, Hipócrates foi um dos primeiros a sistematizar o tratamento de lesões ósseas. Ele descreveu técnicas de tração para corrigir deformidades e métodos de bandagem para estabilizar fraturas. Também desenvolveu dispositivos simples para alinhar ossos, estabelecendo princípios que ainda influenciam a ortopedia moderna, como a importância do alinhamento correto e da imobilização adequada.
Durante o Império Romano, Galeno contribuiu com estudos anatômicos mais detalhados, embora muitos conceitos permanecessem limitados pela falta de dissecação sistemática. Na Idade Média, o avanço foi relativamente lento na Europa, mas no mundo islâmico médicos como Avicena preservaram e ampliaram conhecimentos clássicos, descrevendo tratamentos para lesões musculoesqueléticas em suas obras.
O grande salto na ortopedia começou a ocorrer entre os séculos XVII e XVIII. Em 1741, o médico francês Nicolas Andry cunhou o termo “ortopedia”, derivado do grego, com o significado de “corrigir deformidades em crianças”. Nessa época, a especialidade estava mais voltada para a correção de deformidades congênitas e posturais do que para cirurgias. O uso de órteses, talas e dispositivos mecânicos começou a se tornar mais sofisticado.
No século XIX, com o avanço da anatomia, da anestesia e da assepsia, a cirurgia ortopédica passou a se desenvolver de forma mais segura. A descoberta da anestesia permitiu procedimentos mais complexos, enquanto as técnicas de esterilização reduziram drasticamente as infecções. Nesse período, surgiram métodos mais eficazes de fixação de fraturas, embora ainda limitados em comparação aos padrões atuais.
O século XX foi revolucionário para a ortopedia. A introdução dos raios X no final do século XIX permitiu visualizar fraturas com precisão, transformando o diagnóstico. Durante as guerras mundiais, houve grande avanço no tratamento de traumas, com desenvolvimento de técnicas de fixação interna usando placas, parafusos e hastes metálicas. Cirurgiões como Gerhard Küntscher popularizaram o uso de hastes intramedulares para estabilizar ossos longos.
A partir da segunda metade do século XX, a ortopedia passou a incorporar a biomecânica e novos materiais. Surgiram as próteses articulares, especialmente de quadril e joelho, permitindo substituir articulações desgastadas por implantes artificiais. Materiais como titânio e ligas especiais trouxeram maior durabilidade e biocompatibilidade. Paralelamente, a artroscopia revolucionou o tratamento minimamente invasivo, permitindo operar dentro das articulações com pequenas incisões.
No início do século XXI, a ortopedia avançou ainda mais com o uso de tecnologias digitais e biológicas. A cirurgia assistida por computador e por robôs aumentou a precisão dos procedimentos, especialmente em próteses articulares. Impressão 3D passou a ser utilizada para criar implantes personalizados e guias cirúrgicos sob medida. A medicina regenerativa ganhou espaço, com terapias envolvendo células-tronco e fatores de crescimento para estimular a recuperação de tecidos.
Em 2026, a ortopedia combina alta tecnologia com abordagens biológicas. Procedimentos minimamente invasivos são cada vez mais comuns, reduzindo tempo de recuperação. Implantes inteligentes, com sensores capazes de monitorar carga e desgaste, já começam a ser utilizados. A integração com inteligência artificial permite planejamento cirúrgico mais preciso e diagnóstico precoce de doenças degenerativas. Além disso, há avanços na bioengenharia, com pesquisas voltadas à regeneração de cartilagem, ossos e ligamentos, buscando no futuro substituir completamente a necessidade de próteses artificiais.
Assim, a ortopedia evoluiu de práticas empíricas baseadas em observação para uma especialidade altamente tecnológica, mantendo, porém, os mesmos princípios fundamentais estabelecidos há milênios: alinhar, estabilizar e restaurar a função do corpo humano.
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Fonte: Livro Dicionário dos Símbolos, por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, editora J.O.

