O simbolismo mais notável relacionado com a orelha é o que diz respeito ao mito de Vaishvanara como inteligência cósmica: suas orelhas correspondem às direções do espaço, o que é impressionante, se nos lembrarmos do papel que a ciência contemporânea atribui aos canais semicirculares.
Observamos, a propósito da joeira, o papel muito especial de discriminação atribuído às orelhas de Ganesha, grandes como joeiras, e assumindo, em consequência disso, a mesma função.
Na China, o simbolismo mais notável é o das orelhas longas, sinal de sabedoria e imortalidade: Lao-tse tinha orelhas de sete polegadas de comprimento; era, aliás, chamado de orelhas longas.
O mesmo se dava com diversas outras personagens ilustres — e de uma longevidade excepcional — como Wu-kuang, Yuan-kieu e o prodigioso herói lendário das sociedades secretas, Tchu Tchuen-mei.
Observaremos aqui, apenas para constar, o papel simbólico da função auditiva (percepção hindu dos sons inaudíveis que são reflexos da vibração primordial; misteriosa percepção taoista da luz auricular). Este simbolismo é evocado no verbete som.
Na África, a orelha simboliza sempre a animalidade. Para os dogons e os bambaras do Mali, a orelha é um duplo símbolo sexual: o pavilhão representando um pênis, e o conduto auditivo, uma vagina.
O que se explica pela analogia entre a palavra e o esperma, todos dois homólogos da água fecundante, concedida pela divindade suprema.
Segundo os dogons, a palavra do homem é tão indispensável à fecundação da mulher como o seu líquido seminal. A palavra máscula desce pela orelha, assim como o esperma entra na vagina, para se enrolar em espiral ao redor do útero e fecundá-lo.
Segundo um mito dos Fon, recolhido em Da-omé por B. Maupoil, a divindade criadora Mawu, depois de ter criado a mulher, teria primeiro colocado seus órgãos sexuais no lugar das orelhas.
Este simbolismo sexual da orelha se encontra até na história dos primeiros tempos do cristianismo: Rémy de Gourmont escreve que um herege chamado Eliano foi condenado no Concílio de Niceia por ter dito que "o Verbo entrou pela orelha de Maria".
Entretanto, como a Igreja não quis que esse assunto fosse muito aprofundado, não se pronunciou dogmaticamente a respeito e deixou que Enódio retomasse a tese de Eliano; permitiu que o missal de Salzburgo se apropriasse destes dois versos do poeta:
Gaude, Virgo mater Christi Quae per aurem concepisti
(Alegra-te, Virgem, mãe de Cristo / que pela orelha concebeste).
O breviário dos maronitas, acrescenta Gourmont, contém ainda uma antífona, em que se pode ler: Verbum Patris per aurem Benedictae intravit.
A interpretação sexual obstrui, neste caso, uma outra significação: a orelha simboliza a obediência à palavra divina. Foi por ter escutado — no sentido pleno de conhecer e aceitar — a anunciação que lhe era feita, que Maria, livremente, concebeu o Messias.
A orelha é aqui o órgão da compreensão. A perfuração da orelha é uma forma muito antiga de ligação e apropriação. Encontra-se no Antigo Testamento: "Se teu escravo te diz: — Não quero sair de tua casa — porque ele te ama, a ti e à tua casa, porque ele se sente bem contigo, então toma uma sovela e lhe fura a orelha contra a porta; ele será para sempre teu escravo". (Deuteronômio, 15, 16-18.)
No Oriente, os monges da confraria dos bektachis, que faziam votos de celibato, furavam igualmente uma de suas orelhas e usavam uma argola, pela qual eram reconhecidos.
A tradição europeia que determinava que os marinheiros furassem uma orelha e usassem uma argola, para demonstrar seus noivados com o mar, tem sem dúvida a mesma origem.
Um dos sortilégios druídicos, que os textos irlandeses transmitiram, é o briamon smethraige (o sentido da expressão é obscuro) que se pratica sobre a orelha: o druida esfrega o ouvido da pessoa designada pelo sortilégio, e esta morre.
O druida não apenas isola o homem da humanidade, como pensa o glosador irlandês, mas causa a sua morte, impedindo-o de se comunicar com os outros, e coloca-o na impossibilidade de receber qualquer ensinamento.
Em diversos casos assinalados pela hagiografia insular, a orelha também serve ao aleitamento simbólico, de valor espiritual, dado por alguns santos a seus discípulos preferidos.
Na alegoria da eloquência do Kunstbuch de Albrecht Dürer, as personagens que seguem Ogmios estão ligadas a ele por correntes que vão da língua do deus às orelhas de seus adoradores.
Um pequeno bronze do museu de Besançon representa um deus com orelha de cervo, acocorado na postura conhecida como budista.
A orelha é o símbolo da comunicação, quando esta é recebida e passiva, mas não quando ela é transmitida e ativa.
Em Pozan, na Birmânia, encontra-se uma estátua muito antiga de Buda, recebendo a revelação pelas orelhas.
São Paulo também não disse que a fé provinha da tradição oral, especificando que era recebida pela audição: fides ex auditu? A orelha apareceria aqui como uma matriz ou, pelo menos, como um canal da vida espiritual.
Segundo a lenda grega do rei Midas, as grandes orelhas seriam também as insígnias da estupidez. Mas a análise da lenda revela muito mais: por preferir a flauta de Pã à lira de Apolo, o rei Midas escolheu o que esses deuses simbolizam, a sedução dos prazeres em lugar da harmonia da razão.
Suas grandes orelhas significam a imbecilidade, originária da perversão de seus desejos. Mais ainda, ele quer esconder a sua deformidade: não faz mais que acrescentar a vaidade à luxúria e à estupidez. "O rei Midas, símbolo da vulgaridade, é, apesar de recusar-se a reconhecer isso, o homem mais tolamente simplório de todos os mortais".
Visão fisiológica da orelha
A orelha é um órgão sensorial complexo responsável não apenas pela audição, mas também pelo equilíbrio do corpo. Sua estrutura é tradicionalmente dividida em três partes principais: orelha externa, orelha média e orelha interna, cada uma com funções específicas no processamento dos sons e na percepção espacial do corpo.
A orelha externa é a porção visível e tem como principal função captar e conduzir as ondas sonoras. Ela é composta pelo pavilhão auricular, uma estrutura de cartilagem recoberta por pele que atua como um coletor de som, direcionando as ondas para o interior do canal auditivo. Esse canal, chamado de meato acústico externo, possui cerca de dois a três centímetros de extensão e conduz o som até a membrana timpânica. Essa membrana é uma fina estrutura que vibra quando atingida pelas ondas sonoras, convertendo essas vibrações em sinais mecânicos que seguem para a orelha média.
A orelha média é uma cavidade cheia de ar localizada no interior do osso temporal. Ela é separada da orelha externa pela membrana timpânica e tem a função de amplificar e transmitir as vibrações sonoras. No seu interior estão os ossículos auditivos — martelo, bigorna e estribo — que formam uma cadeia responsável por transferir as vibrações do tímpano para a orelha interna. Esses ossículos funcionam como um sistema de alavancas que reduz a amplitude das ondas sonoras, tornando-as adequadas para serem transmitidas ao meio líquido da orelha interna. A orelha média também se conecta à nasofaringe por meio da tuba auditiva, que regula a pressão do ar e garante o funcionamento adequado do tímpano.
A orelha interna é a parte mais complexa e abriga tanto o órgão da audição quanto o sistema responsável pelo equilíbrio. Ela é formada por um conjunto de cavidades chamado labirinto, dividido em labirinto ósseo e labirinto membranoso. Entre suas estruturas principais estão a cóclea, o vestíbulo e os canais semicirculares. A cóclea, com formato espiral semelhante a um caracol, contém o órgão de Corti, responsável por transformar as vibrações mecânicas em impulsos nervosos que são enviados ao cérebro. Já o vestíbulo e os canais semicirculares estão relacionados ao equilíbrio, detectando a posição e os movimentos da cabeça.
O funcionamento integrado dessas três regiões permite que o som seja captado, amplificado e convertido em sinais elétricos interpretados pelo cérebro. Além disso, o sistema vestibular associado à orelha interna fornece informações essenciais para a manutenção da postura e da orientação espacial. Dessa forma, a orelha desempenha um papel fundamental tanto na comunicação quanto na estabilidade do corpo humano.
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Fonte: Livro Dicionário dos Símbolos, por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, editora J.O.

